Helena

Helena.
É um bonito nome para uma senhora. Talvez com os seus, já quase, cinquenta anos. Mãe de dois filhos. Talvez um casalinho. Mas já crescidos. Ele a acabar a Faculdade. Ela grávida da sua primeira criancinha e prestes a tornar a mãe em avó. Mas uma mãe, ou avó, elegante. Bonita. O tempo passa lento por ela. Ainda ouve piropos na rua. Não liga. Nunca liga. É uma senhora. E sabe o quanto é bonita. E inteligente.
Agora, como nome de depressão, não o consigo percepcionar. Isto lá é nome para uma depressão? Para uma depressão atmosférica? Chuva a rodos. Ventania infernal. Nuvens escuras, cinzentas e pretas. Frio. Geada. Tempo de Inverno. De melancolia. De tristeza. De chá quente e pieira nos pulmões. Porra! Helena?
Uma vez conheci uma Helena.
Estava no Parque de Campismo do Pedrogão. Ela era irlandesa. Da República da Irlanda. Tínhamos a mesma idade. Mas ela era bonita. Simpática. Culta. Falava muito bem inglês. Não sei o que viu em mim.
Eu estava a jogar futebol de salão. No ringue ao ar-livre do Parque de Campismo. Eu estava na equipa sem camisolas. Naquela altura não tinha esta barriga de anos a beber cerveja. Talvez fosse isso. Ausência de fermentação.
Houve uma pausa no jogo. Fui fumar um cigarro. Ela aproximou-se. Pediu-me um. Ofereci-lho. Agradeceu. Sorriu. E depois ficou por ali. Fumou-me o resto dos cigarros enquanto eu jogava à bola. Mais tarde, depois do jogo, depois do banho, depois de ter passado uma hora a experimentar qual a t-shirt certa para aquela noite, depois do jantar, encontrei-a na esplanada do café do Parque. Convidei-a para sair. E ela saiu. E foi uma bela semana. Uma semana em que andámos juntos todo o tempo. De dia e de noite. E no fim chorámos a despedida.
Não! Não, porra!
Essa não era a Helena. Essa era a Karen.
A Helena era na verdade Helen e era alemã. Também falava inglês melhor que eu. Um pouco mais velha. Também era bonita. Usava umas sandálias de couro e umas calças do cocó. Às vezes não tomava banho. Essa não fumava os meus cigarros porque fumava tabaco de enrolar. Andava a passear de mochila às costas com outra amiga cujo nome esqueci. Também chorámos na despedida. Eu e a Helen.
Esse foi um ano de muito choro bom.
As Helenas são sempre boas raparigas. Com excepção das depressões. Essas não são grande merda. Mas as Helenas, as verdadeiras Helenas, mesmo que se chamem Karen ou Helen, essas são sempre maravilhosas.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/01]

The White Album dos Beatles

Este ano, 2018, faz 50 anos que os Beatles lançaram o álbum The Beatles, imortalizado com o seu título alternativo The White Album.
Não, eu não sabia isso. Não sabia isso de cor. Não fazia parte do meu conhecimento inútil. Eu nem sou grande apreciador de Beatles.
Simplesmente ia a passar por uma das ruas do Shopping Center, aproveitando que toda a gente tinha rumado à Nazaré para ver os surfistas no canhão da Praia do Norte quando vi, na montra de uma loja, um grande cartaz branco com as fotografias dos quatro músicos e o 50th Anniversary Super Deluxe Edition escrito por baixo.
Depois de ter dado umas voltas pelo Shopping e ter concluído que não havia nada de importante nem interessante que me pudesse motivar, dei de caras com o disco. Nem pensei. Entrei na loja e comprei a Super Deluxe Edition. Seis discos. Nem sei o que fazer com tantos discos. São todos sobres as mesmas músicas? Takes várias? Versões alternativas? Outtakes? Ainda não sabia. Mas ia saber. Provavelmente.
Com a caixinha na mão voltei para casa e regressei ao meu buraco no sofá. Liguei a televisão, sem som, para o boneco. Gosto da companhia. Mata-me o medo da solidão. Afasta os fantasmas que nascem nas sombras que pintam o interior da casa.
Coloquei o primeiro CD na aparelhagem. Gosto da música em objectos físicos. Gostos de lhes mexer. Nos CDs ou nos vinis. Gosto de ter a música nas mãos enquanto a ouço. Leio os encartes. Bebo toda a informação que comportam. Todas aquelas inutilidades. Não é informação relevante, mas equilibra-me. Acalma-me a fome de saber, estas merdas que não interessam a ninguém, só mesmo a mim.
Acho que nunca tinha ouvido este disco todo com muita atenção.
É um disco do caralho.
Abri uma garrafa de vinho tinto. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. E deixei-me ir atrás do disco. Deixei-me ser puxado. E fui.
Dezassete músicas. As primeiras dezassete músicas. Os lados um e dois do primeiro disco na edição de vinil. Quando chegou ao fim, reiniciei-o.
Back in the U.S.S.R. O Dear Prudence de que só me lembrava na versão de Siouxsie and The Banshees. A parolice do Ob-La-Di, Ob-La-Da. A beleza extrema de While My Guitar Gently Weeps, a música do George Harrison. Do George Harrison! Não do Paul McCartney nem do John Lennon. Do George Harrison!
Entusiasmado, abri uma segunda garrafa de vinho tinto. Uma qualquer que tinha lá na despensa. Um alentejano. Ainda lá tinha outra garrafa. Não ficou lá sozinha por muito tempo. Também marchou ao som dos Beatles.
I’m so Tired. Blackbird. Foda-se! Blackbird.
Acabei com o maço de cigarros. Lembrei-me que tinha tabaco de enrolar. E mortalhas. E filtros. E fui buscar.
Blackbird.
Pus o Blackbird em repeat.
Não percebi como nunca tinha ouvido aquele disco com atenção. Aquele disco é grande. Enorme. E aquela capa a branco? Não fazia parte da minha vida e, de repente, abalroou-me. E o Blackbird. Again & again & again.
Quando acabei a terceira garrafa de vinho já não sabia muito bem quem era nem onde estava nem o que estava a fazer. Os cigarros passaram a ser mais difíceis de enrolar. Tive pena de não ter por ali droga. Teria fumado um charro à memória dos Beatles.
E o Blackbird sempre a tocar. Sei disso porque, de manhã, no dia seguinte, quando despertei, ainda estava a tocar. As minha memórias da noite anterior eram difusas. Mas o Blackbird ainda estava a tocar.
Acho que chorei. Antes de adormecer, chorei. E vomitei. Mas acho que foi por causa do vinho.
Não cheguei a ouvir os outros cinco discos da caixinha. Mas um dia destes vou lá voltar. Tenho de arranjar erva para me acompanhar nesse dia. Haverá lá melhor companhia para ouvir os Beatles do The White Album?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/17]

Nas Migalhas do Cheque da Segurança Social

A ironia das ironias é que estamos em véspera de Dia do Trabalhador e tanto eu como ela estamos os dois sem trabalho. Ela porque está desempregada. Eu porque estou sem trabalho. A diferença é que ela recebe o cheque da Segurança Social. Eu não.
Vivemos os dois do cheque dela. Que está a chegar ao fim. Há muito que já só estamos nas migalhas do cheque, mas tem de durar até vir o próximo porque, como as coisas se apresentam, não parece vir aí trabalho.
Estamos sentados na mesa da cozinha. Mais enterrados nas cadeiras que sentados. Eu, então, estou sentado com o cóccix. Estamos a acabar com o pacote de Capataz tinto. À nossa frente uma lata de tabaco de enrolar. Umas mortalhas. Filtros. E ponho-me a pensar que nunca teria imaginado resumir a minha vida àquela mesa, naquela cozinha, a beber aquele vinho e a fumar tabaco de enrolar.
Estamos os dois em silêncio. Não que não tenhamos nada para dizer, que temos. Somos ambos pessoas inteligentes, cultas e acompanhamos os noticiários do país e do mundo. Temos opinião. E gostamos de nos ouvir, um ao outro. Mas estamos ambos cansados de nos queixarmos. Porque todas as conversas que temos tido ultimamente terminam assim, na queixa. Na dor da queixa.
Não nos queixamos de ninguém, nem de nada em concreto. Só das nossas vidas merdosas e da incapacidade que demonstramos em dar-lhes a volta. Não somos pessoas espertas. Não temos aquele espírito do comerciante, do vendedor, do agente de seguros. Não! Até somos bastante tímidos, os dois.
Admiramo-nos, sim, é com a capacidade que ainda temos de nos conseguirmos amar naquele contexto.
Acho que o silêncio ajuda. É um silêncio cúmplice. E concordante.
Temos partilhado tudo. As dores e as poucas alegrias. E o cheque dela.
Continuamos a fazer sexo regularmente. Tomamos banho. Vestimo-nos. Saímos à rua. Passeamos pela cidade. Olhamos as montras.
Há dias em que até bebemos um café com algum amigo daqueles que ainda ficaram.
Sim, porque esta vida não é para qualquer um. É preciso saber resistir. Olhar o abismo e não saltar. Tivemos sorte, um com o outro.
Ficámos outra vez sem internet, diz ela lá do seu lado da mesa. E eu sei que tenho de ir roubar outra, algures.
Mandamos os dois o fumo para o mesmo sítio e forma-se, debaixo do candeeiro da cozinha, uma nuvem escura, daquelas que prometem muita chuva. E desatamos os dois a rir, feitos estúpidos.
E depois digo-lhe Já vou arranjar net para nós.
Acabo o copo de vinho tinto. Apago a beata no cinzeiro e levanto-me. E digo-lhe Não quero que te falte nada.
Passo por ela, baixo-me um pouco e beijo-a, levemente, nos lábios.
Ah, e amanhã é Dia do Trabalhador, digo-lhe baixinho, ao ouvido. Ela sorri, abana a cabeça e diz Faz impressão, isso.
E eu vou à procura de internet à vizinhança.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/30]

A Felicidade Estampada

Fui à farmácia comprar os medicamentos da minha mãe. Não pude trazer os meus que o dinheiro não chega para tudo.
Com as moedas que restaram de troco ainda comprei tabaco de enrolar. Não gosto de tabaco de enrolar, mas é mais barato. E gosto do ritual de fazer cigarros.
Agora estou aqui na varanda a fumar um cigarro. Fuma-se muito depressa. Faço-os mais pequenos que os outros. Levam menos tabaco. Mais o filtro. Acabam por serem mais pequenos e fininhos. Como um charro, mas sem o haxixe.
Olho para a varanda em frente. Um homem brinca, no chão da sala, com uma criança ainda bebé. Uma mulher chega e com brincadeiras, beijos e danças, leva a criança embora, para o interior da casa. Talvez para dar banho. Mudar a fralda.
O homem vem para a varanda fumar um cigarro, também. Olhamo-nos um ao outro. E eu pergunto-me quando é que a sua felicidade se vai estampar? Qual o momento na sua vida em que tudo vai mudar? E estará ele consciente de que irá acontecer alguma coisa? Ou achará ele que a vida é assim, alegre, brincalhona, cheia de amor e com a sorte a chegar em golfadas?
Somos uns animais autofágicos. Comemo-nos a nós próprios para nos garantirmos a continuidade, a sobrevivência. Choramos os mortos, mas não ligamos aos vivos. Não permitimos a morte, mas não ajudamos a viver. Somos uns cães, a comer tudo o que apanhamos à frente e sem nos preocuparmos com os outros. Os outros são uma nota de rodapé, uma coroa de flores, uma lágrima bem fotografada e documentada. As lágrimas sobre os outros, são para os outros verem a nossa humanidade.
Acabou-se o cigarro. Vou dentro de casa fazer outro. Esta é a parte chata. Por mais que até goste de enrolar os cigarros, agora apetecia-me simplesmente acender um.
Volto à varanda com o cigarro aceso. O homem da frente ainda lá está. Ele fuma um cigarro de maço. Duram mais tempo.
Tento pensar no que ele estará a pensar ao olhar para mim. Mas não me sai nada. Um vazio. Sinto-me invisível. Ninguém me vê.
Um pedaço de cinza solta-se do meu cigarro e vai com o vento, sobe um pouco acima da varanda, dança no ar, faz umas piruetas coreográficas na corrente.
Eu endireito-me, coloco o pé no muro da varanda e dou um impulso com o corpo e lanço-me no ar, apanho a mesma corrente de ar quente que levou a cinza, mas penso que sou pesado demais para ela.
Tenho um ligeiro vislumbre da minha iminente queda, mas não vou pensar nisso. Não gosto de pensar que sou mortal. Não gosto de pensar que posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/20]