Um Vulto na Janela da Sala

Estava a bater com a cabeça na parede. Com força. E ouvia as pancadas como se não fosse eu. A cabeça a bater com força. A cabeça a sujar a parede de sangue. E o barulho! Aquele barulho. Uma melancia a bater na laje largada do alto de um prédio. E aquela repetição de barulho. A cabeça a bater. A bater na parede.
E acordo. Sentado na cama. Transpirado. Cansado. A tentar gritar mas sem o conseguir.
Mas o barulho… O barulho continua. Já não é a minha cabeça. Já não é na minha cabeça. É alguém a tentar quebrar uma janela cá de casa.
Desperto. Levanto-me da cama. Nu. Descalço. Em pânico. Deito a mão ao telemóvel na mesa-de-cabeceira. Saio do quarto a correr. Escorrego no soalho. Caio. Bato com a boca na esquina da porta. Faço sangue. Levanto-me depressa. Não sei para onde me dirijo. Pergunto-me Onde é que estão a bater? E entro na sala. Vejo um vulto recortado na escuridão da noite através do vidro da janela. Um vulto com um pau. Um ferro. A bater no vidro. O vidro da janela é temperado. Aguenta. Aguentará. Até quando?
Volto para trás. Entro na cozinha. Olho para a porta da rua. Estou nu. Regresso ao quarto. Visto umas calças de fato-de-treino. Uma t-shirt. Continuo sem me calçar. Não há tempo. Os chinelos não me deixam correr. Continuo descalço.
O vulto continua a bater no vidro. O som ecoa-me pela cabeça.
Saio do quarto a correr. Volto à cozinha. Agarro a maçaneta da porta. E páro. Ponho-me à escuta. Ouço uma respiração. Uma respiração que não é a minha. Do outro lado da porta. Retiro a mão da maçaneta. Devagar. Volto atrás. Saio da cozinha. Entro na casa-de-banho. Abro a janela. Olho para a fora. Não vejo nada. Mas sei que a janela está longe do chão. Sei que em baixo está um monte de pedras de basalto para calcetar um caminho que nunca chegou a ser calcetado. Fecho a janela. Vejo-me ao espelho. Tenho a boca inchada. Tenho sangue na boca. Penso Pensa, pensa, pensa, caralho! O que é que faço?
O barulho continua. Cadente. Monocórdico. Repetitivo.
Saio da casa-de-banho. Vou até à dispensa. Agarro na chave. Entro lá dentro. Fecho a porta à chave. Está escuro. Sento-me no chão. Tento acalmar. Tento controlar a respiração. Tento não fazer barulho. Ponho-me à escuta. Penso Fiz mal em vir para aqui! Só ouço as batidelas do ferro no vidro da janela. Não ouço mais nada.
E de repente…
E de repente sinto o estilhaçar do vidro da janela da sala em milhares de pedaços pequeninos que se projectam para o interior de casa. O silêncio. Penso Já é tarde demais para sair daqui. Pararam os batuques. Ponho-me à escuta. A orelha colada à porta da dispensa. Sinto a boca amarga. Metálica. Cuspo, em silêncio, e sinto que cai uma bola de sangue no chão da dispensa. Mas não a vejo. Não vejo nada. Mas ouço. Estou com a orelha colada à porta e ouço.
Passos. Passos que caminham sobre os estilhaços. Passos que caminham devagar sobre os pedaços de vidro. Cruzam a casa. Ouço vozes. Alguém conversa. Há pelo menos duas pessoas cá dentro. Encolho-me mais ao fundo da dispensa. Tento não respirar. Tento não existir. Tento teletransportar-me para outro lado. Tento não estar ali. Sinto a maçaneta da porta da dispensa a mexer. O telemóvel? Onde está o telemóvel? Alguém tenta abrir a porta. Alguém percebe que está fechada à chave. Alguém percebe que há gente aqui. Merda! Onde tenho o telemóvel?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/01]

A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys

Comprei uns binóculos para ver a tipa do sétimo andar ali de frente, do outro lado da via rápida. A tipa é gira. Um pouco destravada. Vai nua à varanda regar as plantas. Leva amantes lá para casa e tem o cuidado de deixar as cortinas sempre abertas. Há que garantir diversão à vizinhança. Eu não sou voyer mas, às vezes, não tenho outra coisa para fazer enquanto fumo um cigarro à janela.
Não é a única estória que acompanho. Há muitas outras estórias. Desde que vim para cá morar que me comecei a aperceber da riqueza sociológica dos habitantes das cidades-dormitório. Já comecei a compilar umas estórias. Um dia publico um livro de antologia: A Fauna dos Subúrbios com Banda-Sonora dos Pet Shop Boys.
Às Sexta-feiras não há grandes estórias. Pelo menos não a esta hora. As famílias estão a jantar. Normalmente pizza. Vejo chegar as motorizadas de som estridente. Elas andam como aranhas pelas ruas da cidade-dormitório, entre as torres enormes e os jardins sem árvores. Também ouço a subir e descer o elevador do meu prédio. É um corrupio. Comem pizza. Tomam banho. Vêm televisão. Jogam Monopólio. A mãe liga a máquina da loiça. Faz uma máquina de roupa. O pai vê o jogo da bola. Há sempre um jogo da bola. Só por volta das cinco da manhã é que começa a haver alguma actividade mais interessante com os regressos a casa de quem saiu para a noite. Vêm com companhia. Ou sozinhos. Mesmo os que regressam sozinhos trazem o Gregório como companhia. E é vê-los por aí. Nas ruas. Em casa. Na varanda. A despejar tudo.
Mas hoje os binóculos serviram para outra coisa.
O bairro é cortado a meio por uma via rápida. Há um viaduto para as pessoas cruzarem a estrada mas fica muito lá em baixo e tem de se caminhar bastante para completar o desenho feito para abater os desníveis.
As pessoas cruzam então a estrada pelo asfalto.
As pessoas galgam as grades de protecção e cruzam a estrada. Geralmente a correr. Às vezes à frente dos carros que, ali, naquela zona, não se coíbem de espremer o motor. É um efeito tauromáquico. As pessoas a fugirem às bestas.
Já muita gente lá foi colhida. Morreram já algumas pessoas. Aqui mesmo à minha frente. Vejo-as a serem colhidas enquanto fumo um cigarro. É um desfastio.
Foi o que aconteceu hoje.
Uma velha. Hoje foi uma velha.
Eu estava à janela a fumar um cigarro quando a vejo pôr-se de gatas para passar por baixo das grades de protecção. Ainda pensei Não, velha, não faças isso. Mas disse-o baixinho, porque ela não me ia ouvir.
Ela levanta-se e lá vai, de bengala na mão, uma perna a puxar a outra, mais a arrastar-se que a andar, com carros a fazer slalom à sua volta e ela persistente, a caminhar em frente, devagar, sem olhar para os carros, a pensar que eles é que a vêm, eles é que têm de parar, eles é que têm de lhe fugir.
E então… E então levou com um Fiat Punto conduzido por um miúdo. Nem vinha especialmente depressa, o garoto, mas assustou-se com a velha na estrada, os carros nas faixas ao lado, a seguirem em frente, cada um na sua vida, e não soube reagir.
Ouvi o barulho. O barulho do impacto. Um som seco. Um grito. Uma travagem feita tarde demais.
Ainda vi a velha a ser projectada em frente. Em voo livre. A cair no chão e rebolar. Os braços e as pernas a girar como se fosse um boneco.
As pessoas dos outros prédios assomaram às janelas.
Eu ainda peguei nos binóculos. E olhei.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/12]