Ensopado de Borrego Temperado com Racumin Forte

Ela matou-o com Racumin Forte que misturou no ensopado de borrego que lhe deu de almoço num Sábado. Farta de ser saco de pancada do marido, que lhe batia porque sim e porque não, já lhe tinha começado a bater pouco depois de terem casado, que o namoro fora curto que ela tinha pressa em sair de casa para não aturar mais o pai bêbado que batia, todos os dias, nos filhos e na mulher, sentiu que tinha chegado a altura de pôr fim a uma situação que lhe podia pôr fim a ela, agora que ele já não tinha mais tanta força nas mãos e lhe começara a bater com a fivela do cinto. Da última vez abrira-lhe um lenho na cabeça. Já não fazia queixa na GNR. Já não fazia queixa desde há muitos anos. Desde que lá fora, quase no início, e a mandaram voltar para casa com paciência. Talvez ele mudasse com o tempo, com a idade. Talvez fosse ela a causadora das arrelias do marido. Talvez fosse o demónio. Talvez fosse bom falar com o padre. Nunca falou.
Depois habituara-se. Não se habituam todas? Havia o medo de ficar sozinha. Naquela idade o que é que iria fazer da vida? Sem dinheiro? Sem casa (a casa era dele, como tudo o que lá estava dentro, como ela, que ela também era dele, era tudo dele)? Sem filhos, que os filhos tinham-se posto a andar assim que puderam Desculpa lá, mãe! mas não podemos ir aí! Estamos a trabalhar! As viagens de regresso aí a casa são caras! Não temos condições para vires para cá!, o que é que lhe restava senão levar nos cornos e aguentar como as outras aguentavam? Sim, que ela não era a única. Às vezes punha-se a pensar se a culpa não seria dela. Talvez fizesse ou dissesse algumas coisas que não deveria fazer ou dizer. Talvez.
Eu via-a às vezes na aldeia. Cruzava-me com ela à entrada do minimercado. Às vezes ela tinha um olho roxo, um braço ao peito, um penso rápido à volta dos dedos. Toda a gente sabia. Eu também sabia. Mas o que é que havíamos de fazer?
Ela fez.
Comprou Racumin Forte e misturou-o no ensopado de borrego que ele até rapava o molho do prato com pedaços de pão. Depois foi para a fazenda cavar o que ele andava lá a cavar, coisas de pequeno agricultor com parcelas de terreno onde cultivava algumas coisas para consumo próprio e uns poucos excedentes que levava para vender no minimercado, mas à socapa que não passava recibo. Quem é que aqui dos velhos pode passar recibo de meia-dúzia de produtos que vendem e lhes rende não mais que meia-dúzia de tostões? E ainda querem receber impostos sobre estas misérias.
Então ele foi lá para o terreno e foi lá que o encontraram. Estava caído sobre o terreno cavado. Um terreno que tinha estado a cavar para semear alguma coisa. O que é que se semeava naquela altura? Ou será plantar? Ele estava caído, com a cara enfiada num vómito. Aliás, havia vários despejos de vomitado à volta, como se ele tivesse andado a tentar desfazer-se do veneno que lhe consumia o estômago. Um inferno que lhe ardia por dentro. A camisa rasgada. Os dedos rígidos. Cravados como os dentes de uma forquilha.
Depois de ser encontrado, a guarda foi logo a casa da mulher e levou-a sob custódia. O pretexto foi a segurança da própria mulher. Por causa da vizinhança. Por causa da família do marido. Por causa de qualquer outra coisa que não souberam bem explicar quando a foram buscar.
Mais tarde houve quem a ouvisse dizer que agora ela sentia-se mais calma. Muito mais calma que durante todos aqueles anos a viver ao lado do marido à espera de quando viria a próxima surra. Que já não tinha mais medo. Nem dele, nem de ficar sozinha. Que na cadeia haveria mais mulheres como ela. Mulheres partidas mas que já não seriam mais quebradas. Pelo menos, não mais do que eram, do que estavam.
Ela já não voltou mais a casa. A casa continua aí, vazia, triste, abandonada. Nem os filhos voltaram. Nem a casa nem à terra. Quem é que quer saber disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/21]

O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]