Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

Natureza-Morta

É Domingo. Acordo e já é meio-dia. Levanto-me da cama, sinto o frio do quarto e visto uma camisola sobre a pele arrepiada dos braços. Ponho os pés nuns chinelos e vou à cozinha. Olho à entrada e vejo. Vejo a natureza-morta da minha cozinha.
A mesa, um pouco deslocada para a direita, centra o que poderia ser uma pequena sala de jantar anexada à cozinha. Atrás, junto à parede onde estou parado à porta a olhar, a antiga lareira que foi adaptada à modernidade e se transformou numa salamandra enfiada no plateau da antiga lareira, demasiado grande para os tempos de míngua e solitários que vivo. Já não preciso de ter a panela ao lume com a água quente pronta a aquecer umas couves que acompanham um bocado de toucinho cortado à navalha, depois de desembrulhado do papel almaço que o envolve. Mas os enchidos ainda lá estão pendurados. O chouriço, a morcela, o bucho, a farinheira, tudo aqui das redondezas, tudo oferecido pela vizinhança. Há umas tranças com cebolas. Uns ramos feitos de folhas de louro. Gosto do cheiro que tudo isto me deixa na cozinha.
Sobre a antiga lareira onde jaz uma nova salamandra, a caçadeira do meu avô. Não sei se está em condições de disparar. Nunca a limpei. Para mim não é mais que um adereço. Um adereço de caça que foi do meu avô. Uma herança que, para mim, não é mais que um objecto decorativo.
Sobre a mesa, uma pequena fruteira com dióspiros, algumas tangerinas e uma maçã já pisada, com uma mancha castanha que começa a alastrar. Não a devia mandar para o lixo?
Caída da fruteira sobre a mesa, uma banana. Talvez seja uma banana da Madeira, mas não tenho a certeza. Não me recordo de a ter comprado. Talvez tenha sido a rapariga que vem cá a casa uma manhã todas as semanas que a tenha deixado. Talvez seja uma prenda do operariado ao patronato. E dou comigo a pensar que também eu posso ser patrão. Largo uma pequena gargalhada que transforma esta leitura da minha natureza-morta numa natureza-morta com banda-sonora na figura de uma gargalhada tímida e surpresa. Afinal, até eu posso ser patronato? Quem diria!
Na parte esquerda da cozinha, o lava-loiças vazio. Não tenho cozinhado. Não tenho sujado louça. Quanto muito, a tábua para cortar o pão, a faca de serrilha e a faca para barrar a manteiga nas carcaças que engulo com prazer ao lembrar o papo-seco da minha infância. Agora utilizo manteiga Milhafre, dos Açores, e esta manteiga faz-me lembrar a manteiga Primor da minha infância mais que a Primor dos dias de hoje. Gosto muito de pão com manteiga.
O frigorífico ao canto. Já lá teve preso vários postais. Hoje está limpo de informação e imagens. Por cima do frigorífico, um antigo galheteiro que já não uso. Entre o frigorífico e a parede, um caixote do lixo com pedal para não sujar as mãos. Não se vê, mas o pedal está partido. Afinal, sempre tenho de sujar as mãos. Ao lado, uma vassoura e uma pá caída no chão. Depois, a seguir ao frigorífico, um bocado de bancada antes do fogão incrustado. Um micro-ondas sobre a bancada. Uma chaleira. Um máquina de café com café. É de quando, este café? Quando foi a última vez que fiz café? Há também um rolo de papel-de-cozinha enfiado numa geringonça de plástico. Depois o fogão. Uma tampa de madeira sobre o fogão. Uma tampa que arranjei à beira da estrada e que funciona como protecção. Por cima da tampa um cesto de pão. Lá dentro um saco-de-pano, de chita, talvez com pão. Carcaças, talvez. É o que gosto de comer. Depois continua a bancada. Há uma torradeira sobre a bancada. Utilizo muito a torradeira. Ao lado um frasco grande com azeitonas. Azeitonas do produtor. Um vizinho que as ofereceu. Ainda não estão em condições de serem comidas. As azeitonas ainda estão muito salgadas. Preciso de ir mudando a água com alguma regularidade.
O lava-loiças. Por cima, uma janela. A janela por onde olho enquanto lavo a loiça. A janela por onde vejo as montanhas lá ao fundo, as montanhas de eterno cume branco, onde subo durante o Verão, quando está mais quente e mais facilmente aguento os caminhos íngremes que me levam lá acima.
Depois o resto da bancada, onde está uma tomada que utilizo para pôr o telemóvel à carga. Às vezes está lá uma garrafa de vinho tinto. Às vezes, um cesto com fruta acabada de apanhar e que me vêm trazer cá a casa. Figos. Nêsperas. Maçãs. Às vezes um bolo da festa. Uns tremoços. No Verão, um melão encetado. Ou uma melancia que retiro do frigorífico algum tempo antes de comer por causa dos dentes.
A seguir a porta da rua. A porta que abro para o alpendre onde fumo os meus cigarros a olhar as montanhas.
Regresso à mesa. A mesa um pouco deslocada para a direita. A mesa onde não está um coelho guisado em tacho de barro mas onde podia estar. Faz parte da minha natureza-morta. O coelho guisado em tacho de barro que a minha mãe fazia para o meu pai e que mais tarde começou a fazer para mim. Eu também sei fazer esse coelho. Mas estou sem paciência para cozinhar. Para cozinhar só para mim. Gosto de cozinhar para mais gente, para mais pessoas..
A minha cozinha só tem espaço para a natureza-morta.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/26]

Já Sei Mentir Melhor

Fazia um grande esforço para não chorar. Entoava um mantra em silêncio, ecoado na cabeça, para me impedir de chorar. Ficava no meu canto em silêncio. Silêncio que toda a gente interpretava como arrogância. Eu era o tipo que não dava cavaco a ninguém. Estava na minha inacessível torre de arrogância e má-disposição e não falava com ninguém. Na verdade estava cheio de medo, metido no meu canto, à espera que tudo passasse, que tudo passasse e eu pudesse regressar ao meu quarto, à minha cama, ao meu mundo onde não tinha que ser forte nem querer da vida o mesmo que todos os outros e que era o que toda a gente deveria querer e quem não quisesse tinha um qualquer problema dos quais a arrogância era o mais inócuo, não fazia mal a ninguém, só afastava ainda mais as pessoas de mim mas era coisa que também não me importava pois o que eu queria era que não me chateassem, mas tinha amigos de infância que me conheciam antes de todos estes medos e que achavam que eu merecia bem mais do que aquilo que estava disposto a agarrar por, sei lá, desleixe, desinteresse ou falta de empatia.
Hoje sei mentir. E sei mentir bem. Não sou o rei da festa, longe disso. Mas já consigo estar ao pé das pessoas. Beber com elas. Dançar com elas. Desejar coisas que não desejo com elas. Receber desejos com um sorriso e desejar o mesmo ou similar e parecer mesmo que desejo. Bom, é claro que desejo. Desejo toda a sorte e fortuna às pessoas que me são próximas. É a mim que me custa sentir qualquer desejo, principalmente quando sei da impossibilidade de conseguir concretizar esse desejo. Como sair-me o euromilhões, por exemplo. Ou ganhar o Nobel da Literatura. Ou a Palma de Ouro de Cannes. Ou o Grammy Latino. São impossibilidades efectivas. Não sou escritor, nem cineasta, nem músico. Sou só um tipo que tenta sobreviver aos dias, vivendo um dia depois do outro, mesmo que na maior parte das vezes não me apeteça sair da cama nem sobreviver aos dias que nascem nas manhãs seguintes.
Acho que a minha grande ambição na vida é não acordar na manhã seguinte.
Mas não se pode dizer isso. Não se pode dizer isso alto. Não se pode fazer chegar esses desejos aos ouvidos de ninguém. Porque a vida é sagrada. E não aceitar a sagração da vida é de uma grande ingratidão. E eu sou um ingrato. Mas eles não sabem. Ninguém sabe. Porque agora sei mentir. Sei mentir bem. Agora sou uma pessoa feliz e cheia de empatia com toda a gente.
Quando regresso a casa, regresso sozinho. Regresso ao quarto. Regresso à cama. Liberto-me de todas as normas. Deixo a mentira lá fora. Fora da porta da rua da minha casa. E posso voltar a ser o que sou quando estou sozinho. Um tipo sem perspectiva de futuro que se vai arrastando nas vontades dos outros, enquanto se arrasta pelos corredores frios e vazios de uma casa solitária e triste.
Vou à varanda fumar um cigarro e acabo sempre a pensar que a minha casa devia ser mais dois ou três andares acima do que é.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/01]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]