Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

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Ouro

As paredes eram douradas. Douradas de ouro. Havia homens de picareta a esburacar as paredes. As paredes do quarto. Ela estava sentada na poltrona a olhar. Zangada. Não estava zangada por os homens andarem ali a retirar o ouro das paredes. Estava zangada porque lhe estavam a dar cabo das paredes e a incomodar-lhe o descanso. Principalmente depois de almoço quando gostava de fazer a sua sesta retemperadora. Do ouro nem queria saber, Não é meu!, dizia. Mas o estardalhaço que lhe faziam no quarto, isso sim, incomodava-a.
Ela olhava para os homens em tronco nu, transpirados, de cigarro ao canto da boca a mandarem as picaretas contra as paredes douradas e dizia Vão-se embora! Estão a dar-me cabo das paredes! O que é que o senhorio vai dizer? E depois telefonou-me e disse-me Não consigo respirar com o fumo dos cigarros destes homens. E eu disse-lhe Eu já aí vou para os pôr na ordem.
E fui.
Mandei-os todos embora. E eles foram. Era obedientes. Antes isso.
Ela mostrou-me as paredes esburacadas. As paredes ainda douradas, ainda cheias de ouro, todas esburacadas. Já lá faltava algum ouro, mas não muito porque, afinal, os homens das picaretas eram uns nabos e não tinham muito jeito para aquilo. Abriu as janelas para deixar sair o fumo dos cigarros e aquele cheiro a homem transpirado. E disse-me Amanhã vais avisar o senhorio! Se não, vou lá eu! E eu respondi Está bem!
Deixei a casa arejar. Antes de me ir embora fechei as janelas. Dei-lhe dois beijos e disse-lhe Até amanhã. Ela acenou a cabeça. Ainda estava zangada. Não estava zangada comigo, mas estava zangada.
De manhã ligou-me. Para me avisar que os jornalistas estavam lá. Foi avisar o senhorio. Já sabia que eu não ia dizer nada. Foi avisar o senhorio que lhe estavam a dar cabo da casa. Depois avisou os jornalistas das paredes douradas cheias de ouro. E depois telefonou-me. Para me avisar que os jornalistas tinham lá ido fotografar as paredes douradas. Para me avisar que o senhorio foi lá buscar o ouro que ainda restava. Para me avisar que os homens das picaretas já não regressaram mais porque já não havia mais ouro nas paredes para roubar. O senhorio tinha levado tudo. E eu respirei de alívio.
Ela estava contente. Já não havia cheiro a transpiração de homem. Nem cheiro a tabaco. E o senhorio mandara arranjar as paredes e agora o quarto estava como novo. E isto era ela a dizer-me que tinha resolvido o assunto sozinha porque já sabia que eu não iria resolver nada. E eu fiquei calado. Não lhe disse nada. E ela ainda me pediu Amanhã quando cá vieres traz as revistas. A noticia vai sair nas revistas. Com fotografias minhas, do quarto e do ouro. E eu disse Está bem!
No dia seguinte entrei em casa dela e perguntou-me As revistas? E eu tive de lhe dizer Esgotaram! Já não havia nem uma para amostra!
Depois foi até ao sofá e, com o comando, ligou a televisão. E pôs-se a ver o Programa da Cristina. Eu sentei-me ao lado dela. A ver o Programa da Cristina. Com ela. A olhar para a parede da sala e a pensar E se estas paredes também fossem de ouro?
Mas as paredes agora já não era douradas. Eram de um branco ovo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/27]

A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Um Domingo de Chuva

Acordei com a chuva a bater nos vidros da janela. Já estava a habituar-me a esta Primavera antecipada quando a chuva decidiu regressar. Mas não veio sozinha. Trouxe uma ligeira subida de temperatura. Levantei-me nu da cama e não tive frio. Foi assim que fui mijar. Foi assim que fui ligar a máquina do café. Foi assim que fui olhar, através da janela da cozinha, a casota vazia do cão.
O cão morreu ontem. Atropelado.
Fiquei triste. Deixei mesmo cair umas lágrimas. Afinal, o cão foi a minha companhia nestes últimos dois anos. Ia comigo para todo o lado. Ouvia-me quando eu falava alto para perceber que ainda tinha voz. Lambeu, vezes sem conta, os copos de vinho tinto que deixei cair no chão depois de já não conseguir erguer seguro o copo em direcção aos lábios.
Bebi o café.
Porque raio é que o deixei sair daqui? Ele gostava de visitar os amigos, é certo mas… Que merda!
Olhei ao longe as montanhas atrás da camada de chuva que as tornavam quase sumidas. Mal se viam. Devia estar bonito, lá em cima. Pensei que era um bom dia para ir para as montanhas fotografar.
Hum.
Acabei de beber o café e fui pôr a chávena na máquina de lavar. Olhei para o maço de cigarros em cima da mesa da cozinha. Pensei que podia sentar-me à mesa, frente ao computador, a fumar um cigarro e a escrever o que achava sobre o Aliança, o novo partido de Pedro Santana Lopes, o enfant terrible da Kapital e da revista Olá. A revista Olá? Estou velho. Eu e o Pedro. Estamos velhos.
Bocejei. Cocei o rabo. Lembrei-me que estava nu. Voltei ao quarto.
Olhei para o livro na mesa-de-cabeceira à espera de ser relido mais de vinte anos depois de o ter lido pela primeira vez: De que Falamos Quando Falamos de Amor do Raymond Carver. Mas não lhe peguei. Não. Ainda não era o dia. Cocei o rabo. Cocei o peito. Afaguei o pescoço. Cofiei a barba. Pensei Apetecia-me ter aqui uma mulher. Precisava de uma tarde de sexo para afastar esta melancolia.
Deitei-me na cama e puxei o edredão sobre mim.

Acordei e estava escuro. A noite tinha caído. Era Domingo e eu mal tinha visto a luz do dia. Não fizera nada. Rigorosamente nada. Tinha dormido e gasto um dia inteirinho sem ter produzido o que quer que fosse.
Chegou-me a neura.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/10]

A Estudante

Tive de abandonar o meu quarto. Assim. De um momento para o outro. Nem pude ir buscar algumas das minhas coisas. As mais necessárias. As mais úteis.
Estava a viver num quarto. Em Coimbra. Perto da universidade.
Estava. Já não estou.
Alguns problemas anteciparam-se. Perdi o quarto. Quando estava para lá ir, para ir buscar algumas coisas, já lá estava a polícia. Foi por um momento. Por um breve momento. Por um triz.
E, então? O que fazer?
Havia um concerto no Gil Vicente. Pensei em passar por lá. Talvez arranjasse qualquer coisa. Talvez arranjasse alguém. Talvez um desenrasque.
Tinha fome. Pensei em passar no Mac primeiro. Havia sempre restos de hambúrgueres nas bandejas. Batatas fritas, não. Comem-nas todas, os cabrões.
E foi então que a vi. Conhecia-a. Sim, conhecia-a. Do Piolho. Era uma gaja de uma das repúblicas. Já nos tínhamos engalfinhado, em tempos. Na casa-de-banho do Piolho. Podia ser uma solução. As repúblicas eram sempre uma confusão de gente. A entrar. A sair. Os comensais. Os namorados. As namoradas. Os amigos. Os dealers. Gente. Sempre muita gente.
Seria fácil entrar. E foi.
Segui-a. Estava gente à entrada. Deixei-me estar por lá. Cravei um cigarro. Fumei-o. Andei ali de grupo em grupo. Entrei em casa. Fui ao frigorífico. Agarrei numa cerveja. Subi as escadas. As portas dos quartos fechadas. Circulei. Fui à janela. Olhei para baixo. Para a entrada. Fiz-me sentir à vontade. Fiz-me sentir em casa. Se me sentisse em casa, viam-me como alguém de lá. Circulei a bebericar a cerveja. E vi-a sair de um quarto. Do quarto dela. Foi para a casa-de-banho. Ia enrolada numa toalha. A porta fechada mas não trancada. Entrei. Parei com a porta fechada nas minhas costas. Olhei para tudo. Vi tudo. Estudei tudo. Vi uma carteira. Abri-a. Duas notas de vinte euros. Guardei-as. Na secretária um maço de cigarros. Agarrei nele. Mas não tinha cigarros. Tinha charros. Já prontos a fumar. Só acender o isqueiro. Sorri. Sou um filho-da-puta com muita sorte.
Abri a porta do armário. Era grande. Quase um mini-quarto. Ela tinha uns casacos bonitos. Experimentei um. Ficava-me bem. Ouvi barulho. Tirei o casaco. Entrei dentro do armário. Fui até ao fundo. Sentei-me a um canto. Entre toalhas e umas almofadas.
Ouvi-a entrar no quarto. Deitou-se na cama. Ficou em silêncio. Eu ouvia o meu coração a bater. Alto. Rápido. Tomei atenção aos barulhos para ver se ela saía. Nada. Depois senti uns movimentos. Atrito. Movimentos muito suaves. Quase imperceptíveis. Não conseguia perceber o que era. Mas era alguma coisa. Ouvia cada vez mais alto. Mais sonoro. Mas sem conseguir identificar. Até que percebi a respiração ofegante. A língua a estalar na boca seca. Os pequenos gritinhos abafados. Os gemidos. Ela estava a masturbar-se. Cheguei-me à frente, no armário. Tentei espreitar. Mas estava tudo fechado. Não podia correr o risco de abrir a porta e fazer barulho. Encostei o ouvido. Deixei-me absorver todo o percurso que ela fazia com a mão. Com os dedos. Acompanhei-a. Em silêncio. Até que ela chegou. Um grito estrangulado na garganta. A satisfação. Voltou o silêncio. Depois um isqueiro. Estava a fumar um cigarro. Senti o cheiro.
Alguém entrou no quarto. Disse qualquer coisa. Não percebi. Senti-a levantar-se. Percorrer o quarto. Abriu o armário. Deixei-me ficar quietinho. Ao fundo. Ao fundo do armário. No meio das almofadas. E das toalhas. Escolheu roupa. Vestiu-se. Ouvi a porta do quarto a bater. Deixei sair a minha respiração. Descontraí. E pensei. Saio? Fico?
Naquela noite fiquei. Fiquei lá. Deixei-me adormecer no fundo do armário. Acordei a meio da noite. Silêncio no quarto. Abri a porta do armário com cuidado. Levantei-me. Espreitei a cama. Ela já lá estava. Estava sozinha. Estava a dormir. Também não ouvia barulho no resto da casa. Devia ser tarde. Saí do armário. Saí do quarto. Percorri o corredor. Desci as escadas. Entrei na cozinha. Olhei em volta. Um saco de pão. Um saco de pano de pão. À antiga. Abri-o. Tirei um. Abri o frigorífico. Havia restos de frango assado. Bebi uns golos de um pacote de leite. Tirei uma coxa e uma asa do frango. Fui para a janela da cozinha comer os dois pedaços de frango assado frio com o pão. Soube-me bem. Chupei os dedos. Depois tirei um charro do maço de cigarros e acendi-o. Fumei-o ali. À janela. Na companhia da madrugada e das árvores que me olhavam sombrias na ausência de luar. Depois voltei para o meu armário.
Tenho passado assim os meus dias. As minhas noites. A minha vida. Eu e ela. Eu aqui, no armário. Ela ali, na cama. Às vezes vem mais alguém. Raramente a mesma pessoa. Ela é desapegada. Faz sempre uma grande barulheira. E eu irrito-me. Estou a ficar ciumento. Mas gosto de estar aqui. Escondido. A espreitar. A ouvir.
Comecei a escrever as minhas memórias de dentro do armário.
Todas as madrugadas, e depois da casa adormecer, saio. Ando pela casa. Com cuidado. Assalto o frigorífico. Vou à casa-de-banho. Escrevo as minhas memórias enquanto fumo um charro à janela da cozinha.
Um dia publico-as. Mas para já, estou bem aqui onde estou. Eu e ela. Ela na cama. Eu no armário. Tem tudo para ser uma boa relação.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/07]