Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

Ninguém

Ela puxou a porta do carro e entalou-me os dedos. Doeu-me. Não me doeu muito porque a porta tem borrachas. Mas a violência do gesto ao fechar a porta fez-me gritar, mais do susto do que realmente de dor.
Tirei a mão. Ela olhou-me com os olhos semi-serrados. Senti-me fuzilado. Estaria a maldizer-me, claro. Eu coloquei a mão magoada debaixo do sovaco. Não sei porquê. Talvez porque sentia que ali estava protegida e faria diminuir a dor que, afinal, não tinha.
Vai à merda!, disse ela baixinho para mim, enquanto ligava o carro e arrancava estrada fora. E eu a vê-la partir. Podia ter-me partido a mão, pensei. Podia ter-me partido os dedos, continuei. Estava a precisar de mimo. Alguém que me dissesse Pronto, já passa.
Ninguém.
Olhei à volta. A estrada com carros. O passeio com pessoas. As lojas a funcionar, iluminadas, fantasiadas de alegria e boa disposição, antecipavam o Natal.
Ninguém.
Acendi um cigarro. Olhei novamente à volta. Vi um café do outro lado da rua. Fumei o cigarro ali, enquanto continuava a olhar à volta à procura de alguém.
Ninguém.
Porque raio é que ela faz estas merdas?, perguntava-me. Mais para ter assunto. Já sabia o que a casa gastava. Ela era assim. Eu era assim. Éramos os dois assim. Terminou assim. Podia ter terminado pior.
Acabei o cigarro. Cruzei a estrada. Entrei no café. Fui à casa-de-banho. Olhei-me ao espelho. Abri a torneira e lavei a cara com as mãos. Olhei a mão magoada. Voltei a olhar-me ao espelho. Tinha os olhos encovados. Não era bem olheiras. Era o contrário de olheiras. Os papos estavam para dentro. Molhei outra vez a cara. Abri a boca. Tinha as gengivas sensíveis. Um pouco inchadas. Pus água na boca e bochechei. Cuspi. Cuspi sangue. Olhei-me de novo ao espelho. As gengivas pareciam feridas. Estavam um bocado escuras. Toquei nos dentes. Abanavam. Mas não me doíam. Ando a comer muito pão, lembro-me de ter pensado. Ultimamente tenho comido pão com manteiga ao almoço e ao jantar. Molhei de novo a cara. Limpei-a a uma folha de papel. Era rijo, o papel. Não limpou muito, não absorveu nada e magoou-me. Ando muito sensível.
Eu e mais ninguém.
Fui ao balcão. Encostei-me. Uma rapariga, do lado de dentro, chegou-se ao pé de mim e pôs-se a olhar. À espera. À espera que eu pedisse o que queria pedir.
Eu não sabia bem o que queria. Que raio queria? Um café? Uma cerveja? Um Martinito? Um Favaios? E depois pensei que podia estar com escorbuto e disse Um sumo de laranja natural, se faz favor.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/12]

Melancolia Outonal

Estava no café a tomar o pequeno-almoço. Depenicava uma meia-torrada e bebia um sumo de laranja natural, enquanto lia um livro. Andava de volta do Knausgård. No Outono parecia-me um bom título para a época. E o facto de serem crónicas, tornava-o uma boa companhia ao pequeno-almoço.
Estava portanto a ler enquanto ia trincando a torrada quando ouvi a porta da rua a abrir e, instintivamente, levantei os olhos. E vi-a. E ela viu-me. E depois já era tarde para voltar para trás. Mas notei aquela breve hesitação entro-não-entro, que durou nano-partes de um segundo, mas que percebi, e resolveu entrar. Veio directa a mim e disse Olá! Tudo bem? Estou com pressa, ali assim em pé, frente a mim, que fiquei com a torrada na mão a encharcar-me os dedos de manteiga. Fez um aceno baixo com a mão, como uma pequena e breve despedida, e foi até ao balcão.
Não esteve lá muito tempo. Aproveitou o facto do empregado estar atarefado com outros clientes para fingir pressa e não poder esperar. Deu meia-volta e, ao passar por mim deitou Estou com pressa. Não posso esperar. Beijinhos, enquanto passava por mim rápida. E eu, de torrada ainda suspensa na mão, com a manteiga derretida a cair para o prato, vi-a a sair porta fora e ir embora.
Coloquei a torrada no prato. Limpei os dedos. Agarrei no livro para voltar à leitura, mas não consegui. Não conseguia concentrar-me. Fechei o livro. Levantei-me. Bebi o resto do sumo em pé, larguei uma nota de cinco euros e saí.
Na rua olhei à minha volta, como a tentar perceber para onde deveria ir quando voltei a vê-la. Ela estava do outro lado da estrada, junto ao poste de sinalização, e parecia estática. Estava a olhar para o chão. Virou-se para um lado, depois para o outro. Parecia em luta consigo própria sobre para onde deveria ir. Pensei em ir ter com ela. Pensei seriamente em ir ter com ela. Ainda ensaiei um arranque, quando finalmente ela olhou para cima, levou a mão à cara, esfregou-a, e seguiu para um dos lados.
Eu fiquei ali, à saída do café, a vê-la perder-se no meio da multidão até se tornar numa pequeno ponto e depois desaparecer.
Encostei-me à parede do café a olhar o vazio lá para onde ela desapareceu e pensei O Outono deixa-me melancólico. Porque é que não fui ter com ela?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/06]