A Cápsula do Tempo

Abri a cápsula do tempo e mergulhei lá dentro. Nunca tive um sótão em casa dos avós. Nunca tive casa dos avós. Nem me lembro de ter avós. Sim, tive avós. Toda a gente teve avós. Ninguém é de natureza espontânea. Mas nunca os conheci. Já tinham morrido quando nasci. Os meus pais quase que podiam ter sido meus avós. Eram já velhos quando nasci. Mas a casa deles, que era a minha, não era uma casa de avós. Nunca tive um sótão, uma cave, um buraco cheio de memórias físicas de vidas que não fossem minhas mas das quais me poderia apropriar. Então criei as minhas memórias. O meu sótão. A minha cave.
Fiz a minha cápsula do tempo.
Não era grande. Não guardava muita coisa. Sempre fui de deitar tudo fora. Ou quase. As irritações levavam-me à destruição. Quando acabava uma relação, destruía todas as fotografias da relação, e outras fotografias minhas que me lembrassem a relação, e deitava no lixo todas as coisas que me tivessem oferecido, e as coisas que eu próprio tivesse comprado mas que me lembrassem o contexto que queria esquecer. Nem os livros escapavam. Acabei por ter muito pouca coisa para guardar na minha cápsula do tempo quando a resolvi criar.
Ao nadar dentro da cápsula do tempo, acabei por descobrir um texto escrito há muito tempo sobre o filme Solaris do Andrei Tarkovsky. Não era bem uma crítica nem uma análise sobre o filme. Era mais um estado de espírito motivado pelo visionamento do filme, em especial, o sonho, a mentira e o desejo que a estória constrói para mim.
Começava eu, um outro eu, num outro espaço e num outro tempo do multiverso Pensava que a morte era o fim de tudo. O fim das ideias. Das emoções. Do amor. Pensava, lá no seu íntimo, que o que ficava era somente uma sensação de vazio.
E já não estou a falar da personagem. A cápsula do tempo traz-me a minha visão da personagem Kelvin confrontado com a sua própria mortalidade, e descubro, ao fim de todos estes anos que, afinal, estava no passado a falar de mim no futuro que é já hoje presente.
Pergunto-me se é a profecia da minha própria morte que encontro nos escombros da minha memória em forma de cápsula do tempo? Não serei eu que caminho ao longo do corredor quando ouço a voz dela a chamar-me? Não serei eu a estancar o passo? A voltar atrás e descobrir um passado deitado nu sobre uma cama desfeita que já não está à minha espera porque já lá estive e já lá não posso regressar?
Dou aos braços no mergulho na cápsula do tempo. Nado através das memórias. Vejo algumas com um sorriso na cara. Outras deixam-me ansioso. Descubro uma cassete. Uma mixtape de músicas de outro tempo. Relembro os meus anos ‘80. Tanta coisa que já tinha esquecido! Mas também muitas outras que me acompanharam ao longo dos anos. Envelheceram comigo. Fico irritado porque não tenho onde ouvir a cassete. Algumas músicas ecoam-me na cabeça. Outras, pura e simplesmente esqueci. Gostava de voltar a ouvi-las. Tenho de ir a uma Feira da Ladra. Encontrar um leitor de cassetes que já ninguém usa. Que poucos sabem para o que servem.
Descubro, enrolado numa prata, aquilo que deve ser uma pedra de haxixe. Porque terei guardado aqui uma pedra? Porque é que não a fumei? E depois lembrei-me que deixei de fumar porque me dava paranóia.
Olhei para a pedra. Sorri. Pus a pedra no bolso das calças. Fechei a cápsula do tempo. Saí de casa.
Ando há duas horas à procura de tabaco. Já não se vende cigarros em lado nenhum. Ninguém tem um cigarro para dar. Tenho de pensar em alternativas. Queimar a pedra directamente e aspirar o fumo. Desfazê-la para dentro de uma tosta-mista. Pedir à minha vizinha de cima para fazer uns queques com a pedra. Devia ter guardado um maço de cigarros na cápsula do tempo. Para lembrar da época em que fumava e a vida me parecia muito mais simples e sofrível.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/28]

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