A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

Ano Novo, Vida Nova

Já fiz quase dois dias inteirinhos deste novo ano que estreei ontem. Nada de novo debaixo do sol nem dentro de casa.
Queria acreditar que as coisas seriam diferentes. Não são.
Regressei ao trabalho. Entrei às oito da manhã. Estava ainda escuro. Frio. Mesmo em sistema self-service, as pessoas ainda me pedem para ser eu a encher os depósitos. A agarrar a mangueira de combustível e enfiar a agulheta dentro da entrada do depósito do carro. O cheiro. O óleo nas mãos. Tudo igual. Pagam em plástico. No final já nem espero uma moeda de gorjeta. Já lá vai o tempo. Agora é como se eu fizesse parte do preço do litro. O meu trabalho. Um trabalho de merda, mal pago e mal tratado.
Foi um dia de muito movimento. Os carros chegavam quase vazios e queriam voltar a partir cheios. Andou-se muito durante as festividades. Fez-se fila. Eu sozinho. Para encher os depósitos. Para receber os pagamentos. Para os trocos para a máquina de tabaco. Pediram-me para passar uma escova no pára-brisas. Para calibrar os pneus. Pediram-me duas latas de óleo. Uma embalagem de detergente para os vidros. Os que esperavam para o combustível, buzinavam. Eu olhava, mas não podia fazer nada. Estava sozinho. E assim continuei. Sozinho a servir toda a gente. Uma gente bem cheirosa, sabonete, champô, after-shave, perfume. A quererem agradar ao novo ano. Eu também vim de banho tomado. Durou até ao segundo carro.
Pude fazer uma breve pausa a meio da manhã. Bebi um café na máquina de venda automática e fumei um cigarro. Cheguei a imaginar pegar fogo à estação de serviço e ver tudo a arder. Eu sentava-me no lancil do passeio do outro lado da estrada a ver os depósitos de combustível a explodirem e a queimar tudo ali à volta. Eu sentado no passeio, a fumar um cigarro e a contar os minutos que os bombeiros demorariam a chegar ali à estação. O quartel dos bombeiros fica a cerca de quinhentos metros de distância da estação de serviço mas, o camião tem de dar a volta pelo outro lado, que a estrada é de sentido único. A sirene tocaria. A chamar os bombeiros que estariam ainda de cama. Agarrados às mulheres de penteado novo pela festa de Passagem de Ano. Alguns ainda de ressaca. Demorariam a responder ao apelo. Quanto tempo até chegarem ali à estação?
Cheira-me bem. Não é o cheiro a queimado. Não é o cheiro a gasolina. É um cheiro a dinheiro fresco.
A buzina a tocar. A buzina a tocar e ninguém a responder ao apelo. A buzina afinal era do carro de um cliente que me chamava. Um Mercedes. Um homem de fato e gravata. Senti-lhe o cheiro de perfume do outro lado da estrada antes de perceber que a buzina era para mim. Apago o cigarro na estrada. Levanto-me. E lá vou eu.
Claro que sim. Claro que atesto o carro. Sim, sim, eu. Eu agarro na agulheta. Puxo a mangueira. Fico ali a agarrar na agulheta até encher o depósito. Café só na máquina. Eu tenho moedas. Sim. Olhe aqui. Sim. Já sai com açúcar. Pode escolher a quantidade. Sim, tem colher. É de plástico. Infelizmente. Mas irá mudar, sim. Quem sabe quando?
Ano novo? Vida nova? Não nestas latitudes. Não na minha vida. Aqui continua tudo igual. Tudo velho.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/02]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Liga, Desliga

A A8 abria-se em três faixas só para mim. Vinha em viagem solitária já não sei há quantos quilómetros. Nem carro nem mota nem camião. Nenhum peão a atravessar a auto-estrada a pé, de um lado ao outro, na mesma freguesia rasgada a meio pelo progresso esfomeado. O mundo é solitário.
Ouvia o A3-30. Na rádio a nova música de Manuel Cruz. Já não sei como se chamava. Era nova. Acompanhava a melodia com os dedos a bater no volante. Gosto deste gajo, pensei. E gostava mesmo.
Como companhia os eucaliptos nas margens. De um lado e do outro da estrada. Passavam pela janela e iam ficando lá para trás. Mas acompanhavam-me. Estavam sempre presentes, mesmo que sempre a ficarem lá para trás. Acendi um cigarro. Abri um pouco a janela. O fumo saía como por uma chaminé em movimento. E se deitasse o cigarro fora? Ri. Ri de mim. Do que dizia. Idiota.
Depois o Manuel Cruz foi-se embora. Chegou a Isaura. Liga, Desliga. E a estrada vazia. Fiz o carro dançar. De uma faixa à outra. Liga, Desliga. Guinei o volante à esquerda. Guinei o volante à direita. Liga, Desliga. Ia sozinho pela estrada fora. A estrada era minha. A A8 era a minha pista de dança. O meu Dance Floor. Liga, Desliga. E bailava. Às vezes, mexia o volante assim, mais rápido, de um lado para o outro e via-o girar rápido, por momentos parecia que ia entrar em bolandas e despistar-se. Mas conseguia sempre controlá-lo.
À frente, debaixo de um viaduto, uma estrada que atravessa, aérea, a auto-estrada, uma caixa. Uma caixa que não pertencia lá. Não fazia parte do conjunto original. Um furúnculo. Um furúnculo fétido. Um radar. Foda-se!
Olhei para o velocímetro. Cento e oitenta. E a sensação de estar parado. Uma estrada vazia. Um carro potente. Um carro seguro. Uma estrada com três faixas. Vazia. Cento e vinte quilómetros por hora? Estou fodido.
Reduzi a velocidade. Depois do mal feito.
Desliguei a rádio. Liga, Desliga. Desliguei.
Nem o senti chegar. Por trás de mim. Sorrateiro. A que velocidade voou para me encontrar? Uma sirene. Outra. Queria atenção. E falou Saia na próxima Estação de Serviço, se faz favor!
Acendi um cigarro. O fumo voltou a sair pelo vidro um pouco aberto da janela do carro. Estava nervoso. E disse alto Foda-se! Estou fodido!

[escrito directamente no facebook em 2019/07/06]

E Ainda Aqui Estou!…

Saí pela porta de vidro do edifício principal das consultas externas do hospital dos Covões. Abri muito a boca. Precisava de ar. Ar fresco. Estava há três horas dentro do edifício para saber uma notícia que já adivinhava. Podiam ter-me dito por telefone. Evitava esta viagem. Evitava estas horas sentado naquelas cadeiras rijas e desconfortáveis que me calejaram o rabo. Evitava ter de olhar para aquela gente quase-morta, cheia de olheiras, cara amarelada e sem cabelo.
Cheguei à rua. Abri a boca e inspirei golfadas de ar fresco. Doíam-me as costas. O rabo. As pernas. Tinha as mãos dormentes. E acho que me começavam a doer os dentes. E estava com sede.
O barulho de uma sirene anunciou a chegada de uma ambulância. Fiquei ali parado a vê-la chegar e parar. Saíram dois paramédicos. Abriram as portas de trás e retiraram uma maca. Um velho, deitado na maca, debaixo de um cobertor de algodão, gemia. Gemia de dores. Os paramédicos foram rápidos. Retiraram a maca pelas portas traseiras da ambulância e fizeram-na entrar dentro do edifício das consultas externas. Perguntei-me o que é que o velho viria ali fazer. Achava que devia ter ido para as urgências. Depois pensei Para que raio estou a mandar bitaites?, eu que não sabia nada disto. Não era assunto meu, raios me partam! Esta minha mania de querer saber sempre de tudo, saber sempre tudo, meter o bedelho onde não me diz respeito, era irritante. Mesmo para mim.
O velho já tinha entrado dentro do edifício. O motor da ambulância estava ainda a trabalhar mas a sirene já se tinha emudecido. Virei a cabeça para o parque de estacionamento. Lembrei-me que tinha lá o carro e comecei a dirigir-me para lá.
Cheguei ao pé do carro e descobri-o à torreira de sol. Lá dentro devia estar um inferno. O carro não tinha ar condicionado. Era uma carripana velha, comprada num leilão da PSP, e tinha a tinta a cair aos pedaços, descarnando-o e dando-lhe um ar assustador. Nunca me assaltaram o carro. Mesmo quando o deixo com as portas abertas. E tantas vezes que o largo por aí com as portas abertas.
Abri a porta. Entrei. Queimei logo o rabo. Abri as duas janelas da frente à manivela para deixar passar uma aragem. Mas não passou nenhuma. Agarrei na garrafa de água e levei-a à boca. Cuspi de imediato pela janela aberta. Era chá. Chá a ferver. Pus o carro a trabalhar. Arrancava sempre à primeira, graças a Deus. Agarrei o volante com a ponta dos dedos. Estava tudo a arder. Saí do parque a pensar se não seria a última vez que ali ia. Mesmo que me voltassem a chamar, não sei se voltaria. Não me apetecia regressar ali. Não para isto. Para estes… Para estes nadas.
Já ia na estrada e pensei Auto-estrada ou nacional? e numa decisão súbita escolhi a auto-estrada. De repente senti vontade de estar em casa. De estar fechado em casa com as janelas abertas e as persianas baixadas para fazer corrente-de-ar. Estar nu deitado no chão de madeira da sala. A televisão a debitar barulho, um barulho baixinho, a mentir-me uma ausência de solidão sem ter de enfrentar gente. Uma garrafa de Mouchão tinto aberto e um copo a molhar-me os lábios e a lubrificar-me a garganta seca pelas notícias. No dedos um cigarro a fumegar e a garantir-me sossego. Um cigarro. Era isso.
Agarrei num cigarro e coloquei-o na boca. Carreguei o isqueiro do carro para dentro. Ainda estava nas estradas municipais, a caminho da auto-estrada. O isqueiro disparou, mas saltou do seu encaixe e caiu para o chão. Estava aos meus pés. Olhei para baixo e vi-o junto ao calcanhar. Baixei-me. Agarrei-o. Levei-o ao cigarro na boca quando reparei num carro que corria desenfreado para mim. Percebi que não tinha tempo de me desviar.
Mas ainda tive tempo de pensar nisto tudo que aconteceu desde que saí do hospital.
E ainda aqui estou.
Sei que vou a caminho de bater contra aquele carro. Merda!…

[escrito directamente no facebook em 2019/06/27]

Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

Homem-Aranha

Estava ao telefone. Estava a ouvir. Que é só o que faço. Ouvir. Já não tenho paciência para discussões. Portanto, ouço. Ouço e calo. É melhor ceder a razão que perdê-la. E já estive vezes de mais a ponto de a perder. E não quero mais. Assim, ouço.
Desliguei. Fui desligado, na verdade. Não tens nada para dizer, é?, perguntou. E não, não tinha nada para dizer. É melhor nunca ter nada para dizer. E então, desligou o telefone. Eu larguei o telemóvel na mesa da cozinha e fui para a varanda fumar um cigarro. Precisava de poluição. De encher os pulmões.
Encostei-me à varanda de cigarro aceso.
Primeiro, ouvi barulho. Uma grande confusão. Gritos. Preces. Um grande bruá. Depois olhei a varanda do prédio em frente e vi o que não queria ter visto: uma criancinha, aí dos seus cinco, seis anos, pendurada na varanda. Pendurada no lado de fora. Pendurada na varanda com o vazio da rua a seus pés. À sua frente, um homem, talvez o pai, não sei, tentava agarrar a criança mas esta não queria que o homem a agarrasse, chorava e ameaçava largar-se se ele se aproximasse.
O cigarro caiu-me dos dedos para a rua lá em baixo. Espreitei para ver se não tinha caído em cima da cabeça de ninguém, e vi que caiu, caiu na cabeça de uma senhora que devia ter laca no cabelo porque houve assim uma pequena labareda na cabeça dela, consumiu-lhe todo o cabelo, e um rapaz lá ao lado só teve tempo de tirar o casaco e, com ele, apagar a chama na cabeça da senhora. Enquanto me assustava por ter provocado aquele acidente, vi o Homem-Aranha. Não era uma banda-desenhada da Marvel. Era mesmo a sério. O Homem-Aranha estava ali a subir prédio acima.
Um tipo negro, provavelmente africano, estava a subir o prédio em frente agarrando-se às varandas dos andares, rés-do-chão, primeiro andar, segundo andar, terceiro andar, quarto andar, assim, quase à mesma velocidade que eu levo a escrever o trajecto e, quando dei por ele, o Homem-Aranha estava na varanda do quarto andar, na varanda do meu vizinho de frente, na varanda onde a criança estava pendurada, a agarrá-la por um braço e puxá-la para dentro, e a criança a abraçá-lo, e o outro homem a cair de joelhos a chorar e a pedir perdão e a polícia a chegar lá em baixo, que eu ouvi a sirene, e ouvi-os a saírem do carro e a entrarem no prédio, e as pessoas lá em baixo a baterem palmas e a gritarem palavras de incentivo, bonitas, acolhedoras, a assobiarem, de telemóveis em riste, a registar todo o acontecimento, a criança pendurada e o Homem-Aranha a subir, e este continuava abraçado à criança e o outro homem continuava a chorar e a pedir perdão e a polícia chegou à varanda e agarrou na criança e levou o Homem-Aranha e o outro homem que estava a chorar para dentro de casa para conversarem e perceber o que se tinha passado.
Eu ainda estava a ver a aura do homem que parecia o Homem-Aranha a subir o prédio quando reparei que a senhora estava a chorar o cabelo queimado e um outro polícia estava a registar a ocorrência e pensei que ainda vinham aí chatices para mim e o melhor era ficar calado, recolher para dentro de casa e ir fumar um cigarro para a sala. Mas pensei na beleza do que vi. E pensei que ainda havia gente no mundo. Havia gente que era pessoa. Havia gente que merecia todo o meu carinho e admiração. Havia gente que merecia ouvir a minha voz. E então eu disse, antes de ir fumar o cigarro para a sala, Obrigado! Obrigado, Homem-Aranha, por me fazeres acreditar.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/28]

Um Grito de Dor

Estava na esplanada a ler o jornal. A ler o jornal e a beber um café. Podia também estar a fumar um cigarro, mas não, já não fumo. Mas sinto saudades de agarrar no cigarro fumegante. De ver aquilo a queimar quando os meus pulmões puxavam o fumo. Mas não sinto falta dos dedos amarelos nem dos dentes escuros e muito menos ainda da pieira com que os meus pulmões se expressavam.
Estava a ler o jornal quando vi uma série de pessoas a levantarem-se e correrem para o outro lado da esplanada. Olhei na direcção. Também sou curioso. Mas não vi nada. E voltei à leitura.
As pessoas, contudo, não arredavam pé e, cada vez mais, chegava mais gente. Lá ao fundo, nos limites da esplanada, aglomeravam-se outras pessoas, muitas pessoas, de diferentes idades, vestidas de muitas cores, algumas de fato-de-treino, outras ainda de bicicleta, todas a olharem para o mesmo sítio.
E, então, ouvi. Ouvi barulho. Barulho de confusão. Alguém gritava. Alguém gritava muito alto e sobrepunha-se ao bruá das pessoas atentas da esplanada. Não consegui perceber o que a voz gritava. Mas era um grito lancinante. Um grito de dor.
Levantei-me e aproximei-me da confusão. E de repente vi. Um homem curvado para baixo, com um braço preso na boca de um pitbull estático, que estava preso ao chão, não mexia um músculo e não largava o que tinha na boca.
O homem estava parado frente ao cão a tentar falar com ele. Mas as palavras não eram perceptíveis. Ele balbuciava consoantes. Onomatopeias. E babava-se. Mas o cão continuava ali, fixo, sem mexer um músculo.
Olhei em volta e vi uma quantidade de gente a olhar o espectáculo. Alguns telemóveis em riste registavam o acontecimento. Alguém disse Chamem a polícia. Outro alguém também disse Chamem os bombeiros.
À volta disto tudo, crianças, crianças pequenas. Crianças pequenas a brincar alheadas disto tudo. Crianças pequenas paradas a olhar para o confronto. Crianças pequenas que os pais lá foram resgatar ao momento.
Eu larguei uma moeda em cima da mesa. Deixei lá o jornal e fui-me embora. Tinha o coração acelerado. Estava assustado. Ansioso. Pensava E se o cão larga o braço do homem e investe sobre toda aquela gente curiosa? Sobre todas aquelas crianças inocentes?
Eu fui-me embora mas fui lançando o olhar para trás. O cão continuava a morder o braço do homem. Ele continuava a gritar. As pessoas continuavam a olhar. As crianças continuavam a brincar. E depois ainda pensei Não vi sangue.
A nossa inconsciência manifesta-se assim. Não sei de quem era o cão. Não sei quem era o homem. Mas um estava a guerrear o outro e o resto do mundo olhava hipnotizado, fascinado, mas aliviado, porque não era com eles.
Ao fundo ouvi uma sirene.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/25]