Um Fantasma Caminha pela Cidade em Tempos de Emergência

Caminho pelo passeio irregular de calçada portuguesa. Quando era criança caminhava só pelas pedras azuis, fazia as curvas com ângulos de noventa graus e às vezes, a minha mãe tinha de esperar por mim ao fundo da rua que as pedras azuis afastavam-me dela, do trajecto dela, e depois era o cargo dos trabalhos para regressar ao regaço familiar sem pisar nas pedras brancas. Agora ignoro as linhas, os desenhos, as cores das pedras. Agora caminho a direito ao longo do passeio indiferente aos desenhos marcados na calçada.
Caminho numa cidade quase-fantasma. Não há mais ninguém a caminhar na rua. Algumas lojas estão fechadas. Outras estão abertas. Mas estão vazias. Não há clientes. Vejo, através das montras, um solitário atrás do balcão à espera do improvável cliente para um qualquer produto não-essencial. Caminho sozinho pelo passeio, mas há mais carros na estrada, parece-me. Sinto o cheiro do combustível queimado. Não é normal sentir este cheiro. Talvez eu esteja demasiado sensível. Talvez o cheiro esteja mais forte. Talvez haja mais carros na cidade. Talvez se queime mais combustível. Talvez seja as profundezas da cidade em ebulição.
Passo ao lado da garagem dos autocarros. A enorme porta de ferro pintada de azul celeste está corrida. Não há autocarros a partir dali. Talvez passem pela cidade a caminho de outros destinos mais distantes e mais importantes. Talvez passem pela cidade e larguem algum passageiro. Talvez levem outro. Mas daqui não sai nenhum autocarro. A cidade é pequena. Não tem importância política e muito menos económica. Ninguém vem para esta cidade. Só eu.
O tempo está cinzento. Não está frio, também não está calor, mas está desagradável. Sinto um desconforto desde que cheguei à cidade. Como se alguma coisa se abatesse sobre mim. Mas eu tive sorte. A mim vieram trazer-me. Eu estava fora e trouxeram-me. Livraram-me de uma viagem de autocarro, provavelmente cheio, cheio de gente que não saberia de onde vinha, com quem teriam estado e se transportariam algum inferno dentro deles.
Páro um pouco na rua e olho os prédios em frente, do outro lado da estrada. Há gente nas casas. Mas não há gente nas varandas. Como se estivessem escondidos. Com medo. Acendo um cigarro. Retomo o caminho. Penso no Harrison Ford de cigarro ao canto da boca (se calhar não havia cigarro) e gabardina de três quartos, gola levantada a proteger o pescoço da chuva miudinha que teima em cair, a caminhar ao longo de uma rua de neons e fumo que sai de vários sítios e ampliam aquela imagem de herói-anti-herói rebelde do Blade Runner, que por vezes se mistura com as sombras que o devoram, e sinto-me como ele, de casaco curto e de corte mais clássico, cigarro nos dedos da mão a caminhar ao longo de uma rua deserta à luz de um dia cinzento. Não, eu nunca poderia ser um Rick Deckard. Não sei caminhar daquela forma como se dominasse o mundo e o fosse devorar. Eu encolho-me a um simples aviso de alerta. Eu evito entrar em autocarros que possam vir cheios e contaminados. Eu sou um medricas que só não é cobarde porque nem tem coragem para o ser.
Ouço um som melodioso. Um som de piano que vem lá da frente. Aproximo-me e o som aproxima-se de mim. É uma melodia bastante agradável. Suave. Parece pegar em mim e levantar-me no ar e, por momentos, pareço flutuar. Aproximo-me do largo do Teatro e vejo um homem sentado a um piano de cauda a tocar. Não há ninguém ao pé dele. Está sozinho. Ele e o seu piano. E as notas que produzem em conjunto. Sinto-me como uma personagem de uma leve comédia-romântica. Agora vejo algumas caras coladas aos vidros das janelas das casas a olhar para o homem. Não sei porque é que ele está ali. Não sei porque é que ele está ali a tocar piano, mas sinto-me agradado com o encontro, com aquela surpresa, e páro por momentos ao pé dele a vê-lo e ouvi-lo enquanto acabo de fumar o cigarro. Belisco-me para perceber se estou acordado e magoo-me. Não importa. Penso como às vezes a vida pode ser tão bonita. Sempre gostei do som de piano. Gostava de ter aprendido música. Gostava de saber tocar guitarra. Gostava de saber tocar piano. Gostava de saber tocar com as baquetas numa bateria e produzir um som agradável, ritmado. Mas sou uma nulidade sem par. Não tenho jeito para a música. Não sei cantar. Tenho uma voz de merda e nem no coro da igreja me quiseram. Aguentaram-me dois dias. Ao fim do segundo dia disseram-me para não voltar no dia seguinte. Foi aí que decidi jogar andebol. Também não fui grande coisa, mas fui um pouco melhor.
Gosto muito de ouvir o som de um piano. E a cidade ganha outra dimensão. Ganhou pulsão nas suas artérias, mesmo que vazias de almas. Até parece que as nuvens se abriram aos raios de sol, mas é mentira. O cinzento do céu mantém-se. Eu é que, por momentos, fiquei um pouco mais feliz. Por momentos esqueci os tempos difíceis que vivemos e senti um fogo no peito, um fogo que me aqueceu e me deu alento.
O alento comigo é sempre sol de pouca duração.
Largo a beata no chão, aos meus pés. Deixo o pianista inundar as ruas da cidade com as suas notas melodiosas e entro no Pingo Doce lá mesmo ao lado. E fico parado à entrada. Eu só ia comprar umas carcaças e um pacote de manteiga e há toda uma multidão de gente no que parece um happening com vários carrinhos-de-supermercado cheios até cima, a abarrotar com o que me parecem ser pacotes de papel-higiénico, garrafões de água, latas de conserva e frescos. Parece que se anunciou o fim-do-mundo e há que fazer uma festa. Que é o que está a acontecer ali, nas filas para as caixas do supermercado. As pessoas conversam. Riem. Mantém uma certa distância entre elas, mas comunicam e, em certa medida, divertem-se. Talvez tentem iludir-se. Ou sou eu que estou iludido.
Saio por onde entrei. Não tenho paciência para esperar sobreviver aquele mar de gente e confusão. Eu não me sinto alegre como eles, mesmo que o piano no largo do Teatro me tenha deixado bem disposto.
Saio para a rua. Acendo novo cigarro. Penso que as ruas da cidade estão desertas porque está toda a gente nos supermercados a comprar tudo o que podem para se fecharem em casa e esperar pela salvação.
Há um café mais à frente. Vou até lá. Espreito pela montra. Também tem muita gente, mas menos que o supermercado. Fico à entrada a acabar o cigarro. Depois entro. Vou ao balcão. Descubro que têm pão. Compro três carcaças. Compro mais três rissóis de camarão. Peço um café mas depressa descubro que vem queimado e fico logo com azia. Penso que tenho Kompensan em casa. Ao mesmo tempo descubro um pastel-de-nata queimado a sorrir para mim. E digo-me que dias-não-são-dias. A rapariga que está ao balcão percebe-me e sorri. Coloca-me o pastel-de-nata à frente. E um frasquinho de canela. Agradeço com um Obrigado! que é mais gesticulado pelos lábios que audível. Ouço uma senhora ao meu lado perguntar se o café vai fechar e o dono dizer que não. Que tem de trabalhar. Que não sabe nada de política. Que a política dele é o trabalho. Que tem a família para sustentar. Que tem doze pessoas a dependerem do trabalho dele. Que não tem medo do medo. E eu como o pastel-de-nata, acabo de beber o café queimado, pego no saco de papel com as carcaças e os rissóis, pago tudo e saio do café.
Na rua olho para o caminho que vou ter de percorrer até casa e vejo-o deserto. Não entendo por onde é que caminham todas estas pessoas que estão ali no café e as que  estavam no supermercado. Não caminham pelas ruas, isso é uma certeza. Pelas ruas caminho eu. Sozinho. E pergunto-me se não serei eu um fantasma.
Se não for para casa quem dará pela minha falta?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/13]

O Advogado

Ainda o autocarro não tinha saído de Sete Rios, já o tipo se anunciava ao mundo. Sim, era advogado, mas estava sem farda. Já era entradote e não estava de fato, o que complicou um pouco o imaginário. O meu imaginário. Sim, eu sei, as coisas já não são como eram. O mundo é outro. As pessoas evoluíram e os estereótipos são redutores, além de serem estúpidos e preconceituosos. Pronto, mas eu sou um tipo um bocado estúpido e cheio de estereótipos que me ajudam a balizar o mundo. Preciso de me manter em equilíbrio. O homem usava umas calças de sarja, salmão (quem é que usa umas calças salmão?). Calçava umas botas de pele, de meio-cano, com atacadores e fecho atrás, no calcanhar, umas botas daquelas com furinhos em forma de cornucópias na biqueira e de um castanho-amarelado quase-Camel. Na parte de cima, e por baixo de um anoraque cinzento, daqueles muito barulhentos que orquestram o ar a cada movimento, vestia um pulôver vermelho. Talvez tivesse uma camisa, não sei, mas não consegui ver por baixo do cachecol às riscas, em vários tons cinza, que tinha enrolado à volta do pescoço. Aquelas cores, muito próximas e, no entanto, tão diferentes, criavam assim uma espécie de ton-sur-ton bizarro e louco, demasiado colorido para alguém que se queria advogado, isto segundo as minhas leis pré-estabelecidas sobre a ordem do mundo, e antes de ser jogado para outra dimensão.
Então, ainda o autocarro estava em Sete Rios, o advogado dizia, num tom de voz jorrado do palco sobre a plateia, que estava a conduzir, tinha parado para uma mijinha (palavra dele), estava a ver o processo pelo WhatsApp enquanto bebia um cafezinho, mas que aquele tipo de assunto merecia ser visto num computador, com ecrã grande, que o deixasse pensar, o que iria fazer assim que chegasse ao escritório.
Eu estava zangado com a algazarra ao telemóvel, mas não deixei de sorrir à mentira gritada frente a tantas testemunhas. E pensei, É mesmo advogado?
O tipo estava sentado ao meu lado, no outro lado da coxia central. Cofiava a barba de três-dias, grisalha. Acenava com a cabeça como se o interlocutor o estivesse a ver. Mas aquela não era uma vídeo-chamada. Despediu-se com um Com certeza! e desligou a chamada.
À nossa volta, minha e dele, uma série de passageiros, quase todos com ar de estudantes universitários, todos agarrados a computadores e tablets e umas meninas, bastante coloridas nas roupas e na decoração, que falavam baixinho entre si e passaram o tempo todo a escrever nos telemóveis com dedos encimados com unhas-de-gel que faziam tec-tec-tec no ecrã, estavam em trânsito de uma cidade para outra.
Pensei no que esta gente fazia com os computadores e com os tablets porque não havia internet no autocarro. O wireless é uma miragem mais prometida que oferecida. Estava tudo morto. Só o telemóvel do advogado continuava a apitar.
Gritava para se fazer ouvir do outro lado. Está?, perguntava. Não era nenhum constituinte. Era a mulher. Sim, claro que a mulher sabia que ele ia de autocarro. E sim, sabia que tinha de o ir buscar. E sim, ainda tinha tempo para fazer o que precisava de fazer. Ele ainda estava em Lisboa, dizia quando se aproximava já de Loures, mas ainda não tinha passado a portagem. Eu não ouvia a mulher. Mas ouvia-o a ele e percebia-a a ela.
O autocarro não ia cheio. Qualquer coisa para cima de meio. Mas quem ouvisse o homem, julgaria que o autocarro estava vazio e que se tinha transformado em escritório de advogado que trabalhava por WhatsApp, embora o computador fosse melhor para analisar alguns casos.
E à mulher ainda disse Sim, querida, vamos jantar… O que tu quiseres… Pode ser uma sopinha. Ainda estou cheio do almoço, vê lá tu.
Depois uns beijinhos enviados em rapidez e, finalmente, desligou.
Fez-se um silêncio que me pareceu estranho. Já me tinha habituado.
Mas logo ouvi Oh, foda-se! quando o advogado percebeu que o wireless do autocarro não estava a funcionar. Olhou em volta para ver se alguém tinha internet, mas tal como eu não deve ter percebido nada. Toda a gente que se avistava estava a fazer coisas nos computadores, nos tablets ou nos telemóveis. Eu vi isto pelo canto do olho.
O silêncio não durou muito tempo. O telemóvel começou a tocar uma música clássica muito alto. O homem foi apanhado de surpresa. Vejo-lhe os dedos a tocarem no ecrã. Está aflito. Devia estar a fazer alguma coisa no WhatsApp, fora surpreendido com a música de chamada e não estava a conseguir responder à situação.
Finalmente consegue atender o telefone. Troca o barulho da música por um português que balança o samba. Percebo que fala com alguém brasileiro. O seu português ganha as curvas musicais adocicadas do hemisfério sul. E diz Não pude fazer a transferência porque o seu IBAN só tem 20 números e o nossos tem 21. O ATM não aceitou a transferência. Veja lá isso.
Sim, pensei eu, veja lá isso e dê-me tempo.
Depois desculpa-se e diz que tem outra chamada. Atende a outra chamada. Fica mais alegre. Ouço-o dizer O bom que há aqui é que não há ninguém no meio. Estou directamente com a empresa. Isto é cinquenta por cento para cada lado. Exactamente. Ok? Um abraço.
Quando era mais novo, não novo de adolescente, mas ainda jovem, conseguia dormir em qualquer lado e em quaisquer condições. Sentava-me sobre o cóccix, os joelhos presos nas costas do banco da frente, deixava-me embalar pelos solavancos do autocarro e passava pelas brasas. Recuperava forças. Dormitava um pouco e, quando chegava ao destino, estava pronto para o que o destino me quisesse aprontar. Agora era mais difícil. Estou maior. Mais gordo. O espaço entre os bancos encolheu, não encontro conforto e já não consigo dormir em andamento. Mesmo ler qualquer coisa provoca-me vómitos. Mas gosto de ir sossegado. A pensar com os meus botões sobre as vicissitudes da minha vida.
Mas aquele advogado ali ao lado, aquele advogado-actor que parecia estar em cima de um palco a falar para a última fila da plateia, estava a dar comigo em doido. E foi assim até ao destino.
Ao chegar ao destino, o advogado ansioso já em pé durante as manobras de estacionamento do autocarro, voltou a receber uma chamada telefónica do brasileiro do IBAN. Dizia que estava no ónibus e não podia tratar de nada. Agora não posso tratar de nada, dizia. Estou no ónibus. Amanhã, dizia. Mas tem de arranjar alguém com uma conta portuguesa com um IBAN de 21 espaços para 21 números. Veja lá. Amanhã… Amanhã…
E enquanto descia as escadas da porta traseira do autocarro, e eu atrás dele, o advogado continuava a dizer Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, como um final de peça, Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, quase até ao limite da audição. Amanhã… Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2020/01/28]

O Primeiro Natal

Era o primeiro Natal depois da morte do meu pai. E toda a gente estava empenhada em ajudar a minha mãe a ultrapassar essa ausência da melhor maneira possível.
Família que eu nunca vira. Alguns amigos, não assim tão chegados. Vizinhos solitários. Toda esta gente resolveu passar a noite da consoada lá em casa.
E eu percebi que iria cair tudo em cima de mim. Previ a catarse geral. O choro compulsivo. O rasgar das vestes (havia algumas tias mais dadas a excentricidades). O tecer de elogios de quem nunca tinha privado com ele. A amizade de quem nunca o ajudou quando ele mais precisou. Enfim. Não são assim as pessoas? Distantes na miséria mas simpáticas e condoídas depois das desgraças fúnebres? Depois de morrer, toda a gente era a melhor gente do mundo.
Eu estava empenhado em que nada daquilo se passasse. Queria a minha mãe distante de tudo. Queria que a ausência não fosse mais que uma ausência.
Não me meti na organização da festa de Natal e deixei que as pessoas fizessem como bem entendessem. Deixei tudo nas mãos experientes das damas da família com muitos natais nas mãos. Escolheram a ementa. Fizeram divisão de tarefas. Arranjaram mealheiro colectivo e não me pediram dinheiro.
O meu único contributo para a noite da consoada foi pôr a mesa de Natal, sem lugar para o meu pai, assim decidi, para não aumentar o tamanho da ausência. Assumi a cabeceira. A minha mãe ao meu lado. O resto, distribuído por afinidades ou falta delas para não criar ansiedades nem desgostos. Há sempre quem aproveite o Natal para criar expectativas. Pelo menos nos meus natais tem sido assim.
E, depois, uma pequena surpresa. A confecção de uns pequenos e saborosos bolos. Uns pequenos e saborosos bolos de haxixe. E fiz umas miniaturas para as crianças, sem haxixe.
No início da noite andei a oferecer bolinhos a toda a gente. Ninguém se negou comê-los. E eu insistia em ficar por lá até os ver comer tudo, até à última migalha. E foi o que aconteceu. Não sobrou uma migalha. Até a minha mãe comeu. Fui elogiado. Eu e os bolinhos.
O jantar foi devorado.
Ninguém foi à Missa do Galo.
A noite foi passada a discutir a hipótese, plausível, de Jesus Cristo ser um extra-terrestre de Alfa-Centauro. Ainda se referiu a Atlântida e a Ilha de Mü. As estátuas gigantes da Ilha da Páscoa e os astronautas nas Linhas de Nazca.
Acabou toda a gente a dormir lá por casa. Qualquer canto era uma boa cama. Andei a distribuir cobertores e almofadas. Descalcei quase toda a gente. Havia quem tivesse as meias rotas. E logo os tios mais ricos. São sempre os mais miseráveis.
Na manhã seguinte saí cedo com a criançada toda até ao parque infantil no jardim da cidade. E deixei a casa, em silêncio, a curtir a ressaca do Natal.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/23]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

A Minha Vizinha da Rua

Conhecia-a desde miúdo. Éramos vizinhos de rua. Quando comecei a sair de casa sozinho para ir à escola, já ela por lá andava. Era mais velha que eu. Bem mais velha. Cruzava-me muitas vezes com ela na rua. Para cima e para baixo. Quando um ia para cima, o outro ia para baixo. Eu a fazer entregas para o meu pai. A fazer recados à minha mãe. Ela a passear, sapatinho de salto alto, saia travada, uma blusa com os botões estrategicamente abertos à frente a chamar a atenção para os peitos altivos, e uma malinha de mão a dar-a-dar. Eu corria aos apartamentos das velhas a levar as mercearias que o meu pai me mandava entregar. Mas não deixava de olhar para ela. Dava nas vistas. Nas minhas. E eu parava na rua para olhar. Chamava-me a atenção. Mesmo quando não a via. Sabia-a escondida. Escondida em vãos-de-escada, esquinas esconsas e estaleiros a aliviar o nervosismo dos serventes que andavam a prolongar a rua. Todos os meses nasciam casas novas na rua. Todos os meses a rua crescia. Todos os meses vinha mais gente viver para a rua. Todos os meses crescia o meu número de amigos. Todos os meses tínhamos de refazer as equipas para jogar à bola. E via-a sempre. A ela. A ela via-a todos os dias. A andar para cima e para baixo na rua. E quando não a via, sabia onde estava. A ajudar ao crescimento da rua. Todos temos o nosso papel.
Nunca falámos um com o outro. Ela chegou a meter-se comigo quando eu já era mais crescido. Mas foi um fogacho. Fogo-fátuo. Uma espécie de beijo lançado, provocador, à distância. Um olhar convidativo. Uma língua a surgir, malandra, entre os lábios red velvet. Um rodopio ao cruzar-se comigo para me apreciar, para se mostrar. Mas não passou disso. Nunca falámos. Nunca lhe disse Olá! Bom-dia! És bonita! E era. Era bonita. Era bem bonita.
Quando saí da rua deixei de a ver. Mesmo quando regressava, de passagem, a casa dos meus pais, procurava-a com o olhar. Ia até ao fim da rua, que já tinha marcado os seus limites, já não crescia mais do que aquilo, já não havia estaleiros nem serventes, embora continuassem a abundar as esquinas esconsas e os vãos-de-escada de uma arquitectura urbana que não tem em conta a vivência das pessoas que habitam aquelas casas, aqueles bairros, aquelas esquinas, mas não a via.
Ia até ao fundo da rua e voltava. Procurava-a. Não a via. Nunca mais a vi. Cheguei a pensar que tivesse ido embora para outro lado. Para outra cidade. Que tivesse largado aquela vida. Que tivesse arranjado marido e saído dali. Imaginei-a rodeada de filhos, numa vivenda com cerca branca e um labrador. Também cheguei a pensar que tivesse morrido.
Foi assim, grande, a minha surpresa, quando a vi no Correio da Manhã. Era a fotografia de uma mulher muito velha, disforme, com uma cara escavada pela vida. Mas reconheci-a logo. Era ela. A minha vizinha da rua. A notícia falava da sua morte, à paulada, para lhe roubarem uns poucos euros. Era de madrugada e ela andava para cima e para baixo numa outra rua, num bairro não muito longe do nosso, com a malinha a dar-a-dar, até que foi abordada por um miúdo. Um miúdo que a assaltou. Um miúdo que a matou. Um miúdo que está, agora, a ser procurado pela polícia.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/14]

A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]

Um Lobo na Montanha

Estou na montanha. Vim tirar fotografias à montanha e perdi a noção das horas. A noite começou a cair e eu fui apanhado de surpresa. Ainda há quinze minutos havia sol. Ainda há quinze minutos estava a tirar uma fotografia a uma ventoinha eólica, daquelas que inundaram o horizonte das Serras d’Aire e dos Candeeiros, em contraluz e, agora, já quase não vejo onde ponho os pés.
A Lua já nasceu, mas está sem grande brilho. Não me parece haver nevoeiro, mas não vejo estrelas no céu. A Lua parece baça. Não é das lentes. Estou sem óculos. Só uso óculos para ler. Quando tiro fotografias não uso óculos. Não me deixa aproximar do visor da câmara. Já me magoei várias vezes no nariz por me esquecer que estava com óculos e aproximava o visor da cara e batia com os óculos na câmara e no nariz. Deixei de usar óculos a fotografar.
Vejo as luzes das aldeias lá em baixo a tremer. Lá ao fundo deve ser Porto de Mós. Há muitas luzes. É o sítio onde há mais luz. Deve ser mesmo Porto de Mós. É para ali que devo ir. Tenho de tomar cuidado. Para não me perder. Para não cair nalguma ribanceira. Nalgum buraco. Para não tropeçar.
Tenho as pernas cansadas. Trouxe botas para a montanha. Por causa das pedras. Da bicharada. Se chovesse. Não choveu. Mas agora custa-me caminhar com o peso das botas nos pés. Mas é a descer. E a descer, todos os santos ajudam.
Ouço um barulho. Um pequeno barulho. O que será?
Páro. Suspendo a respiração. Não faço nenhum barulho. Dedico toda a atenção ao som que, acho, estou a ouvir.
Sinto o coração a bater muito depressa. Estou ansioso. Pode ser um animal.
Aproximo-me de um declive. Parece um grito. Talvez um choro. Vem lá de baixo. Deixo-me deslizar devagar. As botas não deslizam bem. Acabo por ir aos tropeções. Tenho a câmara nas mãos. Mas não caio.
Ouço um grito. Mais parece um gritinho. O som é muito baixo. Mas vem dali. Parece um arbusto. Ao fundo, as luzes de uma pequena aldeia. Não sei que terra é essa. Lá mais ao fundo é Porto de Mós, com certeza.
Espera!… O que é aquilo?…
Um lobo! Parece um lobo. Parece um lobo, ao lado do arbusto. O lobo arreganha-me os dentes. Mas afasta-se. Afasta-se lentamente do arbusto.
Quero fugir!
Tento começar a andar para trás. Subir o pequeno declive. Mas ouço. Ouço nitidamente. Há um choro. Um choro pequenino e abafado, vindo do arbusto. Estou indeciso. Olho para o lobo. Disparo o flash da câmara. O lobo encandeia-se. Ladra. Ladra-me. Mas afasta-se. Arreganha-me os dentes. Rosna. Mas afasta-se. Como se quisesse que eu fosse ao arbusto.
E eu vou.
Aproximo-me devagar. Estou a tremer de medo. Tenho frio. Estou a transpirar. Não deixo de olhar para o lobo. Afasto uns ramos. E vejo. Um bebé. Um bebé a mexer os braços e as pernas. Está uma mantinha aberta à volta do bebé. Deve estar com frio. Agarro no bebé. Na mantinha. Dei as costas ao lobo. Esqueci-me dele. Quando me viro, com o bebé ao colo e enrolado na mantinha, descubro-o. Páro. Ele já não rosna. Já não me mostra os dentes. Tem o rabo entre as pernas e afasta-se de mim. Vai olhando para trás à medida em que se afasta.
Eu tenho o bebé ao colo. E a câmara na mão. Subo o declive. Devagar. Vejo as luzes de Porto de Mós lá em baixo. E começo a dirigir-me para lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/03]