O Ensaio do Corso

Comprei tremoços e pevides. Um euro de cada. Comprei às senhoras do Sítio. Aquelas senhoras de Sete Saias que me tratam por Querido. São muito simpáticas essas senhoras. As pevides não são tão boas como as da Senhora das Pevides de São Pedro de Moel.
Sentei-me na esplanada altaneira. A beber uma imperial. A comer os tremoços. A descascar as pevides. A ver o ensaio do corso a passar lá em baixo, na marginal.
Havia muita gente apanhada desprevenida e de carro preso nos ensaios da multidão mascarada para o entrudo. Porque isto do ensaio era treta. Na verdade é um quase-cortejo só com menos espectadores nos passeios e mais carros de populares presos entre as bailarinas e os carros alegóricos.
As bailarinas estão muito vestidas, este ano.
Eu via tudo aqui de cima. Aqui do balcão da esplanada do Sítio.
A imperial fresquinha escorria garganta abaixo.
As pevides enfiavam-se nos buracos dos dentes partidos. Tinha que lá ir com o dedo, enfiar a unha, e libertar a massa produzida pelo mastigar na boca.
O sol batia-me com força na cabeça. Não tinha trazido chapéu. Devia ter trazido.
Fechei os olhos. Embalei-me.
Comecei a ouvir o som ambiente muito distante. O corso já não estava na marginal da Nazaré, mas em São Martinho do Porto. A Nazaré inteira estava em São Martinho do Porto. Distante. Para lá do horizonte.
Pensei Devia ter posto uma máquina a lavar roupa.
Pensei Tenho de fazer a cama de lavado. Gosto do cheiro de alfazema dos lençóis lavados de fresco. Acho que é de alfazema, o cheiro do amaciador, não é? Olha, não me lembro! Já não me lembro do que lá tenho. Mas deve ser isso. Alfazema. Se não é de alfazema é de outra coisa qualquer e eu gosto do cheiro na mesmo porque é o cheiro de lavado. Gosto do cheiro a lavado. Gosto quando ela sai do banho. Gosto de a beijar quando ela sai do banho. O cheiro do champô. Do sabonete de ervas. Gosto de lhe cheirar o corpo quando ela sai do banho e ainda vem a pingar gotas de água. E eu pego numa toalha e seco-lhe o corpo. Aos poucos. Sem esfregar. Suavemente. Como um mata-borrão a secar a tinta da caneta. E limpo os pingos que escorrem pelas pernas. Pelo peito.
Estou a ficar excitado. É este sol.
Abri os olhos. O sol continuava lá em cima. Mas o lá em cima agora era um pouco mais em baixo.
O horizonte tinha desaparecido. Uma nuvem compacta tinha-se formado em toda a volta. Vinha desde as rochas do Forte e continuava para a esquerda, formando uma pequena baía de neblina. Depois entrava pelo vale nas traseiras da Nazaré e já só lhe via o coruto por cima da colina.
Despertei.
O corso ainda estava lá por baixo
Pensei Hoje há Festival da Canção. Hoje é o dia da Surma. Hoje quero ver.
Pensei É melhor ir embora.
Olhei para o mar. Estava com forte ondulação e a rebentar com força na praia. Mas ainda era de dia. E estava calor. Mesmo se se aproximava o nevoeiro.
Pensei Vou beber outra imperial. E levantei o braço.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/23]

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O Tiago Baptista Pendurado numa Parede

Hoje encontrei o Tiago Baptista pendurado numa parede do CCB.
Fui empurrado para fora da cama pelo sol madrugador. Estava sol e calor. Pegaram-me pela orelha e fizeram-me ir.
E disseram Come! e eu comi.
E depois disseram Bebe! e eu bebi.
E ainda disseram Fuma! e eu fumei. Não, é mentira. Não foi preciso que me mandassem fumar para eu puxar de um cigarro e inundar os pulmões daquele prazer acre e mal cheiroso.
Depois de fumar, ao ar livre como convém para não chatear os outros, entrei. Entrei lá dentro.
E vi.
Vi o Tiago Baptista pendurado numa parede.
O homem estava em tronco nu. O corpo torneado, mas não plástico. Era o corpo de um homem, não de um modelo. O corpo era de um homem. Tinha uma lança na mão. No braço levantado em posição de ataque.
Sentei-me no chão. No meio da sala. Sentei-me e esperei. Deixei que saíssem todas pessoas que conversavam alto e à galhofa e esperei. Queria ver o homem mandar a lança. Queria ver qual era o alvo. Quem era o alvo! Esperei. Esperei. Mas o homem não mandou a lança. O homem fugiu. Vi-o fugir, mais pequenino, em silhueta, a correr e deixar para trás a tela gigante. Mais tarde percebi. Percebi quando vi a boca a cuspir as palavras de Samuel Beckett. A boca gigante na tela. A projectar as palavras de Beckett. E o homem fugiu. E nunca mais o vi.
Ainda perguntei por ele à Sara. E ao André. Encolheram os ombros. Ninguém viu para onde é que o homem tinha fugido
Mais tarde acabei por ver o Gonçalo Pena no meio de uma suruba. A placa avisava para a susceptibilidade de algumas peças. Pilas. Ratas. Gente nua. Sexo. A Nan Goldin a mostrar as suas tragédias. Os seus olhos inchados. Negros.
Teria uma coisa a ver com a outra?
Fui beber um café. Fumar um cigarro.
Vi que a Surma ia lá tocar.
Ficou frio.
A luz caiu.
Vim-me embora.
Ainda estou a pensar no homem. Com umas nuvens carregadas num céu azul. Uma lança na mão. O homem em tronco nu. De calças de ganga. Descalço. A sentir a terra nos pés. E olhos vendados. Agora é que me lembro. O homem tem os olhos vendados. E, depois…
E depois já estou em casa. A comer uns ovos mexidos com alheira de caça. E a beber um vinho alentejano.
Tenho um prato e um copo na mesa. À espera do homem. Se ele resolver passar por aqui. (Eu já tive o Homem com Cara de Cu pendurado na parede, mas ficou numa das curvas da minha vida).
Mas o homem, o homem será sempre bem-vindo.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/02]

Quantas Vezes Temos de Perder as Nossas Vidas?

Este espaço era para falar da minha paixão pela Surma depois de ouvir Antwerpen e depois dos vários, não muitos admito, concertos que vi. Só que, entretanto, aconteceu Domingo. E São Pedro de Moel. Desculpa, Débora.

Fui alertado por amigos do que estava acontecer no Pinhal do Rei. Um braseiro. São Pedro de Moel estava cercado pelas chamas. Ninguém podia sair. A primeira preocupação foi a família. Ao descobrir todos bem, veio o amargo pelo que estava acontecer a um sítio que já foi, para mim (e sempre será nas minhas memórias) uma espécie de quintal das traseiras onde vivi uma parte muito importante da minha vida. Um quintal cheio, vivido, silencioso…

Ao mesmo tempo acabei por descobrir que São Pedro de Moel não era caso único. O mesmo estava a acontecer um pouco por todo o país, do Tejo para cima. E descobri o horror. Mais de 500 fogos activos ao mesmo tempo. Ainda não consigo processar a coincidência. É demasiado certinho para ser natural.

A fúria, logo seguida da frustração, não tardou a chegar. Os canais de notícias mantiveram, até demasiado tarde, as suas emissões normais. Quando passaram aos directos, foram em busca do circo, da imagem de encher o olho, da emoção, da morte. A informação concreta do que se estava a passar e onde e como e porquê e como sobreviver em certas zonas e o que fazer e as necessidades e toda a informação relevante e útil acabou por chegar pelos meios de comunicação regionais e, acima de tudo, pelas tão mal tratadas redes sociais.

Ainda não refeitos de Pedrogão Grande, o inferno voltou a consumir-nos. E não aprendemos nada. Quantas vezes temos de perder as nossas vidas para perceber? As beatas lançadas do carros, as queimadas, os plásticos largados no chão… Não me interessa demissões de ministros. Nada tenho contra a compra de submarinos, que um dia podem ainda vir a ser úteis. Mas é necessário que se priorizem as prioridades. Onde estão os guardas-florestais? A limpeza das matas? O controle da industria da eucalipto? As nomeações por mérito e responsabilidade? É necessário que quem coordena saiba coordenar. E que quem investiga, investigue. E que quem julga, julgue. Mas não só politicamente. Estamos a falar de negócios, de negócios de milhões que se fazem à custa da morte, da madeira queimada, dos eucaliptos, dos terrenos, dos helicópteros e aviões, da reconstrução, do reordenamento, da alteração de políticas e, acima de tudo, do poder que se exerce.

Segunda-feira o ar estava irrespirável em Leiria. Seguramente muito pior na Marinha Grande, em São Pedro de Moel e noutros pontos críticos do país. Descubro que o Pinhal do Rei desapareceu. E quem me trata da bronquite?

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/10/19]