O Fim do Mundo e uma Lata de Coca-Cola

Já não sei há quantos dias venho a caminhar. Acho que já passaram algumas semanas. Talvez meses. Já perdi a noção do tempo. Os dias são iguais. Cinzentos. Com esta chuva de cinza, constante, que cai dia e noite. A minha respiração ressente-se. Às vezes falta-me o ar. Preciso de parar. Tenho de parar. Recuperar o fôlego, a respiração. Mas tenho de voltar logo a partir, tenho de continuar em frente. À procura. Tenho de encontrar o grupo.
Ainda não me cruzei com ninguém. Desde que saí lá de cima, da quinta, nunca mais me cruzei com ninguém. Não há pessoas por aqui. Nem cães. Os pássaros, tal como lá em cima, desapareceram todos. Talvez tenham morrido. Talvez tenham ido todos morrer para o mesmo sítio. Não se vê nenhum caído pelo chão. Talvez os comam. As pessoas que eu também não vejo. As pessoas com quem não me cruzo. Devem estar por aí escondidas, talvez. Não morreu toda a gente. Não. Não morreu toda a gente. Mas todos têm medo. E escondem-se.
Estou cansado. Desde há alguns dias que me sinto cansado. Já não é só a respiração pesada por causa desta fuligem que teima em cair dos céus. São as pernas que já se movimentam sozinhas, mantendo o ritmo da caminhada, mas já não as sinto. As botas estão a ficar rotas. Devia arranjar outras, mas não encontro nenhumas. Nem uma loja nem um morto calçado. E pelo caminho que estou a fazer, já foi quase tudo saqueado.
A comida está a acabar-se. Tenho uma garrafa de plástico de 33cl ainda com água. E ando a poupá-la. Não tenho arranjado comida nem bebida. Está tudo vazio. Seco. Pareço que estou no fim do mundo depois do mundo ter acabado.
Tenho parado e entrado em quase todas as casas por onde passo. Procuro coisas. Não sei bem o quê. Coisas que me possam ajudar, que me possam servir. Comida. Roupa. Ferramentas. Coisas.
Hoje de manhã entrei num café à beira da estrada. Deve ter sido um café-restaurante para camionistas. Tinha um enorme terreno em terra batida, vazio, ao lado. Lá dentro, um enorme balcão e dois espaços grandes com mesas e cadeiras, tudo revolvido. Procurei por todo o lado. Abri todas as portas, abri todas as gavetas, procurei em todos os armários, dentro de todas as arcas frigoríficas, de todos os frigoríficos. Nada. Nada de nada. E depois, ao sair de uma das casas-de-banho onde fui à procura de papel-higiénico, que também não havia, vi, atrás de um grande vaso, um vaso que antes de tudo isto deve ter tido flores, mas que agora estava vazio, atrás do vaso, um pouco de lado, um bocado de vermelho que me chamou a atenção, e cheguei-me a ele, e baixei-me e estiquei o braço e a mão e alonguei os dedos e agarrei. Era uma lata. Uma lata de Coca-Cola. Coca-Cola clássica. Lata vermelha. Já fora do prazo, mas que sobrevivera a todos os saques que aquele café sofrera para esperar por mim. E ali estava eu. Com a lata de Coca-Cola na mão. Sem gelo. Sem limão. Sem um copo sequer. Ainda procurei, mas estava tudo partido. Sentei-me ao balcão. Abri a lata. Ouvi o estalito do alumínio a abrir e o fsch que o gás da Coca-Cola fez ao ser libertado. Levantei a mão com a lata e cheguei-a aos lábios e beberiquei um pouco, e senti as borbulhas a explodir na boca e despejei mais pela garganta abaixo e senti a garganta a rebentar com a aspereza do gás e fui seguindo o trajecto da Coca-Cola dentro de mim até chegar ao estômago e então, arrotei. Mas um arroto tão sonoro que me assustei. Não estava habituado ao barulho. Soube-me bem, arrotar. E soube-me muito bem sentir aquele sabor adocicado da Coca-Cola. E foi no momento em que voltei a levar a lata à boca pela segunda vez, que me lembrei d’ A Estrada de Cormac McCarthy e do momento em que o homem dá a provar ao rapaz, pela primeira vez na vida, um bocado de Coca-Cola. E sorri. Como a ficção pode antecipar tão bem a realidade. Naquele momento, senti-me uma personagem da ficção de McCarthy, mas em real. Aquilo não era uma história. Aquilo era a minha vida. E sim, tínhamos dado cabo do mundo. Alguns de nós tinham dado cabo do mundo, mas acabámos todos a sofrer com isso. Não deve haver ilhas isoladas, condomínios fechados ou paraísos fiscais que tenham sobrevivido ao apocalipse. Não há sol. Já há muito tempo que não se vê o sol. Quanto tempo? Talvez anos. Já não sei. E esta fuligem! Esta cinza constante a cair dos céus. Não há terrenos cultivados. Não há rios de água cristalina. Não há culturas nem água potável. Há restos. Restos que sobreviveram ao fim. Há esta chuva de cinza. E frio. Muito frio. Estamos todos na merda a tentar sobreviver, os que sobreviveram, com o que se consegue recuperar, saquear, descobrir nos sítios por onde se passa. Já não há Continente e Pingo Doce com os seus camiões de distribuição a encher os lineares dos supermercados. Já não há nada. Nada de nada. Só meia-dúzia de pessoas que deixei lá para cima há não-sei-quantos-dias para procurar um outro grupo de pessoas que, parece, está cá para baixo, não-sei-bem-onde, e está a tentar organizar o que resta de nós. De nós todos.
Tenho ouvido algumas histórias. Violência. Grupos que percorrem as estradas à caça. Canibalismo. Até agora são só histórias. Já venho a caminhar há tanto tempo e ainda não encontrei vivalma. São essas histórias que me fazem companhia na estrada.
E lá vou eu. A descer, acho. Em direcção a sul se a bússola estiver a funcionar. Às vezes o ponteiro dá umas voltas tontas. Depois pára e mostra-me o norte. Acho. E eu sigo para sul.
Estou cansado. Não sei se vou encontrar alguém. Não sei se as pessoas que deixei lá para cima estão ainda vivas. Eu continuo aqui. A caminhar na estrada. Estou com uma respiração ofegante. Cansado. E com as botas a ficarem rotas.
Mas hoje foi um bom dia. Hoje bebi uma Coca-Cola.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/09]

Já Sei Mentir Melhor

Fazia um grande esforço para não chorar. Entoava um mantra em silêncio, ecoado na cabeça, para me impedir de chorar. Ficava no meu canto em silêncio. Silêncio que toda a gente interpretava como arrogância. Eu era o tipo que não dava cavaco a ninguém. Estava na minha inacessível torre de arrogância e má-disposição e não falava com ninguém. Na verdade estava cheio de medo, metido no meu canto, à espera que tudo passasse, que tudo passasse e eu pudesse regressar ao meu quarto, à minha cama, ao meu mundo onde não tinha que ser forte nem querer da vida o mesmo que todos os outros e que era o que toda a gente deveria querer e quem não quisesse tinha um qualquer problema dos quais a arrogância era o mais inócuo, não fazia mal a ninguém, só afastava ainda mais as pessoas de mim mas era coisa que também não me importava pois o que eu queria era que não me chateassem, mas tinha amigos de infância que me conheciam antes de todos estes medos e que achavam que eu merecia bem mais do que aquilo que estava disposto a agarrar por, sei lá, desleixe, desinteresse ou falta de empatia.
Hoje sei mentir. E sei mentir bem. Não sou o rei da festa, longe disso. Mas já consigo estar ao pé das pessoas. Beber com elas. Dançar com elas. Desejar coisas que não desejo com elas. Receber desejos com um sorriso e desejar o mesmo ou similar e parecer mesmo que desejo. Bom, é claro que desejo. Desejo toda a sorte e fortuna às pessoas que me são próximas. É a mim que me custa sentir qualquer desejo, principalmente quando sei da impossibilidade de conseguir concretizar esse desejo. Como sair-me o euromilhões, por exemplo. Ou ganhar o Nobel da Literatura. Ou a Palma de Ouro de Cannes. Ou o Grammy Latino. São impossibilidades efectivas. Não sou escritor, nem cineasta, nem músico. Sou só um tipo que tenta sobreviver aos dias, vivendo um dia depois do outro, mesmo que na maior parte das vezes não me apeteça sair da cama nem sobreviver aos dias que nascem nas manhãs seguintes.
Acho que a minha grande ambição na vida é não acordar na manhã seguinte.
Mas não se pode dizer isso. Não se pode dizer isso alto. Não se pode fazer chegar esses desejos aos ouvidos de ninguém. Porque a vida é sagrada. E não aceitar a sagração da vida é de uma grande ingratidão. E eu sou um ingrato. Mas eles não sabem. Ninguém sabe. Porque agora sei mentir. Sei mentir bem. Agora sou uma pessoa feliz e cheia de empatia com toda a gente.
Quando regresso a casa, regresso sozinho. Regresso ao quarto. Regresso à cama. Liberto-me de todas as normas. Deixo a mentira lá fora. Fora da porta da rua da minha casa. E posso voltar a ser o que sou quando estou sozinho. Um tipo sem perspectiva de futuro que se vai arrastando nas vontades dos outros, enquanto se arrasta pelos corredores frios e vazios de uma casa solitária e triste.
Vou à varanda fumar um cigarro e acabo sempre a pensar que a minha casa devia ser mais dois ou três andares acima do que é.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/01]

Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

Ninguém Sabe o Quê, mas Algo se Passa!

Ela entrava e saía de casa em silêncio. Se ainda tinha voz, usava-a fora de casa. Já não a ouvia dizer nada há mais de dois anos. Dois anos nisto. Dois estranhos a viver na mesma casa mas vidas diferentes em casas diferentes.
Cada um de nós tinha o seu quarto. Cada um de nós tinha a sua casa-de-banho. A minha era no quarto. Eu fiquei com a suite. Ela é que saiu do quarto. Da cama. Da nossas vidas. Mas quando estava em casa sozinho, ia à casa-de-banho dela mijar. Às vezes mijava para cima do papel higiénico.
Todas as outras partes da casa eram de quem já lá estivesse. Quem chegasse depois, enfiava-se no quarto.
Houve uma altura em que me esqueci do nome dela.
Ela saiu do quarto, mas não tinha para onde ir. Eu muito menos. Ficámos ambos em casa. Mas ela ignora-me. Eu ignoro-a. Nunca pensei sobreviver a isto. Mas, ao fim de algum tempo, habituei-me. Ela também.
Eu nunca trouxe ninguém cá para casa. Também não tinha ninguém para trazer. Não sou muito dado às pessoas. Fujo. E acho que ainda gosto dela. Mas não tenho a certeza. Na verdade não sei muito bem. Ela também nunca trouxe ninguém cá para casa. Pelo menos que eu percebesse. E eu percebia. Passo a maior parte da minha vida aqui, em casa. Entre o quarto, a sala e a cozinha. Ela sai mais. Mas não muito mais. Lê mais que eu. Eu vejo mais televisão. Programas de merda. Gosto dos programas da tarde. Gosto daquelas conversas estúpidas sem sentido nem utilidade. Também gosto dos documentários que passam a altas horas da manhã. Sobre jornalistas infiltrados no KKK, na Máfia, na Aurora Dourada. Ela às vezes ouve música que eu ouço distante lá no quarto dela. Ela não conhece nada de música. Era eu quem lhe mostrava as coisas de que vinha a gostar. Quem é que lhe andará a mostrar músicas? É melhor nem pensar nisso! Fico com azia!
Com tanto silêncio a que já estava habituado em casa, assustei-me quando a ouvi perguntar O que é isto?
Ela estava ali. Debruçada sobre mim. Sussurrava qualquer coisa ao meu ouvido. Eu virei-me na cama. Ergui-me. O quê?, perguntei. E ela disse Não ouves? E eu insisti Não ouço o quê?. E era estranho ouvir a voz dela. Já não ligava aquela voz àquela cara, àquela boca, àqueles lábios. Ouve! dizia ela. Toma atenção! E eu tomei atenção. Mas não ouvia nada. Fiquei assim um momento. Um momento que me pareceu enorme e, quando já estava a desistir de tomar atenção, ouvi. Não sei bem o que ouvi, mas ouvi. Ela tinha razão. O que era aquilo?
Levantei-me de um salto. Fui até à janela. Ela veio atrás de mim. Abri os estores. Havia bolsas de luz no céu. Como se fosse fogo-de-artifício, mas que durava muito mais. E não fazia barulho. O barulho que se ouvia era outra coisa, mas não conseguia perceber o quê. Havia mais gente como eu na janelas e varandas a tentar perceber o que se estava a passar. Havia gente na rua. Era de madrugada, mas havia muita gente na rua. Gente a tentar sair da cidade. Começavam a arrancar carros. Motas. Camiões. Trotinetas. Havia muita gente a ir embora. Havia muita gente a pé. Não sei para onde iam. Só sei que iam embora dali. Olhei para o lado e vi o meu vizinho. Não sabia que tinha um vizinho. Estava tão aparvalhado quanto eu. O que é que se passa?, perguntou! Eu encolhi os ombros. Voltei para dentro de casa. Ela estava parada no meio da sala às escuras. Olhava para mim. Estava assustada. Eu assustei-me com ela. Por a ver ali. Já não estava habituado a vê-la por ali. Está toda a gente a sair da cidade, disse. E ela perguntou E nós? Também vamos? Eu não sabia o que responder mas disse Acho que sim! E como?, voltou a perguntar. Nós não tínhamos carro. Vivíamos na cidade. Andávamos de transportes públicos, de táxi, de uber. Quando saíamos íamos de autocarro, de comboio, de avião. Nunca precisámos de um carro. Vamos de bicicleta! disparei logo. Tínhamos duas bicicletas de quando achávamos que éramos ecologistas e jovens e desportistas. Ainda deviam estar em condições. Arranja uma mochila que consigas transportar às costas. Coisas de primeira necessidade. Alguma comida. Vou fazer o mesmo. E fomos. E quando estávamos prontos saímos de casa. Fechámos tudo. Descemos à garagem. Fomos pelas escadas. Evitámos o elevador. Encontrei logo as bicicletas a um canto. Tirei-lhes as teias-de-aranha. Soprei o pó. Dei umas bombadas nos pneus que estavam vazios, mas não estavam furados. E perguntei-lhe Consegues? E ela disse Sim.
Saímos da garagem. Do prédio. Fizemos a rua. As ruas. Saímos da cidade. Nós e outros como nós. Íamos atrás uns-dos-outros. Ninguém sabia muito bem para onde. Para fora da cidade era uma certeza. As grande bolsas de luz pareciam concentrar-se sobre a cidade. Os sons que não conseguia identificar também estavam sobre a cidade. Notámos isso à medida que nos íamos afastando.
Eu ia sempre de olho nela. A ver se estava tudo bem. Desmontámos algumas vezes nas subidas. Levámos as bicicletas à mão. E fomos.
Ainda estamos a ir. Encontramos pessoas a quem perguntamos O que se passa? Não sei! é a resposta. Ninguém sabe. Mas vamos indo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/07]

Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender ninguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]