O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

A Morte da Lampreia

Tenho o copo vazio. Tenho sempre o copo vazio à minha frente. A primeira coisa que faço quando me enchem o copo, é esvaziá-lo. E depois fica por ali assim, vazio. Até ser novamente cheio e eu o despejar logo de seguida. A aguardente não fica a fazer nada no copo.
Não sei quantos estão por aqui. Só ao balcão, como eu, somos três. É este agora o nosso posto de trabalho. Sentados ao balcão a beber umas aguardentes e esquecer a merda de vida que temos.
Ontem à noite comecei a queimar as primeiras tábuas do barco. Para quê o barco? Há dois anos que não vou ao rio. Ninguém daqui quer a lampreia do Tejo. Dizem que está contaminada. E têm razão. Esta espuma que agora se vê nos telejornais não é de hoje. Nem de ontem. Já começou há uns anos. Mas ninguém quer saber. Quando o rio chega à capital, já ninguém quer saber da espuma que não vê.
Já chegámos a ser mais de sessenta. Mais de sessenta na apanha da lampreia. Vinha gente de todo o país para a comer. Dava gosto ver chegar toda essa gente elegante de fora, nos seus carros grandes e lavadinhos. Agora, a única coisa que vem de fora é a lampreia. Trazem-na de França, parece. Mas são muito poucos os que vêm agora cá para a comer. Não é tão boa como a nossa. Não é, não.
O que é que fazemos agora, sem o trabalho? O subsídio já acabou. Alguns de nós vamos fazendo uns biscates. Mas também não há grande coisa para fazer por aqui. A morte da lampreia foi também a morte de muita actividade aqui da zona. Isto agora tende tudo a morrer.
Hoje, quando chegar a casa, vou voltar a queimar madeira do barco para aquecer a casa. Para aquecer a mulher e os miúdos, coitados. Que passam um frio de rachar. Não há dinheiro. Não há trabalho. Mas há sempre uns espertos que nos olham de lado. Que nos olham de lado e nos dizem Vai trabalhar, pá. Se calhar é algum dos directores das celuloses que nos matou a lampreia. Têm descaramento para isso, lá isso têm.
Às vezes fico contente que aqui não seja como na América. Porque se eu tivesse uma arma, limpava o sebo a uma série de gajos. Principalmente aqueles que trazem o rei na barriga e que julgam que tudo é deles, fazem as merdas que fazem e nada lhes acontece. Ai, acontecia, acontecia.
Mas somos mansos. Somos todos mansos, nós. Não queremos chatices. Mais facilmente morremos de fome, nós e os nossos, do que queremos arranjar chatices com essa gente cheia de advogados e leis e razões.
Entretanto, Ouve lá, fia-me aqui mais um copo, vá lá. Amanhã venho cá arranjar-te a caldeira, pá.
E pronto, mais um copo esvaziado.
E hoje joga quem? E dará nesta televisão aqui do café? Não me apetece ir para casa. Não quero encarar a mulher. Nem os miúdos. Um homem que não leva o sustento para casa não consegue encarar a mulher. Que porra de vida. Tanto caminho palmilhado para isto?

[escrito directamente no facebook em 2018/02727]