Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

Na Stereogun

Fui convidado para ler uns textos na Stereogun.
A princípio nem queria acreditar. Estórias na discoteca! Para quem?
Conversaram comigo. Tentaram convencer-me. Explicaram as razões.
Pensei.
Pensei.
Aceitei.
Seleccionei uns textos. Preparei-os. Li-os. Reli-os. Alterei alguns para serem lidos em voz alta. Para serem percebidos por quem ouve a minha voz. Para não matar de tédio o paciente habitual de uma casa de música.
Chegou o dia.
Estava nervoso. Escolhi a roupa com dificuldade. Tomei banho. Despenteei o cabelo. Vesti-me. Despi-me. Vesti outra roupa. Mudei de t-shirt. Tomei uma Cecrisina. Usei o Ventilan. Tudo na prevenção. Não consegui jantar. Tinha o estômago às voltas. Como se estivesse a preparar-me para um exame. Fui à casa-de-banho. Várias vezes.
Fui mais cedo para a Stereogun. Tive de esperar à porta que chegasse alguém. Estava tudo fechado. Era muito cedo. Chegara demasiado cedo. E precisava de ir, de novo, à casa-de-banho. Os nervos.
Chegou alguém. Abriu a porta. Deixou-me entrar. Fui directo à casa-de-banho. Mas que estava eu ali a fazer? Não conseguia frequentar casas-de-banho públicas! Lavei a cara. Esfreguei-a. Esfreguei os olhos. Olhei no espelho. Puxei de um cigarro. Acendi-o. Fiquei ali, na casa-de-banho, a fumar o cigarro, a olhar-me no espelho e a dizer-me Caga nisso! Não é nada! Nada de especial!
Quando saí da casa-de-banho, já a discoteca estava aberta ao público. Já havia algumas pessoas por lá. Fui para o balcão. Uma mini, pedi. E um Bushmills. Sem gelo. Despejei-o de um trago. Fiquei a brincar com a mini. Repeti a dose. E perdi-me nas contas.
Fui despertado por alguém que me agarrou pelo braço e me levou para o palco. Estava lá um banco alto. Encostei-me. Alguém colocou os meus textos num suporte à minha frente. Ao lado do microfone. Deu umas pancadas no microfone. Ouvi o pum-pum nas colunas. Deu-me também uma pancada nas costas e sussurrou-me Muita merda, pá! E por instantes não percebi. O que é que o gajo queria dizer com aquilo? Quis segui-lo com o olhar, mas o olhar embaciou e depois perdi-o na escuridão.
Eu estava debaixo de um foco de luz. Não via nada à minha frente. Esqueci onde estava. Esqueci tudo. Esqueci-me de mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer qualquer coisa, mas não percebi o quê. Um tipo aproximou-se de mim e tirou-me o cigarro. E disse Então, pá? Começa a ler a merda dos textos! E eu respondi Vai para o caralho!, mas acho que ele não ouviu. Ou não ligou. Ou cagou em mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer, aos berros pareceu-me, Apaga essa merda! Mas não tenho a certeza. Um tipo aproximou-se de mim, tirou-me o cigarro da mão e deixou-me um copo de whiskey. Acho que era whiskey porque bebi-o num gole e era amargo. Devia ser whiskey.
Acendi um cigarro. Comecei a sentir-me mal. A luz que tinha nos olhos estava a fazer-me confusão. Estava a ficar com calor. Tirei a t-shirt. Queimei-a no cigarro. Doía-me a barriga. Desculpem, o estômago – parece que é esta a expressão correcta. Continuei a fumar. Coloquei a mão em pala sobre os olhos para ver onde estava. Para ver quem é que ali estava. O que havia para além do projector, do foco de luz.
Ouvia barulho. Barulhos. Vozes. Um bruá de vozes. Não percebia o que as vozes diziam. Mas ouvia-as. Vertigens. Estava com vertigens. A cabeça começou a andar à roda. Segurei-me mais ao banco, mas o corpo não queria obedecer. Senti-me rodopiar. O projector de luz cegou-me. O corpo bailava. A cabeça parecia explodir. O estômago refilava comigo. Estava sozinho. Estava ali sozinho e não sabia onde estava. O cigarro caiu-me dos dedos para o chão. O estômago revoltou-se e rebentou. Senti uma massa amarga subir por mim acima. E da minha boca saiu um esguicho de coisas. De várias texturas. De inúmeras densidades. Vomitei. Vomitei para a minha frente. Vomitei tudo o que tinha dentro de mim para a minha frente. Ouvi gritos. Berros. Alguém gritou Filho-da-puta! Não sei se foi para mim. Senti-me cair. Senti dor. Dores. Senti-me magoar. Acho que vi sangue. Podia ser vomitado. E depois…
E depois tudo desapareceu. E eu desintegrei-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/20]

É Drogado, Não É? Coitadito!

Regresso ao tédio de Domingo. Nada de fugir ao que conheço bem. Acordei tarde, já o sol estava lá no alto. Levantei-me ainda mais tarde. Arrastei-me para a casa-de-banho. Foi por ela que me levantei. Se não, teria ficado deitado, debaixo do edredão, tapado até às orelhas, só com os olhos de fora a olhar um bichinho que cruzava o tecto. Não sei que bicho era. Talvez uma aranha. Uma barata. Desapareceu enquanto fui à casa-de-banho.
Passei pela cozinha. Abri o frigorífico. Um cheiro insuportável. Um pacote de leite estragado. Não sei porque insisto em comprar leite e abrir os pacotes. Não bebo leite. Não gosto de leite. Depois lembro-me. O gato. Compro leite para o gato. E penso O gato? Onde anda o gato? Chamo-o Bsch, bsch, bsch! mas não aparece.
Agarro numa maçã. Está podre. Trinco no lado bom, mas está com cheiro a bafio. Deito-a no lixo. Olho à volta. Não tenho mais nada para comer. Na fruteira há um maço de cigarros. Acendo um. Vou até à varanda fumar o cigarro. Descubro lá o gato. Está morto. Deixei-o lá fechado há vários dias. Não tenho aberto as janelas. Nem a varanda. Tenho andado com tédio domingueiro durante a semana. Devo estar com algum problema. Devia ir ao médico. Ao psiquiatra. Talvez ao psicólogo. Preciso de falar com alguém. Ser interlocutor de mim mesmo já não está a funcionar. Agarro no gato pelo rabo e pergunto O que é que faço a isto? Olho para a varanda em frente. Estão no Algarve. Lanço para lá o gato. Ainda bateu com a cabeça no varandim. Porra! Mas acabou por cair lá para dentro. De qualquer forma já estava morto.
O cigarro morreu-me na boca sem eu ter percebido que estava a fumar. Deito a beata fora. Acendo outro. A ti vou-te saborear. E debruço-me no varandim a olhar a rua lá em baixo enquanto fumo o cigarro da manhã já perto da hora do lanche. O céu está a escurecer. Não gosto de acordar a estas horas e ver o dia a morrer. Deixa-me angustiado. Deprime-me. Acho melhor voltar para a cama. Deixar-me adormecer. Acordar de noite. Quando já não houver dia nem sol nem angústia pela luz mortiça para me entristecer.
Regresso à cama. Tapo-me com o edredão. Os olhos procuram o bichinho no tecto mas não o encontro.
Agora não páro de pensar que tenho fome. Podia mandar vir uma pizza, mas estou sem crédito no telemóvel. Tenho de ir à rua. Tenho de sair. Oh, que merda!
Afasto o edredão de cima de mim. Calço umas calças de fato-de-treino. Enfio os chinelos nos pés. Ponho uma camisola com capuz. Saio do quarto. De casa. Do prédio. Entro na rua. No café. E peço Quatro pães da avó! No café toda a gente olha para mim. Finalmente um pouco de atenção na minha vida.
Depois percebo que não trouxe dinheiro. A rapariga fia-me. Gosta de mim. Amanhã venho cá pagar, digo. Mas não sei se amanhã não é outra vez Domingo. A minha cabeça não anda bem. Ela acha que todos os dias são Domingo. O meu corpo obedece-lhe. Eu também. É um tédio que se instala por cá e não quer sair. Eu saio do café e percebo os olhos de toda a gente nas minhas costas. É drogado, não é? ouço alguém perguntar lá dentro. Coitadito.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/16]

Uma Praia Deserta

É Domingo. Dia de tédio. Dia de neura. Está calor. Visto os calções, pego na toalha, n’A Bola e saio de casa.
Vou de carro até à praia onde costumo ir.
Arrependo-me depressa.
Ainda não vejo o mar e já há carros parados pelas bermas. Sigo em frente à espera da sorte. Mas não aparece. Não há um buraco à minha espera. Continuo em direcção às outras praias que se seguem.
Está tudo igual. Tudo cheio de gente. Cheio de carros.
Continuo estrada fora. Vou na marginal, junto a um penhasco. Olho para o mar. Está convidativo. Mas há muitos barcos, gaivotas, botes, colchões de ar e gente, gente, gente.
De repente, uma buzina soa histérica ao meu ouvido, recupero o olhar para a frente e vejo um carro quase em cima de mim e só tenho tempo de desviar o volante para a direita e entrar pela berma mesmo sobre o mar. Travão a fundo. O carro bloqueia. Levanto uma nuvem de pó. Ouço ainda a buzina do outro carro a gritar enquanto se afasta. Estou a transpirar. O coração bate muito e muito depressa. O carro está suspenso sobre o penhasco. Foi por pouco.
Meto a primeira e volto à estrada. Sigo por ela fora e começo a descer. Vou devagar. É bastante íngreme.
Chego a uma pequena enseada. Vazia. Linda e vazia.
Páro o carro. Saio. Olho à minha volta. Ninguém.
Ao fundo, ao fundo da praia deserta, o barulho das pequenas ondas do mar a arrastarem-se na areia. Esqueço a toalha e A Bola e vou por ali fora. Largo os chinelos. Tiro a camisa. Começo a correr. Chego à água e mergulho. Mergulho na água tépida do mar e, com o impulso do mergulho, vou por ali fora, debaixo de água, por momentos. Depois subo. A cabeça fora da água. Abro os olhos e vejo o horizonte a perder de vista. Viro-me de costas e descubro a praia, a mesma praia de onde mergulhei, cheia de gente, muita gente, uma quantidade de gente inacreditável, quase que parecem todas as pessoas do mundo.
Nado até à praia e vejo alguém a caminhar na minha direcção. Mãe. Vem ali a minha mãe. E o meu pai. O Zé Pedro. O Bowie. A minha primeira namorada. O meu tio. Os meus avós. Os quatro. A Marilyn também está ali. E o Bogart. O JFK. O Orson Welles. O Ian Curtis. O Philip Roth, foda-se!
Onde é que estou?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/22]

Retalhos de uma Cidade Entediante

Sentei-me na esplanada a beber uma imperial e a ver os turistas a passear.
Eu era o turista dos turistas. Eles passeavam-se ali em frente, na praça, para meu belo prazer. Acompanhavam a minha imperial. Eu olhava-os a olhar.
Ao fim de algum tempo entediou-me. Eles eram todos parecidos. Mochilas. Sapatilhas práticas, leves e arejadas. Óculos de sol. Um casaquinho de algodão pendurado na mochila. Uma garrafa de água. Mudavam os tamanhos da garrafa de plástico. Alguns empurravam carrinhos de bebé. Todos de máquinas fotográficas ao peito ou telemóvel na mão. A disparar.
Pedi outra imperial e mudei o assunto de entretenimento.
Na esplanada, à minha frente, estava uma rapariga a esticar os cabelos com os dedos. Curvava a cabeça. Esticava de um lado, com uma mão, esticava do outro, com outra mão, depois abria os dedos de uma mão e, com a outra, tirava os cabelos que lá estavam agarrados. Repetia a acção com as outras mãos. Depois chegava-se à frente e beijava, levemente, o rapaz que a acompanhava. Chegava-se de novo para trás e recomeçava tudo. Ela tinha o cabelo liso. E só ela é que falava. O rapaz só ouvia e só se chegava à frente quando ela o fazia para ser beijado levemente nos lábios. Eu não conseguia ouvir o monólogo. Mas aquele ritual estava a enervar-me.
Lá mais ao fundo estava um jovem, em pé, no meio da esplanada, com um quase recém-nascido ao colo. Orgulhoso, ostentava o bebé virado para a frente, para as pessoas. Via-se a satisfação no seu olhar e na postura do corpo. Mostrava o seu filho para toda a gente. Falava das suas virtudes. Que dormia lindamente. Acordava invariavelmente de quatro em quatro horas. Fazia cocó sem dificuldade. Arrotava mal o punha aos ombros depois de mamar. Quando vomitava, e vomitava muitas poucas vezes, o cheiro do seu vómito não era azedo. Nem uma bronquiolite! Aquele bebé era um milagre e aquele pai um homem cheio de sorte. Não vi a mãe.
Suspirei, ansioso.
Pedi uma terceira imperial. A vida naquela esplanada era muito sofrível. Mas a imperial era fresca e estava a saber-me bem.
Chegaram duas turistas alemãs, acho que eram alemãs porque estavam de sandálias de borracha com meias brancas, e pediram-me que as fotografasse com o castelo em fundo. Falaram em inglês. E eu assim fiz. Agradeceram.
Chegou a terceira imperial. Vinha na companhia de uns tremoços. Olhei à volta e só vi tédio.
Bebi a imperial de uma só vez. Deixei uma nota de cinco euros debaixo de um copo. Peguei nos tremoços com uma mão e fui embora. Fui passear pela cidade feito turista enquanto ia comendo os tremoços e largando as cascas pela rua. Cheio de tédio.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/10]