O Homem Insignificante

Se eu fosse escritor e escrevesse um romance, contaria a história de um homem banal. Um homem banal como eu. Um homem cuja ausência de uma história é já de si motivo de ser de uma história.
Seria então a história de um sujeito banal. Na casa dos quarenta, casado, pai de dois filhos, amante, casa nos subúrbios de uma cidade de média dimensão, um cão, um gato, festas sexuais com a vizinhança aos fins-de-semana, sócio do Benfica, votante ora no PS ora no PSD, quando vota, algumas das vezes não vota porque prefere a praia com a mulher ou a amante, um trabalho insignificante mas de onde consegue retirar um salário confortável ou pelo menos o suficiente para ter um carro de cinco portas, de preferência francês mas a ambicionar um alemão, um SUV para a mulher, quinze dias de férias em Julho no Algarve numa casa alugada no interior a ver o mar lá ao fundo e a desejar ir até Varadero, jogging ao fim do dia porque é mais barato que o ginásio e assinante da Netflix que acaba por nunca ver porque nunca tem tempo para nada que não seja o trabalho e a amante, mas os filhos agradecem.
Este homem teria um passado sem história. Aluno mediano, algumas namoradas mas nada muito sério, alguns amigos dos tempos de infância, tão insignificantes quanto ele, frequentara o ensino superior num curso sem grandes saídas profissionais e que o chutou para um trabalho indiferente, nunca foi muito de ler, nem jornais, só A Bola e quase só à Segunda-feira, quando jovem ainda jogara andebol, futebol na rua com os amigos e tardes de King nas férias e aos fins-de-semana na adolescência.
Sem passado e sem presente digno de nota, tudo apontaria para um futuro igualmente anódino.
Mas é aqui, a caminho do futuro, que este homem sem história ganharia uma. Num acaso do destino.
Este homem de repente descobriria que tinha uma voz. Uma voz que seria ouvida. Tudo começaria nuns posts zangados no Facebook. Uns posts a destilar fel que teriam repercussões. Algumas respostas. Aplausos. O homem descobrir-se-ia igual a muitos outros homens iguais a ele. Homens insignificantes. Muitos homens insignificantes, cansados de o serem e de serem tratados como tal. A sua voz começaria a ser reproduzida por todo o lado. Lançar-se-ia o apelo ao homem insignificante. Seria levado em ombros. A revolta da insignificância. E, todos juntos, começariam a berrar alto, cada vez mais alto, a fazerem-se ouvir, a fazerem-se ouvir cada vez mais, e os posts do homem começariam a ganhar contornos teóricos, desejos, ideias, ensaios. De repente seria toda uma teoria política.
O homem deixaria o anonimato. Seria convidado discursar sobre as suas ideias nas suas palavras simples e certeiras. Encontraria eco por todo o lado. Afinal, são muitos os homens insignificantes que se reveriam nele. Seria convidado a ir a eleições defender as suas ideias. E ganharia essas eleições. Todos os homens insignificantes juntos descobririam ser muitos homens. E todos eles juntos chegariam ao poder.
Então, o homem insignificante, sem nenhuma história digna de se contar num romance, chegaria ao poder e iniciaria, assim, aquela que seria a sua história. A história de um romance.
Essa história seria para contar num segundo romance. Isto se eu fosse escritor e escrevesse este primeiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/13]

Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

Um Espirro num Autocarro Expresso Cheio de Gente

Em plena e dramática expansão do Covid-19, tomo, como é normal em mim, mais uma decisão repentina e absurda e apanho o autocarro expresso, mas que pára duas vezes em pouco mais de cem quilómetros, para a cidade grande em horário nobre, o que quer dizer que vai cheio e cheio de estudantes e de sacos de estudantes com roupa lavada e passada a ferro pela mamã e tupperwares com comida congelada que a mãe foi guardando ao longa da semana para o petiz não morrer de fome lá longe e parar de deixar as calças escorregarem pelo rabo abaixo e mostrar os boxers Intimissimi de tanta magreza, de hormonas aos saltos e à galhofa nos bancos traseiros, onde eu costumo esconder-me das multidões, lá está, e a contar anedotas de cariz sexual-badalhoco a que todos eles respondem com sonoras gargalhadas, algumas temperadas com expectoração solta na garganta e fungadelas profundas e profundamente sonoras e penso que estas camionetas já não abrem os vidros das janelas e os miúdos não costumam usar lenços de papel como não usam guarda-chuvas nem desodorizante e enterro-me na minha cadeira, que é sempre pequena, sempre muito mais pequena que eu, e por isso o enterrar é metafórico, e rezo para que a viagem se faça como no tempo d’A Gente do Amanhã, que colocavam as mãos na fivela do cinto (que era um tele-transportador) e desmaterializavam-se num lado para se materializarem noutro, quase instantaneamente, como num piscar de olhos, e é por isso que não fico preocupado quando ouço as preocupações dos jornalistas da ciência com os Exo-Planetas que ficam sempre longe, para cima de 100 anos-luz de distância, os mais próximos, e eu sei que a grande revolução da humanidade vai ser a viagem à velocidade da luz primeiro, depois a utilização de portais e, finalmente, e por último, o transporte-instantâneo.
De repente, um espirro.
Foda-se!
A odisseia começou antes. Podia ter comprado o bilhete por uma aplicação digital. Não comprei. Mas não comprometi nada. Ou quase. Não havia fila para a aquisição de bilhete, o que acabou por ser rápido e ainda pude escolher o lugar, que mais tarde percebi ter sido escolha errada, devia ter deixado funcionar a aleatoriedade. Com isto fui mais cedo. Mais cedo para a garagem central das camionetas. Meia-hora em pé à espera por um autocarro que atrasou mais de dez minutos, esperei de pé que os bancos de madeira estão enfiados numas reentrâncias na parede e é, de todo, e por isso, impossível algum ser-humano sentar-se e encostar as costas ao espaldar dos bancos. Uma vez tentei e ia partindo a nuca. Acho que as dores-de-cabeça que tenho hoje em dia começaram aí. Aguentei estoico o frio da corrente-de-ar que se passeia pela garagem velha, suja e decadente, onde um homem fustiga, desde madrugada, os ouvidos do povo com os berros para um microfone que explode nas colunas roufenhas que informam os cidadãos das camionetas em jogo, em que pista estão, para que destino irão partir e a que horas. Aguento estoico encostado ao pilar de mosaicos a que falta já mais de metade deles e os que restam estão pintados como se de uma mera parede de estuque se tratasse e noto que as camadas de tinta são já tantas que não há pintura que lhe restitua a dignidade. Ufa!
Entretanto assisto ao êxodo da juventude dos subúrbios e das aldeias dos arredores. Descem de camionetas que parecem gastar mais óleo que gasóleo. É uma fumarada dentro da garagem que me entoxica mais que o Português Suave sem Filtro que fumava nos meus anos da Faculdade de Letras. Os miúdos partem em magotes para as escolas. Para as várias escolas da cidade. Vêm de manga curta e de fato-de-treino. Sinto um arrepio nas costas. Não é assim que nos constipamos?
Finalmente o meu autocarro. Tem o símbolo do wi-fi na porta. Mas, lá dentro, é mentira. Ainda pergunto ao motorista Não há wi-fi? Ao que ele responde Está ligado!, e ficamos assim. Regresso ao meu lugar e tento enterrar-me no meu lugar (é agora o momento metafórico em que me enterro num banco que é pequeno demais para mim e para qualquer um dos miúdos que vai ali à minha volta). As únicas pessoas que cabem naqueles bancos e naqueles espaços são as velhotas que vão, invariavelmente, nos bancos da frente, a olharem muito compenetradas, o caminho por onde o condutor as leva.
Lá fora o tempo está cinzento. Chove um pouco. Não muito. Nem dá para dizer que choveu. Na verdade é só mais um preciosismo meu para que a viagem não termine já.
E então lembro-me: um espirro!
Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/04]

Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão espremido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

El Eternauta

Chego a Buenos Aires. Estou de rastos. Cansado. Foi uma viagem longa e não consigo dormir no avião. Não consigo dormir com tanta gente desconhecida à minha volta. Nem consigo ir à casa-de-banho. Sinto-me desconfortável. Vi filmes. Ouvi música. Tentei ler um livro mas não consegui concentrar-me. Há sempre um ciciar de uma voz. Um pigarrear do catarro. Todos aqueles barulhinhos parecem ampliar dentro de mim tiram-me a atenção e desconcentram-me.
Coloco a máscara cirúrgica na cara. Estamos no auge do H1N1. Não quero arranjar problemas. Os aeroportos são grandes propagadores de gripe. De doenças transmissoras. Protejo-me. Não estou em casa e tenho de ter cuidado. Mas não gosto de andar com isto na cara.
Saio do avião. Recupero a mala. Apanho uma fila enorme para passar a fronteira e entrar no país. Depois vejo que há uma outra fila para mim. Mais pequena. Que anda rápido. Para cidadãos da União Europeia. Dou graças. Sinto-me um privilegiado. Mostro o passaporte. Sigo. Olho para trás. Para os outros em passo de caracol. Sou europeu. Tenho privilégios. Sinto-me bem. E, ao mesmo tempo, sinto-me mal. Estou cansado.
Peço um Táxi na ilha à saída do edifício do aeroporto.
Aí vou eu. Estrada fora.
Quilómetros e quilómetros a voar por cima das casas. Os subúrbios de Buenos Aires estão aos meus pés. Só vejo telhados. Terraços nos telhados. A ponta de arranha-céus. Estou nas nuvens. Numa auto-estrada que nunca mais acaba. Acima das casas.
Há quanto tempo estou na estrada?
Vejo muito trânsito parado lá mais à frente. Houve um acidente. Ou qualquer outra coisa esquisita. Há fogo. Há fumo da estrada. Mas o motorista parece não abrandar. Vamos a grande velocidade. O trânsito está parado. Há gente a fugir por todo o lado. Há gente a lançar-se dos viadutos abaixo. Estou assustado. Começo a gritar. Chego-me à frente no banco. Tento tocar no motorista. Alertá-lo. Ele não me liga. Continua a acelerar estrada fora. Como se a estrada estivesse livre. Eu grito. Salto para o banco da frente. Agarro no volante. O motorista ignora-me. Continua na sua corrida imparável. Dou-lhe dois murros. Mas ele nem pestanejou. Acho que nem me sentiu. Puxo o travão de mão. Puxo o travão de mão do carro com força. O carro bloqueia as rodas e começa a deslizar. Flui de lado. O motorista larga o volante. Deixa-o rodar à vontade. A carro vai livre. Eu estou em pânico. Agarro-me ao volante e tento bloqueá-lo, não sei bem para quê. Porque acho que é o que devo fazer. Aproximamos-nos dos carros parados a arder na auto-estrada. Mas o carro desliza por conta própria. Vai por onde quer. Leva de arrasto algumas pessoas. E vai direito aos rails de protecção. Vai a toda a velocidade. Bate nas protecções, quebra-as e voa. Faz-se silêncio, como no cinema. Só ouço a minha respiração. O carro voa por cima das casas dos subúrbios de Buenos Aires. Olho para baixo e só vejo telhas. Telhas vermelhas. Telhas laranjas. Um telhado verde. Terraços. O carro voa. Começa a perder velocidade. Até que pára. Pára no ar. Está uns micro-segundos parado do ar. E eu antecipo a queda. Ouço-me a respirar. Recomeça o som. O som dos caos. E ele cai. Cai do céu sobre Buenos Aires.
E eu acordo. Acordo na parte de trás do Táxi. O motorista debruçado sobre o banco. Está a olhar para mim. E diz, San Telmo.
Eu estou estremunhado. Arranco a máscara cirúrgica da cara. Tento falar, mas tenho a boca seca. Mastigo um pouco. Engulo em seco. Crio saliva. E consigo balbuciar, Bárbaro!
Fico aqui. Algures em San Telmo. Tenho uma morada no bolso das calças mas esqueci-me de a mostrar ao motorista do Táxi. Estou aqui e não sei que aqui é este. Estou ao pé de uma Bomba de Gasolina. Uma Bomba de Gasolina entre prédios. Não estou mesmo na Europa. Estou na Rua do Chile.
Ao lado da Bomba de Gasolina há um quiosque de jornais. Aproximo-me e vejo, pendurado, um livro que procuro há uma eternidade, El Eternauta.
Estou em San Telmo. Não sei para onde ir. Preciso de ajuda. E já comprei uma banda-desenhada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/21]