Na Minha Primeira Casa-Só-Minha

Meto a chave à porta e escancaro-a para trás. Entro triunfal, qual Heliogábalo, na minha primeira casa-só-minha. Depois da casa-dos-pais. Depois da casa-com-os-amigos. Depois da casa-com-as-namoradas. A minha casa-só-minha. Entro solitário na casa onde vou viver sozinho pela primeira vez na minha vida. Inspiro fundo. Aguento a respiração. Deito o ar todo fora. Estico a perna direita. É importante começar bem!, digo alto para mim. Começar com o pé direito. Não é isto que se diz? Que dizem? As pessoas que sabem o que dizer quando se deve dizer? Os que percebem de tudo isto?
Entro com o pé direito na minha casa-só-minha.
Está vazia. Ainda não trouxe nada. Não tenho grandes coisas para trazer. Roupa. Alguns livros. Alguns discos. Dois ou três quadros que amigos pintaram. Umas fotografias que tirei e que tenho a mania que merecem ser vistas e expostas para prazer meu e de quem me visitar.
A casa está vazia e não tenho móveis para a encher. Tudo o que comprei fui deixando por onde passei. Hoje vou dormir no chão. Enrolado em mim. Amanhã compro um colchão. Vou continuar a dormir no chão, mas em cima de um colchão. Quero um colchão rijo. Daqueles com placas de madeira. Por causa das costas. Dói-me sempre muito as costas.
Amanhã também vou buscar os caixotes com os livros. Não os quero perder mais uma vez. Não quero ter de comprar pela enésima vez todos os livros do Philip Roth. E do Philip K. Dick. É uma cena que eu tenho com os Philip.
A casa está vazia e em silêncio. Não tenho uma televisão para me fazer companhia. Penso em colocar uma música no telemóvel, mas decido que já não tenho dezasseis anos e já não me martirizo a ouvir música fanhosa saída pelos buraquinhos pequeninos de um aparelho que, por melhor que seja, não é hi-fi.
A casa tem vidros duplos. É à prova de som. Não ouço nada da rua. A porta fechou-se nas minhas costas e, o único som que me persegue é a minha respiração pesada de bronquite. Ouço-me a pieira nos pulmões. Apetece-me fumar um cigarro. Mas não tenho cinzeiro. Não me apetece abrir as janelas. Não estou preparado para descobrir os vizinhos. Continuo a não querer ver ninguém.
Sento-me no chão da sala. Encostado à parede de frente para a janela. Os estores estão levantados. Vejo, como numa tela de cinema, o telhado do prédio em frente. Vejo um casal de miúdos. Adolescentes. Acho que são adolescentes. A esta distância é o que me parece. Estão abraçados. Um em frente do outro. Beijam-se. Sinto uma pontinha de ciúme. Como é bom ser adolescente. Jovem. Novo. Ainda cheio de esperança no futuro. Na vida. Ainda não fomos esmurrados. Ainda acreditamos. Eles param de se beijar. Olham para a rua. Olham para a rua aos seus pés. Eu vejo-os a olhar. Imagino a felicidade naqueles olhares. Sentem-se nas nuvens. Acima dos meros mortais que não sabem nada do amor. Não como eles. Do amor deles. Do amor que descobriram um no outro. No amor que consomem um ao outro. A puta da felicidade antes de crescerem e descobrirem que afinal não há amor. É tudo economia. Finanças. Dinheiro. Responsabilidade. Produtividade. Lucro.
Ouço-me dizer alto Vivam até ao limite, pá! e sinto-me envergonhado. Olho em volta mas percebo que estou sozinho. Sozinho em casa. Uma casa à prova de som. Ninguém me ouve. Ninguém me vê.
E depois vejo. Como que desperto. Na minha tela de cinema na janela em frente vejo o jovem casal. Já não estão a beijar-se. Estão em cima do parapeito do telhado. De mãos dadas. Não falam. Não olham um para o outro. Olham para baixo. Para o mundo que está a seus pés.
Tremo. Temo o pior.
E o pior acontece.
De mãos dadas dão um passo em frente. Lançam-se no vazio. Eu levanto-me do chão da sala. Corro para a janela. Tento abri-la. Mas não consigo. É nova. Tem um sistema diferente de abertura. Estou nervoso. Não consigo pensar. Grito Não!, um grito alto e desesperado, mas ninguém me ouve. Ninguém me vai ouvir. E já não os vejo. E não os ouvi. Não os ouvi aqui do meu mundo insonoro.
Não quero espreitar o chão da rua lá em baixo. Não quero ver o que não quero ver.
Deixo-me escorregar pela parede abaixo e volto a sentar-me no chão da sala.
Penso Não gosto de viver sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/20]

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O Ribombar dos Canhões

Ouvia o ribombar dos canhões. Não os via, estava tudo escuro, negro, mas ouvia-os. Eles vinham em séries. O som em aumento gradual. Primeiro mais baixo, depois em apoteose. Em seguida o silêncio. Uma pausa. Logo depois, o recomeço. Nova série de tiros de canhão.
A sério?
Onde estava?
Que ataque era este?
Depois ouvi O caralho da gaja era uma chata. Nunca quis nada com ela. Não foi isso que eu vi. Não viste nada, pá. Viste o que quiseste ver. Ai não vi? Não vi, oh foda-se? Não, não viste. Era ela, pá. Eu estava a afastá-la quando tu chegaste. Era ela que estava a agarrar-me, caralho. Oh ‘morzinho, tu sabes que gosto muito de ti. Eu também gosto muito de ti, pázinho. Mas estas merdas deixam-me descolhoada. Como descolhoada? E depois uma gargalhada. Duas. Uma festa de gargalhadas.
Eu abri os olhos. E vi, à minha frente, um rapaz e uma rapariga a rir desbragadamente.
Estava na praia. Estava naquele limiar entre o acordado e o adormecido. Ouvia o som das ondas a rebentar na praia e, lá distante, lá do fundo de onde me vinha o som das ondas a rebentar na praia pareciam-me canhões a disparar sobre um alvo. A sequência era a cadência da onda a rebentar. A onda que começava a rebentar à esquerda e vinha por ali fora, passava por mim e continuava até rebentar completamente.
Fui acordado por aquele par de tontos que veio trazer a confusão ao meu sossego. Aquele par que utilizava ‘morzinho e pázinho. Quem era esta gente?
Virei-me na toalha. Esfreguei os olhos. Pensei em ir dar um mergulho, mas não havia sol, estava a arrefecer e um nevoeiro abatia-se pela praia, vindo do mar.
Vesti a camisola. Peguei na toalha e fui-me embora.
O par de namorados estava todo enrolado um no outro e nem se aperceberam na chegada do nevoeiro.
O mar desapareceu. A praia foi desaparecendo e o parzinho foi comido pelo nevoeiro sem se dar conta.
Eu corri até ao carro. Pu-lo a trabalhar e arranquei dali para fora.
Acendi um cigarro.
Na estrada cruzei-me com um comboio militar. Traziam canhões. Canhões enormes.
Encostei o carro à berma. Saí. Encostei-me ao carro e fiquei ali a fumar o cigarro e a ver o comboio militar a dirigir-se para a praia. Os militares iam com cara muito séria.
Que raio se passaria?
O céu estava branco. Não havia gaivotas. Não ouvia as ondas do mar.
Larguei a beata no chão. Entrei no carro e arranquei. Não sabia para onde ir.
Ainda hoje não sei. Tenho ido em frente. Tenho-me cruzado com mais colunas militares. Tenho deixado o céu branco para trás, mas sempre próximo de mim. Já não tenho cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/02]

Parado à Beira-Mar sem Me Conseguir Mexer

Desci à praia.
Desci aquele caminho íngreme até à praia. De calções de banho, toalha ao ombro, chapéu na cabeça e o telemóvel na mão.
Cheguei à praia e caminhei ao longo da beira do mar para fora da confusão. As pessoas têm tendência para se aglomerarem à entrada ou saída. Querem estar prontos para o que der e vier. Eu, ao chegar à praia, tive que fugir à multidão acumulada logo ali, depois da descida da enorme ladeira.
Afastado, estendi a toalha, sentei-me, olhei o telemóvel e vi que não tinha rede.
Deitei-me. Estava quente. O barulho das ondas do mar a morrer na areia embalava. Deixei-me adormecer.
Acordei transpirado. Estava com a boca seca. E sem água para beber.
Fui ao mar.
Entrei devagar. Molhei-me. Mergulhei. Nadei um bocado em frente. Voltei para trás. E saí.
Fiquei em pé ali, a olhar o mar. Chegou uma rapariga. Começou a entrar devagar também. De repente, falhou-lhe o pé. Tropeçou e caiu. Ficou debaixo de água. Nunca mais subia. Comecei a ficar nervoso. Apareceu uma mancha vermelha, vinda lá debaixo. Sangue, provavelmente. E eu não conseguia mexer-me. A mancha era cada vez maior.
Um rapaz passou a correr por mim, mergulhou rápido e nadou até à mancha vermelha. Depois emergiu com a rapariga desmaiada nos braços.
Olhei e vi o pé da rapariga tombado, virado ao contrário, com um pedaço de osso de fora e sangue a cair abundante para o chão.
O rapaz passou por mim e foi a correr, com a rapariga nos braços, praia fora. Começou a juntar-se gente a acompanhá-lo.
Eu fiquei ali parado, à beira do mar, sem me conseguir mexer.
Até que lá acabei por sair, arrastando-me até à toalha, preocupado com a minha inércia. Sentei-me. E olhei o mar. E o mar estava a desaparecer.
Estava a cair um nevoeiro tão rápido tão rápido que começou a apagar toda a praia, o mar, a areia, as arribas, as pessoas, a miúdas, os rapazes, o cão, tudo…
Levantei-me depressa, peguei na toalha, no chapéu, no telemóvel e tentei correr, nos limites do que me é possível correr, para sair da praia. Passei por cima de outras pessoas, de toalhas, de chapéus que acabei por deitar ao chão.
Estava cansado. A subida era terrível. Tive de parar várias vezes. O nevoeiro perseguia-me mesmo. Estava a comer o que eu deixava para trás. Estava a morder-me os pés. Até que, finalmente, atingi o cimo da arriba. Estava acima do nevoeiro. A praia tinha sido toda comida. A praia e os veraneantes que tinham ficado lá em baixo.
Consegui sobreviver.
Ainda vi a rapariga a ser colocada dentro de uma ambulância do INEM que partiu de sirenes a gritar a dor alheia.
O nevoeiro olhava para mim e ameaçava-me. Que porra se passa comigo?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/23]

A Vertigem de um Desejo

Vivo numa casa que está por cima do rio.
A casa onde vivo faz parte de um edifício que cruza o rio de uma margem à outra, criando um pequeno túnel por onde a água corre e, nos dias de Verão, onde pares de namorados param as gaivotas para poderem dar aso aos seus desejos físicos mais urgentes e carnais.
Todos os dias vou à varanda de minha casa fumar um cigarro e ver a água a passar, com pressa, por baixo de mim. Nas margens são os curiosos que se juntam para observar este devaneio arquitectónico que já quiseram deitar abaixo.
Não deitaram.
E eu continuo a ir à varanda fumar um cigarro, olhar a fúria da água e observar as pessoas à distância.
A água que passa lá em baixo, numa correria louca, exerce em mim um grande fascínio. É uma espécie de lareira. Começamos a olhar para ela e, quando damos por nós, já não estamos lá, já estamos hipnotizados e já não somos donos do nosso destino.
Há alturas em que o desejo é uma vertigem.
Hoje foi uma dessas alturas.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a ver a água a correr, a observar os vincos que a sua força criava na fuga para diante, e a deixar-me embalar pelo som que subia do leito pelas paredes do prédio, quando lancei fora a ponta do cigarro, subi para a grade da varanda e mergulhei.
O mergulho foi perfeito. Entrei de cabeça, com os braços esticados à minha frente, e o corpo hirto entrou no leito tão direito que mal se ouviu o mergulhar. Parecia uma agulha a furar linho. Mal toquei na água, virei o corpo para cima e o impulso levou-me debaixo de água durante muitos metros, uma quantidade enorme de metros e, quando emergi, quando a minha cabeça veio à tona, já estava fora da cidade e ia embalado na corrente pelos Campos do Lis fora.
Depois não foi muito difícil. Ia dando, calmamente, aos braços, a nadar suavemente, porque a corrente cuidava bem de mim, e fui por ali fora, levado pelo rio que passava debaixo de minha casa e seguia até ao mar.
À medida que me aproximava da foz do rio, na Praia da Vieira, sentia uma enorme angústia a crescer dentro do meu peito, não sei se era por estar a afastar-me de casa, se era o prenúncio de algum acontecimento, mas a necessidade, não muito grande diga-se, de nadar, ia disfarçando.
Quanto mais me afastava de casa, mais vontade sentia de a ela regressar. Mas continuei. Continuei por ali fora. Os braços já quase mal se moviam. A corrente, cada vez mais forte, fazia todo o meu trabalho.
Na última recta antes do mar, quando estava a passar debaixo da ponte da estrada que liga a Praia da Vieira ao Pedrogão, vi o corpo de uma rapariga a cair à água. Desviei-me um pouco na sua direcção e agarrei-a. Estava inanimada. Segurei-a. Nadei para a margem esquerda do Lis, poucos metros antes de entrar no mar.
Puxei a rapariga para a areia da margem, uma pequena praia muito apreciada no Verão, e tentei reanimá-la. A princípio ela não reagiu mas, depois, acordou, vomitou água e tossiu. Agarrou-se ao meu pescoço a chorar e a cantar o Let England Shake da PJ Harvey.
Olhei para o lado e vi o telemóvel, em cima da pequena mesa de apoio, na varanda, a tocar. Tinha ainda um resto de cigarro nos dedos, já apagado e, lá em baixo, a água do rio continuava a correr furiosa. Indiferente aos meus desejos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/04]