Malpica do Tejo

Malpica do Tejo. Duas da tarde. Um calor infernal.
Vejo o alcatrão da estrada a ferver. A linha de horizonte da estrada está desfocada. Parece que o mundo está a arder. Sinto as gotas de transpiração a caírem-me pelas frontes. O cabelo está colado à cabeça. Está molhado. A cabeça está quente.
Vejo à minha frente um restaurante. Já passei por dois cafés e uma tasca. Tudo aberto. Tudo de porta aberta à minha espera. Sinto-me no paraíso. Acabei de vir de uma Niza de portas fechadas a quem chega de fora. Ao Domingo, Niza leva a sério as palavras de D. Manuel Linda. O Domingo deve ser para a família. Os supermercados devem fechar ao Domingo. Em Niza, tudo fecha ao Domingo. Malpica do Tejo salva-me o dia.
Entro no restaurante. Sei que já é tarde. Peço uma bifana grelhada. Uma Sagres média. Cinco minutos, informam-me. Sento-me cá fora. À sombra de umas árvores. Ainda há árvores por aqui. Há sombras. E está-se bem à sombra destas árvores. O que as cidades têm a aprender com Malpica do Tejo.
Como. Bebo. Cimento tudo com um café.
Preciso dar um mergulho no Tejo. Quero dar um mergulho no Tejo. Preciso de refrescar o corpo. A cabeça. Vejo uma placa que diz Rio Tejo. Entro no carro e arranco na direcção da placa.
Entro numa floresta de eucaliptos. Vejo outra placa informativa que me informa Parque Natural do Tejo Internacional. Sigo em frente. A estrada é alcatroada. Durante alguns quilómetros. Depois acaba. Entro numa picada. Terra batida. Subo e desço. Quando subo, pergunto-me para onde é que vou. Preocupo-me. O Tejo é lá em baixo, digo baixinho para mim próprio. Quando desço, sinto-me ir na direcção certa. Sorrio.
A floresta adensa-se. Já não é só eucaliptos. Alguns pinheiros. Acho que passei por alguns sobreiros, mas não tenho a certeza.
Começo a ficar com algum receio. Algumas descidas são tão íngremes que tenho medo de não conseguir subi-las no regresso. Mas sigo em frente. Quero mergulhar no Tejo. No Tejo internacional. Páro num alto. Saio do carro. Não ouço nada. Há um silêncio quase total. Sinto o som de uma pequena aragem. Não vejo ninguém em lado nenhum. Nem casas. Nem carros. Só árvores. Verde. Pareço estar sozinho no mundo. Mas não. Por cima de mim planam duas águias. Assobio-lhes. Mas não me ligam nenhuma.
Volto a entrar no carro e continuo em frente. Volto a descer. A subir. Penso que se houver um incêndio, fico ali preso. A estrada de terra batida é estreita. Um caminho para um só carro. Não consigo dar a volta. Há, de vez em quando, umas pequenas bermas arredondadas para dentro da mata onde posso dar a volta ao carro e regressar. Mas já cheguei até aqui. Continuo em frente. Não quero regressar. Devo estar a chegar ao Tejo.
De repente, depois de subir um pouco, vem uma descida mas não consigo ver a estrada. É muito íngreme. Páro o carro. Saio. Olho em frente. É uma descida muito íngreme e com areia solta. Difícil de subir por ali. Acho que não consigo regressar se arriscar descer. Volto a entrar no carro e faço marcha-atrás. Estaciono-o no mato. E desço a pé. A meio da descida vejo o Tejo a passar lá ao fundo. É bonito o Tejo. Passa numa garganta. Continuo a descer. Vou mergulhar.
Um miradouro. Um miradouro interpõe-se. Olho para a outra margem. Espanha. Lá em baixo. A outra margem, a margem espanhola, vai até ao rio. Vai até lá a baixo. Vejo um pequeno cais. Há gente do lado espanhol a tomar banho no rio. As vozes da brincadeira chegam cá a cima. Ouço crianças. Adivinho lá famílias. Quero ir até lá abaixo. Mas não consigo. O miradouro é onde termina o caminho que fiz. O lado português do Tejo é uma escarpa. Porra! O Tejo afinal é espanhol. Para os espanhóis.
Sento-me numa pedra. Acendo um cigarro. Penso que gostava de ser espanhol. Hoje. Agora. Agora gostava de ser espanhol. E estar lá em baixo a mergulhar nas águas frescas do Tejo. Recupero o calor. Agora que percebo que não consigo chegar ao rio, volto a sentir o dia quente. A minha transpiração. As gotas de suor e o cheiro.
O cigarro sabe-me mal.
Ouço os gritinhos da satisfação dos espanhóis lá em baixo.
E penso Que é que falta acontecer?
E é nesta altura que ouço o barulho de um carro. Um carro lá em cima. Ao pé do meu. Olho para lá. Sinto um calafrio nas costas. Como um pressentimento. Não consigo voltar a colocar o cigarro na boca. Tenho a boca seca. Tenho a garganta seca. Tenho os olhos irritados. Sinto um arrepio de frio.
Olho lá para cima e vejo dois homens a descer até ao miradouro. O miradouro onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/12]

Uma Bota Pousada na Minha Cabeça

Abri os olhos. Não conseguia mover a cabeça. Tinha uma bota pousada em cima da minha cabeça e não a conseguia mexer.
Revirei os olhos o máximo que pude para perceber o que se estava a passar. Mas não percebi grande coisa.
Ia numa carrinha de caixa aberta. Ia deitado na caixa aberta da carrinha. À minha frente, à frente dos meus olhos, um corpo. Um corpo inerte. Alguém adormecido. Alguém desmaiado. Alguém morto, talvez.
Via umas botas. Tipo militar. Só via uma. A outra estava pousada sobre a minha cabeça. Sabia-o. Sentia-o.
A carrinha percorria uma picada. Um caminho de terra batida. Ia aos saltos. Eu ia aos saltos. Íamos todos aos saltos.
Era de madrugada. Estava escuro, mas já se percebia alguma claridade. Árvores. E casas.
O barulho da carrinha não permitia perceber outros barulhos em volta.
Senti o cheiro de um cigarro. Alguém ia a fumar. Apetecia-me um cigarro. Vi fumo.
Tinha a boca seca. Sabia-me a sangue. Devia ter sangue seco na boca.
Não sei o que aconteceu. Não sei o que se passou.
Não sei sequer quem sou.
A carrinha parou.
Ouvi homens aos gritos. Pareciam ordens. Não entendi. Não percebi o que diziam.
A bota saiu de cima de mim. Alguém agarrou-me pelas mãos presas atrás das costas. Magoou-me. Senti uma dor percorrer-me a coluna. Os braços pareciam que iam ser arrancados.
O corpo que estava à minha frente foi agarrado por dois homens e tirado da carrinha como um saco de batatas. Lançado para o chão. Lançado pelo ar para o chão.
Estávamos numa ponte.
Vi agarrarem o corpo e lançarem-no da ponte abaixo.
Depois agarraram em mim e alguém disse Tens sorte. Tens as pernas livres. Se bateres os pés chegas à margem. E lançaram-me, também, da ponte abaixo.
Senti todos os centímetros de ar durante a queda.
Não vi a minha vida a passar-me à frente. Mas vi a ponte a afastar-se de mim, lentamente, e o rio a aproximar-me, devagar, mas cada vez mais próximo.
Tentei cair de pé.
O impacto foi violento. Senti uma dor lancinante quando bati na água, quando mergulhei, quando me agitei dentro de água, quando me debati e abanei os pés, com a força que já não tinha, até atingir o cimo do rio.
Ar. Ar. Ar.
Bebi golfadas de ar. Bebi golfadas de água. Aguentei-me à tona.
Vi o outro corpo inerte a passar, lá mais à frente, e ser levado pela corrente.
Eu deitei-me na água. Bati os pés. Agitei o corpo. Fui-me arrastando pelas pequenas ondas do rio. E cheguei à margem. Bati na margem. Ergui-me pela margem. Senti terra. Terreno duro. Fixo. E deixei-me ficar. Senti-me ir. E fui.
Fui não sei para onde.
Não sei quem sou.
Não sei o que me aconteceu.
Está tudo escuro.
Não sei se estou adormecido. Não sei se morri.
Estou à espera. À espera do que virá a seguir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/28]