Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Quando Ela Morreu

Quando ela morreu, pensei segui-la. Cheguei a ter na mão uma lâmina de fazer a barba. Cheguei a encher a banheira. Cheguei a despir-me e a entrar dentro de água. Cheguei a estar deitado na banheira, relaxado pela água morna, a cabeça encostada a uma borda, os pés dentro de água, quentinhos, o braço direito estendido sobre a borda da banheira com a lâmina na mão, entre os dedos, a girar entre os dedos, e depois a lâmina fez um golpe num dos dedos e caiu para o chão da casa-de-banho.
Assustei-me.
Vi o sangue a começar a escorregar para dentro de água e a alastrar. Levei o dedo à boca e chupei-o. Senti o sangue a entrar-me na boca e a escorrer para dentro de mim.
Olhei a lâmina caída no chão da casa-de-banho com um fio de sangue.
Não estava preparado. Ainda não estava preparado. Não podia ir com ela. Não. Por mais que a ausência me doesse.
Estiquei-me na banheira e abri o ralo. Vi o volume de água a diminuir. Levantei-me. Saí da banheira com cuidado. Olhei para a lâmina no chão para não me cortar nos pés descalços. Cruzei as lajes frias da casa-de-banho até ao pequeno armário. Abri a porta e agarrei na caixa dos pensos-rápidos. Tirei um e colei-o no dedo que estava a sangrar. Depois fui à porta e agarrei na toalha de banho pendurada. Enxuguei-me.
Fui até à janela da casa-de-banho. Olhei para a rua. Ao fundo, um miúdo andava em cima de um muro. Andava de um lado para o outro. Como se estivesse indeciso. Salto, não salto? Para este lado ou para este? Depois o miúdo olhou na minha direcção. Percebi que estava nu à janela da casa-de-banho. Não sei se me via, mas eu estava nu. Suspirei.
Fui ao quarto. Vesti umas calças e uma camisola. Calcei umas sapatilhas. Saí de casa. Fui até ao canteiro onde estão as fisális. O cão passou por mim com um chinelo na boca e não me ligou nenhuma. Apanhei umas quantas fisális. As que me couberam na concha das mãos. Voltei para casa. Lavei as fisális. Abri o frigorífico. Olhei lá para dentro. Agarrei um saco com rúcula selvagem. Uma caixa com tomate-cereja. Um queijo Palhais, seco. Descasquei uma laranja. Cortei-a aos pedaços. Coloquei-a numa tigela. Misturei-lhe a rúcula e o tomate-cereja, as fisális e parti o queijo seco aos bocados. Fui à despensa. Olhei as prateleiras. Agarrei num frasco com cajus. Num frasquinho com sementes de sésamo. Num saco com passas. Pus um pouco de cada na tigela. Um fio de azeite. Uns pingos de vinagre. Uma pitada de sal. Misturei tudo. Abri uma Herdade dos Grous tinto. Enchi um copo. Agarrei num garfo. Fui até ao alpendre.
Sentei-me lá fora, no alpendre. Ao fundo, as montanhas continuavam lá. Não via o cão nem os gatos. O mundo estava silencioso. Dali, de onde estava, não via o miúdo em cima do muro.
Comi a salada. Comi a salada toda. Soube-me bem. Bebi o copo de vinho. Senti-me bem. No fim acendi um cigarro.
Estava a fumar o cigarro, sentado na cadeira, no alpendre, a olhar as montanhas que continuavam serenas lá ao fundo, quando pensei na lâmina da barba que estava caída no chão da casa-de-banho, com um pequeno fio de sangue a alongar-se pelas lajes.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/19]

Destilar Ódio

Agora ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Uns têm a razão pelo seu lado. Os outros são sempre umas bestas. Uns são comunistas. Os outros, uns fascistas. E há quem berre. Uns porque sim, porque assim fazem-se ler com mais acuidade. Outros só porque não perceberam que estão com o caps lock. Ainda há quem se ria sarcasticamente com kapa (kkkkk), que é afinal uma forma brasileira de rir (mas não sei porquê). Uns defendem o indefensável. Outros atacam o inatacável. Todos cheios de certezas e razões. De repente, não há meios termos nem espaço para dúvida.
Um tédio, é o que é. Bocejo enquanto faço scroll.
As redes sociais parecem-me infrequentáveis. Mas o problema não são as redes sociais. São as pessoas. São sempre as pessoas.
Há sempre um Tulius Detritus ao virar de uma esquina, num comentário a um post, numa pequena opinião sensaborona e sem grandes veleidades. E, depois…
Um tédio, é o que é.
Não fosse o copo de vinho que seguro na mão esquerda nem o cigarro preso nos dedos da mão direita, a mesma com que faço scroll, e já tinha atirado o iPad contra a cabeça do gato. Está ali à frente a lamber o cu e depois pára a olhar para mim. Eu olho-o de soslaio para que não perceba que estou a olhar para ele, mas o cabrão olha para mim e depois continua a lamber o cu.
Faço mais um scroll e canso-me. Não se passa nada mais para além do ódio, e das palavras amargas cuspidas por uns e por outros.
Toda a gente cheia de razão e ninguém com dúvidas.
Um tédio, as redes sociais, as pessoas, a vida.
Toca o telemóvel. Olho para ele em cima da mesa de apoio. Sem identificação de número de chamada. Agora é uma constante. Os call center das telecomunicações a quererem vender-me nada. Um nada como se fosse tudo. Quando peço fibra óptica dizem que não é possível. Não é rentável. Satélite. Tem de ser por satélite. Que está sempre a falhar, digo eu. Esmifra-se para me dar três ou quatro mega, sublinho. E o silêncio do outro lado. Mas pago o mesmo. Pago o mesmo que os que têm fibra óptica.
Um tédio, este capitalismo.
E ainda acham que está tudo bem. Concorrência, dizem. A concorrência favorece o cliente, dizem. Mas não há concorrência. Há concertação. Mesmo que camuflada. Lembro-me dos anos em que percorria as auto-estradas para norte e para sul. O mesmo preço de combustível nas diferentes estações de serviço. Concorrência?
E, de repente, percebo que também eu sou um tipo maldisposto. Também estou azedo.
Ora, porra!
Por enquanto ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Quanto falta para começarmos a colocar a mão na cara do outro? Quanto tempo para agarrarmos num martelo, numa faca, num revólver e dispararmos sobre o outro?
Um tédio, esta vida cheia de razão.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/08]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

A Playlist do Miguel Guedes

Sabem aquela sensação de querer respirar e não conseguir? De parecer ter algo a bloquear a traqueia? De sentir que se vai desmaiar a qualquer momento por falta de ar? E que nessa altura só queriam ter um revólver nas mãos e apontá-lo à cabeça? Ou à cabeça dela que não se cala? Sabem? E sabem essa sensação de quando começam a mover o dedo no gatilho e já antecipam o tiro, o disparo, a bala a sair do revólver a cruzar o ar e a entrar num pedaço de carne fragmentando tudo à sua volta? E que nesse momento, nesse preciso momento recuperam a capacidade de respirar e mandam um berro, um berro tão grande que tudo à vossa volta cai em silêncio? Sabem? Pois foi o que me aconteceu.
Só não tinha o revólver na mão, que eu não tenho nenhum revólver em casa. Não tenho nenhuma arma para além das facas de cozinha. Mas foi como se tivesse. Mandei o berro e saí de casa. Abri a porta da rua bruscamente e fechei-a com estrondo nas minhas costas. Toda a gente do prédio haveria de ficar a saber que espécie de besta era eu.
Voei pelas escadas do prédio e aterrei no carro. Liguei-o e arranquei.
Na rádio a voz do Miguel Guedes na Playlist da TSF e eu pensei Que porra! Odeio este gajo! Vozinha arrogante. Raios o partam!, mas começou a música e deixei ficar. A música acalma as bestas, não é?
Deixei o carro levar-me estrada fora enquanto fui ouvindo a selecção musical do Miguel Guedes e só pensava Como podemos não gostar de pessoas que têm um gosto musical igual ao nosso? É que era uma selecção de primeira e que podia ter sido feita por mim. De Mazzy Star a Anna Calvi, passando por Arcade Fire, Dark Dark Dark, Elliott Smith, Jorge Palma, Nick Drake e sem esquecer Dylan, Bowie, Cave e Springsteen.
O carro levava-me estrada fora. A música escolhida por Miguel Guedes tinha-me acalmado. Já não queria berrar. Já não queria agarrar num revólver. Nem apertar no gatilho. Já conseguia respirar e estava a respirar bem. Bem e calmamente.
Cheguei a São Pedro de Moel. O carro levara-me até lá. Estava a chover uma chuva miudinha. Uma chuva que mais parecia cacimbo. Desci até à praça. Talvez umas pevides e olhar o mar, pensei.
Mas não.
A descer, quase a chegar à praça, o mar por companhia. O mar comera a praia e galgara as escadas até chegar à praça. Era impossível passar para o outro lado. Não estava lá a senhora dos tremoços. Não estava lá ninguém. Na rádio continuava a Playlist do Miguel Guedes. Continuava a achá-lo um sujeito arrogante, duma arrogância que se detectava logo na voz. O facto dele ser do FC Porto também contribuía para a construção que fazia dele. Mas tinha bom gosto, o cabrão. Um gosto igual ao meu. E foi aí que pensei se não seríamos nós todos, esta gente que gosta de boa música, todos uns arrogantes de merda por conhecerem aquilo que os outros não sonham sequer conhecer?
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro. Fiquei ali algum tempo a fumar e a olhar a espuma suja que o mar trazia para a praça. Ainda pensei no que é que ela estaria a fazer em casa. Mas foi um pensamento rápido, que logo se esvaneceu.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/15]

O Som Ensurdecedor Sobre a Minha Cabeça

O som, porra! O som! Parecia que o mundo vinha abaixo, por baixo do som. Um som ensurdecedor. Um som que depois de se ter extinguido, ainda ficou aqui a pairar como vácuo. O silêncio total. Nem uma mosca. Tinha os ouvidos tapados. Entupidos. O som virado do avesso. Depois do barulho caótico, o silêncio sepulcral.
Abri e fechei a boca como se faz nos aviões, quando descolamos com destino a férias de sonho que se tornam pesadelo, por causa da pressão. Abri e fechei a boca. Aos poucos comecei a ouvir os cães. O de cá de casa e os das redondezas. E então, um estalo, como se umas portas se tivessem aberto do trinco e de novo os barulhos normais da casa. O zumbido do frigorífico. A ventoinha refrescante do computador em sobreaquecimento. Os pequenos barulhos normais lá de fora, que se ouvem à distância. Como se a vida retomasse a sua actividade depois de ter parado, por momentos, por breves momentos, enquanto aquele caos sonoro ocupava o espaço e o tempo.
Eu estava na cozinha. Depois do alpendre, a cozinha é o meu sítio preferido da casa. Estava na cozinha, sentado à mesa, na companhia de um copo de vinho e um cigarro, frente ao computador a escrever um pequeno texto para entregar num jornal aqui da região, porque não podia estar no alpendre, estava a chover e era uma chuva tocada a vento, e então fiquei na cozinha, e estava a escrever o texto quando senti chegar o som. Chegou sem aviso. Nem aproximação. O som como que caiu em cima de mim. Se calhar em cima de nós que, depois disto tudo, eu ainda ouvia os cães da aldeia a refilarem, coitados. Um som infernal que ocupava todos os espaços vagos que existiam à minha volta e dentro de mim. Perdi o raciocínio. Desliguei-me. O som ocupou-me.

Voltei após o momento de silêncio.
Pensei no que é que andariam a fazer por aqui, e a estas horas (como se houvessem horas certas para certas coisas), os aviões da Base Aérea de Monte Real?
Levantei-me da mesa. Percebi que ainda tinha o cigarro acesso na mão. Fumei. Levei o copo de vinho à boca e despejei-o de um trago. Abri a porta da rua e saí para o alpendre. Ainda chovia. Uma chuva tocada a vento. Via, ao fundo, as luzes tremeluzentes da aldeia. Já era quase noite. Ao fundo, um buraco negro que imaginei que fossem as montanhas, escuras, na solidão das trevas.
Não conseguia encontrar a Lua no céu pouco estrelado. Viam-se meia dúzia de estrelas, se tanto. O céu estava enublado.
E foi então que vi, no céu, uma luz vermelha a voar em círculos sobre o que seriam as montanhas. Circulou por ali durante algum tempo. Não fazia barulho. Pelo menos eu não ouvia barulho nenhum. Só o ladrar dos cães. E, os gatos, vim a descobri-los todos enrolados à volta dos meus pés, nem percebi de onde é que vieram. Depois a luz vermelha parou no seu circular por uns breves momentos e zarpou para cima, rumo ao espaço.
Os cães pararam de ladrar. Eu deitei fora o resto do cigarro. Entrei em casa e fui tentar acabar o texto para o jornal regional. Mas foi difícil concentrar-me. E tive de ir abrir outra garrafa de vinho tinto.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/14]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]