Violência Gera Violência

Estava a almoçar. Tinha feito dois ovos mexidos com chouriço cortado aos bocadinhos e ajudava o garfo com um bocado de pão saloio do Zé dos Frangos. A caminho da boca, o garfo ficou em suspenso frente à bocarra aberta, ao ver o polícia a disparar sete vezes. Sete tiros. Sete tiros à queima-roupa. Sete tiros pelas costas num homem preto. O homem não estava a fugir. O homem não era nenhuma ameaça. O homem não tinha nenhuma arma nas mãos. O polícia disparou-lhe sete tiros nas costas.
Pousei o garfo. Senti o estômago às voltas. As garfadas de ovos mexidos que já tinha engolido, pareciam querer voltar para trás. Subir pelo esófago, voltar à boca e disparar para fora, sobre o prato, sobre a mesa, pela cozinha. Espalhar-se, azedo, por todo o canto da cozinha.
Peguei no comando do cabo e puxei a notícia atrás.
Um homem preto, perseguido por vários polícias, tenta entrar num carro. Um dos polícias puxa o homem pela camisola. Vejo a camisola esticar-se pelo puxão. O homem preto parece não querer parar. O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto. Repito para eu próprio perceber o que estou a relatar: O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto.
Foda-se! Respiro fundo.
Sinto o estômago às voltas. Percebo os ovos mexidos a voltarem para trás. Levanto-me a correr da mesa e vou até ao lava-loiças. Abro a boca e vomito. Vomito uma massa amarelada com laivos cor-de-rosa, provavelmente do chouriço e do vinho. Deito tudo fora até já não restar mais nada dentro de mim. Transpiro. Sinto o suor a cair pelas têmporas. Cuspo. Cuspo várias vezes para o lava-loiças. Cuspo mesmo quando já não tenho mais saliva na boca para cuspir.
Levo água à boca. Lavo os lábios, a cara, molho o cabelo. Bochecho. Deito fora. Volto a bochechar. Volto a deitar fora. Tento acalmar. Respiro fundo.
Volto para a mesa. Na televisão, a notícia já é outra. Já nem sei o quê. Eu olho para a televisão e o que vejo é um homem preto a ser alvejado pelas costas, sete vezes, alvejado sete vezes à queima-roupa, pelas costas.
Afasto o prato com o resto dos ovos mexidos. Não consigo comer mais. Mas devia que agora não tenho nada no estômago. Bebo um gole de vinho tinto. Acendo um cigarro.
Como chegámos aqui?
Faço tantas vezes esta pergunta e nunca chego à resposta.
O homem branco está com medo de perder o seu privilégio de raça privilegiada. O homem branco heterossexual está com medo das transformações do mundo. O homem branco está com medo de, um dia, ao sair de casa, estar num prédio, numa rua, numa cidade, cheia de pessoas pretas e pessoas homossexuais e mulheres independentes e seguras de si e tem medo do que o destino lhe reserva. Este homem branco tem medo de ser o único e de se sentir só.
Agora, neste momento não consigo pensar em mais nada. Não quero pensar em mais nada. Não quero pensar em ódio. Não quero pensar em fanatismo. Em religião. Em clubes de futebol. Em nós contra eles. Até porque, em qualquer altura, nós somos eles. Eu sou ele.
E a violência gera violência. E sinto o meu olhar a desviar até ao canto da cozinha onde tenho um taco de basebol vindo directamente da América. A violência gera violência. Levanto-me da mesa e caminho até ao canto da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/25]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descobri hoje num jornal online que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]

A Serra Onde Eu Passeava

Naquela época, quando vim para cá viver, aos fins-de-semana pegava no carro e ia até à serra. Ia de carro até ao sopé da serra. Havia um cafezinho lá mesmo onde começava o trilho para subir a serra. Eu parava o carro debaixo de uma oliveira, para o proteger do sol, bebia um café expresso, queimado, era uma característica daquele cafezinho, tinha sempre o café queimado, fumava um cigarro à entrada, a olhar a subida que me esperava, e depois ia por ali fora, arranjava um cajado, havia sempre uns paus, uns ramos de árvore caídos, e eu aproveitava a ajuda de um qualquer cajado que me impulsionava os passos serra acima.
Levava uma garrafa de água e umas peças de fruta numa mochila às costas, uma máquina fotográfica, uns binóculos, e lá ia eu, trilho acima. Fotografava muito. Procurava identificar as aves. Tentava não me cruzar com os lobos. Sentava-me em enormes pedras a fumar um cigarro e a descansar da subida. Às vezes a minha respiração ressentia-se do esforço. Repousava um pouco. E recomeçava. Às vezes saía dos trilhos e aventurava-me pela serra dentro. Mas nunca achei que a serra fosse muito perigosa. Lá de cima via sempre casas cá em baixo. Nunca me senti isolado. Só. Nunca imaginei que poderia vir a perder-me ou outra coisa qualquer pior. Mais tarde, no entanto, vim a saber de pessoas que tinham desaparecido na serra e nunca chegaram a ser encontradas. Nem nunca apareceu nenhum corpo. É verdade que a serra estava cheia de buracos, entradas para grutas, algumas delas ainda desconhecidas e por explorar. Às vezes as rochas impediam a progressão do caminho e tinha de voltar para trás. Às vezes perdia-me naquela beleza e via a noite tombar comigo fora dos trilhos. Sempre soube regressar ao trilho, ao sopé da montanha, ao carro. Essas pessoas que desapareceram, isso só soube mais tarde. Só soube isso numa altura em que já não podíamos passear assim pela serra.
Nas primeiras décadas do novo milénio, começaram a montar turbinas eólicas ao longo do cume. O cimo da serra, outrora orgulhosamente careca e de horizonte aberto, começava a ser inundado de turbinas eólicas numa tentativa verde de prescindir dos combustíveis fósseis. Não demorou muito para que, o que começou por serem pequenos actos de vandalismo, se tornarem verdadeiros actos de terrorismo.
Logo quando montaram as primeiras turbinas, os postes onde as hélices estavam plantadas foram grafitados. Nada de novo. Tudo o que era passível de ser grafitado, era grafitado. Qualquer muro, parede, superfície em branco era um convite ao grafite selvagem. Mas logo começaram os ataques à próprias hélices. Algumas delas já tinham sido deitadas ao chão antes ainda de estarem a funcionar.
Não tardou que a serra fosse vedada. Começava logo no sopé. Umas redes impediam a progressão de quem queria subir a serra. Mas havia vários níveis de protecção. As primeiras redes ainda se conseguiam ultrapassar. Depois, lá mais para cima, vinha o arame-farpado e mais acima, as cerca electrificadas. Também havia umas guaritas, em vários pontos da serra, com guardas-florestais recuperados por causa das turbinas eólicas.
A serra que tinha sido de toda a gente, um oásis de natureza tão rico, com tantos pássaros (ainda se viam, hoje, inúmeras águias e falcões e milhafres) e alguns animais no seu estado selvagem (lobos e linces), para além de algumas árvores que já só se encontravam ali, estava agora fechada ás pessoas. Só as empresas responsáveis pelas turbinas eólicas e as autoridades florestais lá podiam entrar. No início ainda houve algumas reclamações. Mas não deram em nada. E a serra acabou numa espécie de privatização de estado.
Mesmo assim, não acabaram os atentados terroristas. Diminuíram, mas não terminaram.
Agora eu passava os fins-de-semana no alpendre aqui de casa a olhar a serra à distância e a recordar as belas tardes em que me perdia nos seus trilhos. Tenho saudades desses tempos. Do silêncio que me acompanhava lá em cima. Da solidão que me permitia estar mais em contacto comigo próprio.
E pensava se todas estas coisas valiam a pena. Perder o acesso à beleza natural do mundo para ter acesso à beleza tecnológica do mesmo mundo. É claro que com tudo isto vinha o conforto, o prazer, o descanso. O conhecimento. E isso era bom, claro que era bom. Mas, e eu? O que é que eu podia fazer agora nas minhas tardes de Sábado e Domingo, agora que não podia subir à serra e ver todas as belezas que já só há nos livros de história?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/20]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

A Rapariga no Cemitério

Conheci-a no funeral do pai. Na verdade, depois do funeral. Também não a conheci de verdade. Mas estive com ela.
Eu estava no cemitério a limpar a campa da minha mãe. Assisti àquele gigantesco evento ali mesmo ao lado. Um sai-e-entra de gente vestida de preto. Bons cortes. De fatos e cabelo. Óculos escuros. Muito choro. Alguns cigarros acesos. Senhoras de idade, com véus pretos sobre a cara, amparadas por rapazes e raparigas novos, talvez netos, mas vestidos como gente grande. Gente com dinheiro. Devia ser alguém importante. O morto. Alguém querido de muita gente.
Sentei-me na campa da minha mãe e fiquei por ali um bocado. À espera que se fossem embora. À espera de um pouco de calma. Gostava de conversar com a minha mãe. Cada um de nós no seu lado do mundo. Ela tinha paciência para me ouvir. E eu contava-lhe, a ela, o que não contava a mais ninguém. Confiava que a conversa não sairia dali. Também estava à espera de poder mudar as flores e garantir que elas ficavam por lá. Pelo menos naquele dia. E não eram espezinhadas pela multidão. Por aquela enorme multidão. Sentei-me. Acendi um cigarro.
Acendi outro.
Deu-me a moleza.
Fechei os olhos.
Devo ter adormecido. Adormecido sentado na campa da minha mãe. A multidão do lado já se tinha ido embora. Ficaram as inúmeras coroas de flores e o seus cartões sociais. E estava lá uma rapariga. Só. Ela. De preto. Vestido preto. Casaco preto. Sapatos pretos de meio salto. Bem escovados mas com lama a sair debaixo da sola. A lama do cemitério agarrada aos pés.
Ela caiu.
Eu levantei-me e corri. Corri para ela. Saltei entre as coroas de flores. Baixei-me. Pus os meus dedos no pescoço dela. Tinha pulsação. Olhei em volta. Ninguém. Agarrei no telefone e liguei para o Cento e Doze.
Atenderam. Expliquei. Desliguei.
Acendi um cigarro. Olhei para ela ali caída aos meus pés. Pensei Devia pô-la confortável. Pensei É melhor não lhe mexer. Pensei É gira a miúda. Pensei Já não é bem miúda. Já é uma mulher, talvez já mesmo uma senhora. Pensei Que porra de pensamentos.
Ela abriu os olhos. Olhou para mim. Mas não se mexeu.
Eu mandei o cigarro fora. Baixei-me. Disse Desmaiou. Ela não disse nada. Eu tirei a camisola, dobrei-a, fiz uma almofada e coloquei-lhe por baixo da cabeça. Disse Chamei o Cento e Doze. Ela não disse nada. Cheirava bem. Um cheiro de banho tomado. E um perfume suave. Não muito doce.
Levantei-me. Olhei para a porta de entrada. Ninguém. Voltei a baixar-me. Perguntei Quer avisar alguém? Ela não disse nada. Senti um toque. A mão dela agarrou-me no pulso. Mexeu os lábios. Não ouvi. Baixei-me. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Senti um ligeiro sopro. E uma voz muito sumida, vinda lá do fundo e sem sair de lá, disse Obrigada. Afastei-me e vi os lábios dela forçarem um suave e breve sorriso.
Ouvi a sirene dos bombeiros. Chegaram dois paramédicos. Afastei-me. Um deles perguntou-me Como se chama? Eu?, perguntei. Ela!, respondeu. E eu disse Não sei. O outro baixou-se. Auscultou-a. Mediu-lhe a tensão. Olhou-a no olhos. Bem dentro dos olhos. Fundo nos olhos. Acho que lhe procurava a alma.
Colocaram-na numa maca. Prenderam uns cintos à volta dela. Levaram-na para a ambulância. O paramédico perguntou-me Vem? Eu abanei a cabeça.
E a ambulância foi. Fiquei a ouvir a sirene a tocar durante algum tempo. Até se extinguir por completo.
Agarrei na minha camisola e voltei a vesti-la. Fui limpar a campa da minha mãe. Conversar com ela. Contei-lhe o que tinha acontecido.
O tempo passou.
Fumei um cigarro.
Fui embora.
Na estrada cruzei-me com um acidente. A ambulância que tinha ido buscar a rapariga estava, feita acordeão, espetada de frente num camião TIR que transportava Porsches. Alguns dos Porsches tinham caído do camião abaixo. Estavam semi-destruídos no meio da estrada.
No dia seguinte li, no Correio da Manhã, sobre um acidente onde tinha falecido a filha do homem que tinha sido enterrado na véspera. Ela era a filha! Morreu no mesmo dia em que o pai fora a enterrar. Há gente que não tem muita sorte com a vida. Há coincidências que se tornam diabólicas. Há coisas que nos passam pelas mãos e escorrem entre os dedos.
Ainda me lembro do cheiro dela. Cheiro de banho tomado. Um perfume suave e não muito doce. E era gira, a miúda. Miúda não, já era uma mulher.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/18]

Ataques de Pânico

Já não sabia dela há uns dois, três anos. Desde que me pôs fora de casa. Nem chegou a olhar para mim. Pôs-me fora de casa por mensagem. Enviada para o telemóvel. Assim Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Não respondi. Senti arrepios pelo corpo. E não eram arrepios de frio. Era início de Outono. Um Outono quente. Estava na rua. Na cidade. No meio da cidade. Quando li a mensagem. Encostei-me a uma parede e vomitei. Fui olhado de lado por quem passava. Eu via-os a olharem para mim. O que foi, oh caralho? apetecia-me perguntar-lhes. Mas não disse nada. Nunca digo nada. Viro costas. Não por cobardia. Mas porque não gosto de me chatear.
Fui directo a casa. A casa dela. Ninguém. A casa estava vazia. Enchi uma mochila com umas roupas. Trouxe uns sacos de plástico com uns livros. O resto deixei por lá. Não tinha como os levar. Nem queria saber. No momento, estava furioso.
Sentei-me no sofá. Um último cigarro antes de me ir embora. Ela não gostava que eu fumasse lá em casa. Só à janela. Olha!… Azar!
Encontrei uma garrafa de vinho. Um Douro. Já não me lembro o que era. Abri-a. Bebi-a. Fumei todos os cigarros que tinha. E pensei. Pensei em coisas. Pensei em como tudo tinha começado a acabar. Pensei naquele dia em que estávamos no café. No centro da cidade. Íamos embora. Eu levantei-me da mesa. E ele continuou sentada. Estava branca. Muito pálida. Voltei a sentar-me. Perguntei-lhe O que se passa? Agarrou-me a mão. Com força. E continuou lá sentada. Sem falar. A tremer. A boca a mexer como se quisesse dizer alguma coisa mas sem dizer nada. Fiquei assustado. Pedi um copo de água. Consegui que bebesse um gole. E finalmente, passado um bom bocado, disse-me Vamos! E fomos. Mais tarde tentei abordar o assunto. Evitou-o sempre. Aquilo repetiu-se. Várias vezes. Mais tarde vim a saber que eram ataques de pânico. Porra! O que é que eu devia fazer? E ela não me ajudava a ajudar. Eu estava lá. Só! Só estava lá. Mas não sabia ao que estava. Ou como devia estar.
Tentei que fosse ao médico. Mais tarde percebi que era o pior que se podia fazer. E eu pensei E então? O que é que devo fazer? Como é que devo agir? Mas ninguém me disse. Ninguém sabia. Se calhar nem ela. Mas não me devia ter deixado de fora.
A última vez que aconteceu uma coisa do género tinha sido na semana anterior. Íamos a um concerto. Mas não fomos. Chegámos até ao parque de estacionamento. Estacionámos o carro. Bebemos uma cerveja. Chegámos até à entrada da sala. Estava cheia de gente. O concerto estava esgotado. Ela virou-se para mim e disse Vamos embora! Embora para onde? perguntei. Para casa! respondeu. Fiquei a olhar para ela. Acendi um cigarro. Lembro-me que ela tossicou. E fomos embora para casa. Nessa noite não voltámos a falar. Mas nessa semana discutimos muito. Eu achava que ela devia ir ao médico. Ela achava que devia fazer o que achava que devia fazer. E fomos ao limite. E ela disse Muito sinceramente, não me consigo sentir bem contigo cá em casa. Gostava que arranjasses outro sítio para ficar e se conseguisses até ao fim-de-semana era o ideal. Pede a um dos teus amigos. Ou amigas. Tens tantos.
Apaguei o cigarro num prato. Larguei o copo na mesa da cozinha. Ao lado da garrafa vazia. Deixei as chaves lá caídas. Saí de casa dela. Entrei em casa de um amigo. Fiquei por lá uns tempos. Depois mudei de trabalho. Mudei de cidade. Mudei de vida. Esqueci. Esqueci-a.
Até hoje.
Hoje recebi um mail. Dizia assim Desculpa por ter sido tão cabra. Desculpa por ter terminado assim, daquela maneira. Desculpa não ter falado contigo. Não estava bem. Estou melhor. Preciso que me desculpes.
Eu respondi de imediato ao mail Claro que desculpo.
O que é que eu havia de dizer?
Mas na verdade não queria saber. Não queria saber mesmo nada. Aquela já não era a minha vida.
Depois pensei por umas horas nela e naquela época. E esperava realmente que estivesse melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/05]

My Life in the Bush of Ghosts

1966.
A minha mãe está de pernas abertas, sobre a cama. A tentar expulsar-me de dentro dela. A parteira está com dificuldades. Não quero sair. Não quero vir para este mundo ganancioso e estúpido. Tenho de ser arrancado a ferros do conforto da minha mãe.
1975.
Estou na sala. De joelhos. A espreitar, pelos buracos da persiana não totalmente fechada, a rua. A ver a quantidade de gente que passa, a manifestar-se, a caminho da porta de armas do RAL4. Gritam O povo unido jamais será vencido. Mal sabem eles!
O meu pai entra em casa. Viro-me para dentro. Vejo-o ir ao quarto. Vejo-o trazer uma pistola na mão. Ouço a minha mãe O que é que vais fazer? O que é que vais fazer? Tem cuidado! Ouço o meu pai Anda tudo doido, lá fora!
1984.
Estou numa canadiana. Algures no Estoril. Talvez não seja bem o Estoril. Mas é na zona. Está a chover. Está a chover que Deus-a-dá! Estou enfiado dentro do saco-cama. Todo enfiado dentro do saco-cama. A cabeça coberta. Tapo os ouvidos para não ouvir a chuva a cair. Sinto a água a passar por baixo de mim. Imagino-me arrastado numa onda gigante e sugado para dentro do Atlântico.
1993.
Estou na cama. O edredão sobre a cabeça. Ouço as pessoas a passar na rua, mesmo junto à cabeceira da cama. Não consigo levantar-me. Não consigo sair da cama. Tocam à campainha. Batem à porta. Chamam-me. Gritam. Não atendo. Não estou. Não sou.
2001.
Estou em Nova Iorque. Estou em Manhattan. Estou à janela, do alto do meu apartamento. Estou de boca aberta. Incrédulo. Na linha do meu olhar, no meu horizonte, vejo um avião a espetar-se nas Twin Towers. Vejo uma das torres a cair. Depois a outra. Vejo uma enorme nuvem de pó a cobrir a ilha de Manhattan. Estou parado à janela. A ver. Não consigo desviar o olhar. Não consigo sair daqui. Não consigo mexer-me.
2018.
Estou em casa. Sentado no sofá. A casa às escuras. A televisão desligada. O telemóvel, em cima da mesa de apoio, na sala, só marca as horas. Só. Lá fora, na rua, a cidade em festa. Há fogo de artifício que me entra, às cores, em casa, pelas janelas de persianas abertas. Ouço música. Gritos de alegria. Cantoria. Passos de danças. Ponho as mãos nos ouvidos. Tento enfiar os dedos nos ouvidos. Quero bloquear os sons da alegria. Quero silêncio.
2019.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/31]