É Verão, Caralho!

Acordo com as portadas a baterem nas janelas. Viro-me para o outro lado da cama e tento voltar a adormecer. Mas penso que as portadas estão a bater com tanta força nas janelas que as podem quebrar. Mando o edredão para o fundo da cama e levanto-me maldisposto. Faço o corredor a refilar e saio pela porta da cozinha. Na rua está vento, um vento forte, e cai uma pequena chuva que mais parece cacimbo ou a maresia das manhãs de São Pedro de Moel. Estou longe de São Pedro de Moel. Estou nu e descalço. Volto atrás. Continuo a refilar. Visto uma camisola. Uns boxers. Calço uns chinelos. Volto à rua. Já há luz, mas ainda é de madrugada. Está um pouco de nevoeiro. Não vejo as montanhas. Não vejo grande coisa para além do meu próprio quintal. Dou a volta à casa e fecho as portadas das janelas. Depois penso que devia abri-las. Prendê-las, mas deixar as janelas abertas. Já há luz do dia, mesmo que de dia cinzento. Não tarda é manhã. Volto a dar a volta à casa a abrir as portadas das janelas e a prendê-las bem às paredes.
Entro em casa e descubro-me molhado.
Dispo-me e entro no duche. Tomo um banho rápido. Seco-me. Regresso à cama. Dou voltas. E voltas. E mais voltas. Já não consigo voltar a dormir. Estou desperto.
Levanto-me da cama. Estou outra vez nu e descalço, mas estou em casa. Volto à cozinha. Ligo a máquina do café.
Sento-me à mesa da cozinha à espera do café. Acendo um cigarro. Tenho à minha frente A Noite em que Gwen Stacy Morreu, de Gerry Conway e Gil Kane, a morte do primeiro amor de Peter Parker, o Homem-Aranha. Pego na novela gráfica mas não tenho coragem para ler. Não hoje. Não agora. Não quero mais angústia. Já ando angustiado que chegue.
A máquina do café faz barulho. Levanto-me para ir tirar um café. Olho para a rua e está a chover com mais intensidade. Penso É Verão, caralho! e suspiro.
Apago o cigarro no cinzeiro. Desligo a máquina do café sem ter tirado nenhum café. Agarro na novela gráfica do Homem-Aranha. Regresso ao quarto. À cama. Deito-me e tapo-me com o edredão. Deito-me agarrado à novela gráfica. Tenho um olho aberto e vejo a janela por uma nesga do edredão. Agora chove copiosamente. As portadas estão abertas mas presas. Não batem. Não fazem barulho. O único barulho agora, é da chuva a bater nos vidros das janelas de casa.
Sinto-me embalar ao som da chuva a cair. Sinto-me embalar no conforto da cama ao ouvir e ver a chuva a cair lá fora.
Fecho o olho aberto e viro-me na cama. Penso na Gwen. Acho que estou a ser puxado para dentro do sono. Não discuto. Não forço. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/27]

Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

O que É que Eu Hei-de Fazer?

Agarro-me ao espelho da casa-de-banho como se fosse a coisa mais importante do mundo. Passo-lhe a mão por cima para tirar o embaciado provocado pelo banho, mas não consigo grande coisa. A mão tira o embaciado mas cria um manto de centenas de gotinhas de água que tapam o espelho de igual forma. Pego na toalha das mãos e esfrego o espelho com ela. Melhor. Mas não está completamente limpo. Aproximo a cara. Vejo as olheiras. Os olhos amarelos. Os pêlos brancos da barba mal crescida. Vejo alguns pontos negros. Mas não os espremo. Vejo os lábios gretados. Os cantos da boca infectados não sei como nem porquê. Os dentes nunca foram muito brancos, mas estão cada vez mais cinzentos. É o tabaco. Devia fazer uma destartarização, penso.
Olho-me ao espelho e penso ainda As merdas que faço quando não estou a trabalhar.
Largo a cara. Vou à janela, nu, e deixo o frio deste Agosto em plenas alterações climáticas cortarem-me o corpo. Sinto um arrepio. E gosto.
Visto uns calções. Uma t-shirt. Calço uns chinelos.
Faço café na cafeteira. Gosto do cheiro do café de manhã. Mesmo que já seja quase meio-dia. E mesmo que o café seja uma merda cheia de chicória.
Bebo o café à janela.
Ainda há pessoas na rua, penso.
Eu estou em casa. A Estação de Serviço só funciona no dias pares. Duas horas por dia. Dois empregados de cada vez. E um grupo de fuzileiros para acalmar os clientes desesperados por gasolina.
Passo a maior parte do tempo em casa. Eu e muita gente.
Venho à janela. Olho a rua. Coço os tomates. Fumo um cigarro, enquanto tenho. Já não bebo vinho que se foi já todo. Ainda vou tendo este café.
Sento-me no sofá a fazer zapping. Não consigo ver um programa inteiro. A cabeça não consegue acalmar. Não me consigo sintonizar. Perco-me.
Estou preocupado. Mas não digo nada a ninguém para não gozarem comigo. Ninguém parece preocupado, porque haveria eu de ser o único?
Ponho as mãos nos bolsos dos calções. Apanho umas moedas. Tiro-as para fora e vejo quanto é. Olho para a rua. Vejo a pastelaria. Sorrio.
Saio de casa. Desço as escadas. Desço à rua. Vou à pastelaria. Está quase vazia. Há uma mesa com um grupo de quatro velhotas. Um bule de chá e quatro chávenas na mesa. A montra está um pouco menos que vazia. Dois pastéis de nata. Um russo. Uma broa de mel. Um pão de deus. É mesmo isso. Peço Um pão de deus, se faz favor. E a rapariga avisa-me, baixinho, É de ontem. Não faz mal, respondo. E a broa de mel. Corte-a em quatro. E leve ali aquelas senhoras.
Pago e vou embora antes que as velhas percebam e queiram agradecer e dar beijinhos e falar das famílias e dos filhos que não lhes ligam nenhuma e a reforma que não chega para nada A minha nem chega a meio do mês haveria de dizer uma delas e outra Tantos anos de trabalho para os outros, e agora isto e eu não queria chorar com a vida dos outros já me bastava a minha e tinha de fazer um esforço para me aguentar inteiro sem me desfazer na merda em que me sentia.
Entro em casa. Abro o pão de deus. Barro-lhe um pouco de manteiga. Corto-o ao meio. Guardo uma metade para mais tarde. Ou para amanhã. Sento-me a fazer zapping enquanto como. Apanho as migalhas que deixei cair na t-shirt e enfio-as na boca. Olho para os cigarros mas penso Tenho de os guardar.
Levanto-me. Vou à janela. Olho a rua. Volto para o sofá. Sento-me. Digo em voz alta O que é que eu hei-de fazer?
Descalço os chinelos. Deito-me no sofá. Suspiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/03]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

Cortes

Estou acordado. Estou deitado na cama, acordado. A casa está em silêncio. A casa está na escuridão. Não para mim. Tenho os olhos habituados ao escuro. A luz da noite que entra pelas janelas mal fechadas dá-me os contornos da casa. Do quarto. Da cama.
Olho para ela, deitada aqui ao meu lado. Olho para ela e vejo-a de olhos fechados. Dorme. Dorme encostada a mim. Os nossos corpos nus, quentes. O dela descansado no meu. O meu nervoso com ele próprio.
Não consigo dormir.
Olho o tecto. Um raio de luz cruza-o quase de lado-a-lado.
Estou ansioso. Tremo.
Tenho medo, mas não sei de quê. Só medo.
Olho para ela ao meu lado na cama. Está a dormir descansada.
Levanto-me devagar e em silêncio para não a acordar. Saio do quarto descalço. Nu. Cruzo a casa em silêncio. Cruzo a casa naquela quase obscuridade. Não preciso de luz. Os olhos estão habituados à escuridão. E conheço a casa de cor. Conheço cada parede. Cada esquina. Cada móvel.
Entro na cozinha. Vou à janela. Olho para fora. Há um pouco de luar. Vejo as árvores. As folhas mexem-se. Há uma pequena aragem. Nada de muito forte. A figueira ainda não deu figos. É muito cedo para os figos. Mas comia agora um figo da figueira. São doces, estes figos.
Há umas luzes a luzir ao longe. Há mais gente acordada. Há mais gente que não consegue dormir esta noite. Gente como eu. Talvez.
Abro uma gaveta. Agarro numa faca. Fico em pé sobre o lava-loiça. Respiro. Sinto a respiração. Ouço-me respirar. Depois forço a lâmina da faca sobre o meu braço. Corto. Corto carne. Corto-me. Sinto o sangue sair. Sinto o sangue escorrer pelo braço, como uma rede. Uma matriz. Sinto o sangue cair. Ouço os pingos no lava-loiça.
Suspiro.
Sinto um certo alívio. Uma libertação.
Mas ainda estou ansioso. Ainda sinto medo.
Acho que sinto medo de mim.
Abro a torneira do lava-loiça. Lavo a faca. Meto o braço cortado debaixo do fio de água que sai da torneira.
Gosto do frio da água. Gosto do frio da água a arder-me na carne.
Olho de novo lá para fora. As luzes ao fundo ainda estão acesas. O que é que estarão a fazer? Lá onde as luzes estão acesas?
Seco a faca num pano. Arrumo a faca na gaveta. Em silêncio. Puxo o braço para mim. Encosto-o ao peito.
Regresso ao quarto.
Deito-me na cama. Ela volta a encostar-se a mim. Eu olho para o tecto. Um raio de luz cruza-o de lado-a-lado.
Espero conseguir adormecer.
Estou cansado. Estou cansado e com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/09]

Acordado às Quatro da Manhã

Quatro da manhã.
Parece o início de uma música do António Manuel Ribeiro. Mas não é. São mesmo quatro da manhã. E eu estou acordado.
Não consigo pregar olho. Não sei porquê.
Viro-me para um lado. Viro-me para o outro. Suspiro. Acendo a luz. Bebo água. Se calhar devia beber uma aguardente.
Volto a deitar-me.
Ouço o vento lá fora. A chuva a bater leve nos vidros da janela. Os passos dos cães no soalho. Também não conseguem dormir. Andam aí pela casa à procura do sono. Espero que o encontrem. Dêem três voltas sobre si e enrolem-se em cima de um tapete.
Ligo o telemóvel. Vejo as notícias. Ainda não começou a guerra. Espero que consigamos chegar ao Verão. Gostava de mergulhar mais uma vez no Atlântico.
Daqui a nada tenho de me levantar. O melhor é já não adormecer, garantir que me levanto e mantenho certas as obrigações.
Volto a olhar para as notícias. Ainda não começou a guerra mas as coisas estão complicadas. Vai ser muito difícil chegar ao Verão. É melhor ir amanhã à praia. Ganhar coragem e ir ao mar. Se não, pode ser tarde demais.
Acho mesmo melhor ir já.
De qualquer forma não consigo dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]