E Ainda Aqui Estou!…

Saí pela porta de vidro do edifício principal das consultas externas do hospital dos Covões. Abri muito a boca. Precisava de ar. Ar fresco. Estava há três horas dentro do edifício para saber uma notícia que já adivinhava. Podiam ter-me dito por telefone. Evitava esta viagem. Evitava estas horas sentado naquelas cadeiras rijas e desconfortáveis que me calejaram o rabo. Evitava ter de olhar para aquela gente quase-morta, cheia de olheiras, cara amarelada e sem cabelo.
Cheguei à rua. Abri a boca e inspirei golfadas de ar fresco. Doíam-me as costas. O rabo. As pernas. Tinha as mãos dormentes. E acho que me começavam a doer os dentes. E estava com sede.
O barulho de uma sirene anunciou a chegada de uma ambulância. Fiquei ali parado a vê-la chegar e parar. Saíram dois paramédicos. Abriram as portas de trás e retiraram uma maca. Um velho, deitado na maca, debaixo de um cobertor de algodão, gemia. Gemia de dores. Os paramédicos foram rápidos. Retiraram a maca pelas portas traseiras da ambulância e fizeram-na entrar dentro do edifício das consultas externas. Perguntei-me o que é que o velho viria ali fazer. Achava que devia ter ido para as urgências. Depois pensei Para que raio estou a mandar bitaites?, eu que não sabia nada disto. Não era assunto meu, raios me partam! Esta minha mania de querer saber sempre de tudo, saber sempre tudo, meter o bedelho onde não me diz respeito, era irritante. Mesmo para mim.
O velho já tinha entrado dentro do edifício. O motor da ambulância estava ainda a trabalhar mas a sirene já se tinha emudecido. Virei a cabeça para o parque de estacionamento. Lembrei-me que tinha lá o carro e comecei a dirigir-me para lá.
Cheguei ao pé do carro e descobri-o à torreira de sol. Lá dentro devia estar um inferno. O carro não tinha ar condicionado. Era uma carripana velha, comprada num leilão da PSP, e tinha a tinta a cair aos pedaços, descarnando-o e dando-lhe um ar assustador. Nunca me assaltaram o carro. Mesmo quando o deixo com as portas abertas. E tantas vezes que o largo por aí com as portas abertas.
Abri a porta. Entrei. Queimei logo o rabo. Abri as duas janelas da frente à manivela para deixar passar uma aragem. Mas não passou nenhuma. Agarrei na garrafa de água e levei-a à boca. Cuspi de imediato pela janela aberta. Era chá. Chá a ferver. Pus o carro a trabalhar. Arrancava sempre à primeira, graças a Deus. Agarrei o volante com a ponta dos dedos. Estava tudo a arder. Saí do parque a pensar se não seria a última vez que ali ia. Mesmo que me voltassem a chamar, não sei se voltaria. Não me apetecia regressar ali. Não para isto. Para estes… Para estes nadas.
Já ia na estrada e pensei Auto-estrada ou nacional? e numa decisão súbita escolhi a auto-estrada. De repente senti vontade de estar em casa. De estar fechado em casa com as janelas abertas e as persianas baixadas para fazer corrente-de-ar. Estar nu deitado no chão de madeira da sala. A televisão a debitar barulho, um barulho baixinho, a mentir-me uma ausência de solidão sem ter de enfrentar gente. Uma garrafa de Mouchão tinto aberto e um copo a molhar-me os lábios e a lubrificar-me a garganta seca pelas notícias. No dedos um cigarro a fumegar e a garantir-me sossego. Um cigarro. Era isso.
Agarrei num cigarro e coloquei-o na boca. Carreguei o isqueiro do carro para dentro. Ainda estava nas estradas municipais, a caminho da auto-estrada. O isqueiro disparou, mas saltou do seu encaixe e caiu para o chão. Estava aos meus pés. Olhei para baixo e vi-o junto ao calcanhar. Baixei-me. Agarrei-o. Levei-o ao cigarro na boca quando reparei num carro que corria desenfreado para mim. Percebi que não tinha tempo de me desviar.
Mas ainda tive tempo de pensar nisto tudo que aconteceu desde que saí do hospital.
E ainda aqui estou.
Sei que vou a caminho de bater contra aquele carro. Merda!…

[escrito directamente no facebook em 2019/06/27]

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A Mulher Triste

Estava a jantar aqui no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonald’s, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para lhe dar um chupa-chupa. Ele trouxe-mo. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Mas nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que as ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou encarnada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpas. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Black Friday

Vejo-me ao espelho. Vejo o sangue a escorrer pela cara abaixo. É a minha cara. É o meu sangue.
Abro a torneira de água fria. Baixo a cabeça. Molho a cara, com suavidade. Não esfrego. Enxaguo. Sabe-me bem, a água fria na cara. Fecho os olhos. Sinto-me bem. Fresco.
Levanto a cabeça. Abro os olhos. Vejo-me ao espelho. A cara molhada. Dois fios de sangue, aguados, saem de uma ferida na testa. Uma ferida com quadradinhos pequeninos gravados na testa. Volto a baixar a cabeça. Molho a testa. Lavo a ferida. E lembro-me.
Estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Bebia uma caneca grande de café. E senti-o atrás de mim. A minha cabeça foi jogada para a frente. A caneca de café caiu no chão. Partiu-se. Espalhou café por todo o lado. A cabeça bateu na mesa. No individual de palhinhas aos quadradinhos em cima da mesa. Vi estrelas. Era de dia, mas vi estrelas. Depois tudo embaciou. Ficou vermelho. Começou tudo a desaparecer numa névoa vermelha.
Corri para a casa-de-banho. Pus a chave. Abri a porta. Entrei. Fechei a porta à chave. Agarrei-me ao lavatório. Respirei fundo. Olhei o espelho. Tudo embaciado. Embaciado e vermelho. Levei as mãos aos olhos e limpei-os. E vi. Vi o sangue a escorrer-me pela cara abaixo.
Limpo a água à toalha. A toalha tinge de vermelho. O meu sangue. O meu sangue na toalha. Sinto-me um pouco tonto. Dói-me um dente. Olho de novo para o espelho. Abro a boca. Tento ver o dente que me dói. Tento ver a gengiva. Passo com a língua pelos dentes. Tento ver qual o dente que me dói. E então grito. Toco num dente. No dente. Dói-me. Mexo com a língua. Abana. Abana e cai. Cai no lavatório. Ouço-o a cair no esmalte do lavatório. Baixo a cabeça. Aproximo a boca da torneira. Com a mão, ponho água na boca. Bochecho. Cuspo. Volto a por mais água na boca. Volto a bochechar. Volto a cuspir. Levanto a cabeça. Abro a boca e vejo o buraco no espelho. Um buraco vermelho. Mais sangue. Porra para tanto sangue!
No meio de tanto sangue, vejo uma borbulha no nariz. Uma borbulha pequena de ponta branca. Luzidia. Aproximo mais a cara do espelho. Levo os dedos à cara. Ao nariz. À borbulha. Espremo. Disparo uma massa branca que se estatela no espelho em frente. Fico com um pequeno buraco encarnado na ponta do nariz.
Respiro fundo.
Sossego.
Já não tenho borbulha com ponta branca no nariz. Já não me dói o dente. Já não cai sangue da testa. O dente está caído no lavatório.
Respiro fundo.
Abro a porta da casa-de-banho e saio. Volto a fechar a porta à chave nas minhas costas.
Regresso à cozinha. Vou até à janela aberta. Agarro num cigarro. Acendo-o. Cuspo para a rua e vejo que o cuspo ainda é vermelho. Ainda vai demorar algum tempo, penso. Viro-me para trás e digo Não vais vencer, pá! Não vais vencer! Não vejo ninguém. Nunca vejo ninguém. Mas sei que está lá. Está sempre lá. Está sempre lá para me fazer mal. Para me magoar. Mas não vou deixar-me vencer. Não vou. Não vou, estás a ouvir? Sim, está a ouvir. Eu não o vejo, mas ele vê-me. Ouve-me. E toca-me.
Deito o resto do cigarro fora. Fecho a janela. Olho a sala. Está escuro. Chegou a noite. A televisão desligada. O silêncio. Vou até ao quarto. Abro a porta com a chave. Entro. Fecho a porta. Fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta à chave. Sento-me em cima da cama. Com as sapatilhas calçadas em cima do edredão. E fico assim, sentado vestido em cima da cama. À espera que o sono chegue. Estou cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/23]

Roommates

Todos os dias de manhã a história repete-se. O tipo enfia-se na casa-de-banho e desfia um concerto de sons guturais. Aquilo é assustador. Primeiro começa pela garganta. Acho que tenta expelir algum pêlo que lhe tenha entrado durante a noite pela boca e se tenha alojado na faringe, na laringe ou na traqueia. É um alto, enorme e prolongado arranhado gggrrrrrrrrrr que parece trazer a casa abaixo. E repete-a várias vezes. Depois passa ao nariz. Não se assoa com um lenço. Não! Aperta uma narina para expelir pela outra não sei que detritos que os canais nasais possam ter adquirido durante o sono. Mas a barulheira que lhe sai pelo nariz, nossa senhora! E repete. E volta ao início. Estou à espera do dia em que os pulmões sejam expelidos pelas fossas nasais.
Depois toma banho. Seca o cabelo. Aquece uma caneca de leite no micro-ondas. Vai embora.
Regressa o sossego.
Este é um dos dramas de partilhar casa. Os sons. Os barulhos. Às vezes dou comigo a tentar adivinhar o que estará a fazer através dos barulhos que produz.
Roommates. Soa melhor em inglês. É mais chique. E é a solução quando não há dinheiro suficiente para cobrir a renda da casa sozinho.
É então que saio do quarto. Passo na casa-de-banho para uma mija rápida. Lavo as mãos. Passo a cara por água. E faço café.
Enquanto espero pelo café, leio as gordas dos jornais no iPad. Sento-me na mesa da cozinha. O cheiro do café começa a invadir o espaço. Ouço gritar, num fundo escondido da minha cabeça, Uma torrada! Uma torrada!, mas não, não há torradas. Estou um bocado gordo. Cortar no pão.
Sento-me. Ligo o iPad. Abro uma página de noticias e leio Milagre! Deputado português com dom da ubiquidade. Queria saber mais sobre tão estranho fenómeno. Mas achei que não era suficiente para o clickbait.
Fui a outra página. A manchete era o poeta Alegre indignado. Achei que já não era notícia. O homem é uma indignação permanente. Depois, em diagonal, li touradas. E percebi tudo. O poeta Alegre era mais um desses fanáticos anti-touradas que grassam pelas cidades cosmopolitas. Nem fui ler a notícia. Já me chega de fanatismos.
O café estava feito. Enchi uma caneca. Um bocado de açúcar. Mexi. Olhei lá para fora, para a rua. A vizinha da frente andava pela casa, de camisa de noite, a apanhar os brinquedos dos miúdos. Baixava-se. Baixava-se outra vez. Tornava-se a baixar.
Voltei às notícias. Alguém português andava a responder em alemão a perguntas feitas em português por jornalistas portugueses sobre assuntos de Portugal. Que raio! Só fake news!
Acabei o café. Fui tomar banho. E só pensava na vizinha de frente a apanhar os brinquedos dos miúdos.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/08]

O Ribombar dos Canhões

Ouvia o ribombar dos canhões. Não os via, estava tudo escuro, negro, mas ouvia-os. Eles vinham em séries. O som em aumento gradual. Primeiro mais baixo, depois em apoteose. Em seguida o silêncio. Uma pausa. Logo depois, o recomeço. Nova série de tiros de canhão.
A sério?
Onde estava?
Que ataque era este?
Depois ouvi O caralho da gaja era uma chata. Nunca quis nada com ela. Não foi isso que eu vi. Não viste nada, pá. Viste o que quiseste ver. Ai não vi? Não vi, oh foda-se? Não, não viste. Era ela, pá. Eu estava a afastá-la quando tu chegaste. Era ela que estava a agarrar-me, caralho. Oh ‘morzinho, tu sabes que gosto muito de ti. Eu também gosto muito de ti, pázinho. Mas estas merdas deixam-me descolhoada. Como descolhoada? E depois uma gargalhada. Duas. Uma festa de gargalhadas.
Eu abri os olhos. E vi, à minha frente, um rapaz e uma rapariga a rir desbragadamente.
Estava na praia. Estava naquele limiar entre o acordado e o adormecido. Ouvia o som das ondas a rebentar na praia e, lá distante, lá do fundo de onde me vinha o som das ondas a rebentar na praia pareciam-me canhões a disparar sobre um alvo. A sequência era a cadência da onda a rebentar. A onda que começava a rebentar à esquerda e vinha por ali fora, passava por mim e continuava até rebentar completamente.
Fui acordado por aquele par de tontos que veio trazer a confusão ao meu sossego. Aquele par que utilizava ‘morzinho e pázinho. Quem era esta gente?
Virei-me na toalha. Esfreguei os olhos. Pensei em ir dar um mergulho, mas não havia sol, estava a arrefecer e um nevoeiro abatia-se pela praia, vindo do mar.
Vesti a camisola. Peguei na toalha e fui-me embora.
O par de namorados estava todo enrolado um no outro e nem se aperceberam na chegada do nevoeiro.
O mar desapareceu. A praia foi desaparecendo e o parzinho foi comido pelo nevoeiro sem se dar conta.
Eu corri até ao carro. Pu-lo a trabalhar e arranquei dali para fora.
Acendi um cigarro.
Na estrada cruzei-me com um comboio militar. Traziam canhões. Canhões enormes.
Encostei o carro à berma. Saí. Encostei-me ao carro e fiquei ali a fumar o cigarro e a ver o comboio militar a dirigir-se para a praia. Os militares iam com cara muito séria.
Que raio se passaria?
O céu estava branco. Não havia gaivotas. Não ouvia as ondas do mar.
Larguei a beata no chão. Entrei no carro e arranquei. Não sabia para onde ir.
Ainda hoje não sei. Tenho ido em frente. Tenho-me cruzado com mais colunas militares. Tenho deixado o céu branco para trás, mas sempre próximo de mim. Já não tenho cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/02]

Queria Ir-me Embora

Estou a olhar para o tecto. Não consigo fazer mais nada. Não consigo virar-me. Não consigo mover-me. Ainda consigo mexer um pouco os dedos, agarrar algo, mas perco rapidamente a força. Tudo se esvai.
Estou a olhar para o tecto porque é para onde estou virado. Estou deitado, de barriga para cima, nesta cama de hospital. E olho para o tecto branco, puro, limpo, e não vejo uma mancha do tempo, nem humidade, nem uma cagadela de mosca.
Estou a olhar para o tecto e estou farto. Estou saturado.
Estou saturado de estar aqui, assim. Sem poder mexer-me. Sem poder falar. Só me saem grunhidos. As pessoas julgam que estou irritado e agressivo, porque lhes grito grunhidos, mas não é verdade, é a minha frustração por não conseguir articular uma palavra e dizer-lhes Deixem-me partir!
Estou há uma semana aqui, neste quarto, nesta zona sossegada do hospital, onde tentam prolongar-me a vida. Mas eu não quero que me prolonguem esta vida. Vida! Que vida julgam que é? Isto não é vida. E quem disser que é não está a ser honesto. Há gente aqui para tratar de mim. Não posso ir sossegado à casa-de-banho, porque já não consigo. Ontem mijei-me todo. Já não me controlo. Não há vida nesta cama. A vida, como a conheci, terminou.
Estou cheio de dores. Tenho metástases por todo o corpo. Sei que não me espera nenhum milagre. Porque não acredito em milagres. Não sou religioso. Mas gostava de ser. Gostava de acreditar em tudo o que me contaram ao longo da vida. Não consigo.
Queria ir-me embora. Parar com estas dores e com as visitas destas senhoras, muito simpáticas, mas que me deixam com uma neura do tamanho do Domingo. Falam muito, falam demasiado, com as suas vozinhas irritantemente suaves e fininhas. Não quero que me venham falar de Deus, de Allah nem de Buda. Não acredito na vida depois da morte. Não acredito em nada e não quero acreditar nas fantasias que vocês me querem enfiar na cabeça.
Só queria um pouco de dignidade. Poder partir em paz com o mundo e comigo.
Não quero saber da minha mulher, dos meus filhos, do cão ou do Benfica. Só quero que eles fiquem bem. Que não se preocupem comigo. Que vivam as suas vidas em pleno até ao fim. Só quero que vivam as suas vidas da mesma forma que queria que me deixassem viver a minha. Mesmo que a minha escolha seja a morte. Fugir a estas dores insuportáveis. E não obrigar ninguém a ter de as partilhar comigo. Não quero viver a vida através de terceiros.
Se eu partir, parto em paz. E vocês ficam em paz. E a memória com que vão ficar de mim é de alguém que vos amou, vos ama, e que partiu em paz.
Estou a olhar para o tecto. Ouço a voz da enfermeira a dizer-me que amanhã é outro dia. Mas eu já não quero ver esse dia. Já não consigo ler, ouvir, falar, cantar, correr, comer, beber, amar…
Vivi a minha vida da maneira que vivi. Da maneira que pude viver. Que consegui viver. E amei cada pedaço dessa vida. Mas terminou. Não me obriguem a odiá-la, a ela e a vocês.
Sabem como é que me sinto? Fazem ideia de como me sinto? Querem saber mesmo como é que me sinto?
Eu quero poder ser eu até ao fim dos meus dias. Só isso.