Para Onde Foi o Resto do Tempo?

Já passava da uma da manhã quando cheguei aos Restauradores. Já não havia Elevador da Glória. Arranquei a pé que, aos vinte anos, não há subida que meta medo. Principalmente quando, no cume, te prometem uma cerveja, ou duas, ou três. Miúdas giras. Música boa. Droga.
Arranquei pela calçada. Pelo meio dos carris como se fosse no Elevador. À espera do efeito placebo. Não funcionou. As pernas não se deixam enganar.
A meio da subida uma pausa. Uma pausa para respirar. Recuperar fôlego. Olhar as miúdas que também vinham a subir a pé. Cruzar o olhar com uma delas. Ou duas. E sorrir ao pensar que ainda olhavam para mim, que ainda estava em jogo. É bom sentir-me em jogo. Talvez nos encontremos lá em cima, pensei e lancei-lhes o pensamento à cabeça.
Cheguei lá acima. Antes de entrar no Bairro Alto, um cigarro. O prémio pela resistência. Pela subida. Para recuperar o fôlego.
Sentei-me nas escadinhas sujas. Parte delas vomitadas. Tentei fugir-lhes. Sentei-me num degrau menos sujo. Fumei o cigarro. Apreciei as pessoas que subiam a calçada a pé. Pensei que gostava de Lisboa. Uma capital pequena. Mas cosmopolita. Duas ou três zonas para frequentar à noite. E encontrar quem se queria encontrar. Beber um copo. Conversar. Discutir. Namorar. Dançar. Dar azo ao acaso. E, muitas vezes, cruzar os limites.
Dei por mim na Juke Box. A música era boa. Mas havia muitos carecas naquela noite. Saí. Andei às voltas pelo Bairro. Cruzei-me com uma miúda que já conhecia. Parei a olhar para ela. De onde é que te conheço?, pensei. E ela também parou a olhar para mim. Também me conhecia. Não percebia de onde. Ficámos os dois ali sozinhos, a olhar um para o outro no meio de uma rua qualquer de que já perdi a memória. E, depois, os dois ao mesmo tempo percebemos: da terra! Éramos os dois da terrinha. Da mesmo cidade da província. Frequentávamos os mesmos sítios na terra. Tínhamos amigos em comum. Pediu-me um cigarro. Sentou-se à entrada de uma casa. Sentei-me ao lado dela. Encostei-me. Senti-lhe o corpo quente. E gostei. O tempo passou e nós em câmara lenta. A conversar. A fumar. A rir. Passaram por nós todos os frequentadores do Bairro. A noite tinha terminado e nós os dois ali, sem o percebermos. Até que alguém passou e disse É melhor não ficarem por aqui. O Bairro é perigoso a esta hora! Olhámos os dois para o rapaz e ela depois olhou para mim e perguntou Queres vir lá a casa? E eu disse logo que sim.
E fomos.
Colocámos as mãos no cinto e fomos teletransportados. Como a Gente do Amanhã. Fomos teletransportados para casa dela. Para o quarto dela. Para a cama dela.
O tempo já tinha passado. Eu já tinha transpirado. Já tinha fumado um cigarro. Já tinha ido à casa-de-banho. Já me tinha deitado outra vez na cama. Deitado agarrado a ela. Nu. Nus. Já me tinha deixado adormecer.
E já tocava um despertador. Um despertador de telemóvel. Já era de manhã. O sol já entrava por entre as cortinas abertas da janela. E eu estava sozinho, afinal. Estava sozinho na cama. Sozinho no quarto. Sozinho em casa. Estava sozinho e já tinham passado trinta anos.
Onde é que se enfiou o resto do tempo?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/05]

Anúncios

Um Miserável com Vida Longa

Foi no final da década. Saí da cidadezinha e fui até à cidade grande. Fui estudar. Para um curso que não acabei. Mudei. Acabei a fazer um curso que não me mata a fome. Deslumbramentos dos anos dourados da juventude. Hei!
Quando mudei de cidade andei uns tempos à procura de qualquer coisa que não sabia bem o que era. Dava-me com os conhecidos da cidadezinha. Com os colegas de curso. Com os amigos da ganza. Ainda não conhecia os sítios. Só as pessoas. As coisas mudaram quando troquei as pessoas pelos sítios. Os sítios são muito mais interessantes que as pessoas. Encontrei os bons sítios. Os melhores sítios. Os sítios que me mudaram a vida. Não mudaram para bem nem para mal. Simplesmente mudaram. Tem sido uns sítios maravilhosos.
Antes de encontrar os sítios fui dando-me com essas pessoas que, de uma forma ou outra, circulavam à minha volta. E fui assim que a conheci. Era amiga de uns conhecidos da cidadezinha. Não, ela não era da cidadezinha. Era de uma outra terrinha, parecida com a cidadezinha, mas sem o ser. Ela também era uma inha. Era uma daquelas raparigas que, mesmo quando fosse velhota, seria qualquer-coisa-inha. Há um estrato social que são as inhas. Nunca foi feito nenhum estudo sociológico sobre estas pessoas, mas devia ser feito. Normalmente são herdeiros de impérios. Normalmente fodem tudo. Não de propósito. Não por maldade. Nem sequer por leviandade. Porque sim. Porque são só inhas.
Bom. Eu conheci essa inha na sua fase New Age. Foi com ela que percebi o que era a Era do Aquário. O Jesus Christ Superstar fez muito mais sentido. E, mais tarde, senti-me muito mais preparado para entrar no mundo bizarro do Alejandro Jodorowsky. Ela era todo signos – quis saber o meu antes mesmo de saber o meu nome. Ela não via caras, nem corações. Via signos. E dava primazia aos chineses. Foi, aliás, o que nos aproximou, ou a ela de mim: eu tinha um daqueles signos chineses fantásticos que toda a gente gostaria de ter mas só uns poucos eleitos têm essa sorte. No início ela era só uma vozinha irritante (tinha uma voz muito aguda, de desenhos-animados) mas acabei por achar piada a todo aquele misticismo astrológico, uma espécie de Oráculo de Bellini que ajudava a passar as longas noites de Inverno quando as aulas eram chatas e falhávamos dias inteiros só porque podíamos.
Uma noite, uma daquelas noites gastronómicas onde se inventavam comidas, um gourmet antes de tempo, experiências loucas de cozinha, tudo a servir de veículo para despachar garrafas de vinho do produtor, sem rótulo, levadas das diferentes terrinhas para os amigos experimentarem, resolveu utilizar toda a sua parafernália esotérica. Leu-me a mão, deitou-me as cartas de Tarot e consultou-me com o I-Ching. E, de toda a lenga-lenga que me foi apresentada, abrindo as auto-estradas da minha vida futura, como consequência das minhas vidas passadas, esta e as outras, só guardei o que me disse no final Nunca vais ter uma grande vida. Vais falhar todas as tuas metas. Nunca serás ninguém importante. Nunca terás muito dinheiro. Não serás um indigente, mas não andarás longe. No fundo, serás um incompreendido. No entanto, haverá sempre alguém que te dará um prato de sopa. Foda-se! pensei. Foda-se! Fiquei ali sentado, do outro lado da mesa, de mão estendida, apático, o dedo dela a percorrer-me uma linha da mão e a dizer mais coisas que já não ouvi, sem saber o que pensar ou dizer. Estive ali uma eternidade. A eternidade e angústia. Depois levantei-me e fui embora. Nunca mais a vi.
Tenho-me lembrado dela, ultimamente, pelo rumo que a minha vida tomou. Nunca esqueci aquelas palavras. Podem não ser exactamente as que disse. O tempo pode tê-las transformado. Mas o espírito era mesmo aquele. E tenho-me perguntado se a minha vida é como é porque era esse o meu destino e ela limitou-se a lê-lo, ou a minha vida é como é porque me senti condicionado pelo que me foi contado?
Ao mesmo tempo que mergulho nesta angústia, penso no Corto Maltese. Sim, não tem nada a ver. Mas tem. Penso na Linha da Vida que ele marcou a golpe de navalha. Rasgou a palma da mão para sobreviver ao mundo perigoso onde respirava. E penso fazer o mesmo. Rasgar uma enorme Linha da Vida na minha mão. Posso ser um miserável, mas quero ser um miserável que sobrevive a todos os génios, inhas e filhos-da-puta, sejam da cidadezinha, sejam da cidade grande, que enchem a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/07]