O Miúdo

A primeira vez que vi o miúdo foi dentro da sala. Da sala de exposições. Era uma exposição digital interactiva com projeções pelas várias paredes que se alteravam com a participação das pessoas. Ele andava lá dentro a correr de um lado para o outro. Já sabia o que fazer e onde e quando. Parecia que fazia parte do quadro e, no entanto, parecia deslocado. Estava sujo. Cabelo desgrenhado. O ranho a cair pelo nariz e a entrar na boca. As calças, grandes demais para ele, arrastavam-se. Tentavam cair pelo rabo abaixo. Não tinha cinto. Via-se as cuecas e ele tinha de estar sempre a puxar as calças. As sapatilhas estavam rotas. O dedo grande do pé, sem meia, teimava em pôr a cabeça de fora. Colocava uma mão na parede e formava-se uma onda gigante. Um tsunami. E ele corria para outra parede e baixava-se, arrastava a mão junto ao solo, e a onda transformava-se num mar calmo sem ondas nem marés, uma praia em Torremolinos, sempre com o mesmo caudal, a mesma ondulação, a mesma suavidade.
Enquanto o vi por lá, não consegui interagir com a exposição. Via-o a ele a interagir. Deixava-me ser arrastado por ele. Via-lhe as brincadeiras. As pequenas loucuras de quem é criança e está em casa. De quem se sente em casa. E que me levava assim com ele. Guiava-me. Levava-me pela mão através da modernidade tecnológica. Que raio! Quem seria este miúdo?
E, de repente, sumiu-se.
Deixei de o ver.
Segui o caminho da exposição. Experimentei a interactividade. Achei alguma piada. Mas não deixava de pensar no miúdo. No miúdo que parecia estar em casa. Para quem aquela acção parecia uma naturalidade. E que, para mim, não passava de uma mera experiência para a qual nem tinha muito jeito. Aquele mundo digital foi feito para ele. Não para mim.
Acabei por despachar a exposição. Não estava com grande vontade de fazer o que tinha de fazer. Comecei a sentir uma certa insuportabilidade. Sentia chegar-me a neura. Às vezes não sei porque faço o que faço. Talvez por desfastio. Uma resposta que utilizo muito mas que, na realidade, não significa nada. Porque raio o desfastio? Desfastio de quê? E porque raio tinha eu vindo aqui? Este mundo nem é o meu. Gosto de universos mais orgânicos. Pegar num livro. Riscar-lhes as páginas. Absorver as suas letras, palavras, frases. Os seus sentidos ou a ausência deles. Cheirá-los. Largá-los num sítio qualquer. Agarrar num, ou noutro, ao acaso. À sorte.
Mas não parava de pensar no miúdo.
E foi então que o vi pela segunda vez.
Eu já tinha saído da exposição. Já estava na rua. E através da confusão de um monte de gente que caminhava para uma mesma direcção, vi-o. Vi-o sentado no chão. Sentado em cima de um bocado de cartão. No chão. Na rua. Na rua movimentada por gente que caminhava toda na mesma direcção. De telemóveis apontados. A cartografarem as férias. A vida. E ele ali.
Estava ao lado um velho. Sujo como ele. De barba selvagem. De cabelo comprido e desgrenhado. Os pés descalços. Azuis. Não percebi se de surro se gangrenados. À frente do velho, uma caixa de cartão, de sapatos, com umas moedas. O miúdo escolhia as de um euro, ou dois, e colocava numa caixa pequena que dava ao velho. Este guardava a caixa pequena dentro da camisa suja e rota. Depois o miúdo deitou-se com a cabeça no colo do velho e este fez-lhe umas festas no cabelo seboso. E o miúdo acabou por adormecer debaixo das festas do velho.
Tirei uma nota de cinco euros e fui colocar na caixa em frente ao velho. O miúdo despertou. Agarrou na nota. Dobrou-a. Entregou-a ao velho que a guardou na caixa pequena. Depois continuou a fazer festas no cabelo do miúdo. E o miúdo pareceu abandonar-se e adormecer debaixo dos mimos do velho. Dos mimos de dedos grossos e sujos. De unhas pretas. Algumas feridas. Duas ou três verrugas. Mas carinhosos.
Enquanto me afastava continuava a pensar no miúdo. E nos dedos grossos e sujos cheios de ternura. E perguntava, para mim próprio, O que é a felicidade? E respondia-me que podia ser tanta coisa, mas que não era nada que se procurasse. Era algo que nos encontrava. Estivéssemos lá onde estivéssemos.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/07]

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A Mãe

Ela acordava todos os dias às sete da manhã. Mesmo aos fim-de-semana, dias em que podia descansar um pouco mais. Mas habituara-se. Levantava-se às sete. Casa-de-banho. Duche. Vestia-se. Secava o cabelo, mas nem sempre, à vezes gostava de ir com ele molhado, tombado sobre a cara, a arrefecê-la. Passava pelo quarto do filho mais novo Acorda, vá! Está na hora! Vá, vamos! E ia preparar o pequeno-almoço. Quando o filho mais velho estava de regresso a casa, para lavar roupa e buscar comida, levava-lhe uma caneca de leite com chocolate, que ele adorava. Mas era raro vir a casa. Estava lá para a universidade. A estudar. A estudar o que ela não pode estudar. Ou não quis? Às vezes já nem sabia bem os contornos da sua própria vida. Sentia-se cansada.
Depois de preparar o pequeno-almoço, preparava também o almoço, caso o filho mais novo viesse almoçar a casa. Ela vinha também. Tomar conta dele. Garantir que ele se alimentava. Que nada lhe faltava. Mas era chegar, comer e partir de regresso ao trabalho. Se não viesse a casa almoçar, arranjava uma sandes e umas peças de fruta, que colocava num tupperware, e comia lá no trabalho. Mas não gostava de comer no trabalho. À frente dos outros. Ela até gostava de beber um copinho de vinho à refeição. Mas não à frente dos colegas. Não no trabalho. Não lá.
Antes de sair, e ela era sempre a primeira a sair de casa, ainda ia ver se o filho já estava levantado. Dava comida aos gatos. Dava comida ao cão. Limpava os cocós do cão. Às vezes mudava a areia aos gatos. De Inverno ainda tinha de limpar a geada no vidro do carro. E então, lá ia. Trabalho. Um trabalho sem chama, que não a motivava, mas que lhe pagava as contas de mãe solteira.
Regressava ao fim da tarde. Cansada. O filho mais novo no quarto. Talvez a estudar. Talvez a jogar. Talvez na internet. Aspirava a casa. Limpava o pó. Em certos dias fazia máquinas de roupa. Havia sempre muita roupa para lavar. E para secar. De Inverno era sempre uma chatice para secar a roupa. Não tinha máquina de secar (e onde é que a ia pôr?) e tinha de andar sempre a improvisar estendais lá por casa. Às vezes parecia-lhe que a casa era uma barraca de circo. Ficava envergonhada quando o filho mais novo levava um colega lá a casa e havia roupa estendida. Por isso estava sempre a perguntar Vem alguém contigo cá a casa, hoje? Mas o filho nunca sabia. Ou não respondia. Era adolescente.
À noite, jantava ela e o filho mais novo. Ela ainda tentava saber como tinha corrido o dia do filho. Ele respondia-lhe por monossílabos. Às vezes sentava-se e levantava-se sem abrir a boca. Mas mesmo assim, era melhor companhia que o mais velho. O mais velho quando vinha a casa, era raro jantar. Tinha sempre jantares com os amigos. Mas quando jantava, as poucas vezes que jantava, enfardava qualquer coisa rápido por estava sempre com pressa, sem tempo, atrasado.
Ela estava sempre adiantada nas refeições. Sempre a pensar o que fazer para o jantar de amanhã, para o almoço de depois de amanhã. Era boa cozinheira. Com boa mão. Com olho para os temperos. Mas era raro o dia em que o filho gostava. Não queria. Não tinha fome. Estava cheio. E depois ela ia descobrir papelinhos de chocolates e embalagens de gomas vazias no quarto dele.
Quando, no fim do enorme dia, e depois do filho estar na cama, ela se sentava, finalmente, no sofá, em frente à televisão, adormecia.
Estava cansada.
Já não via nada. Era embalada pelo som baixo da televisão e, normalmente, adormecia por ali, pelo sofá. Às vezes, a meio da noite, acordava para ir à casa-de-banho e então sim, ia para a cama, dormir duas ou três horas mais aconchegada.
Às vezes dava consigo a pensar se não devia ter casado de novo. Ou pelo menos arranjado um namorado. Ou alguém para mandar uns amassos. Corava quando se imaginava na cama com um homem. Não!, pensava. Estou bem assim. Aceitava a sua solidão. Vivia para os filhos. Para a casa. Para ir seguindo a vida. Um dia após o outro. Ainda houve uma altura em que chegou a juntar dinheiro para ir passar uns dias de férias ao Algarve. Talvez ao sul de Espanha. Parece que é mais barato, dizia a si própria. Mas depois… O carro, o seguro do carro, os constantes aumentos do preço da gasolina, alguns arranjos necessários lá em casa, umas sapatilhas para o filho mais novo, umas calças para o filho mais velho e acabou por desbaratar tudo o que tinha guardado.
A sua única tristeza era a falta de afecto dos filhos. Não que fossem maus, que a tratassem mal, que lhe faltassem ao respeito. Não! Nada disso! Mas sentia-lhes a falta de um abraço. Um aconchego. Um beijo. Um pouco de ternura. Não que fossem pessoas frias. Ela é que era, simplesmente, a mãe.
Um dia o filho mais novo acordou já passava da hora de ir para a escola. A mãe esquecera-se de o acordar? Ou fora-se embora e deixara-o na cama? Levantou-se rápido e vestiu-se. Nem tomou banho. Passou pela casa-de-banho para urinar e depois deu um pulo à cozinha, antes de sair de casa, para beber um copo de leite rápido. Foi ao chegar à cozinha que viu a mãe, sentada à mesa, com uma chávena de café, já fria, à frente. Mãe! Estou atrasado! Não me acordaste!, mas a mãe não respondeu. Nem se mexeu. Mãe! Mãe!, insistiu. Aproximou-se da mãe. Colocou-lhe a mão no ombro. Ela não se virou. Agarrou-lhe no braço. E ele caiu, inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/18]