O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Soubesse Eu Tocar Guitarra

Soubesse eu tocar guitarra, saía de casa, ia até à cidade deserta, sentava-me num banco de jardim, à sombra de uma árvore frondosa e punha-me a tocar o Stairway to Heaven para as miúdas descerem as escadas dos prédios confinados, fugirem aos gritos desesperados dos pais, dos namorados, dos maridos e correrem descalças até mim, sentarem-se na relva, a meus pés, uma flor no cabelo, um sorriso nos lábios, as sardas a pularem de cara em cara, uma azeda ao canto da boca a sonharem com as histórias da carochinha enquanto se deitavam languidamente umas sobre as outras, como pequenas ninfetas do artista, a saborearem o pecado.
Depois vinham os pais, irmãos, maridos e namorados buscá-las por uma orelha, pelo braço, puxá-las pelos cabelos, arrastá-las pelas pernas, as cabeças a baterem, pesadas, na calçada portuguesa a deixarem rastos de sangue, para as protegerem no recato do lar da terrível infecção promíscua que circula no ar e nas guitarras dos artistas.
E eu então pousava a guitarra, pegava na AK-47 e disparava a eito sobre todos eles e via-lhes os corpos explodirem em mil pedaços e tombarem inertes sobre a calçada portuguesa que já não era a preto e branco mas de vermelho vivo, um vivo-morto, e quando acabassem as munições voltaria a pegar na guitarra e tocaria uma versão acústica e muito lamechas do Straight to Hell dos Clash, limparia as mãos com álcool-gel, fumaria um cigarro e depois regressaria ao silêncio solitário de casa onde beberia um copo de vinho tinto alentejano para matar a sede.
Mas não sei tocar guitarra.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/23]

Com o Martelo na Mão

Já só me parecia o coração a bater a bater a bater com muita força contra o peito e a querer saltar fora de mim farto de me aturar e aos gritos que silenciava para não ter ainda mais que aquele bater cadente e hipnótico que estava a dar comigo em doido.
Estava deitado na cama. Em cima da cama. A almofada sobre a cabeça a tentar abafar os sons que vinham do exterior mas em vão. Não abafavam nada. Já não sabia de onde é que os sons vinham, esses cabrões. Agora pareciam vir de mim, de dentro de mim, como se o meu coração estivesse a bater ritmado no adufe à espera da harmonia da guitarra mas essa nunca mais chegava que nada daquilo era como eu achava que era. Não era o meu coração embora ele batesse. Estava vivo, não estava? Não havia adufe nem haveria de haver uma guitarra. Não há guitarras cá em casa que eu nunca soube tocar nada e a única guitarra que houve não era minha e de qualquer forma deixou de existir quando eu a parti na cabeça da dona que passava os dias em solfejo para cima e para baixo como um yo-yo nunca passando daquilo, uma merda pá!, e eu à espera dela para noites tórridas de sexo em pleno Agosto e ela a transpirar com as unhas a arranhar as cordas num solfejo irritante que me fez sair da cama nu tirar-lhe a guitarra das mãos e parti-la na cabeça. E ainda tive de a levar ao hospital para levar uns pontos, sujou-me os estofos do carro com sangue que tive de mandar lavar a seco e ainda tive de lhe comprar uma guitarra nova e eu que nunca soube tocar guitarra tive de gastar dinheiro numa guitarra que nem era para mim e nunca mais a vi nem a miúda nem a guitarra o que não deixou de ser um alívio.
Agora parecia que era um remake e como todos os remakes ainda em pior.
Havia vários ritmos como se fossem várias baterias a tocar ao mesmo tempo, como os Paus, mas estava cada uma a tocar para seu lado e não havia harmonia nem nada a ligá-las era somente barulho barulho barulho puro que me entrava pelos ouvidos e viajava à velocidade da luz pelo cérebro dentro e já não sabia o que era nem de onde vinha era já só tudo dor uma porra de uma dor infernal e eu sem conseguir pensar, só a querer fugir, era fugir que eu queria, fugir dali e encontrar o silêncio mas não devia sair de casa que as ordens eram de confinamento, de distância social, nada de beijos, abraços, relações de proximidade uns com os outros mas barulho isso sim, havia carta branca para furar os tímpanos às pessoas, a mim, a mim que me queixava e a quem ninguém ligava. Já tinha telefonado à polícia. Já tinha ligado para a Junta de Freguesia. Já tinha alertado a CMTV. Mas para uns não havia nada a fazer e para outros era assunto menor.
Não era com eles, não é?
E foi então que me decidi.
Tirei a almofada de cima da cabeça. Na precisa altura em que me pareceu ser um martelo pneumático a partir paredes por cima de mim. Levantei-me da cama. Acendi um cigarro. Fui à despensa. Abri a caixa das ferramentas. Peguei no martelo. Saí pela porta da rua. O cigarro preso ao canto da boca a fumegar. O martelo na mão. Descalço. Em cuecas. Subi as escadas. Aproximei-me da porta do apartamento por cima do meu. Toquei a campainha. Esperei.
Começo a ouvir uns passos. Uns passos que se ouvem por baixo de toda a chinfrineira produzida no interior do apartamento. Levanto o braço com o martelo na mão. Sinto a fechadura a abrir. A porta a abrir. E penso É agora!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/21]

Um Passeio pelo Mato em Dia de Quarentena

Estava bom tempo. Fui dar uma volta pelo mato. Saí de casa, direcção a sul. A pé. De sapatilhas e calças de ganga. Era um passeio, não uma corrida nem jogging. Dois ou três quilómetros depois, saí da estrada e entrei pelo mato dentro. Havia um caminho. Os sulcos de um tractor.
Nos últimos dias tem chovido e, logo no início do caminho, duas enormes poças de água que me obrigaram a subir pelo meio dos fetos para passar adiante. Continuei em frente.
O mato é pobre em variedade. O arvoredo é composto exclusivamente por pinheiros bravos e eucaliptos. Entre eles muitos fetos e silvas.
Esta é uma zona de muito barro. Há muitos buracos onde outrora se tirou o barro e ficaram uns pequenos charcos que agora estão invadidos por rãs. Ouço-as a coaxar. Fazem uma orquestra à minha passagem. Por momentos torna-se insuportável. Depois deixo os charcos para trás e o coaxar vai ficando esquecido e abafado pelo som dos pássaros. Não sei que pássaros são. Não percebo nada de pássaros. Já vi umas rolas e uns melros, mas pela barulheira que fazem devem ser outros, devem haver outros.
Não deixa de ser engraçado que mesmo no meio de toda aquela cacofonia em stereo, percebia-se o silêncio humano. Não se ouvia barulho de carros. Não havia motores nem buzinas. Não havia gritos de pessoas nem o seu eterno bruá feito de conversas que nunca terminam. Ouvia os meus passos a pisar a caruma seca, a pisar pequenas poças de água e quando eram maiores, a evitá-las pisando os terrenos encharcados adjacentes e a fazer chap-chap. Ouvia bastante a minha respiração. Uma respiração tranquila mas pesada. Afinal ia a subir. O caminho levava-me de subida por entre os pinheiros e um ou outro eucalipto descamisado, mas com as cascas caídas aos pés das árvores. Aqueles eucaliptos não eram de plantação. Aqueles eucaliptos não eram para alimentar as celuloses. Estavam para ali. Perdidos, provavelmente.
Lembrei-me de quando a minha mãe ia ao mato perto de casa buscar folhas verdes de eucalipto para cozer com água numa panela e me fazer respirar o vapor do eucalipto por causa da minha bronquite. Parece que fazia bem. Acho que a mim nunca fez bem nem mal. Continuei com bronquite, mas gosto de cheiro do eucalipto. Lembro-me do cheiro que ficava lá por casa durante o resto do dia, e que era bastante agradável.
Continuei pelo caminho do mato, ainda caminhava bastante mais para o interior, mas lá mais à frente havia um corte que me iria levar à estrada, cinco quilómetros a norte de minha casa.
Apanhei um campo de malmequeres amarelos. Parecia um verdadeiro jardim. Não havia charco. Deitei-me no meio deles e tentei tirar uma fotografia minha deitado no meio dos malmequeres amarelos, ainda pensei em despir-me e fotografar-me no meio da natureza como vim ao mundo e foi nesse momento, no momento mesmo antes de tirar a fotografia, que me lembrei que havia muitas cobras no mato. Levantei-me de um pulo e voltei ao caminho. Enfiei as perneiras das calças nas meias para evitar que alguma coisa subisse pelo interior das calças acima.
Parei um bocado. Fiquei em pé. Estava numa clareira. Olhei em volta. Fiz trezentos e sessenta graus. Teria de virar à direita. Quis fumar um cigarro. Era altura da pausa para o cigarro. Já não tinha o maço. Devia ter caído no campo de malmequeres amarelos. Que merda!
Cortei à direita. Continuei em frente. Não deixava de pensar nos cigarros. Acelerei o passo. Nem pensei que naquela clareira costumavam encontrar-se as bruxas da zona. Já tinha ouvido histórias delas irem para ali, para aquela clareira, em noites de Lua cheia, dançarem nuas ao luar. Mas eu nunca vi. Só ouvi contar. Mas isso só pensei depois, quando voltei a pensar na minha volta pelo mato, que é o que estou a fazer agora porque, no momento, só pensei em fumar um cigarro e não tinha tabaco comigo.
De passo acelerado passei por um pomar. Filas e filas de macieiras em flor. Lá do outro lado havia um barracão que dava apoio ao pomar. As marcas do tractor que tenho visto deviam ir para lá. Mas já não via as marcas há algum tempo.
Passei por uma pequena ponte feita de pequenos troncos de árvores atadas umas às outras. Passei por cima de um pequeno riacho que mais parecia um charco. Havia alguns juncos. Uma ilha de canas. Voltei a ouvir o coaxar das rãs.
Os incêndios têm poupado o mato. Pergunto-me até quando?
Depois passei por uma zona de mato sem arvoredo. É um quadrado com cerca de cem metros de lado. O chão é de terra. Não há nada verde. Nem restos de folhas, nem fetos, nada. Parece um chão estéril. Ao cimo do quadrado, um conjunto de colmeias. Não sabia que havia algum apicultor por aqui. As coisas que se aprendem nas voltas da quarentena. Não vi nenhuma abelha. Se calhar não era altura de andarem por aí na galderice, de flor em flor, a comer todo e qualquer pólen.
Mais à frente a recuperei a estrada. Voltei ao asfalto. Não havia carros. Nem pessoas. Nem sequer os animais de que tanta gente fala. Só pássaros. E rãs. E mesmo assim, só lhes ouvi a cantoria. Nem os vi. É melhor assim. Não estou para ninguém. Também não vi nenhuma cobra.
O sol estava a cair. O tempo começou a arrefecer. Ainda tinha cinco quilómetros para fazer, mas ia pelo asfalto. Se tivesse frio, podia sempre correr um pouco. Afinal, estava de sapatilhas. E tinha cigarros em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/10]

A Última Super Lua

Escureceu. A noite caiu antes de tempo. O dia estava farto e abalou. Amanhã há mais, disse.
Mas o amanhã não chegou a chegar. Ficámos todos pela noite, mesmo. Era uma noite de super Lua. Estão em promoção. Quase todos os meses há uma super Lua. Ficam muito em conta. Mas desta vez correu mal.
Fartos de estarem em casa uns com os outros, a comerem que nem umas bestas, a aturarem-se mutuamente, a aguentarem as birras dos filhos, a lutarem pela posse do comando da televisão, a guerrearem-se para ver quem levava o cão e o gato a passear pelas ruas da cidade deserta, fartos das filas civilizadas e silenciosas como velórios para entrar nos supermercados, onde alguns compravam só uma coisa de cada vez para terem a desculpa de estarem sempre a voltar, de manhã, à tarde e não já à noite porque agora os supermercados estão fechados à noite e assim até poupam nas horas extras, as pessoas aproveitaram esta super Lua, a primeira da quarentena (acho que havia já outra para o mês que vêm), para saírem todos em romaria a cantar canções de embalar e gritar juras de amor em altos berros e mau hálito por perca dos rituais normais de higiene e limpeza pessoal.
Saíram de casa em fatos-de-treino com garrafas de vinho e licores, bebidas brancas e cerveja, charros, coca e mdma e tudo o mais que fosse festivo, e martelos de São João e manjericos de Santo António, realejos e harmónicas, adufes e guitarras e fizeram um enorme happening.
Juntaram-se todos debaixo da super Lua não muito grande mas branca, branca e luminosa como um sol nocturno, como gatos com o cio, abraçaram-se numa enorme corrente humana a cantar o We Are the World e a chorar e acabaram a pegar-se uns-aos-outros o coronavírus que gosta destas correntes humanas de solidariedade dos corpos para se transmitir em alegre passeata.
Não foi preciso muito tempo. Nem as máscaras, nem luvas, nem álcool-gel os salvaria do destino a que se propuseram ao participarem no evento. Não seriam necessários, como não foram, os ventiladores. Tudo seria já tarde demais. E só não foi tarde porque já não havia ninguém para o dizer. Ninguém pôde afirmar É tarde! Nem eu.
Começou primeiro a falta de ar. As gargantas apertaram-se. O ar deixou de chegar aos pulmões e ser irrigado para o resto do corpo. De repente toda a gente sofria de asma. Sofria mesmo. Quem já estava habituado, como eu, já não ligava muito. Já estavam preparados. A preparação de uma vida. E então, começaram a cair. A cair que nem tordos. Toda a gente acabou por morrer. Até eu.
Esta história? Uma simples liberdade artística privilégio dos dotados. Mesmo morto continuo a criar.
Quando o dia regressou, não regressou para ninguém. Nem para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/08]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

Do que Me Lembrei Quando Soube o que Acontecera a P.

Percebi o apagador a passar perto de mim porque senti a ligeira deslocação de ar que fez ao passar junto à minha cabeça.
Mais tarde soube que o apagador não tinha sido lançado para mim. O apagador tinha sido lançado em direcção a P., como o Professor acabou por dizer, e confirmado por P. quando nos mostrou um pouco de sangue nos dedos, o sangue que tirou da orelha onde o apagador lhe bateu de raspão, mas o suficiente para lhe fazer um pequeno rasgo e deitar sangue. Ainda hoje me lembro do grito de P. e de me ter assustado com o grito, milésimos de segundos depois de sentir o apagador a passar junto à minha cabeça. O apagador tinha uma parte em madeira. Não sei que parte raspou na orelha de P. mas foi uma parte rija o suficiente para lhe rasgar a orelha e fazer sangue.
Lembro-me da cara do Professor. Era já velhote. Coxo. Um pouco cegueta. Mas um bom professor. Morreu pouco tempo depois. Naquele dia, naquele momento, percebi o quanto ficou preocupado quando viu o sangue nos dedos de P. Percebi que não queria ter feito o que fez. Mas fê-lo. E arrependeu-se logo. Provavelmente no mesmo momento em que lançou o apagador em direcção a P. O Professor estava no quadro a escrever qualquer coisa enquanto falava. Lembro-me de ouvir uma interrogação. Vi o ponto de interrogação na frase, mas não me lembro do que ele disse. Depois o silêncio. Um pequeno silêncio. Em seguida o ar a deslocar-se perto da minha cabeça. P. estava de cabeça abaixada, esticada para a frente, para perto de mim, e estava a dizer-me qualquer coisa, qualquer coisa que não me lembro o quê, a conversa de P. misturava-se com a do Professor e acabei por não ouvir nem o Professor nem P. E depois o apagador a passar por mim e a atingi-lo a ele de raspão. De raspão mas a fazer sangue.
Lembro-me do espanto que vi à minha volta.
J., que mais tarde viria a ser agente da PSP, um agente simpático que, um dia, muitos anos depois ainda mais tarde, chegou a perdoar-me uma multa de estacionamento, J., que estava à minha direita, fez uma cara de enorme espanto e vi-lhe a falta dos dentes de baixo quando me virei para trás para ver o porquê do grito de P.
À minha frente estava M. amigo de longa data, uma amizade que se manteve mesmo depois dos anos de escola, embora nestes últimos tempos, por questões de ordem política, nos tenhamos afastado, e M. tentava ver o que se tinha passado e não conseguia ver bem porque eu estava entre ele e P.
Do meu lado esquerdo, I. estava com a mão na boca e lágrimas nos olhos. Tinha visto o sangue nos dedos e na orelha de P., e não tardou muito para sair da sala de aula a chorar baba-e-ranho. Já não vejo I. há muitos anos. Chegámos a ser namorados durante alguns meses. Depois fomos separados na escola. Fomos para turmas diferentes. Eu deixei de estar com ela, embora a visse na escola. Mais tarde fomos ambos para a mesma cidade frequentar a Universidade. Faculdades diferentes. Cursos diferentes. Alguns amigos em comum. Fui sabendo dela. Vendo-a esporadicamente. Mais tarde soube que tinha casado. Tinha tido um filho. Tinha-se separado. Era professora. Voltara a encontrá-la nas redes sociais mas comunicávamos muito pouco. Partilhávamos algumas opiniões e gostos mas, acho que I. ficou sempre sentida comigo pela forma fria como deixámos de nos ver.
Hoje soube que P. morreu com a Covid-19. A primeira coisa que senti foi o apagador a passar junto à minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/31]