Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão exprimido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

A Morte da Lampreia

Tenho o copo vazio. Tenho sempre o copo vazio à minha frente. A primeira coisa que faço quando me enchem o copo, é esvaziá-lo. E depois fica por ali assim, vazio. Até ser novamente cheio e eu o despejar logo de seguida. A aguardente não fica a fazer nada no copo.
Não sei quantos estão por aqui. Só ao balcão, como eu, somos três. É este agora o nosso posto de trabalho. Sentados ao balcão a beber umas aguardentes e esquecer a merda de vida que temos.
Ontem à noite comecei a queimar as primeiras tábuas do barco. Para quê o barco? Há dois anos que não vou ao rio. Ninguém daqui quer a lampreia do Tejo. Dizem que está contaminada. E têm razão. Esta espuma que agora se vê nos telejornais não é de hoje. Nem de ontem. Já começou há uns anos. Mas ninguém quer saber. Quando o rio chega à capital, já ninguém quer saber da espuma que não vê.
Já chegámos a ser mais de sessenta. Mais de sessenta na apanha da lampreia. Vinha gente de todo o país para a comer. Dava gosto ver chegar toda essa gente elegante de fora, nos seus carros grandes e lavadinhos. Agora, a única coisa que vem de fora é a lampreia. Trazem-na de França, parece. Mas são muito poucos os que vêm agora cá para a comer. Não é tão boa como a nossa. Não é, não.
O que é que fazemos agora, sem o trabalho? O subsídio já acabou. Alguns de nós vamos fazendo uns biscates. Mas também não há grande coisa para fazer por aqui. A morte da lampreia foi também a morte de muita actividade aqui da zona. Isto agora tende tudo a morrer.
Hoje, quando chegar a casa, vou voltar a queimar madeira do barco para aquecer a casa. Para aquecer a mulher e os miúdos, coitados. Que passam um frio de rachar. Não há dinheiro. Não há trabalho. Mas há sempre uns espertos que nos olham de lado. Que nos olham de lado e nos dizem Vai trabalhar, pá. Se calhar é algum dos directores das celuloses que nos matou a lampreia. Têm descaramento para isso, lá isso têm.
Às vezes fico contente que aqui não seja como na América. Porque se eu tivesse uma arma, limpava o sebo a uma série de gajos. Principalmente aqueles que trazem o rei na barriga e que julgam que tudo é deles, fazem as merdas que fazem e nada lhes acontece. Ai, acontecia, acontecia.
Mas somos mansos. Somos todos mansos, nós. Não queremos chatices. Mais facilmente morremos de fome, nós e os nossos, do que queremos arranjar chatices com essa gente cheia de advogados e leis e razões.
Entretanto, Ouve lá, fia-me aqui mais um copo, vá lá. Amanhã venho cá arranjar-te a caldeira, pá.
E pronto, mais um copo esvaziado.
E hoje joga quem? E dará nesta televisão aqui do café? Não me apetece ir para casa. Não quero encarar a mulher. Nem os miúdos. Um homem que não leva o sustento para casa não consegue encarar a mulher. Que porra de vida. Tanto caminho palmilhado para isto?

[escrito directamente no facebook em 2018/02727]