No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

A Liberdade Está a Passar por Aqui

Hoje era o dia das possibilidades. Tudo podia acontecer. A liberdade estava a passar por aqui.
Era meia-noite e um e eu já não conseguia pregar olho. Não queria perder pitada do dia, embora fosse ainda noite. Já sabia que não ia acontecer nada porque não podia acontecer nada. As pessoas tinham de manter distâncias, não se podiam agrupar, não se podiam tocar. Não podia haver aglomerações e as comemorações teriam de ser comedidas e, o bizarro de tudo isto, é que estas constrições à liberdade de cada um eram precisamente para preservar a liberdade de todos. A liberdade de continuar a existir.
Passaram-se as horas. O dia sucedeu-se à noite. As redes sociais começavam a agitar-se. Os discursos da praxe prometiam o que prometiam que é sempre o que se promete nestes dias em que as promessas galvanizam. Já sabia que amanhã já nada disto interessava mas, hoje, hoje sentia-me em sintonia com todos. Com quase todos, vá lá. Há sempre uns que sobem as escadas do orgulho e são muito superiores a tudo isto que faz mexer as massas. Acham que é tudo ridículo. Depois há outros que não ligam porque não ligam a nada que não seja eles próprios e os seus. Por último, os que não gostam mesmo nada da nada. Afinal ainda há muita gente que não está em sintonia.
Que importa?
Discursaram os discursos da praxe. Perante menos convivas que o habitual. Comentaram-se os discursos de cada um dos intervenientes. Comentaram-se os comentários. Cantaram-se canções à janela. E Depois do Adeus. Grândola, Vila Morena. Ainda houve quem importasse o Bella Ciao. Houve quem gravasse tudo com telemóvel. Houve quem postasse tudo isso nas redes sociais. Uns bateram palmas. Ofereceram corações. Outros assobiaram. Vomitaram ódio. Afinal, é isto que nos liga, as nossas grandes diferenças e as peculiares formas como olhamos o mundo.
A noite chegou. Completou-se um ciclo. Mais um. Estava cansado.
Estou cansado.
Vou dormir a pensar no que fazer à minha vida. Liberdade sim, mas não de estômago vazio.
Há sempre possibilidades. Tudo pode acontecer. A liberdade está a passar por aqui. Bate à porta mas, não traz nada com ela. Nada de novo. Como é que vou encher a barriga amanhã? E depois de amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/25]

Ela Aparecia Lá por Casa e Ficava a Dançar Comigo

Naquele tempo eu trabalhava como assistente de realização em pequenos filmes de baixo orçamento. Tínhamos de ser pau para toda a obra. Às vezes para além do nosso trabalho também tínhamos de ser pais e mães de muita gente, especialmente dos realizadores e dos actores, personagens sempre tão cheias de dúvidas e a precisarem de um certo conforto e de uma palavra de ânimo.
Chegava a trabalhar doze, treze, quatorze hora por dia só em plateau, a dirigir as várias equipas, a aguentar os egos dos realizadores, a minimizar os danos financeiros dos produtores, a garantir menos horas de trabalho e horas extra pagas ao resto da equipa, a dar carinho aos actores, tantas vezes abandonados por realizadores indecisos e demasiado nervosos para conseguir tirar dos actores o que eles tinham para ser tirado. Mas também, naqueles filmes de série B não havia muito a desejar tirar. Era o que era. E tinha de ser feito. E alguém tinha de garantir que se fazia. E eu era esse alguém.
Depois destas doze, treze, quatroze horas de trabalho em plateau, mal chegava a casa, abria uma garrafa de vinho tinto, sentava-me na mesa da cozinha, computador aberto, e preparava a folha de serviço do dia seguinte, deixando-a depois em stand-by à espera de eventuais alterações de última hora, coisa que acabava quase sempre por acontecer. Depois acendia um cigarro, pegava no telemóvel e telefonava aos chefes de equipa a perguntar se estava tudo pronto para o dia seguinte, confirmava com os actores se já sabiam os horários para a maquilhagem, cabelos e guarda-roupa e acabava a noite de trabalho a falar com a produção. Confirmar transportes, locais de filmagens, autorizações. Às vezes dois ou três dedos de conversa com o produtor sobre como é que estava a correr o filme, a prometer que mantinha o realizador dentro das datas e do orçamento, sabendo à partida que nada do que eu dizia iria alguma vez ser verdade. Mas tentava-se.
No fim desligava o telemóvel. Fechava a tampa do computador. Olhava à volta da cozinha. Precisava de comer alguma coisa. Nunca sabia o que me apetecia comer. Acabava sempre por fazer uma sandes de presunto. Quando não havia presunto fazia com mortadela. Mais um copo de vinho tinto. E depois ia finalmente para a sala. Sentava-me pesadamente no sofá, cansado, ligava a televisão que ficava a trabalhar para o boneco e aguardava que ela chegasse, porque essa era a altura em que ela chegava.
E ela chegava, sentava-se no outro sofá e olhava para mim. Sorria-me. Um sorriso doce. Eu voltava a acender outro cigarro e começava a conversar com ela. Falava de tudo com ela. As dificuldades nas filmagens, os problemas com os realizadores, com os produtores, a dificuldade em manter a tranquilidade nos actores, a falta de dinheiro no projecto, a crónica falta de dinheiro no projecto, o desespero por um local de filmagens que se tinha tornado impraticável, um fato que se estragara, os figurantes para o dia seguinte, demasiados para eu conseguir tratar deles todos, poucos para as necessidades do filme, até chegar às partes mais íntimas da conversa e dizer-lhe Fazes-me falta! e ela sorrir outra vez, um sorriso de simpatia, um sorriso de quem percebia a falta que me fazia mas que não podia fazer nada para mudar o estado das coisas. Era assim a vida. A minha vida. Às vezes punha uma música a tocar, uma música melosa do tempo em que ainda dançava e dançava com ela, abraçados, eu sentia-lhe o cheiro do cabelo acabado de lavar, e é estranho como às vezes me esqueço da cara dela, da voz dela, mas não me esqueço do cheiro dos seus cabelos acabados de lavar, e dançávamos durante toda a noite, até que o telemóvel tocava e eu perguntava sempre Quem será a estas horas? e ela largava-me, eu ia buscar o telemóvel, ela despedia-se de mim, lançava-me um beijo com a mão e desaparecia. Eu agarrava o telemóvel, perguntava Quem é? Quem é?, mas nunca era ninguém, era o despertador, eram horas de me levantar, era já outro dia, outro dia de trabalho, e eu levantava-me do sofá, desligava o alarme do telemóvel e despia-me para ir tomar um duche e vestir roupa lavada que estava a nascer mais um dia de trabalho duro e eu tinha de me preparar para ele.
E enquanto ia a caminho do banho, perguntava-me sempre pelo dia em que eu chegasse a casa e ela já lá não estava para partilhar comigo os pequenos problemas do dia-a-dia. E não queria que esse dia chegasse.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/19]

A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

O Homem Invisível

Estou há três semanas sem trabalho.
Estou há três semanas sem receber salário.
Não tenho um emprego certo. Horário normal. Salário ao final do mês.
Vivo de expedientes. Vivia.
Agora estou em casa há três semanas sem ganhar dinheiro e a gastar o pouco que tenho. Que tinha. O pouco que tinha e já não tenho.
Não há apoios para gente como eu.
Somos invisíveis.
Fazemos o que mais ninguém faz. O que mais ninguém quer fazer. Agora já não fazemos.
Estou em casa há três semanas. Saí três vezes para comprar algumas coisas para comer. Agora já não tenho mais nada para comer. Agora já não tenho dinheiro para comprar mais nada.
A última vez que comi, foi um resto de pão duro a rapar o óleo de uma lata de sardinhas. Tenho bebido água. Água não me falta. Pelo menos até me cortarem a água. Ouvi dizer que a água não iria ser cortada por falta de pagamento nos próximos três meses.
Estou há três semanas confinado a este T0 com kitchenette. Uma janela para a rua onde agora não passa ninguém. Olho pela janela e só há o vazio da rua. No prédio em frente, prédio de T0s e T1s como o meu, há muita gente igual a mim. Gente que vive de expedientes. Que faz biscates. Gente que ninguém vê. Só o trabalho que aparece feito. As pessoas só vêm o trabalho feito e nem se perguntam quem o fez.
Estou há três semanas fechado em casa. Fui três vezes à rua. Passo os dias e as noites a olhar para estas quatro paredes. Paredes branco-sujo. Tenho um poster da Playboy numa das paredes. Já estou farto de o olhar. Já conheço cada curva da miúda. Ia à janela fumar um cigarro e olhar para caras iguais à minha que iam à janela delas fumar um cigarro como eu, olhar a minha cara e pensar como a minha cara é tão parecida com a deles. Caras de gente sem futuro. Já não tenho cigarros. Já não quero ver mais as caras iguais à minha. Já não aguento olhar para o poster da coelhinha. Não tenho televisão. Não tenho computador. Tenho telemóvel. Há uma semana que estou sem internet no telemóvel.
Estou há três semanas aqui por casa e, nos últimos dias tenho passado o tempo a jogar uma espécie de Tetris que não é bem Tetris, é um puzzle para encaixar peças parecidas com as do Tetris. Já achatei os polegares de tanto carregar no ecrã. Já me zanguei com o jogo. Já mandei com o telemóvel contra a parede. Não partiu.
Estou sentado em cima da cama. Há três semanas que saio da cama para ir até à janela e regresso. Já não sei mais o que fazer. Estou aqui fechado há três semanas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Agora sem comer. Quanto tempo posso aguentar sem comer? Estou cansado de estar em casa. De não ver ninguém. De não ouvir ninguém. Precisava de um cigarro. De um pão com manteiga. De um copo de vinho. De um toque de uma mão que não a minha.
Tenho de sair. Tenho de ir à rua. O vírus de se foda. Tenho de trabalhar. Trabalhar numa coisa qualquer. Preciso de um salário. Preciso de dinheiro. Preciso de matar esta fome que começa a minar-me para continuar esta minha vida miserável. Uma vida invisível. Ninguém me vê. Mas estou aqui. Sou invisível mas estou aqui, porra!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/03]

Álcool Etílico a 90%

Apanhei a via rápida para ir à cidade. Há pouco trânsito. Na maioria, camiões. Podia ir pela nacional, mas está cheia de guardas. Há agentes da Brigada de Trânsito em todas as rotundas. Há carros da GNR a passearem-se pelas estradas do concelho. Como o trânsito é muito reduzido, os agentes até parecem mais. Mas são mesmo mais. Andam mais por aí.
Apanhei a via rápida para fugir ao controle cerrado da Brigada de Trânsito. Sabia que à chegada à cidade, haveria muitos agentes da PSP a vigiar as ruas. A vigiar o trânsito nas ruas. Estava preparado.
Na via rápida, ultrapassei dois camiões e cruzei-me com outros dois que iam no outro lado, em direcção contrária. Saí da via rápida e cruzei-me com uma operação Stop, logo na primeira rotunda. Olhei descontraidamente para os agentes. Não me mandaram parar. Segui para a cidade.
À entrada da cidade, um carro da polícia e dois agentes. A ver quem chega. Continuei numa velocidade tranquila, inferior a cinquenta quilómetros por hora. O meu olhar pousado neles. O meu olhar tranquilo pousado neles. No carros deles. Nas caras deles.
Fui até ao centro da cidade. Circulei por uma cidade quase-fantasma. Não se via ninguém a pé. As lojas fechadas. Os poucos carros na cidade estavam parados, estacionados ao longo dos passeios desertos. Mais carros da polícia a circular devagar, a olhar para todo o lado, a olhar para a poucas pessoas que se aventuravam. Eu. Olhavam para mim. Sentia-me a passar por entre os pingos da chuva.
Tinha um razão estudada se precisasse de usar.
Continuei aos esses pelas ruas vazias da cidade. Era bizarro ver a cidade, normalmente tão pulsante, entregue aos vazios. O vazio das ruas. As lojas vazias. Vazio de gente. Vazio de barulho. Vazio da poluição que me ataca a asma.
Cheguei onde queria chegar. Estacionei. Estacionei com facilidade. Havia inúmeros lugares vagos. Parei o carro. Olhei para o prédio em frente. Para a fachada do prédio em frente. Percorri as janelas. Fixei-me numa delas. Agarrei no telemóvel e mandei uma mensagem. Aguardei. Com a mão esquerda procurei junto ao banco e senti. O cutelo. O cutelo estava lá enfiado, entre o banco e a porta de saída. Não seria necessário mas todo o cuidado é pouco. Muito mais nos dias de hoje. É preciso muito cuidado. Passei com o dedo do polegar esquerdo pelo fio da lâmina do cutelo e senti o dedo a rasgar. Foda-se! disse. Levantei a mão e levei o dedo à boca e chupei o sangue que já escorria.
Ao fundo vi o tipo. Acabado de sair da porta de casa e vindo pelo passeio com um saco de lixo na mão. Não vinha direito a mim. Já me tinha visto mas não vinha direito a mim. Caminhava ao longo do passeio, passou pelo carro e foi até ao ecoponto. Largou o saco de lixo no RSU. Parou a olhar a rua. Acendeu um cigarro e voltou para trás. Aproximou-se do carro, abriu a porta do lado e entrou. O fumo do cigarro entrou com ele. Disse Olá! Estava nervoso. Era a primeira vez. Eu respondi Olá! Ele mostrou-me duas notas na mão e eu agarrei-as. Tirei um pequeno frasco debaixo do banco e entreguei-lho. Disse Álcool etílico a 90%. Ele sorriu. Um sorriso nervoso. E disse Obrigado! Saiu do carro. Eu vi-o percorrer o passeio de costas, a fumar o resto do cigarro e, à entrada de casa, lançá-lo fora, virar-se para trás, olhar, e entrar no prédio. Nessa altura eu liguei o carro e arranquei. Também regressei a casa. Regressei a casa pela estrada nacional.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/02]

Faz Frio e Eu Quero Ficar na Cama

Está frio.
Não saio da cama. A meio da noite fui buscar o anorak e estendi-o por cima do edredão. Não me lembro de este ano estar tanto frio como hoje.
Está tanto frio.
Estou dentro da cama. Debaixo do edredão e do anorak com um pouquinho da cara de fora. O nariz para respirar. Os olhos para ver que, lá fora, na rua, chove que Deus-a-dá. Vejo pela janela aberta do quarto. A chuva a bater violenta nos vidros. Mais devagar era um embalo, assim mexe-me um pouco com os nervos.
Está mesmo frio.
Tenho de pôr a mão debaixo do edredão e agarrá-lo por dentro que os dedos estão a ficar gelados. Sopro-lhes ar quente de dentro de mim. Aquecem um pouco.
Queria ir mijar mas não consigo. A meio da noite, quando fui buscar o anorak, vesti as calças de fato-de-treino e uma sweat. Mas ainda sinto frio dentro da cama. Imagino lá fora. Não consigo ir mijar. Tenho de aguentar.
Está um frio!…
Se estivesse em casa dos meus pais, estaria a ajudar a podar as oliveiras. Eu a conduzir o tractor e o meu pai a dizer onde é que deveria ir e como fazer. Se estivesse em casa dos meus pais, na aldeia deles, talvez estivesse a plantar batatas. É época da batata, não é? Estaria a plantar batatas. Não havia frio na aldeia. Em casa. Frio suficiente para nos impedir de fazer o que temos de fazer. A minha mãe estaria a dar de comer às galinhas, aos coelhos. Estaria a abrir a cancela às cabras para irem pastar no terreno lá ao lado que elas não têm medo da chuva nem do frio e o que querem é um pasto verde para estarem sempre a comer, a comer, a comer.
Está muito frio.
Não me vou levantar. Nem para mijar, nem para comer. Não tenho nada para comer. Nem pão duro. Deixei-me tomar pela inércia e pelo desleixe nestes últimos dias. Hoje devia de ir ao supermercado, ao talho, à padaria. Mas está muito frio. Está a chover muito. Não consigo ver para além do vidro da janela.
Olha, olha. O telemóvel a tocar. Quem será?… A minha mãe!…
Atendo. Olá, mãe!… e ela fala. Lá do outro lado, distante, na sua aldeia onde o frio é maior que aqui mas as pessoas são mais fortes e estão mais habituadas, não há frio que as prenda a casa, à cama. O que é que fazes, mãe?… e o que é que ela haveria de fazer? Dar de comer às galinhas que ainda tem e que às vezes me manda em tupperwares cheios para semanas inteiras. É o que lhe resta. O que ainda consegue ir tratando. Já não há coelhos nem cabras. Ainda resistem as galinhas, e os ovos das galinhas, os ovos que me manda assim, em pequenas caixas de meia-dúzia ou em forma de bolo de iogurte, ou bolo encharcado de ananás. Agora quando é preciso matar uma galinha vai lá uma vizinha matar por ela. Ainda aproveita o sangue e ainda faz uma cabidela que guarda para mim. Já tenho é saudades da chanfana. Mas já não há chanfana. Já nem deve saber fazer. E eu ouça-a a falar lá do outro lado do telefone e só penso em comida. Devia dizer-lhe que já não tenho nenhum tupperware. Que já não me resta nenhuma caixinha com os seus cozinhados. Que hoje vou jejuar. Que tenho fome mas o frio é mais forte e pode mais que eu e não vou sair da cama. E depois ela diz que o vizinho comprou um gerador e hoje foram lá entregar-lho numa camioneta muito grande. E continuou a dizer que o vizinho lhe disse que as coisas estavam perigosas e que poderia faltar electricidade e que ela também deveria comprar um gerador, Nunca se sabe, as coisas estão perigosas. E então? Pergunto-lhe eu e ela diz que tenho de tratar disso. Como o homem da família tenho de tratar de comprar um gerador e mandar entregar lá em casa o mais depressa possível. Porque as coisas estão perigosas, diz. E eu digo Está bem, mãe! e o que é que eu poderia dizer?
E ela desliga o telemóvel e eu penso que, afinal, tenho de me levantar.
Está frio. Muito frio. Um frio do caralho. Mas vou levantar-me para ir mijar, ir comprar alguma coisa para comer e tratar de comprar um gerador para a minha mãe e mandá-lo levar lá a casa. E onde é que vou comprar um gerador?
Vou levantar-me. Vou contar até três e levanto-me: um, dois, três…
Não. Vou esperar cinco minutos contados no telemóvel a começar… Agora!
Só mais dois minutos…

[escrito directamente no facebook em 2020/04/01]