Calamares

Estava sentado numa esplanada. Numa esplanada junto ao jardim. Bebia uma Fanta de uma cor mais laranja que as laranjas no quintal do meu avô. Tinha nas mãos um pão com calamares. Retirava os calamares devagarinho e comia-os todos, primeiro. Depois comia o pão com o resto das peles fritas que ficaram presas ao miolo. Gostava da textura dos calamares. Gostava de rasgá-los com os dentes. De os moer. Por vezes pareciam chicletes. Pareciam de borracha. E eu mastigava.
A minha mãe bebia um café que dizia saber mal.
O meu pai fumava um cigarro e bebia uma San Miguel.
Ali ao lado, num pequeno charco no jardim, uns patos tomavam banho. Enfiavam a cabeça debaixo de água e empinavam o rabo para o céu. Também havia lá um casal de cisnes. Mas esses não passavam cartão a ninguém. Estavam sempre juntos, afastados da confusão, como se estivessem a namorar. Os patos, às vezes, vinham até à esplanada pedinchar comida.
Era uma festa ir a Badajoz. Uma cidade grande. Cheia de gente. Gente desconhecida. Gente que falava um linguajar estranho, arreganhava os dentes quando falava e comia churros fritos ao pequeno-almoço, molhando-os em canecas de café com leite.
Passeava-me pela cidade de mãos dadas com a minha mãe.
Mais tarde haveria de entrar numa loja de brinquedos e comprar uma mesa de snooker, grande o suficiente para colocar em cima da mesa da sala de jantar, mas pequena o bastante para caber no carro. Haveria de jogar várias vezes com o meu pai. Haveria de perder com ele todas as vezes. Haveria de dizer aos meus amigos que era eu que vencia.
Voltava para Elvas. Dormia num quarto com os meus pais. Um divã desmontável no quarto de pensão com os meus pais. Uma pensão em Elvas. Elvas era triste. Mais pequena. Menos gente. Silenciosa. Não tinha calamares. Nem Fanta. Nem Coca-Cola. Mas os quartos eram mais baratos. E havia bitoques. Os espanhóis nunca conseguiram descobrir a importância do bitoque. Do ovo a cavalo do bife. Do pão molhado na gema quase-crua do ovo estrelado. Mas funcionavam bem um com outro. Elvas e Badajoz. Os meus pais traziam os caramelos de Badajoz e azeitonas de Elvas.
Voltei a Badajoz sozinho, já mais crescido. Ia a uma casa de putas ali antes de chegar a Évora. Depois fazia um desvio por Elvas e ia a Badajoz comprar Lucky Strike soft pack. Comprava vários volumes.
Deixei de beber Fanta. Os fritos começaram a fazer-me mal ao estômago. Perdi o norte da esplanada onde ia com os meus pais. Não voltei a ver os patos nem os cisnes. Já não sei onde fica a casa de brinquedos onde os meus pais me deram o snooker, um bingo com uma tômbola onde fazia girar bolinhas com os números e aquelas duas bolas presas a uma anilha por dois fios que só batiam monocordicamente uma na outra e que servia para irritar todas as outras pessoas que não estavam a fazer esse jogo de barulho com as bolas.
Os caramelos de Badajoz perderam a fama que tiveram. No Corte Inglés também já há calamares e com um pão bem melhor que o espanhol.
A última vez que voltei a Badajoz comi sushi. E vim dormir a casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/31]

A Mulher, parte 04 e final

[continuação de ontem]

Ela ia no autocarro a caminho de casa. Ia no caminho inverso ao que fazia todos os dias a esta hora. A esta hora estava a caminho do trabalho. Hoje estava a caminho de casa. Normalmente ia em pé porque o autocarro já ia cheio quando parava ao pé de casa. Hoje ia em pé, mesmo com muitos lugares vagos, porque estava nervosa. Ansiosa por chegar a casa. Queria ver o filho. Queria saber se estava bem.
Ia em pé, agarrada ao varão perto da porta de saída do autocarro. Contrariava as curvas da estrada com posições do corpo. Voltou a telefonar. Ninguém atendia.
O autocarro parou na sua paragem. Ela saiu. Ela saiu a correr e foi a correr, o correr possível que o seu corpo cansado e já muito gasto pelas amarguras da vida lhe permitia. Cruzou a estrada depressa. Sem olhar. O seu foco era a casa. Subiu a rua. Subiu a rua até ao cimo. Depois virou à direita e entrou dentro do bairro. E depois foi andando em passo rápido, rua-a-rua, lá no interior do bairro. Ruas pequenas e estreitas. Casas baixas como se quisessem passar despercebidas aos olhos da lei, da ordem e das finanças. Saltou por cima de uns esgotos que corriam a céu aberto. Sim, ainda havia disso ali, naquele bairro. Naquele bairro de emigrantes. Naquele bairro de onde vinham os braços para limpar as casas douradas da cidade. Da capital. Uma capital de luxo ancorada nos braços da precariedade.
Chegou a casa. Enfiou a chave na fechadura. Abriu a porta. Correu para o cubículo que era o quarto do filho. A cama estava vazia. Ela levou a mão à boca para sufocar um grito de desespero. Os olhos largaram lágrimas que corriam desalmadas sem pedir licença. E então ela ouviu Mãe?! O que é que estás aqui a fazer?
Ela virou-se para trás e viu, sentado à mesa, à entrada de casa, a tomar o pequeno-almoço na forma de uma tigela com cereais e leite, o seu filho. O filho que era dela. Só dela. Ela largou o saco de cartão com a bata para lavar e a carteira no chão e lançou-se sobre ele estendendo-lhe os braços como tentáculos e sufocando-o no seu amor de mãe-pai que julgava que o seu mundo tinha desabado mas afinal não. Afinal ele estava ali. Estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço antes de sair para a escola. Camisa branca. Calças de ganga limpinhas. A mochila arrumada com tudo o necessário.
Mãe?!… Sai… Deixa-me acabar de comer para ir embora, disse o filho. E ela sorriu. Limpou as lágrimas às costas da mão a sorrir. E retirou suavemente as mãos-tenaz de cima do filho. E disse-lhe Desculpa. Desculpa não ter vindo ontem à noite. Eu logo explico. Agora vou tomar um banho rápido que estou atrasada.
Ela deu-lhe um beijo na face. Entrou naquele pequeno polibã e deixou que a água fria lhe lavasse o medo. Foi uma lavagem rápida que estava atrasada. Mais passar o corpo por água. Vestiu uma roupa limpa. Meteu uma bata lavada no saco de cartão e deixou a suja numa bacia. Despachou-se mais depressa que o filho. Ela era aquilo. Rápida. Decidida. Não perdia tempo com preâmbulos. Ela conhecia as exigências da vida. Deu um beijo rápido na face do filho e saiu de casa a correr. Aquele correr dela, que era um andar assim mais depressa. Até porque os anos e o cansaço não a deixavam ser mais rápida. Ainda ouviu um Até logo, mãe! Adoro-te! que o filho lhe gritou. Sorriu. Ruborizou. E continuou a sua caminhada, agora em sentido inverso, pelas mesmas ruas pequenas e estreitas do bairro de emigrantes.
Saiu do bairro. Virou à esquerda. Desceu a rua embalada que para baixo todos os santos ajudam.
O autocarro que queria apanhar estava a chegar à paragem.
Ela viu-o. Viu-o e decidiu que tinha de o apanhar. Estava já atrasada.
Ela pôs o pé na estrada para a atravessar, para a atravessar a correr para não deixar fugir o autocarro, pôs o pé na estrada, sem olhar para um lado, nem para o outro, a correr, naquela sua correria que era mais um andar depressa, o mais depressa que os anos e o cansaço lhe permitiam e foi então que apareceu um táxi, que não a viu, e lhe bateu, a ela que não o viu, e a levantou pelo capot acima até ao pára-brisas que rachou com o impacto e a projectou uns metros à frente, mandando-a de rojo pelo chão de asfalto, até ela parar, quieta, silenciosa, com o corpo dobrado em dobras impossíveis, no chão sujo e triste.
O táxi parou. O taxista saiu do carro e levou as mãos à cara. Os autocarros pararam. O autocarro dela não arrancou. As pessoas começaram a aproximar-se do corpo inanimado.
Ao fundo, o filho dela cruzou a estrada, olhou para aquela confusão mas seguiu em frente. Ia para a escola. Tinha de ir para a escola. Era a única coisa que a mãe lhe exigia. Que fosse para a escola. Que estudasse. Que fosse alguém na vida. Alguém que ela nunca tinha sido.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/16]

Às Vezes Gostava de Me Sentir Mulher

Estou do outro lado da rua, a fumar um cigarro, e vejo-as entrar no restaurante. São um grupo grande. Um grupo heterogéneo. Passa por várias idades. Por vários tipos. Há ali várias classes sociais. Percebe-se pela roupa. Pelos sapatos. Pelo corte de cabelo. Pela mala que ostentam. Pelas unhas das mãos. Umas falam mais alto que outras. Umas são mais recatadas. Outras mais extrovertidas.
Passa uma rapariga, muito novinha, por mim e pede-me lume. Puxo do isqueiro, acendo-o e aproximo-o do cigarro que tem na boca. A boca agradece, silenciosa, e vai embora.
Do outro lado da rua as mulheres já entraram todas no restaurante.
Hoje é Dia da Mulher. É uma questão política. De luta. De afirmação. Há quem se perca no conceito. Quem julgue que é outra coisa. Principalmente alguns homens. Mas não só. Hoje, as mulheres comemoram um dia em que querem lembrar ao mundo que são diferentes, mas iguais aos homens. É uma luta difícil.
Olho para o meu cigarro aceso. Sopro a cinza e penso nas mulheres que irão jantar ali em frente e comemorar este dia. Gostava de estar ali com elas. Há dias em que gostava de ter companhia. Há dias em que desgosto menos da humanidade. Nem sei bem porquê. Talvez me sinta mais frágil. Talvez me sinta mais mulher. E rio. As mulheres não são frágeis, acabo por me ouvir dizer em voz alta. E rio de novo.
Sou homem mas isso nunca foi uma auto-estrada para a minha vida.
Tenho estudos. Sou letrado. Inteligente. Bem parecido. E no entanto… E no entanto estou sem trabalho. Não consigo trabalho. Não consigo um salário. Não consigo ser homem.
As oportunidades afunilam. Estou a ficar velho. E não sou um yes-man. Sou uma daquelas pessoas chatas que não conseguem estar caladas ao ver tudo acontecer à sua frente. Tenho opinião e não a calo. E isso tem-me trazido alguns problemas.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas que tenho.
Deito a beata fora e entro no café atrás de mim. Peço uma aguardente e deixo cair umas moedas no balcão.
Pela montra do café vejo duas, três mulheres que vêm para a entrada do restaurante fumar um cigarro. Acendem os cigarros e ficam ali a fumar e a conversar, de braços cruzados frente ao peito, talvez por frio, talvez por vergonha, não sei, mas ficam ali a conversar. Por vezes riem. Gostava de ouvir o que dizem.
Acabo com o resto da aguardente e saio do café. À porta volto a acender outro cigarro. Olho para elas e vou embora, passeio fora, sem destino, sem vontade nenhuma de ir para casa. Hoje sinto-me só. Abandonado pela vida.
E penso Às vezes gostava de ser mulher.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/08]