Há Mais um Cão Cá em Casa

O cão apareceu por aí ao final do dia. Ou melhor, eu só dei por ele ao final dia. Tinha estado a chover durante toda a tarde. Ainda me aventurei pelo alpendre a fumar uns cigarros. Mas refugiei-me em casa. A chuva vinha tocada a vento e entrava pelo alpendre dentro e molhava tudo, a cadeira onde costumo sentar-me, a mesa onde amparo o copo de vinho, os tapetes onde os gatos costumam estar deitados na ronha. Ainda agarrei nos tapetes e levei-os para a cozinha para não se molharem mais.
Não sabia dos gatos. Nem do cão.
Passei a tarde na sala a acabar de ler Bem-Vinda a Casa, as memórias de Lucia Berlin (acho que me apaixonei por esta mulher fora do tempo, e não só pelas suas capacidades de escrita e criatividade, quando a olho na sua fotografia colorida que a Alfaguara publica nas badanas dos livros editados, percebo que era uma mulher lindíssima, muito bonita, de um olhar mágico e sedutor que o cigarro pendurado entre os dedos da mão esquerda ajuda a compor e a arrasta para dentro dos meus sonhos acordado) e esqueci-me que havia vida lá fora.
O luz do dia começou a cair. Ainda não era tarde mas a noite principiava a cair. A chuva continuava no seu embalo. Não chovia muito, mas era constante. Então lembrei-me dos gatos e do cão. Lembrei-me que precisava de lhes dar comida. Que tinha passado o dia todo sem lhes dar comida.
Saí para o alpendre e despejei ração para todos eles. Mas não aparecia ninguém, o que não era normal. O normal é os gatos e o cão virem logo, a correr, comer. Às vezes até arranham a porta para me lembrarem Então pá! Onde é que está a nossa paparoca? Normalmente o cão aspira tudo de uma vez, sôfrego. Os gatos comem às mijinhas. Vão lá várias vezes. Pequenas doses de cada vez. A guardar sempre para mais tarde. Mas não sabia deles.
Saí para a chuva. Dei uma volta pelo quintal. Vi que as laranjeiras estavam carregadas de laranjas. Apeteceu-me um sumo natural e fresco. Pensei em apanhar algumas. Mas lembrei-me que andava à procura do cão e dos gatos, que estava a chover, eu estava sem casaco e sem chapéu-de-chuva, nem sequer um cesto para apanhar as laranjas e decidi que ficava para o dia seguinte de manhã, de manhãzinha, para ainda conseguir espremer umas laranjas para o pequeno-almoço.
Dei a volta à casa e fui às traseiras. Vi os gatos empoleirados onde quer que fosse que estivessem no alto. Todos a olharem para o mesmo sítio. O cão estava mais à frente, em pose de guarda. Estático. Muito direito. Quase sem pestanejar. Ao fundo, junto à parede de fundo do telheiro, um cão, um outro cão, um cão pequeno, não percebi a raça, encolhido, acossado, tentava passar despercebido mas a sentir que era o centro das atenções.
Era um cão de caça. Daqueles cães pequeninos, mas muito afoitos. Devia ter sido abandonado por algum caçador. Raios os partam. Já tinha ouvido histórias destes cães abandonados pelos caçadores. Cães que já estão velhos. Cães que não são tão bons para perseguir as presas como os seus donos desejam. Ou simplesmente cães que já não são precisos e fica caro alimentar toda aquela canzoada. Esses cães abandonados costumam juntar-se e formar matilhas selvagens que sobrevivem matando as galinhas das redondezas.
O coitado do cão estava muito assustado. Estava magro. O pêlo, molhado, fazia-o parecer-se com um rato de esgoto. Por onde é que o cabrão do cão teria entrado?
Tive pena dele. Tenho sempre pena dos animais. Mais que das pessoas. Sim, eu sei, é estúpido. Mas os animais tocam-me mesmo cá dentro, no fundo do coração. Sou um emotivo.
Agarrei no cão que estava em pose. Fiz-lhe umas festas. Acalmei-o. Falei-lhe ao ouvido. Palavras meigas e suaves. Depois chamei-o para que viesse comigo. E ele veio. Os gatos ficaram lá a olhar para o cão.
Fui buscar uma tigela com ração. Pus a tigela ao pé do cãozinho, com o outro a olhar e eu a falar para os dois. O cãozinho olhava assustado para nós todos.
Entretanto parara de chover. Já era quase noite. Chamei o cão e os gatos para virem comer e deixei lá a comida para o outro.
Já estava há algum tempo no alpendre, com os gatos e o cão a comerem, eu a fumar um cigarro encostado ao pequeno muro, quando vi aparecer o cãozinho perdido. O cão olhou para ele, mas continuou a comer. Os gatos ignoraram-no. O cãozinhoo olhou para nós lá de baixo, deitou-se no chão do quintal e ficou a olhar para o alpendre.
Deitei fora o cigarro. E pensei que tinha mais um cão lá em casa. Ia ser um processo de aprendizagem com os outros todos. Vai ser aos poucos. E disse para mim próprio Eu não ganho é para os alimentar. E entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/30]

Refaço os Passos

Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Olho em frente e tenho dois Rothko a olharem para mim. Não são mesmo Rothko, mas alguém os pintou como se fossem. Um é preto com um rectângulo, mais acima, cinzento. O outro é castanho, castanho escuro, com um rectângulo, mais abaixo, castanho mais claro.
Como é que tudo começou, mesmo? Com a luz, pois. E fez-se luz. Eu abri os olhos. Fez-se luz. Gritei. O mundo começou a ser mundo. Uma velha gorda agarrou-me pelos pés, de cabeça para baixo, e deu-me duas palmadas no rabo. E eu gritei o meu primeiro palavrão. Foda-se! Chorei. Olhei em volta e vi uma mulher deitada na cama a olhar para mim. Vi-lhe o olhar ansioso. Ansioso por me abraçar. Salva-me, desejei! E foi aí que percebi que ia levar muita pancada na vida, mas iria curar as minhas mazelas nos braços das minhas mulheres. Das mulheres da minha vida. De todas. De todas as mulheres da minha vida. E a velha gorda virou-me outra vez. Agarrou-me ao colo e colocou-me nos braços da outra, a ansiosa, deitada na cama. Ela agarrou-me. Apertou-me. Ofereceu-me os peitos e eu chupei-os logo. Esfomeado.
As pinceladas são visíveis. Notam-se bem os caminhos. As camadas. O querer ser. Como as de Rothko. Pinceladas seguras mas imperfeitas. Orgânicas. Sujas. Algumas parecem querer esconder alguma coisa lá por baixo. Outras parece que levam pouca tinta e ainda se percebe a tela lá por baixo, a querer ser também obra de arte.
E então eu estava agarrado aos peitos e mamava. Sôfrego. Engasgava-me. Tiravam-me a mama. Batiam-me nas costas, os cabrões! Eu chorava. E gritava. E voltava a mamar. Para me calar. Para me calarem.
Foi assim que tudo começou?
Foi esta a origem de tudo?
O Big Bang?
Tudo começou nas mamas de uma mulher. A mãe. A mãe que me alimentou.
E não consigo deixar de olhar para estes falsos Rothkos que me entram pelos olhos dentro. Enchem-me. Fazem-me sonhar. Contam-me histórias sujas, de crime e paixão.
Preciso de me concentrar. Porra! Preciso de me concentrar.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Sinto umas garras agarradas à minha cabeça. Sinto umas garras a quererem virar-me para fora. Estava escuro e agora está claro. Estava quente e agora está frio. Estava silencio e agora alguém berra e grita.
Quem estão a matar?
Levanto-me e endireito um dos dois quadros falsos do Rothko que me iluminam o dia. E como é que cheguei aqui? Ao falso Rothko? A esta sala onde estou a ouvir música com os pés estendidos sobre um pequeno banco enquanto desfaço um cigarro em cinzas e olho em frente, um, não! dois Rothko.
Mas preciso organizar-me. Organizar o pensamento. Preciso de saber como é que tudo começou. Preciso de saber.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Foi com a luz, pois. Sim. Fez-se luz! E depois? Onde é que tudo isto se fundiu? Preciso de me organizar. Refazer os passos.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/12]