Entre o Cheiro do Sexo e o Sabor do Gelado

Ela perguntou-me Costumas fazer sexo?, e eu respondi Sim!
Depois ainda perguntou Com regularidade? E eu pensei um bocadinho, um bocadinho mais do que devia ter pensado, e respondi Sim! Para aí uma vez por semana.
Vi o sorriso na cara dela. Não era um sorriso sarcástico. Nem maldoso. Era o sorriso de quem sabe que está a ouvir uma mentira.
Ela colocou o dedo indicador no meu peito e foi descendo, arranhando-me com a unha grande, e pintada de vermelho-sangue, até ao meu umbigo e depois andou ali à volta dele, a deixar-me vergões de sangue. E disse Agora já não tenho tempo, senão voltávamos a tentar.
Ela levantou-se. Vestiu-se. E eu vi-a nua. E vi-a a vestir-se. Uma peça de cada vez. Uma peça de cada vez a cobrir as partes nuas. De cada vez ela era uma mulher nova. Outra. E gostei de ver o que estava a ver. Agora sem pressões. Só desejo.
Já vestida, olhou para mim, sorriu, e exclamou Agora?!
Debruçou-se sobre mim. Deu-me um beijo nos lábios e sussurrou-me Ciao.
Eu fiquei lá deitado. Naquela cama desfeita. Nu. Nu e de pau feito. Um pau feito com atraso. Foda-se!, pensei. Foda-se! Foda-se! Foda-se!
O quarto estava em silêncio, mas eu ouvia a respiração dela. A respiração dela, suave, junto ao ouvido. Os pequenos gemidos que terminaram bruscamente. Nem sei se começaram realmente a ser gemidos ou se eu os imaginei na minha ânsia de boa performance.
Eu estava sozinho no quarto, mas ainda sentia a presença dela. Ao meu lado. Por baixo de mim. Por cima de mim. Carinhosa. Esperançada. Depois frustrada. E terminou compreensiva.
Levantei-me. Olhei pela janela. Olhei para a rua através da janela. A minha vizinha do lado sentada no muro a comer um gelado. Vesti-me. Não tomei banho. Quis-me com cheiro. Com o cheiro dela. Saí de casa. Fui ter com a minha vizinha. Ela estava a comer um gelado de copo. Encostei-me ao muro. Ao lado dela. Ela disse Cheiras mal. Depois deu-me um bocado de gelado numa pequena colher de plástico colorido. Gostei do gelado. Era de pralinê. Acabei por me sentar no muro. Ficámos os dois lá sentados. E eu ajudei-a a acabar com o gelado.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/20]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

Companheiros de Armas

Ela andava lá por cima. Em círculos. A planar.
Eu estava cá em baixo. Estava ao fundo da ribanceira, junto à estrada, a fumar um cigarro.
O cão andava comigo. Quer dizer, andava por ali a cirandar. A levantar a perna em tudo o que era sítio e largar uns pingos de mijo. Não sei onde vai arranjar tanto mijo. É que era mesmo em todo o lado. Nas árvores. Nas pedras grandes. No muro. No poste de electricidade. Até nos pneus da motorizada que estava parada lá mais à frente e no reboque que trazia atrelado.
O gato estava em cima do muro. Fingia que não era nada com ele, mas estava atento a tudo. As orelhas estavam sempre levantadas. Olhei para ele, deitado no cimo do muro, como o Humpty-Dumpty, a apanhar aquele sol quente de um falso Inverno. Sempre me fascinou o equilíbrio felino. Conseguem dormir nos sítios mais improváveis em alturas vertiginosas sem temer cair. Melhor ainda, sem cair de facto.
A águia continuava lá em cima no céu incrivelmente azul. Nem uma nuvem. Ela bateu as asas umas duas ou três vezes, naquele fundo croma, e lá continuou. Asas estendidas. Enormes asas estendidas a planar sobre mim.
Baixei a cabeça. Dei uma última passa no cigarro e deixei-o cair no chão. Pisei-o com a ponta da bota.
Senti um ligeiro movimento pelo canto do olho. Vi um vulto a deslocar-se rápido. Levantei a caçadeira. Fechei um olho. Foquei o outro na linha com a mira da arma. Vi o coelho. Tinha parado. Estava a roer qualquer coisa. Uma maçã, talvez. Deitei fora o ar dos pulmões. Fiquei leve. Ouvia o ranger dos dentes do coelho a roer, a roer. Estava focado, pelo meu olhar, na ponta da caçadeira. Puxei o dedo. Disparei. Ouvi o Pam do tiro ecoar à minha volta. O coelho foi projectado um pouco para a frente. Não se mexia. Fui buscá-lo. Fui buscá-lo rápido, antes que aparecesse a polícia. Não era época de caça.
Apanhei-o. Agarrei-o pelas patas traseiras. A caçadeira aberta, pendurada no meu ombro. Voltei para casa. Comecei a subir a ribanceira. O gato saiu do muro e começou a acompanhar-me mas do lado de dentro do mato. À distância. A olhar para mim disfarçadamente, como se eu lhe fosse indiferente. Mas eu sabia que não era. Esbocei um sorriso. Os cabrões dos gatos, pensei.
Virei-me para procurar o cão e vi a águia a descer lá do seu alto majestoso e cair picada sobre a terra, como um foguete, em aceleração e desaparecer entre as árvores.
O cão apareceu ao fundo da ribanceira e começou a correr para me apanhar.
A águia voltou a surgir do meio das árvores. Levava qualquer coisa na boca. Provavelmente um coelho.
Voltei a olhar o gato. Também tinha qualquer coisa na boca. Devia ser um rato.
Companheiros de armas. Vamos todos ter um belo jantar.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/16]

Não Há Natal nas Fronteiras

O que é que faz de mim uma boa ou má pessoa? Uma percepção exterior? Uma percepção exterior baseado em códigos pré-estabelecidos? Um sorriso na cara? A distância que separa o Sim do Não? A maneira como recebo o outro?
É noite de Natal. Estou em casa. Estou sozinho em casa. É uma noite banal. Não! Seria uma noite banal não se desse o caso de ser Natal. Eu estou em casa. Sozinho. Tento sobreviver à descarga de pensamentos que me consome. Pensamentos que são diários. Mas pensamentos que ganham outra dimensão neste dia. Porque sou bombardeado constantemente por toda a gente. Pelo mundo. Natal é amor. Carinho. Felicidade. Família. Dizem-me.
É noite de Natal. Estou em casa sozinho. Acabei de comer uma sandes de presunto com manteiga e de beber uma garrafa de vinho. Acabei de arrotar. E é mesmo no final do arroto que começam a chegar as mensagens do telemóvel. Ainda vejo a primeira, a segunda, a terceira… Depois desligo o telemóvel. São filmes. Pequenos filmes que alguém fez e toda a gente dispara para toda a gente. Os mesmos filmes. O mesmo filme. Sem nenhuma nota pessoal. Sem nada que diferencie essa mensagem de um pequeno clip de vídeo do Youtube feito por alguém e que toda a gente partilha. Como se fosse uma coisa pessoal. Sem o ser. Sem nenhum Beijo-te. Ou Abraço-te. Ou Amo-te. Não. O filme que alguém fez é mais um algoritmo. Alguém dispara as emoções por nós. E todos esperamos ver / sentir, a emoção nos outros. Nos olhos dos outros. Na cara dos outros. Na aproximação dos outros. Nas prendas dos outros.
Estou sozinho em casa. Já comi. Já bebi. Levanto-me e vou buscar mais uma garrafa. Preciso de um copo de vinho. De mais um copo de vinho. Tenho medo de estar demasiado agarrado ao vinho. Mas não consigo não estar. É uma companhia. E então apetece-me um cigarro. Lembro-me que são um par. Um copo de vinho e um cigarro. De regresso à sala, ouço Um tsunami na Indonésia. Um sismo em Moçambique. Um vulcão em Itália. Mortos. Muitos mortos. Feridos. Desaparecidos. É Natal. Nalguns pontos do globo não. Não é Natal.
Apercebo-me que deixei de ouvir falar na caravana que ia / vai a caminho dos Estados Unidos. Que se aproximava da fronteira do México com os Estados Unidos. Apercebo-me que deixei de ouvir falar nas famílias separadas. Pais para um lado. Crianças para outro. Não há Natal nas fronteiras. Não há Natal para refugiados. Não há Natal para quem foge.
O noticiário segue o seu alinhamento. Este Natal vendeu-se mais. Comprou-se muito mais. A SIBS garante que houve movimentos nos terminais sem comparação com os últimos anos. Vive-se a loucura, neste Natal. Há greve no comércio, nas grandes superfícies. Ninguém nota. Tudo compra. Aqui ninguém morre. Aqui consome-se.
Eu estou sentado no sofá a tentar acabar com a segunda garrafa. A deixar cair a cinza do cigarro no chão. Eu não fiz nada por ninguém. Não fiz nada pela caravana de emigrantes. Não fiz nada pelas vítimas das calamidades. Não fiz nada pelos comerciantes globais. Não fui à mercearia. Não fui à Amazon. O meu reino não é deste mundo. E nem por mim fiz alguma coisa.
Sou uma boa pessoa? Sou uma má pessoa? Sou ao menos uma pessoa?
Sou, pelo menos, alguém que está sentado no sofá. Sozinho. A beber uma segunda garrafa de vinho. A fumar um cigarro. E com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/24]

Tiraram as Persianas e Entraram em Casa Dela

O telefone tocou. Eu atendi. Ela disse Eles entraram cá em casa. Tiraram as persianas e entraram cá em casa. E eu perguntei Levaram alguma coisa? Não! respondeu.
Sai de casa. Entrei no carro. Viajei pelo buraco da minhoca e em menos de um piscar de olhos estava em casa dela.
Ela estava à porta. Do lado de cá. Na rua. Olhou-me e perguntou A polícia? E eu respondi Eu chego para eles. Tem cuidado! pediu.
Abri a porta de casa e entrei. Fui directo à cozinha. As persianas estavam lá. Fui à sala. Também estavam lá. Entrei no quarto. Estava todo revolvido. Mas com persianas. Senti-a atrás de mim. A espreitar. Quem fez isto? perguntei. Foram eles? Não! Não! Isto fui eu à procura deles.
Já sabia quem tinha de ir arrumar tudo.
Disse-lhe As persianas estão lá, no sítio. A espreitar por trás de mim ainda disse Foram eles. Voltaram a pôr tudo no sítio para ninguém perceber. Para tu não perceberes.
Primeiro suspirei. Depois sorri. Um sorriso um pouco triste, mas era um sorriso, que diabos. No meio de tudo até tinha a sua piada. No meio de toda a merda que tem sido a minha vida, e a dela, nos últimos tempos, isto até parecia um episódio perdido de uma popular comédia revisteira. Não são todos os dias que nos entram em casa e não roubam nada. Mas iam roubar o quê? Não havia nada para roubar! Saiu-me uma gargalhada. Ela agarrou-me o braço e perguntou-me Estás bem? Sim, disse.
Fui aquecer-lhe uma sopa. Descasquei dois kiwis e cortei-os às rodelas. Enquanto ela comia voltei a colocar a cama no lugar. Arrumei as gavetas e fechei-as. Pendurei os quadros. Mudei-lhe os lençóis. Aspirei o quarto e abri a janela, mas com as persianas corridas.
Voltei à cozinha. Ela estava a lavar a louça. Fui para a janela fumar um cigarro. Ela disse Isso faz-te mal. Eu fingi que não a ouvi. Às vezes não me apetece ouvir ninguém. Nem a ela. Fumei o cigarro até ao fim. Depois mandei a beata fora.
Queres ir beber um café à rua? perguntei-lhe. Disse Não, obrigada!, depois de todas aquelas emoções precisava de descansar. Estava ainda um pouco nervosa. Tomou um Xanax e disse Vou deitar-me. Eu disse Tens a cama feita de lavado. E ela continuou Vou só estender-me em cima da cama para descansar um pouco. Mais tarde vou ao café. Se estiveres por cá, pago-te uma filhós.
Voltei a sorrir. Fiquei encostado ao lavatório da cozinha a vê-la ir para o quarto. Olhei para as persianas. Depois tirei o saco do lixo do caixote. Pus lá um saco novo. Agarrei no saco do lixo e saí de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/17]

O Sexo É Mais Assustador que a Morte

Ela preparou a iluminação. Nada de muito complicado. Um pequeno candeeiro com um véu por cima a filtrar a luz. A janela aberta mas as persianas um pouco fechadas a quebrar as luzes exteriores. Foi à câmara. Espreitou. Dirigiu-se à poltrona e virou-a um pouco. Foi espreitar de novo. E, outra vez, mais um ligeiro toque na poltrona. Apontou o fotómetro para a poltrona. Mediu a luz. Voltou à câmara. Subexpôs. Depois despiu-se e vestiu uma combinação. Voltou à câmara. Espreitou. Carregou no temporizador. Foi sentar-se na poltrona. Deixou descair uma alça. Um seio saltou para fora. Clic. A câmara disparou. A fotografia foi tirada.
Ela pegou na câmara. Ligou-a ao computador. Importou a fotografia. Mirou-a com muita atenção. Passou-a para preto e branco. Escureceu-a ainda um pouco mais. Percebia-se que era ela, mas não se via bem a cara. Por outro lado, o seio chamava atenção. Ela sorriu. Gostava de fotografia. Gostava de si. Gostava de se ver. Por vezes, de se expor um pouco, não demasiado. Mas o suficiente para sentir uma certa adrenalina.
Entrou no Facebook. Fez um post com a sua fotografia. Não demorou muito a receber um Like. Dois. Três. Voltou a sorrir.
Ainda não tinha passado uma hora, já tinha a conta bloqueada por causa da fotografia. Já estava habituada. É por isso que tinha duas contas. Na outra, que só lá ia em caso de bloqueio da primeira, era mais comedida. E foi lá. Queixar-se. Mas não era queixume. Foi só informar. Informar que o sexo continuava a fazer medo a muita gente. Porque nunca sabia. Nunca sabia se era o algoritmo ou denúncia.
Entretanto, no outro lado da cidade, ele olhava-se ao espelho. Fazia caretas. Tentava fazer cara de mau. Experimentava ser agressivo. Ameaçava-se a ele próprio. Depois levou a mão às costas e pegou num revólver. E apontou o revólver a si próprio, reflectido. E riu. Faltava-lhe um dente à frente. Uma briga na semana anterior.
Voltou a colocar a arma presa às calças de ganga, atrás. Saiu de casa. Na rua foi evitando as outras pessoas. Especialmente as raparigas. Olhos no chão. Passada larga e rápida. Cruzou a cidade. Levava uns auscultadores nos ouvidos. Ouvia música do telemóvel. Ignorava a cidade.
Chegou a um prédio. Olhou-o com atenção. Viu umas luzes. Umas persianas fechadas. E viu uma persiana descida, não completamente fechada, e a janela aberta. A janela não ficava longe das escadas exteriores do prédio. O prédio tinha um rebordo. Não muito grande. Mas o suficiente.
Ele tirou os auscultadores dos ouvidos. Desligou a música do telemóvel. Saltou o portão de entrada. Subiu as escadas. No andar certo saltou para o pequeno muro das escadas e agarrou-se à parede exterior e foi andando, devagarinho, com muito cuidado, pelo rebordo, até chegar à janela. Ergueu-se, silencioso, puxou-se para a janela e deixou-se escorregar para dentro de casa.
Começou a vasculhar o quarto. Umas cuecas caídas em cima da cadeira. Agarrou-as. Cheirou-as. Voltou a largá-las no mesmo sítio. Viu uma nota de vinte. Apanhou-a e pô-la no bolso. Viu umas moedas. Apanhou-as. Uma-a-uma. Um tablet. Agarrou nele. Olhou para a entrada do quarto e viu. Ela estava lá parada a olhar para ele. Olhou para o telemóvel. Ele percebeu. Ela saltou, agarrou no telemóvel e saiu do quarto enquanto ia ligando para as emergências. Ele foi atrás dela e, quando ela estava a tentar abrir a porta da rua, levou a mão às costas e puxou o revólver. Disparou. Uma vez. Uma só vez. Acertou nela. Nas costas dela. Uma mancha de sangue começou a formar-se na combinação enquanto ela deslizava para o chão.
Ele ficou quieto. À espera. À espera do que é que podia acontecer de seguida. De algum barulho. De algum movimento. Mas ela não se mexeu mais. Ele virou-se de costas para a porta. Agarrou no seu telemóvel e pôs-se em pose. A mão direita à frente do peito a agarrar o revólver, um pouco elevado. Ao fundo, se se olhasse com atenção, podia perceber-se o que podia ser um corpo caído. Mas não havia luz suficiente para identificar o lugar. Rasgou um sorriso na cara. Tirou uma selfie. Postou-a no seu Facebook. E escreveu Mais um dia no escritório. Depois foi ter com o corpo dela. Não viu se estava viva ou morta. Tirou-lhe o telemóvel. Deu um giro pela casa. Encontrou mais umas notas de vinte euros. Levou a câmara fotográfica presa ao tripé. Abriu a porta da rua e saiu.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/23]

Eles Parecem Sempre Bem

Cruzámo-nos na passadeira. A meio da passadeira. Eu ia para lá, ele vinha para cá. Praticamente chocámos um com o outro.
Então, pá? perguntei-lhe. Então? respondeu-me.
Já não o via há uns meses. Tínhamos sido muito amigos mas, a certa altura, o destino separou-nos.
Tinha ouvido dizer que tinha passado por alguns problemas. Psicológicos e assim. Químicos para o equilíbrio. Mas parecia-me bem.
Eles parecem sempre bem.
E perguntei-lhe Estás bem? Que sim, que estava bem e eu, se eu também estava bem e eu disse que sim e disse também que tinha saudades das nossas conversas, o tipo era culto, tinha boa cultura geral, lia bastante, era um bom orador que dava prazer em ouvir e disse-lho, e ele sabia-o, e também ele respondeu que eu também era um bom conversador e que sim, claro, também tinha saudades das nossas conversas.
O tipo parecia-me mesmo bem. Melhor que eu.
Os carros começaram a apitar e nós ainda ali estávamos, a meio da passadeira. Voltei para trás com ele. Convidei-o para um café. Que não, que estava com pressa. Pois, eu também, pensei, mas não queria perdê-lo, não queria voltar a perder-lhe o contacto. Queria agarrá-lo.
Ainda tínhamos o mesmo telefone. Eu e ele. E podíamos combinar um tempo, um jantar, um copo, um motivo. Que sim, pois claro. E sorriu-me.
O sorriso claro de quem está bem e leve.
Acabou por ir-se embora. Fiquei ali parado no passeio a vê-lo afastar-se e com a estranha sensação que era mesmo a última vez que o via.
Gostava mesmo dele.
Tínhamos vivido juntos as nossas adolescências.
Tínhamos crescido juntos.
Tínhamos namorado as mesmas raparigas.
Na semana seguinte vi numa notícia do Correio da Manhã que ele tinha morrido. Suicídio. Navalha da barba nas veias. Em casa da mãe. Estava separado. Sem trabalho. Afastou-se dos amigos e aproximou-se do abismo.
Mas parecia-me mesmo bem.
Eles parecem sempre bem.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/06]