Acordar com o Cão a Ladrar

Acordei com ela a abanar-me. Estava a dormir e fui acordado com os abanões que ela me dava. E dizia Acorda! Acorda! O cão está a ladrar. Anda aí gente.
E eu despertei. Levantei-me rápido da cama e mantive-me assim por momentos, quieto e em silêncio, a tentar filtrar o som da rua de todos os ruídos da casa. Ouvia realmente o cão a ladrar. Aquele ladrar quando quer chamar a atenção para algo que não devia estar onde está.
Tentei apurar melhor a audição. Ouvir para além do ladrar do cão. Ouvi algumas lajes a ceder a peso. Mas podiam ser os gatos. Podia mesmo ser o cão. Talvez algum sardão. Ou um coelho. Nesta altura há muitos coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal.
Fiquei mais um pouco à escuta. Depois ouvi o que me pareceu o corpo de uma pessoa a estalar. Como quando nos espreguiçamos e esticamos o corpo e os ossos cedem e estalam e parece que nos estamos a partir. Era o que me parecia.
Levantei-me da cama. Estava nu. Estou sempre nu. Mas, se realmente andava por ali alguém, era melhor não ir nu. Vesti os boxers que estavam caídos na poltrona. Saí do quarto. Fiz o corredor até à cozinha. Fui à despensa e agarrei num cabo de vassoura, sem vassoura, que guardei para um momento como este. Cheguei-me às janelas da cozinha e olhei lá para fora. Não via nada de anormal. Estava escuro. O luar iluminava um pouco. Dava para ver alguma coisa, mas não dava para ver muito. O quintal tinha muitas zonas na penumbra. A penumbra podia esconder muita coisa. Pessoas.
O cão continuava a ladrar. Mas não via o cão. Não via ninguém.
Ela chegou à cozinha. Colocou a mão sobre o meu corpo nu e senti um calafrio. Ela perguntou Então?
E eu olhei para ela. Olhei para ela e percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. E disse Espera aí! Eu vivo sozinho.
Despertei. Despertei na cama. Despertei a ouvir o cão a ladrar. Levantei-me e sentei-me. Olhei para o outro lado da cama e estava vazio. Fiquei ali quieto e em silêncio a ouvir o cão a ladrar. A tentar ouvir para além do cão a ladrar. Devia andar por lá gente. Ou algum animal.
Ouvi as lajes a cederem ao peso de alguma coisa. Mas podiam ser os gatos. Ou até mesmo o cão. Se calhar algum sardão. Talvez um coelho selvagem que eles andam agora por aí que nem doidos.
Apurei a audição. Tentei esquecer o ladrar do cão. Pareceu-me ouvir o corpo de uma pessoa a espreguiçar-se.
Levantei-me da cama. Estava nu e descalço. Vesti os boxers. Fiz o corredor às escuras até à cozinha. Fui à despensa buscar o cabo de uma vassoura e cheguei-me a uma das janelas. Olhei lá para fora. Nada. Havia um pouco de luar, não muito forte, mas o suficiente para ver o exterior. Nada. Fui para a outra janela. O mesmo. Havia zonas na penumbra que não conseguia ver. Tentei aguçar o olhar. Mas continuava igual. Não via nada. Nem via o cão que continuava a ladrar. Nem via os gatos. Onde é que andariam os gatos? Fui à última janela. A piscina estava vazia. O pouco luar permitia-me ver a água da piscina a ondular com a pequena aragem que se fazia sentir. Mas não estava ninguém na piscina nem à volta dela.
E então lembrei-me Eu não tenho piscina! Foda-se! Eu não tenho piscina!
Despertei. Despertei na cama. Despertei com o cabrão do cão a ladrar lá fora, no quintal.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/02]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

Às Vezes, Sim… Mas Só Mesmo às Vezes

Às vezes esqueço-me. Às vezes penso que ela ainda está lá, aqui, aqui ao meu lado, aqui no alpendre onde me sento a beber um copo de vinho tinto e a fumar um cigarro enquanto olho as montanhas lá ao fundo, e viro-me para o lado, para o lado onde estaria a segunda cadeira que já cá não está, que eu tirei-a e arrumei-a na arrecadação, viro-me para o lado e pergunto São bonitas as montanhas, não são?
Descubro-me ali sozinho. Afinal estou sozinho. Sempre sozinho. Ela partiu já há muito tempo. Quase o tempo que levo aqui a olhar as montanhas, aqui do alpendre. Dávamos os mãos, cada um com o seu copo de vinho, partilhávamos um charro e olhávamos as montanhas. E ela dizia Temos de lá ir fazer umas fotografias. E eu dizia Sim, sim, um dia destes vamos lá, e nunca fomos. Eu já lá fui. Já lá fui tirar umas fotografias que até já me valeram um prémio. Mas fui lá sozinho. Fui depois dela já ter partido. Fui lá já depois daquele estúpido mergulho no Vale Furado. Porque quis ir à praia? Porque a incentivei a ir à praia? Porque insisti em que descêssemos aquele penhasco íngreme até à areia, até ao mar, até lá baixo ao fundo, ao fundo do Vale Furado? Porque é que mergulhei? Porque é que a deixei mergulhar?
Às vezes esqueço-me que estou sozinho e cozinho a mais. Sempre a mais. Vou enchendo tupperwares que vou depositando na arca-congeladora na arrecadação. Às vezes lembro-me que tenho lá comida já feita e vou buscá-la. Deixo-a a descongelar de um dia para o outro e depois aqueço-a no micro-ondas.
Ponho a mesa para dois. Mudo a fronha da almofada dela na cama. A escova dos dentes, ressequida, ainda está lá pelo copo em cima do lavatório. E o secador com o cabo ligado à ficha da casa-de-banho. Eu nunca usei secador. Continuo a não usar.
Às vezes vou fazer um gin tónico e faço dois. Acabo a beber os dois, é claro. Nada se perde.
Mas não estou maluquinho. Nem parei no tempo. No tempo em que ela estava aqui sentada ao meu lado, aqui onde olhávamos as montanhas lá ao fundo, aqui onde víamos os jogos do Benfica, aqui onde líamos os jornais e as revistas que ela ia buscar à aldeia, e que eu nunca mais fui buscar. Se calhar ainda estão por lá. Se calhar tenho uma grande conta para pagar na tabacaria. Eu sei que ela morreu. Eu sei que ela não vai voltar. Mas as coisas são assim. Mas não me chateio. Nem fico triste. Talvez um pouco melancólico, às vezes.
Às vezes lembro-me de uma anedota, eu que nunca me lembro de anedotas, não tenho jeito nenhum para as guardar e muito menos para as contar, às vezes lembro-me de uma, assim do nada, e conto alto para ela, para ela ouvir a anedota, e às vezes até a ouço rir, mas sei que não é ela, ela não está cá e é tudo fruto da minha imaginação.
A primeira vez que estive com uma mulher depois dela, a primeira vez que trouxe uma mulher cá a casa, ela sentou-se ao meu lado na cama, sorriu-me e disse Não há problema. Eu vou ficar aqui a ver. Mas houve problema. Não consegui estar ali com outra mulher a sentir-me observado por ela. Levantei-me da cama. Disse à mulher Desculpa, já venho! e fui fazer dois gins tónicos. Fui até ao alpendre e dei um gole num deles. O outro era para ela. E depois deixei-os lá.
Voltei para o quarto. Ela não regressou comigo. As coisas acabaram por correr bem. Correr bem! Acabaram por correr bem no limite do possível.
Quando me levantei, mais tarde, quando regressei ao alpendre, descobri os copos vazios. Mas desconfio dos gatos. Eles bebem tudo.
Às vezes sinto o corpo cansado. Deito-me na cama e digo Dá-me uma massagem, por favor. E ela dá. Ou, pelo menos, assim me parece. E sinto o corpo a relaxar. Como agora. Continua, vá. Com um pouco mais de força. Não tenhas medo. Sim, assim.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/31]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

Em Processo de Desconfinamento sem Grande Efeito

Acabei de fumar o cigarro e deitei-o fora. Inspirei longamente o ar fresco da rua e sorri. Coloquei a máscara na cara. Presa entre o nariz e o queixo e nas duas orelhas. Entrei no prédio da minha mãe. Ia buscá-la para darmos uma volta ao quarteirão. Andava em processo de desconfinamento.
Entrei em casa e procurei-a. Na cozinha. Na sala. Fui descobri-la no quarto. Deitada na cama. Chamei-a Mãe! ela abriu os olhos e deu um berro. E gritou Vade retro, Satanás! Sou eu, mãe! acalmei-a. A máscara!, lembrei-me. Estou de máscara de tecido preta na cara. Tirei a máscara e voltei a dizer Sou eu, mãe! Vês? E ela acalmou, mas vi o medo ainda nos seus olhos.
De pé sobre a cama, sobre ela, pergunto O que é que fazes aí deitada? e recebo logo a resposta automática Estava com os pés frios e vi-me deitar. Estava a chover. A televisão não estava a dar nada de jeito. O que é que estava ali a fazer, ao frio? A tremer de frio? Com os pés gelados?
Sento-me na cama, longe dela, mas perto o suficiente para não ter de gritar. E pergunto-lhe Mas não íamos sair? E ela logo responde Sair? Com esta chuva? Com este frio? Quem é que quer sair com este tempo?
E eu digo-lhe Precisas de sair, mãe. Quase dois meses fechada em casa, precisas de ir à rua. Mas ela não desarma. Primeiro não queres que eu saia. Agora queres que saia. Ninguém te entende. Vê lá se atinas de uma vez. Ou é para ficar em casa ou é para sair. Não vou cansar-me a vestir para ficar cá por casa. Ou para ir dar uma simples volta ao quarteirão. Já vais dizer que não posso ir ao café. Que o café só serve café e é para ir a beber na rua e com a mala e a bengala não consigo agarrar o copo de plástico que ainda por cima vai queimar-me a mão. Nem posso lanchar. Nem bater-papo com ninguém. Dizes que não posso ir ao supermercado porque não posso andar lá a mexer em nada porque há muita gente a pôr a mão em tudo onde se pode pôr a mão. Já nem sei por onde andam os velhos com quem conversava. Não me vou vestir só para ir ao talho, porque dizes que ao talho eu posso ir contigo, mas para ir contigo, vais lá tu sozinho. Não é que eu não goste de sair contigo, porque gosto, mas estar a vestir-me só para dar uma volta aqui à volta dos prédios, sem poder entrar em lado nenhum, nem sentar-me numa esplanada a lanchar e a beber um Compal e a ver as pessoas a passar, se é que já há pessoas a passar, que eu da varanda aqui de casa continuo sem ver muita gente, e depois vir logo para casa e ter de me despir toda outra vez, não. Nã!… Não vale a pena. E além do mais preciso de ir primeiro à cabeleireira que este cabelo está uma miséria e não vou assim para a rua, nem tu queres que eu vá assim para a rua, não é?
Eu percebi que a pergunta era retórica. Na verdade não estava à espera que eu respondesse, mas aproveitei a deixa para lhe dizer Oh, mãe, olha que o cabeleireiro agora é só por marcação. Queres que marque? E tens de ir com máscara. Tenho uma para ti. E tiro a máscara de uma pequeno saco de plástico, uma máscara de tecido, como a minha, e mostro-lha e ela olha para mim e olha para a máscara e volta a olhar para mim e diz Deves estar doido! e volta a deitar-se na cama. Ainda disse Está uma lista de compras na mesa da cozinha. Põe a máscara na cara e vai lá ao supermercado, vá!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/11]

O que É que Ele Queria Dizer com Aquilo?

O que é que ele queria dizer com aquilo?
Não consigo deixar de pensar no que ele me disse mas, não sei o que é que ele queria dizer com o que disse.
Agora já é tarde demais para saber, não é?
São três da manhã. Está um grande luar. Parece quase manhã. Se eu desligar os faróis do carro, continuo a ver bem a estrada. Olha! Olha aqui!
Parece que é a maior Lua do ano. Superlua, dizem. Os tipos que sabem destas coisas.
Mas o que é que ele queria dizer com aquilo?
Tenho de me despachar. Não tarda é de dia. Agora também parece dia, não parece? Um dia um bocado cinzento, mas dia, não é? Pára com isso, pá. Pára de falar contigo próprio como se estivesses a falar com outro. Pára com isso antes que fiques maluquinho.
Tenho de me despachar. Já são três da manhã e ainda tenho uns valentes quilómetros até chegar a Castelo de Bode. Ainda tenho de descobrir um bote. Acartar o corpo até ao bote. Arranjar umas pedras pesadas. Remar até ao meio da barragem. Voltar para o carro. Voltar para casa. Limpar o carro. Tomar banho. Lavar a roupa.
Mas que raio é que ele queria dizer com aquilo?
Este luar é tão forte que quase dá para bronzear.
Que raio de conversa a minha. Atina, vá. Acalma-te. Estás na estrada. Põe-te atento. Olha para a frente. Tem atenção aos outros carros.
Um cigarro. Preciso de um cigarro. Agarro no maço. Tiro um cigarro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões. Acalmo. Descontraio.
Estou sozinho na estrada. É de madrugada. Já são três e meia da manhã. Está luar. Aproximo-me da barragem de Castelo de Bode.
Luzes à frente, na estrada. A polícia. Merda.
Páro o carro. Volto para trás. Viro na próxima à esquerda. Talvez não me tenham visto. Acelero. Porra, as luzes vêm atrás de mim. A polícia vem atrás de mim.
Carrego no acelerador. Deito o resto do cigarro aceso pela janela. Agarro o volante com as duas mãos. Faço as reduções, para as curvas, sem abrandar a velocidade. Eles estão a aproximar-se. Não os posso deixar apanharem-me. Não no carro. Não com ele no carro.
Viro à direita ali, na aldeia. Volto para trás. Esqueço a barragem de Castelo de Bode. Vou para outro lado. Talvez para o mar. Mas não tenho barco para entrar no mar. Porra!
Viro aqui, outra vez. Já não vejo luzes atrás de mim. Talvez os tenha despistado. Talvez não estivessem atrás de mim. Talvez nem me tivessem visto.
Tenho de largar o corpo. Tenho de largar o corpo e é mesmo aqui. Nesta ponte. Que rio é este? E que importa, o nome do rio? Lanço o corpo daqui. Não tenho peso para afundar o corpo. Não faz mal que vai ser arrastado pela corrente. Com sorte vai até à foz e entra no mar e as marés levam-no para cascos-de-rolha.
Páro o carro aqui. Em cima da ponte. Saio. Abro o porta-bagagens. Agarro no corpo. Tiro-o do porta-bagagens. Arrasto-o até ao murete. É pesado, o corpo. Ergo-o. Ergo-o até ao cimo do murete. Transpiro. Estou cansado. Passo uma parte do corpo para o outro lado. Levanto o resto do corpo. Lanço-o todo para lá do murete. Ele voa. Ele voa e depois cai. O corpo cai da ponte abaixo. Vejo o corpo a cair. A mergulhar nas águas do rio. Ouço um ligeiro barulho do corpo em contacto com a água. Vejo o corpo a desaparecer no rio. Depois reaparece. E desliza leito fora. Vejo-o a deslizar. Lá vai ele. Com a corrente. Talvez chegue ao mar. E desapareça. Talvez desapareça de vez. Talvez eu tenha tempo de regressar a casa. Limpar o carro. Tomar banho. Lavar a roupa. E deitar-me antes de ser manhã.
Olho para trás e não vejo as luzes da polícia. Atento aos barulhos e não ouço nada.
Entro no carro e arranco de regresso a casa. Talvez tenha tempo.
E o que é que ele queria dizer com aquilo?

Aquilo, o quê? O que é que ele disse? Esqueci-me? O que é que ele disse? Foda-se!Foda-se!Foda-se! O que é que ele disse, pá? O que foi? O que foi que ele disse?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/09]

As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]