Eu Sou um Artista

Eu sou um artista.

Eu sou um artista com uma enorme necessidade de criar. Não crio para ser o melhor nem o maior artista do mundo. Eu crio porque sinto necessidade. Não é para afagar o ego. Não é para as palminhas nas costas. Não é para sentir as mãos alheias a passarem-me pelo pêlo. Eu crio porque preciso de criar da mesma forma que preciso de respirar.
Eu conto estórias. Sou um contador de estórias.
Desenho. Pinto. Escrevo. Realizo. Fotografo. Estórias.
Desenho estórias. Pinto estórias. Escrevo estórias. Realizo estórias. Fotografo estórias. Este é o meu contributo, o contributo da minha arte para o mundo, as minhas estórias nas suas mais diversas formas.
Eu sou um artista.
Não faço arte para agradar a terceiros. Faço arte para mim. Faço arte para me satisfazer a mim. Claro que gosto que me apreciem, me vejam, me leiam, me saboreiem, gosto que entrem no meu mundo e o devorem. Mas não é esse o meu interesse último. Não é o meu interesse último ser adorado pela multidão. A multidão dá-me medo.
Produzo alguma arte que é efémera. Arte que morre ao nascer. Que desaparece ao ver a luz. Arte que só existe na criação e pelo momento de criação. Que deixa de ser quando cumpre a sua função.
Também produzo arte para ficar e ser apreciada quando for apreciada. Quando passarem de moda as modas. Quando não houver medo nem fraqueza para apreciar o arroto, o choro, o berro, a ejaculação.
A minha arte não precisa de ser filha do seu tempo e medida pela medida desse tempo. A minha arte não é devedora dos corredores do poder. Não precisa de obedecer às mesmas regras nem às mesmas leis que a minha vida. Mas não é uma arte ignorante. A minha arte não é de natureza espontânea. Mas é repentista. Há estudo. Conhecimento. Procura.
Gosto de consumir arte. De procurar arte. Arte que me satisfaça. Não me contento com o que me querem dar. Não me contento com o que me querem oferecer. Não me contento com o que me querem impingir. Não me contento com arte normalizada, certinha, bonitinha, escanhoada. Embrulhada em papel colorido cheio de purpurinas e odores hipnotizantes. Eu procuro a arte que me provoca, que me magoa, que me incomoda, que me irrita, que me faz gritar e desejar morrer. Eu procuro arte que me dê vertigem e me faça vomitar.
Eu sou um artista. Um artista que gosta de arte. De arte suja, imperfeita, inacabada, triste, maldita, gorda, seca, desdentada e esfomeada, bêbada, afilhada, malcastrada, mas cheia de tesão para entrar por nós dentro e nos fazer tremer as pernas como o primeiro beijo, a primeira noite, a primeira vez.
Corro sozinho, mas corro pelos caminhos que quero. Não sou obediente. Não lambo-cus. Escrevo o que me apraz, sem rede, mal escrito, mal digerido, mas furioso, rápido, urgente. Capaz.
Sou um artista que não troca a sua arte por uma montra. Sou um artista descalço. Descamisado. Esquecido. Ignorado, mas não ignorante. Sou um artista faminto que prefere a rua ao ar condicionado. Sem trela nem açaime. Sou um artista que morde. Que rasga. Sou um artista que incomoda. Que chateia.
Eu sou um artista e sou indomável. Não cabo em salões nem em festivais. Cuspo na ordem e no respeitinho.
Eu sou um artista. Um artista que corre livre como um cavalo sem freio num campo de girassóis.
Eu sou um artista, e um tolo, também. Mas sou um artista. Sem cheta, mas um artista.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/03]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Foder

Estávamos a foder no parque de estacionamento. A porta do lado dela aberta, ela agarrada ao tejadilho e eu por trás, a arfar junto ao ouvido, enquanto mantinha aquele vai-e-vem acelerado mas a tentar que não fosse demasiado rápido, quando ela, deixando a cabeça para trás, pendurada pelo pescoço diz És mesmo o homem da minha vida! e eu já não aguentei mais e acabei por chegar rápido, demasiado rápido para ela, mas não podia fazer de outra maneira depois de ter ouvido o que ouvi naquela voz rouca e sussurrada que fez chegar aos meus ouvidos. Isto foi à saída da praia. Estávamos ambos a arder em calor. Eram duas da tarde e, depois, haveríamos ainda de ir comer uma sardinhada.
Nós fodíamos. Nunca fizemos amor. Fodíamos. Assim. Onde quer que fosse. Quando fosse. Às vezes corríamos para as casas-de-banho de cafés e de museus. As dos museus são melhores, mais limpas. Mas as dos café dão mais tesão. Há sempre gente a querer entrar. Há sempre gente à espera que saiamos. Sai um. Depois o outro. Olham escandalizados para nós. Inveja, é o que era. Acabávamos a beber uma imperial nas esplanadas. Às vezes ela punha as cuecas na mala e abria as pernas para me mostrar como estava. Eu ficava doido. Às vezes queria voltar à casa-de-banho. Ela tinha de me chamar à razão.
A nossa relação era assim. Uma relação de doidos cheios de tesão.
Não sei quanto tempo aquilo durou. Mas durou bastante. Durou um casamento e três filhos. Filhos feitos sem amor, mas com muito desejo. Todos eles foram feitos na rua.
A primeira vez que fodemos assim, na rua, ela encostada à porta do carro, foi à saída do Armando, uma cervejaria ali em Leiria, a caminho da Guimarota.
Foi lá que nos conhecemos. Entre pequenas trincas em pedaços de camarão de Moçambique. Ambos esquecemos os amigos com quem tínhamos ido e acabámos por lá ficar um com o outro. Ainda partilhámos um creme de marisco onde eu queimei a língua. Ficámos a beber imperiais até sermos postos na rua, já de madrugada, os últimos a serem expulsos da cervejaria que queria fechar as portas. Quando saímos eu acabei a vomitar logo ali, nas escadas do Armando. Ela riu-se e levou-me para o carro dela. Mas não chegamos a entrar no carro. Ela ainda meteu a chave na fechadura. Eu não a deixei abrir a porta. Ela não se importou. E foi ali, à saída do Armando, de madrugada, que fodemos pela primeira vez. Fodemos contra a porta do carro. Foi a primeira de muitas.
Não sei quando é que tudo acabou. Mas acabou. Acabou antes mesmo de nós acabarmos. Ela disse que eu já não tinha tesão por ela. Eu achava, ainda acho, que foi ela que perdeu o desejo por mim. Já não fodíamos como dantes. Já nem fodíamos. No fundo ela queria que eu crescesse e eu queria que tudo ficasse na mesma, e fôssemos adolescentes para sempre. Mas já tínhamos três filhos. Ela queria uma casa. Um SUV. Um cão. Eu queria continuar a ir ao cinema, a concertos, a perder-me nas noites de Sexta-feira e a poder andar de sapatilhas.
Hoje, os filhos andam cá e lá. Eu continuo de sapatilhas. Ela não tem uma casa nem um cão. Não sei se é feliz. Talvez seja. Eu?…

[escrito directamente no facebook em 2020/05/30]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Tenho uma Amante

Tenho uma amante.
Tenho uma amante que conheci na zona dos frescos do InterMarché. Estávamos ambos desesperados com a falta de frescura dos legumes e saladas, já era tarde, já estava tudo muito escolhido e mexido, quando ela disse Esta Couve Lombarda está mais engelhada que a minha. E parou a olhar para mim depois de perceber o que tinha dito e dito alto. Levou a mão à boca a censurar-se. Tarde demais. Eu parei a olhar para ela a tentar perceber se o que ela tinha dito foi o que tinha querido dizer. Achei que sim. E deu-me uma tesão louca. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim na zona dos frescos do InterMarché.
Quando dei por mim estávamos no Motel Caribe, ali a caminho da Maceira. Entrámos de carro directamente para uma garagem. Subimos da garagem ao quarto. Nem tivemos tempo para mais nada. Rasgámos as roupas e fodemos logo ali, à entrada do quarto alcatifado, lembro-me de que o quarto era alcatifado porque ela queimou as costas e eu os joelhos.
Foi só depois de tratarmos do desejo que nos apresentámos.
O meu nome. O nome dela. Ela era casada. Mas estava a passar por uma crise. Não estamos sempre todos? Depois disse que devia de ter ido buscar os filhos ao ATL, mas que o desejo que eu demonstrara por ela tinha sido mais forte e cagara nos filhos.
Foi ali que decidimos que éramos amantes.
Encontrava-me duas ou três vezes por semana com ela. No Íbis. No Motel Caribe. Assim em hotéis baratos. Sempre para foder. Não tínhamos mais nada em comum além de uma grande tesão. Podia tê-la trazido para casa. Sou um solitário. Vivo sozinho. Mas achei que a relação que tinha com ela era uma relação de hotéis. Eu nunca lhe disse que vivia sozinho. A única coisa que lhe disse foi o meu nome. E podia ter mentido que ela não iria duvidar.
Na semana passada encontrei-me com ela no Hotel Villa Batalha. Ia fazer seis meses que nos conhecíamos, achei que podíamos ter um upgrade de hotel.
Nem jantámos. Eu cheguei primeiro. Tomei um banho e esperei por ela. Ela chegou e eu não esperei que ela tomasse banho. Só foi tomar banho depois.
Enquanto ela tomava banho, abri a janela da rua e ouvi uns acordes e alguém a cantar Ela é amiga da minha mulher // Pois é pois é // Mas vive dando em cima de mim // Enfim enfim // Ainda por cima é uma tremenda gata // Pra piorar a minha situação // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Não pego, eu pego // Não pego, eu pego // Não pego não…
Acendi um cigarro e fiquei ali a ouvir Seu Jorge que dava um concerto no campo da bola ali perto. A minha sorte, não? Seu Jorge em Agosto na Batalha. Seu Jorge no meu querido mês de Agosto.
E pensei Tenho uma amante. E sorri. Sorri da amante. Do Seu Jorge. De estar ali assim, num hotel com uma mulher casada. De me sentir ainda apto à vida. E ela chegou. E perguntou-me Porque é que ris? E eu encolhi os ombros e disse Por nada.
E ela começou. Foda-se, ela tinha de começar. Enquanto estávamos ali à janela a ouvir o Seu Jorge, eu a fumar um cigarro, nu, a apreciar o fresco da noite, o cheiro fresco que ela trazia do banho, começou a contar-me o dia que tinha tido. As chatices com o chefe. A estafa com os filhos. O desinteresse do marido. As amigas que passam férias em Varadero. A vontade que chegasse a noite para estar comigo. O stress para arranjar alguém que ficasse com os miúdos. A mentira que teve de construir para o marido, para poder estar ali assim, comigo.
E eu comecei a ouvi-la a distanciar-se de mim. A distanciar-se cada vez mais. A ir para longe. Tão longe que deixei de a ouvir. Era já só uma memória de uma foda no Motel Caribe.
Eu tinha uma amante. Mas começava a achar que não tinha paciência.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/26]

Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semi-serrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo estava tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidos por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]

Um Homem à Janela

Queres mais?, perguntou-me. Não, obrigado, respondi.
Ultimamente não andava com muito apetite. Não sei se era do calor. Se era por me sentir gordo. Ou se era do nervosismo de não ter trabalho, nem salário. Mas ela não sabia. Não sabia nada disto. E dava-lhe prazer ver-me comer.
Levantei-me da mesa e fui até à janela da cozinha. Acendi um cigarro.
No prédio em frente, na janela do prédio em frente, também estava um homem a fumar um cigarro à janela. Depois uma mulher aproximou-se dele. Os braços dela envolveram-no. Ele não se virou. Continuou a fumar.
Também a senti aproximar-se de mim. Senti os braços dela sobre o meu corpo. Senti os pêlos dos meus braços a ficarem eriçados.
Continuei a fumar e a olhar para o homem na janela em frente.
Os braços da mulher percorreram o corpo do homem para baixo. Pararam junto à braguilha das calças. As mãos abriram a braguilha. Uma das mãos entrou dentro das calças e saiu com o sexo dele.
Eu estava fascinado a olhar para o homem na janela em frente. Sabia que ele sabia que eu estava a ver e, no entanto, continuou a fumar o cigarro enquanto a mulher o masturbava.
As mãos dela enfiaram-se pelos meus cabelos. Mesmo nervoso, mesmo sem apetite, mesmo sem trabalho, continuava a excitar-me. Continuava a excitar-me com ela. Não precisava de muito para me excitar com ela.
Em frente, na janela em frente, ele acabou por se vir sobre o vidro da janela. Vi o momento em que ejaculou. O momento em o seu sexo cuspiu para a janela da cozinha. Vi a mão a espremer o resto que tivesse ficado por sair. Depois a mão, as mãos, largaram o homem. O cigarro tinha desaparecido das mãos dele. Não vi o que é que ele lhe fez.
Ela encostou a cabeça nos minhas costas. Senti o cabelo dela a roçar sobre o meu pescoço. Fazia-me cócegas, mas eu não disse nada.
O homem saiu da janela e entrou para dentro de casa. Deixei de o ver.
As mão dela deixaram os meus cabelos e tocaram-me no peito.
Acho que estava à espera que me fizesse o mesmo. Acho que, a dado momento, pensei estar a ver-me num espelho. Pensei que a mão descesse até baixo, me tirasse o sexo de dentro das calças e me masturbasse. E comecei a ficar excitado só com a expectativa.
Enquanto imaginava tudo isto ouvi-a falar. Baixinho. Percebi que falara, mas não percebi o quê. E perguntei O quê?
E ela voltou a dizer, desta vez um pouco mais alto Quando é que me vais dizer que foste despedido?
Eu gelei. De repente perdi a tesão. De repente perdi a vontade que ela me tocasse. Mandei o resto do cigarro pela janela para a rua. Continuei a olhar para a janela do prédio em frente. A janela onde o homem já não estava. A janela onde ainda estava um pedaço dele. E disse Não sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/05/04]