Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

O que É que Eu Hei-de Fazer?

Agarro-me ao espelho da casa-de-banho como se fosse a coisa mais importante do mundo. Passo-lhe a mão por cima para tirar o embaciado provocado pelo banho, mas não consigo grande coisa. A mão tira o embaciado mas cria um manto de centenas de gotinhas de água que tapam o espelho de igual forma. Pego na toalha das mãos e esfrego o espelho com ela. Melhor. Mas não está completamente limpo. Aproximo a cara. Vejo as olheiras. Os olhos amarelos. Os pêlos brancos da barba mal crescida. Vejo alguns pontos negros. Mas não os espremo. Vejo os lábios gretados. Os cantos da boca infectados não sei como nem porquê. Os dentes nunca foram muito brancos, mas estão cada vez mais cinzentos. É o tabaco. Devia fazer uma destartarização, penso.
Olho-me ao espelho e penso ainda As merdas que faço quando não estou a trabalhar.
Largo a cara. Vou à janela, nu, e deixo o frio deste Agosto em plenas alterações climáticas cortarem-me o corpo. Sinto um arrepio. E gosto.
Visto uns calções. Uma t-shirt. Calço uns chinelos.
Faço café na cafeteira. Gosto do cheiro do café de manhã. Mesmo que já seja quase meio-dia. E mesmo que o café seja uma merda cheia de chicória.
Bebo o café à janela.
Ainda há pessoas na rua, penso.
Eu estou em casa. A Estação de Serviço só funciona no dias pares. Duas horas por dia. Dois empregados de cada vez. E um grupo de fuzileiros para acalmar os clientes desesperados por gasolina.
Passo a maior parte do tempo em casa. Eu e muita gente.
Venho à janela. Olho a rua. Coço os tomates. Fumo um cigarro, enquanto tenho. Já não bebo vinho que se foi já todo. Ainda vou tendo este café.
Sento-me no sofá a fazer zapping. Não consigo ver um programa inteiro. A cabeça não consegue acalmar. Não me consigo sintonizar. Perco-me.
Estou preocupado. Mas não digo nada a ninguém para não gozarem comigo. Ninguém parece preocupado, porque haveria eu de ser o único?
Ponho as mãos nos bolsos dos calções. Apanho umas moedas. Tiro-as para fora e vejo quanto é. Olho para a rua. Vejo a pastelaria. Sorrio.
Saio de casa. Desço as escadas. Desço à rua. Vou à pastelaria. Está quase vazia. Há uma mesa com um grupo de quatro velhotas. Um bule de chá e quatro chávenas na mesa. A montra está um pouco menos que vazia. Dois pastéis de nata. Um russo. Uma broa de mel. Um pão de deus. É mesmo isso. Peço Um pão de deus, se faz favor. E a rapariga avisa-me, baixinho, É de ontem. Não faz mal, respondo. E a broa de mel. Corte-a em quatro. E leve ali aquelas senhoras.
Pago e vou embora antes que as velhas percebam e queiram agradecer e dar beijinhos e falar das famílias e dos filhos que não lhes ligam nenhuma e a reforma que não chega para nada A minha nem chega a meio do mês haveria de dizer uma delas e outra Tantos anos de trabalho para os outros, e agora isto e eu não queria chorar com a vida dos outros já me bastava a minha e tinha de fazer um esforço para me aguentar inteiro sem me desfazer na merda em que me sentia.
Entro em casa. Abro o pão de deus. Barro-lhe um pouco de manteiga. Corto-o ao meio. Guardo uma metade para mais tarde. Ou para amanhã. Sento-me a fazer zapping enquanto como. Apanho as migalhas que deixei cair na t-shirt e enfio-as na boca. Olho para os cigarros mas penso Tenho de os guardar.
Levanto-me. Vou à janela. Olho a rua. Volto para o sofá. Sento-me. Digo em voz alta O que é que eu hei-de fazer?
Descalço os chinelos. Deito-me no sofá. Suspiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/03]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

Cortes

Estou acordado. Estou deitado na cama, acordado. A casa está em silêncio. A casa está na escuridão. Não para mim. Tenho os olhos habituados ao escuro. A luz da noite que entra pelas janelas mal fechadas dá-me os contornos da casa. Do quarto. Da cama.
Olho para ela, deitada aqui ao meu lado. Olho para ela e vejo-a de olhos fechados. Dorme. Dorme encostada a mim. Os nossos corpos nus, quentes. O dela descansado no meu. O meu nervoso com ele próprio.
Não consigo dormir.
Olho o tecto. Um raio de luz cruza-o quase de lado-a-lado.
Estou ansioso. Tremo.
Tenho medo, mas não sei de quê. Só medo.
Olho para ela ao meu lado na cama. Está a dormir descansada.
Levanto-me devagar e em silêncio para não a acordar. Saio do quarto descalço. Nu. Cruzo a casa em silêncio. Cruzo a casa naquela quase obscuridade. Não preciso de luz. Os olhos estão habituados à escuridão. E conheço a casa de cor. Conheço cada parede. Cada esquina. Cada móvel.
Entro na cozinha. Vou à janela. Olho para fora. Há um pouco de luar. Vejo as árvores. As folhas mexem-se. Há uma pequena aragem. Nada de muito forte. A figueira ainda não deu figos. É muito cedo para os figos. Mas comia agora um figo da figueira. São doces, estes figos.
Há umas luzes a luzir ao longe. Há mais gente acordada. Há mais gente que não consegue dormir esta noite. Gente como eu. Talvez.
Abro uma gaveta. Agarro numa faca. Fico em pé sobre o lava-loiça. Respiro. Sinto a respiração. Ouço-me respirar. Depois forço a lâmina da faca sobre o meu braço. Corto. Corto carne. Corto-me. Sinto o sangue sair. Sinto o sangue escorrer pelo braço, como uma rede. Uma matriz. Sinto o sangue cair. Ouço os pingos no lava-loiça.
Suspiro.
Sinto um certo alívio. Uma libertação.
Mas ainda estou ansioso. Ainda sinto medo.
Acho que sinto medo de mim.
Abro a torneira do lava-loiça. Lavo a faca. Meto o braço cortado debaixo do fio de água que sai da torneira.
Gosto do frio da água. Gosto do frio da água a arder-me na carne.
Olho de novo lá para fora. As luzes ao fundo ainda estão acesas. O que é que estarão a fazer? Lá onde as luzes estão acesas?
Seco a faca num pano. Arrumo a faca na gaveta. Em silêncio. Puxo o braço para mim. Encosto-o ao peito.
Regresso ao quarto.
Deito-me na cama. Ela volta a encostar-se a mim. Eu olho para o tecto. Um raio de luz cruza-o de lado-a-lado.
Espero conseguir adormecer.
Estou cansado. Estou cansado e com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/09]

Acordado às Quatro da Manhã

Quatro da manhã.
Parece o início de uma música do António Manuel Ribeiro. Mas não é. São mesmo quatro da manhã. E eu estou acordado.
Não consigo pregar olho. Não sei porquê.
Viro-me para um lado. Viro-me para o outro. Suspiro. Acendo a luz. Bebo água. Se calhar devia beber uma aguardente.
Volto a deitar-me.
Ouço o vento lá fora. A chuva a bater leve nos vidros da janela. Os passos dos cães no soalho. Também não conseguem dormir. Andam aí pela casa à procura do sono. Espero que o encontrem. Dêem três voltas sobre si e enrolem-se em cima de um tapete.
Ligo o telemóvel. Vejo as notícias. Ainda não começou a guerra. Espero que consigamos chegar ao Verão. Gostava de mergulhar mais uma vez no Atlântico.
Daqui a nada tenho de me levantar. O melhor é já não adormecer, garantir que me levanto e mantenho certas as obrigações.
Volto a olhar para as notícias. Ainda não começou a guerra mas as coisas estão complicadas. Vai ser muito difícil chegar ao Verão. É melhor ir amanhã à praia. Ganhar coragem e ir ao mar. Se não, pode ser tarde demais.
Acho mesmo melhor ir já.
De qualquer forma não consigo dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]

O Homem nas Escadas

São oito da manhã. Estou à janela da cozinha. Bebo o café acabado de fazer. Lá dentro, no quarto, ela continua deitada. Não está grande coisa. Sem vontade de se levantar da cama. Sem vontade de sair de casa. Sem vontade de nada. Eu deixo-a estar. Deixo-a descansar. Mais tarde ligarei para o escritório a dar conta da sua ausência. À noite trago um risotto de cogumelos. Talvez a anime.
O carro da polícia passa devagar lá em baixo, no largo. Ontem à noite não apareceram. Os miúdos andaram a fazer barulho até às tantas. Se calhar também foi isso que a deixou assim. Não descansou. Ficou nervosa.
Deito o resto do café no lava-louça.
Passo na casa-de-banho e lavo os dentes. Olho-me ao espelho. Estou a ficar velho. Estes últimos meses foram terríveis. Envelheci rapidamente. Foi de um momento para o outro. Tenho muito pêlos brancos na barba. Umas grandes olheiras que fazem a cara tombar e ficar macilenta. Umas peles descaídas no pescoço. E uma grande dificuldade em focar a minha imagem no espelho. Preciso de novos óculos.
Agarro do casaco e na mochila e saio de casa. Chamo o elevador. A luz de chamada começa a piscar. Está avariado. Gaita! Os dois.
Percorro o corredor até à porta das escadas. Entro naquele buraco onde raramente entrei. Está frio. Visto o casaco. Começo a descer. Os meus passos ecoam pelas escadas. Acho que até os meus pensamentos fazem ricochete nestas paredes frias. Olá! Olá! OLÁ!
Não. O eco dos meus pensamentos afinal é só na minha cabeça.
Vou a meio das escadas e vejo uma garrafa de água de Luso. Litro e meio. Já encetada. Uma caixa de pizza. Abro-a. Tem duas fatias. Frias. Ao canto, um saco-cama enrolado. Que é isto? Alguém anda a dormir aqui nas escadas.
Deixo tudo como estava. Desço o resto das escadas. Vou trabalhar.
Trabalho.
Almoço.
Trabalho.
Tenho uma discussão com um colega de trabalho. Eu tenho razão na discussão. O que eu defendo prevalece. O meu colega fica chateado. Ele que se foda!
Trabalho.
Restaurante take-away. Compro um risotto de cogumelos. Para duas pessoas.
Casa.
Eu janto.
Ela continua na cama. Agora não fala comigo. Acho que não fiz qualquer coisa que devia ter feito. Ou era ter dito? Já não sei.
Continuo a beber o vinho que comecei a beber no meu jantar solitário.
Sento-me frente à televisão. Faço horas. Faço horas para ir as escadas ver quem é que está lá a dormir.
Uma da manhã. Começa o noticiário da hora certa na SIC Notícias.
Levanto-me do sofá. Calço umas sapatilhas. Visto uma camisola. Saio de casa. Percorro o corredor até à porta das escadas. Abro sem fazer barulho. Desço as escadas em silêncio. Nem eu me ouço. Está tudo às escuras. Sigo agarrado ao corrimão. Cheira-me a frango assado. Ao chegar a meio das escadas noto uma luz muito ténue. Alguém está nas escadas. Alguém está nas escadas a comer frango assado. Ouço o mastigar. Aproximo-me. Devagar. A luz ténue agora é um bocadinho mais presente. E vejo que está alguém sentado num degrau das escadas. Sentado em cima do saco-cama. É um homem. É o meu vizinho de baixo. Que raio está aqui a fazer?
Chamo-o. Chamo por ele. Chamo pelo nome dele. Não muito alto para não o assustar. Mas não o impede de dar um salto. Assustei-o na mesma. Ele aponta a luz ténue de uma lanterna pequena de dínamo para mim. Reconhece-me. Diz o meu nome. Diz o meu nome com um ponto de exclamação no final. Pensa O que é que estás aqui a fazer? Penso O que é que estás aqui a fazer? Ambos pensamos o mesmo. Mas eu é que preciso de uma resposta. Agora pergunto sonoramente O que é que estás aqui a fazer?
Ele olha para mim. Se fosse mais novo, uma criança, mesmo um adolescente, diria que estava a fazer beicinho. Mas ele não. Ele não estaria a fazer beicinho. Ele está prestes a chorar. Ele sente-se apanhado no seu segredo. Mas faz um esforço para segurar as lágrimas. E diz Olá! Estás bom? Como se nos tivéssemos encontrado no elevador a caminho de uma festa.
O que é que se passa? pergunto.
Ele fica a olhar para mim em silêncio. À procura de um começo. Tipo Era uma vez… Mas aquela não era uma história dessas. Ele suspira. Tem uma garrafa de vinho tinto ao lado. Agarra nela e passa-ma para as mãos. Eu sento-me num degrau acima dele e bebo um gole de vinho.
E ele começa A minha mulher chateou-se comigo. Perdi o emprego. Perdi o emprego e ela chateou-se comigo. Saí de casa. Ela pôs-me fora de casa. Não sei para onde ir. Não tenho dinheiro para um hotel. Pedir aos amigos… nem falar! Não quero ter de dar explicações a ninguém. Estas que te estou a dar a ti. Não quero falar disto a ninguém. Tenho evitado toda a gente. Durmo aqui. Como aqui. Durante o dia vou para a rua. Vou para zonas da cidade onde não espero encontrar gente conhecida. Passeio pelas ruas. Sento-me nos bancos de jardim. Espero que o tempo passe. Espero que o tempo passe e tudo regresse. Espero que ela me chame de volta para casa. Espero que me telefonem para um trabalho. Espero que volte a ter um salário. Espero que possa voltar a tomar um duche de água quente. Espero voltar a dormir numa cama com colchão e um tecto por cima da cabeça…
Eu ouço. Não sei o que lhe dizer. Não posso levá-lo para casa. Não com ela assim. Não no estado em que ela está.
Agarro na garrafa de vinho e bebo mais um gole. Um gole bastante grande. Quero ficar entorpecido.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/15]