As Varandas Vazias

Onde estão as pessoas?
Venho à varanda. Fumo um cigarro. Olho em frente. Olho os outros prédios. As outras varandas. Vazias. Uma flor. Outra flor. Murcha. Marquises. Muitas marquises. Marquises a fechar varandas vazias tornadas, quê? Quartos. Escritórios. Salas de arrumo. Mas vazias. Sempre vazias. Vazias de gente. Um T1 tornado T2. Uma varanda tornada assoalhada. Mas vazia. Sempre vazia.
O que é feito delas? Das pessoas?
Escondem-se. Escondem-se umas das outras. Fecham-se em casa. Têm medo das intempéries. Têm medo de respirar ar puro. O ar fresco do Inverno. O ar quente do Verão. O ar com diesel. O ar com cheiro a lareira. A lenha verde queimada. Enfiam-se dentro das camas, tapam-se com os cobertores e cheiram-se. Um cheiro deles só para eles. São egoístas, as pessoas. Fecham as cortinas. As persianas. As portas. As varandas. As janelas. Fecham-se. Trancam-se. Emudecem.
Porque nunca estão ali?
Por medo, talvez. Por medo de serem vistas. Por medo de ver. Por medo da vida, pois. Por medo que alguém saiba de sua vida. Que alguém veja as famílias discutir. O amor morrer. A morte chegar. Por medo de ver que as vidas dos outros são mais luminosas. Mais belas. Mais coloridas. Mais. Sempre mais. O engano. É isso que as pessoas gostam. É isso que procuram. O engano. O engano nos outros.
Fogem uns dos outros. Fechados nas suas casas de varandas vazias. Varandas inabitadas. Varandas de marquises. Um Cacém enorme espalhado ao longo de todo o país. Um país negativo. Sem outros. Só com cada um de nós. Isolados.
Escondem-se. Fogem. Viram-se costas. Dão-se costas. A única coisas que as pessoas dão. Às outras. As costas. O desprezo. A infinitude do desprezo.
Acabo o cigarro. Sinto o desprezo dos outros nas suas ausências. Estou à varanda. Estou sozinho. Sozinho na varanda. As outras estão desertas. Cheias de desprezo.
Largo a beata na rua. Entro em casa. Torno-me uma delas. Fecho a porta da varanda. As persianas. As cortinas. Acendo a lareira. Meto-me debaixo dos cobertores. Cheiro o meu cheiro. Viro as costas ao mundo. Quero que as pessoas se fodam. Quero que o mundo rebente.
E não quero nada.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/28]

Da Vida desse Homem

Estou à varanda, debruçado no parapeito, e penso na vida desse homem.
Fumo um cigarro. Lanço fora o fumo e vejo-o subir aos céus e desfazer-se. E penso na vida desse homem hoje.
Não me interessa particularmente a vida desse homem, mas não consigo não pensar nele.
Penso que tem uma ex-mulher. Outra ex-mulher. Uma esposa que está a caminho de ser a nova ex-mulher.
Penso que tem uma filha da primeira mulher, outra da segunda e uma da terceira, acrescentando uma enteada desta última.
Penso nesse homem que entrou a grande velocidade na auto-estrada, em sentido contrário e grita Cabrões! Cabrões de merda! Estão a ir todos no sentido errado.
Penso nesse homem que tem um vencimento mensal de dez mil euros, mais prémios por objectivos, mais um BMW e motorista e um cartão de crédito para refeições e outras necessidades no exercício das suas funções e ainda mais um prémio de um milhão de euros se chegar ao fim do seu mandato.
E penso que esse homem já delapidou o património da sua entidade empregadora em vários milhões de euros.
E penso Porque é que não deveria ele agarrar-se, com unhas e dentes, ao seu lugar de sonho?
E penso que a perda de tudo isto será o equivalente a levar um tiro. A um suicídio.
Acabo de fumar o cigarro e deixo cair a beata, ainda em brasa, da varanda abaixo, e olho, olho para ver se cai sobre a cabeça de alguém.
E penso que o salário mínimo neste país é de quinhentos e oitenta euros.
E penso que o salário médio neste país é de cerca de novecentos euros.
E penso que o aluguer de uma casa de tipologia T2 em Lisboa é de €€€ (actualizar diariamente).
E penso que era na minha vida que devia estar a pensar.
Mas se pensasse na minha vida, corria atrás da beata varanda abaixo.
E volto a pensar na vida desse homem. Nesse homem que chama crianças mimadas… A quem? Não aos outros, a ele.
Preciso de um copo de vinho.
Não quero pensar na minha vida. Não quero pensar na vida desse homem.
Gostava de saber voar.

[escrito directamente do facebook em 2018/06/13]