A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

Um Beijo e o Chá de Hibisco

Ela baixou-se e deu-me um beijo. Baixou-se ao pé de mim. Eu senti-a chegar antes de a ver. Senti-lhe o cheiro. Uma mistura de várias especiarias que tinha estado a utilizar na preparação do jantar, mas por cima, por cima de tudo isso, o perfume, o perfume floral que costuma utilizar e que já conheço. Cheirei-a e percebi que ela vinha lá. Depois baixou-se e deu-me um beijo.
Deixou-me um chávena de chá juntamente com o beijo. Uma chávena com chá de hibisco a fumegar. Deu-me primeiro o beijo. Os lábios dela nos meus. Ainda senti a língua atrevida a sair por momentos da sua boca e tocar, levemente, nos meus lábios. Depois largou a chávena com o chá na mesa. Ao lado do computador. Sorriu-me e voltou para os seus afazeres. Eu estava nos meus.
Eu estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Via-a a cirandar em volta do fogão. Ia à despensa. Voltava com coisas. E eu sei lá que coisas! Coisas! Caixas de plástico. Saquinhos. Embrulhos. Depois continuava de costas para mim. Em volta do fogão. Às vezes ficava uns tempos na bancada ao lado do fogão. A fazer coisas. Sentia os gestos. Os braços a mexer. Sempre de costas para mim. Abria uma gaveta. Outra. Uma porta do armário. Abriu o forno e vi sair de lá uma nuvem de fumo. E pensei Está tudo estragado! Deixou queimar! Mas, estranhamente, ela continuava na sua normalidade de um lado para o outro. Calma. Não sentia cheiro de queimado. Afinal, não se passava nada. Eu é que me precipitei. É claro que ela tinha tudo sobre controle. Sabia o que fazer. Ela era mesmo um mestre na cozinha. Mesmo quando era eu a cozinhar, nunca se afastava muito. A dada altura sabia que eu ia pedir isto. Ou aquilo. Perguntar se não tinha. Se ainda tinha. Se por acaso. Ou então. E uma sugestão? E ela estava sempre pronta para ajudar. Cobrir as necessidades. Completar. E sabia sempre como.
Olhava-a nessa azáfama e não conseguia fazer o que tinha de fazer. Eu.
Os dedos estavam em cima do teclado do computador. Procuravam letras. Queriam escrever palavras. Formar raciocínios. Mas os dedos não se mexiam. Não havia letras nem palavras nem raciocínios que me fizessem mover. E ia olhando para ela. Ela não tinha os mesmo bloqueios que eu. Estava sempre à frente das suas necessidades. Nunca ficava um minuto parada a pensar E agora?! O que faço agora?! Não! Ela antecipava sempre as suas necessidades. E também as dos outros. As minhas.
Foi assim que eu a cheirei a aproximar-se de mim quando estava entretido a olhar o site de A Bola à procura de inspiração. Ela chegou e deu-me um beijo. E depois largou-me uma chávena de chá de hibisco em cima da mesa, ao lado do computador. E eu fiquei a apreciá-la a afastar-se, de regresso à bancada onde terminava de fazer o jantar, mas onde ainda tinha tido tempo para me fazer um chá. E eu vi-a ir. E apreciei-a. O corpo. Olhei-lhe as ancas a ondular enquanto se distanciava. O rabo. Ela tinha um belo rabo! E dava gosto olhá-lo. Olhá-la.
Bebi um pouco de chá de hibisco. Soprei a fumarada da água a ferver e bebi um pouco do chá.
Depois estalei os dedos das mãos e comecei a escrever por ali fora. Sem parar.
Não dei pelo tempo passar.
Só dei por mim quando a ouvi dizer Anda jantar. E fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/06]