Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

Bella Poeta Guerra Buenos Aires El Tango e El Mar

Estava parado num meio de uma estrada de asfalto, onde por estes dias não passam lá carros, a olhar para um ecran onde vocalistas virtuais ensaiavam cantar canções que afinal não passavam de playback para gravar as imagens vídeo a serem projectadas nos espectáculos ao vivo onde não iriam estar.
Ia bebendo uma cerveja de um copo de plástico, mas reciclável. Acendi um cigarro. Tentei. Tentei acender. Começou a chover. Este é o Verão da chuva, do frio, do mau tempo e da gripe que não me deixa em paz. Os primeiros pingos de chuva caíram em cheio no cigarro. Já não se iria acender. Muito menos deixar-se fumar. Deitei-o fora.
E agora? O que faço agora?
Corri de regresso ao carro. Precisava de fugir da chuva.
Parei debaixo de um beiral um pouco mais largo para recuperar fôlego. Encostei-me à parede. Descansei. Olhei para a luz do candeeiro público e percebi que a fúria aguaceira poderia estar de passagem. A chuva que caía era menos intensa. Aguardei.
Recuperei fôlego. Acendi um cigarro. E disse, sonoro, mas para mim Se no fim do cigarro estiver a chover menos, volto para trás, não regresso já ao carro, e vou ao concerto.
Fumei o cigarro. A chuva, que não tinha parado completamente, era uns pingos leves como flocos de neve vistos no contra-luz do candeeiro público que estava à minha frente. E decidi Vou ao concerto e seja o que Deus quiser!.
E fui.
Desci à vala. Estava bem composta. Quase cheia. O palco inundado. O PA coberto com manga plástica. Virei-me para o lado e perguntei Vai haver concerto? e o lado respondeu-me Claro, pá! Há sempre concerto! Toca aí uma! e passou-se um charro. Dei um bafo. Acabei a dar dois. Devolvi-o à precedência e disse Obrigado! e o tipo acenou com a cabeça.
Lá em baixo, no palco, um rapaz passeava-se com um balde e uma esfregona a tentar secar o que estava molhado. Por vezes o público batia-lhe palmas. Ele respondia com uma vénia. Às vezes imitava um pequeno passe de bailado. Tinha piada, o miúdo. Ainda lhe pediram para dançar. Ele recusou, envergonhado. Mas ainda ofereceu um jogo de troca de mãos nos joelhos das pernas. O público foi ao delírio.
O palco estava seco. Já não chovia. Levantaram a teia do palco. Retiraram a manga plástica de cima do PA e dos instrumentos. Chegaram os músicos. Cegou a voz. E começou. Começou a viagem.
Eu entrei no buraco da minhoca directamente para a Aula Magna. Outro tempo. Outro lugar.
Eu era jovem. Acabado de sair da adolescência. Cabelos compridos. Com caracóis. Os caracóis onde as miúdas gostavam de enfiar os dedos enquanto me sussurravam ao ouvido palavras que não repito. Magro. De barba rala e sem brancos de espécie alguma em nenhuma parte do corpo. Fugia das chinesas e dos cachimbos. Das seringas. Dos selos miniatura. Fugia de tudo aquilo que ia fazendo cair quem comigo estava e ia deixando de estar até eu ficar sozinho, eu, eu sozinho e a banda a tocar só para mim. E a voz dizia-me Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E regressei. Regressei ao meu tempo. Cabelos curtos. Já sem caracóis. Já sem os dedos das miúdas e os seus sussurros a prometerem-me a Lua. Com brancos na barba, comprida, mas muito mal semeada. A barriga proeminente salientada pela t-shirt apertada mas de uma banda cool, A respiração pesada. Um cigarro na ponta dos dedos. Sozinho, ainda e sempre, em frente à banda. A ouvir a voz, que me repetia, como à trinta anos, Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E enquanto ouvia, sentia. E pensava naqueles infelizes que me dizem que é impossível viajar no tempo. Esses nunca tiveram dezoito anos. Esses já nasceram velhos. Velhos e mortos.
No resto da noite não voltou a chover. Quando regressei ao carro, passei duas horas à procura dele. Só o encontrei quando era o único na eira. E nessa altura já não me apetecia voltar a casa. Peguei num cigarro. Sentei-me no capot e fiquei ali a fumar até o dia nascer. Depois fui beber um café e comer um croissant folhado como quando tinha dezoito anos e entrava na Bénard e achava que era fixe ser fixe.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/11]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

Comprar um Disco de Vinil Era um Acto Quase Religioso

Hoje fui tirar o pó aos vinis.
Abri a tampa de acrílico do prato. Mirei a agulha. Não tinha pó agarrado. Há tanto tempo que a agulha não tocava no vinil, nem a tampa era aberta, que não havia pó para tirar.
Apanhei um disco qualquer. Deitei a mão a uma das prateleiras. Mas já sabia o que é que devia andar por ali, naquela prateleira. Naquela prateleira especificamente.
Journeys to Glory. Os neo-românticos Spandau Ballet, antes da lamechice do True e das baladas para constituir família. O fabuloso álbum de capa branca com o discóbolo. E que abre com o marcial To Cut a Long Story Short.
Tirei o disco da prateleira. Soprei o provável pó da capa. Retirei a capa interior com as letras. Depois puxei o plástico. Retirei o vinil. Levei-o à altura dos olhos. Olhei para as estrias. Não tinham um grão de pó. Coloquei-o no prato. Baixei a agulha. Ouvi aquele ruído típico da agulha no disco antes de começar a música.
Deitei-me no chão. Regressei à adolescência.
Lembro quando desci à cidade para comprar o disco. Naquela altura, comprar um disco de vinil era quase um acto religioso.
Entrei na loja. Discoteca. Era assim que se chamavam as lojas onde se vendiam discos de vinil. Discoteca. Sim, também era um sítio onde se podia ouvir música e dançar e beber umas cervejas, Pisang Ambon, uma Cuba Libre ou uma Batida de Coco, bater o coro a umas miúdas e mostrar a toda a gente a t-shirt tão fixe que tínhamos. Mas era também, e primeiro, a loja onde ouvíamos os discos. E comprávamos. Quando em grupo, comprávamos discos diferentes. Para poderem rodar entre todos. Para haver música diferente nas festas de garagem. Para haver acesso a mais informação numa era tão longe dos motores de busca, das redes sociais e do Youtube.
Então, entrei na discoteca. Eram as novidades. Spandau Ballet. Classix Nouveaux. Duran Duran. Depeche Mode. Ouvi-os todos. Haveria de os comprar a todos. Lavei o carro ao meu pai mais vezes que o normal. Aspirei a casa à minha mãe sem ela ter de me pedir. Precisava do dinheiro. Para os discos. Para aqueles discos. Eu queria ser um neo-romântico! O primeiro foi mesmo o Journeys to Glory. Quantas vezes ouvi o Mandolin! E o The Freeze!
Nessa mesma semana cortei o cabelo. Cortei o cabelo muito curto, mas deixei uma franja descaída. Uma grande franja descaída. E como o meu cabelo era encaracolado, parecia ter um ninho de ratos na cabeça. Pelo menos era assim que a minha mãe dizia que parecia.
Comecei a ir aos concertos dos Heróis do Mar. Chamaram-me fascista. Usei umas calças largas em cima e apertadas em baixo. Acho que havia um nome para isto. Não me recordo. Comprei umas botas com franjas. Um casaco de algodão com fecho a cruzar à frente. Tudo era cor.
Arranjei uma namorada. Àqueles discos, juntei outros. E continuei a ir à discoteca ouvir as novidades. E a comprá-las.
O meu pai andava contentíssimo com a minha disponibilidade para lavar o carro. Por fora e por dentro. Quanto mais limpo, quanto mais tempo de trabalho, maior o salário. Eram os meus mercados em acção.
Ainda me lembro do dia em que na discoteca ouvi uma outra coisa. Uma coisa diferente. Muito diferente. Eram uns tipos que também tinham os cabelos esquisitos, mas um outro tipo de esquisitice. Chamavam-se Echo and The Bunnymen. Que nome fantástico! Estavam no meio da neve. Vestiam gabardines escuras. Fazia-me sentir frio. A música, a voz, as letras, era tudo muito mais negro. Carregado. Por vezes, até, triste. Melancólico.
Cortei o ninho de ratos. Deixei o cabelo crescer. Comecei a vestir de preto. Usava uma gabardine de três-quartos. Comecei a fumar. E decidi que o mundo era uma merda.
Deixei de ouvir os Spandau Ballet.
Agora, sentado aqui no chão da sala, de pano do pó na mão, mas sem limpar o que quer que seja, delicio-me com o regresso a este disco dos Spandau Ballet. E foda-se, ele ainda é muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/04]

Helena

Helena.
É um bonito nome para uma senhora. Talvez com os seus, já quase, cinquenta anos. Mãe de dois filhos. Talvez um casalinho. Mas já crescidos. Ele a acabar a Faculdade. Ela grávida da sua primeira criancinha e prestes a tornar a mãe em avó. Mas uma mãe, ou avó, elegante. Bonita. O tempo passa lento por ela. Ainda ouve piropos na rua. Não liga. Nunca liga. É uma senhora. E sabe o quanto é bonita. E inteligente.
Agora, como nome de depressão, não o consigo percepcionar. Isto lá é nome para uma depressão? Para uma depressão atmosférica? Chuva a rodos. Ventania infernal. Nuvens escuras, cinzentas e pretas. Frio. Geada. Tempo de Inverno. De melancolia. De tristeza. De chá quente e pieira nos pulmões. Porra! Helena?
Uma vez conheci uma Helena.
Estava no Parque de Campismo do Pedrogão. Ela era irlandesa. Da República da Irlanda. Tínhamos a mesma idade. Mas ela era bonita. Simpática. Culta. Falava muito bem inglês. Não sei o que viu em mim.
Eu estava a jogar futebol de salão. No ringue ao ar-livre do Parque de Campismo. Eu estava na equipa sem camisolas. Naquela altura não tinha esta barriga de anos a beber cerveja. Talvez fosse isso. Ausência de fermentação.
Houve uma pausa no jogo. Fui fumar um cigarro. Ela aproximou-se. Pediu-me um. Ofereci-lho. Agradeceu. Sorriu. E depois ficou por ali. Fumou-me o resto dos cigarros enquanto eu jogava à bola. Mais tarde, depois do jogo, depois do banho, depois de ter passado uma hora a experimentar qual a t-shirt certa para aquela noite, depois do jantar, encontrei-a na esplanada do café do Parque. Convidei-a para sair. E ela saiu. E foi uma bela semana. Uma semana em que andámos juntos todo o tempo. De dia e de noite. E no fim chorámos a despedida.
Não! Não, porra!
Essa não era a Helena. Essa era a Karen.
A Helena era na verdade Helen e era alemã. Também falava inglês melhor que eu. Um pouco mais velha. Também era bonita. Usava umas sandálias de couro e umas calças do cocó. Às vezes não tomava banho. Essa não fumava os meus cigarros porque fumava tabaco de enrolar. Andava a passear de mochila às costas com outra amiga cujo nome esqueci. Também chorámos na despedida. Eu e a Helen.
Esse foi um ano de muito choro bom.
As Helenas são sempre boas raparigas. Com excepção das depressões. Essas não são grande merda. Mas as Helenas, as verdadeiras Helenas, mesmo que se chamem Karen ou Helen, essas são sempre maravilhosas.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/01]

Estou Quente

Sinto-me quente.
Ele coloca a mão dela sobre a minha, que está na alavanca das velocidades, e diz Estás quente.
Sim. Estou quente. Sinto-me quente.
Vou a conduzir o carro. Ela vai ao meu lado. Olha para mim. Coloca a mão dela sobre a minha e diz Está quente. Eu vou a conduzir devagar. Vou atrás de um camião lento. Não praguejo. Vou a conduzir mas nem vou atento à estrada. Vou só atrás do camião.
Eu estou à entrada do Liceu. Estou a fumar um cigarro. Ela está ao meu lado. Encostada a mim, como só os adolescentes sabem encostar. Mergulha a cara no meu pescoço. Beija-o, lentamente. E diz Estás quente.
Sim. Estou quente.
Páro o carro no parque de estacionamento do super-mercado e digo Eu fico aqui. Ela sai. Eu fico. Mas não estou lá. Não estou em lado nenhum. Sinto-me estranho. Estou quente mas não tenho calor. Sinto, aliás, um pouco de frio. Nada de muito intenso. Um arrepio. Uma vontade de não estar de t-shirt.
Passam carros à minha frente. Carrinhos cheios de compras. Uma carrinha Opel faz manobra para estacionar de traseira. O Mercedes que vem atrás apita. Volta a apitar. O Opel pára. Pára atravessado na estreita passagem do parque de estacionamento. Um homem sai de dentro do carro com um ferro na mão. Aproxima-se do Mercedes e começa a bater no carro com o ferro. A mulher dentro do carro fica parada. Estática. Assustada. O homem parte os faróis da frente do carro. Amolga o capot. Parte o espelho retrovisor exterior esquerdo. Com uma só pancada. Violenta. Bate com o ferro no pára-brisas mas não consegue parti-lo. Nem um arranhão. A mulher dentro do Mercedes desperta. Mete a marcha-atrás e arranca em alta velocidade pelo parque de estacionamento. Ao fundo faz um pião. Endireita o carro. Mete a primeira e desaparece.
O homem com o ferro na mão olha à volta. De peito feito. Olha para toda a gente. À espera de um olhar. De um desafio. Mas todos os olhos fogem. O meu também. Olho para o lado. O homem afasta-se, lentamente. Entra dentro do Opel. Estaciona-o.
Eu vejo-o sair do carro e entrar dentro do super-mercado.
A porta do carro abre-se. Ela entra. Coloca o saco aos seus pés. Dá-me uma garrafa de água e um comprimido. É um ibuprofeno. Toma-o. Estás quente, diz
Meto o comprimido na boca. Abro a garrafa e bebo água. Empurro o comprimido. Ela leva a mão à minha testa.
Eu ponho o carro a trabalhar. Saio do parque de estacionamento.
Queria estar no Liceu. À saída do Liceu. A fumar um cigarro. A fumar um cigarro e ela a dar-me um beijo, suave, no pescoço e a murmurar-me ao ouvido Estás quente.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/11]