Uma Viagem pelo Douro

Levava com o vento na cara e sabia-me bem. Era um vento frio. Mas sabia-me bem receber esse vento na cara. Entrou algum pó, se calhar mosquitos, pelos olhos dentro. Chorei. Do pó, dos mosquitos ou do vento. Senti as lágrimas geladas escorrerem pela cara abaixo. Mas estava feliz.
Punha a mão de fora da janela e fazia-a navegar no vento. Para cima. Para baixo. Numa espécie de bailado.
Vinha de comboio a descer o Douro. Vinha do Pinhão. Ia para a Régua.
Mas isso é para onde vou quando quero esquecer onde estou.
E estou na sala. Sentado no sofá. A olhar para a televisão. Olho para a televisão para não ter de olhar para ela. A televisão está à minha frente. Desligada. Ela está no sofá ao lado. Acho que está à espera. À espera de qualquer coisa. E então ouço Então?
Então? Então nada! O rio a correr veloz, lá em baixo. Mas não tão veloz quanto eu e o comboio. Também não era assim muito veloz, o comboio. Não era o TGV. Nem o Intercidades. Mas o vento dava-me essa sensação de velocidade. Que voava sobre as vinhas. Sobre o rio. Sobre o casario que se avistava sempre lá ao fundo, a passar, a ficar para trás, mas sempre outra vez mais à frente. E de novo lá para trás. A passar como as folhas de um livro que eu folheava. E sorria.
Tinha acabado de comer uma costeleta grelhada. Antes, tinha aberto as hostilidades com uns peixinhos da horta. E terminado com um bolo de noz com doce de ovos. Vinha feliz. Claro que sim. E aquela paisagem. Aquele verde. Aquele buraco fundo provocador de vertigens. E magia. Por vezes estava por cima das nuvens. Depois via-as lá em cima. Branquinhas contra um céu azul.
E então?
Então era outro tempo. Éramos outras pessoas. Ainda acreditávamos. Ainda tínhamos esperança no futuro. Tudo nos era devido. O mundo era nosso e nós estávamos aqui para o agarrar.
E depois… E depois os anos passaram. As coisas não foram como eram. O mundo, afinal, não era nosso.
Mas bem que pareceu, durante aqueles breves momentos. O pôr-do-sol de copo de branco na mão. A ver o sol morrer. Imaginámos que era no Porto que morria. O sol. Na Foz do Porto. Lá no longínquo horizonte. Nós bebemos a ele. Ao sol. À Foz. Ao Porto. A tudo. Tchin-tchin.
E então?
E então levanto-me. A televisão continua desligada. Ela continua a olhar para mim e a perguntar E então? E eu não sei o que lhe responder. Desde o momento em que coloquei o pé no apeadeiro que perdi o sorriso. O brilho do futuro.
Acho que deixei a felicidade no Douro. Perdida num daqueles socalcos. Entre os copos de vinho que fui bebendo sempre que podia. Um copo de vinho nunca se nega.
Ainda a ouço perguntar outra vez E então?
E então saio de casa.
Deixo-a sentada no sofá da sala.
Saio de casa.
E o que eu dava para voltar ao Pinhão e voltar a descer à Régua de comboio sem saber como o futuro iria matar todos os sonhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/13]

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