Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Quando Ganhei a Caméra d’Or no Festival de Cannes

Era assim à Quinta-feira. Todas as Quintas-feiras. Todas as semanas. Desde o início das aulas.
Saía a correr da sala de aula. Às vezes ainda deixava o professor a gritar qualquer coisa para o ar, para se fazer ouvir por cima do toque de saída das aulas. Mas já não ouvia nada. Já lá não estava. Já estava noutro lado. Em antecipação. Eu e os outros.
Saía a correr da sala de aula. Saía a correr da escola. Do edifício da escola. Entrava no labirinto de ruas esconsas do bairro. Eu e os outros. Todas as Quintas-feiras. A correr até à Adega.
Às Quintas-feiras íamos almoçar à Adega. Eu e eles. Os outros. Íamos à Adega. Uma taberna no coração do bairro. Uma taberna de mesas compridas com toalhas de linóleo sobre ripas carcomidas pelo bicho da madeira. Bancos de madeira, alguns já mancos. Pratos de várias colecções já desaparecidas. Eram os sobreviventes. Sobreviventes com mazelas. Pequenas rachas. Lascas. Os copos era igual. Não havia dois iguais. Mas eram de vidro. Alguns já tinham sido lavados tanta vez que já não se via nada à transparência. Mas eram de vidro. Os talheres era o que havia. Cheguei a usar uma colher como faca. Era o que havia. Mas para o que era, servia.
À Quinta-feira era dia de carapaus fritos com arroz de tomate. Acompanhava com vinho branco da casa servido em jarro de vidro que, esse sim, não era lavado e mantinha sempre o aroma do vinhos servidos, acumulados, uns atrás dos outros, ao longo dos anos. E que importava? Era Quinta-feira. Dia de ir, eu e os outros, almoçar ali, à Adega, apanhar uma cabra e ir para a aula da tarde passar pelas brasas que não havia paciência para aquele professor. Não que fosse um mau professor, que não!, não era. Era até um professor bastante bom. Mas era uma matéria chata, de uma cadeira chata de uma parte chata do curso. Daquelas que ninguém queria saber. Mesmo que fosse importante para o que estávamos a estudar. Para o que queríamos continuar a estudar. Mas ninguém queria estudar aquilo. Só os alunos com pior média. Porque não tinham outro remédio. Eram os últimos a escolher. E já não podiam escolher. Eram escolhidos.
Naquele dia eu ainda não sabia mas, aquela Quinta-feira, havia de ser a última Quinta-feira em que iríamos almoçar à Adega.
Comemos os carapaus fritos com arroz de tomate. Ainda havia salada de alface com tomate e cebola que regámos com bastante vinagre. Bebemos sei-lá-quantos jarros de vinho branco. Um vinho que me deixava com azia. Nos deixava a todos com azia. Ainda não tinha acabado de beber e já sentia o inferno a subir pelo esófago acima. Mas o vinho não se desperdiça. É pecado desperdiçar vinho, mesmo que não seja o sangue de Cristo, é só vinho branco, caramba!, mas não deixa de ser vinho. Não ficava nenhuma gota para amostra e nesse dia manteve-se a tradição. Nem uma gota no jarro. Nem uma gota nos copos.
Bebemos cafés. Bagaços. Fumámos cigarros. Muitos cigarros. Uns atrás dos outros. Alguns durante o almoço. O cigarro preso entre os dedos enquanto a mão levava um carapau inteiro, cabeça à frente, à boca. Uma nojice pré-ASAE. Uma nojice saborosa.
Pagámos ao balcão. Cada um o seu almoço. Mas contas simples. O total a dividir por cada um de nós. Naquela altura ainda não havia muitos cartões de plástico, só uma estranha Chave 24 que servia para levantar dinheiro que a minha mãe depositava lá na terra e eu levantava na capital. Modernices.
As contas feitas na toalha de papel que cobria o linóleo. Fomos pagando. Um-a-um. E fomos saindo. Um-a-um. Para a rua. Para uma das ruas esconsas do bairro. Ruas onde passavam poucos carros. Mas não naquele dia.
Saímos da Adega na brincadeira. A brincar uns com os outros. Bebidos. Fomos esperando uns pelos outros. Já estávamos atrasados, mas esperávamos. Vínhamos juntos. Íamos juntos. E então ouvimos. O barulho. O barulho do motor. O barulho do motor de um carro. Dois. Dois carros a subir pela rua esconsa do bairro. Um à frente do outro porque não havia espaço para ultrapassar. Mas em aceleração. Ambos. A rua era estreita. Nós estávamos na rua. E vinham os carros a subir. A acelerar. Ouvia-se o barulho espremido dos motores. E falta alguém. Quem? Lá vinha ele. O que faltava. Quem faltava. A sair da Adega. A colocar o pé na rua no preciso momento em que o primeiro carro passa. E logo depois o segundo. E eu já só vejo o corpo jogado para cima pelo primeiro carro. E lançado para a parede da Adega pelo segundo. O som das pancadas. A primeira. A segunda. Um som obsceno. Violento. Mortal. Eu vi. Nós vimos. Eu estava cheio de azia. E vomitei logo ali. Vomitei ainda antes dos carros pararem lá mais acima. Mas pararam. Deram assistência. Vieram ver o que tinham feito. Não fugiram. Mas era tarde. Já nada restava dele. Eu continuava a vomitar dobrado sobre mim. A mão na parede.

Anos mais tarde fiz um filme sobre ele. Sobre nós. Sobre as Quintas-feiras e a Adega. Sobre aquelas ruas esconsas do bairro. Sobre os carros a acelerar. Sobre o acidente. Sobre a morte. Sobre o fim de uma época.
O filme foi a Cannes e ganhou o Caméra d’Or.
Nunca mais realizei nenhum filme. Depois da minha história com ele, com ele e com os outros, e de tudo o que tinha para dizer e que disse nesse filme, deixei de ter o que dizer.
Calei-me. Até hoje. Não sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/18]