Refaço os Passos

Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Olho em frente e tenho dois Rothko a olharem para mim. Não são mesmo Rothko, mas alguém os pintou como se fossem. Um é preto com um rectângulo, mais acima, cinzento. O outro é castanho, castanho escuro, com um rectângulo, mais abaixo, castanho mais claro.
Como é que tudo começou, mesmo? Com a luz, pois. E fez-se luz. Eu abri os olhos. Fez-se luz. Gritei. O mundo começou a ser mundo. Uma velha gorda agarrou-me pelos pés, de cabeça para baixo, e deu-me duas palmadas no rabo. E eu gritei o meu primeiro palavrão. Foda-se! Chorei. Olhei em volta e vi uma mulher deitada na cama a olhar para mim. Vi-lhe o olhar ansioso. Ansioso por me abraçar. Salva-me, desejei! E foi aí que percebi que ia levar muita pancada na vida, mas iria curar as minhas mazelas nos braços das minhas mulheres. Das mulheres da minha vida. De todas. De todas as mulheres da minha vida. E a velha gorda virou-me outra vez. Agarrou-me ao colo e colocou-me nos braços da outra, a ansiosa, deitada na cama. Ela agarrou-me. Apertou-me. Ofereceu-me os peitos e eu chupei-os logo. Esfomeado.
As pinceladas são visíveis. Notam-se bem os caminhos. As camadas. O querer ser. Como as de Rothko. Pinceladas seguras mas imperfeitas. Orgânicas. Sujas. Algumas parecem querer esconder alguma coisa lá por baixo. Outras parece que levam pouca tinta e ainda se percebe a tela lá por baixo, a querer ser também obra de arte.
E então eu estava agarrado aos peitos e mamava. Sôfrego. Engasgava-me. Tiravam-me a mama. Batiam-me nas costas, os cabrões! Eu chorava. E gritava. E voltava a mamar. Para me calar. Para me calarem.
Foi assim que tudo começou?
Foi esta a origem de tudo?
O Big Bang?
Tudo começou nas mamas de uma mulher. A mãe. A mãe que me alimentou.
E não consigo deixar de olhar para estes falsos Rothkos que me entram pelos olhos dentro. Enchem-me. Fazem-me sonhar. Contam-me histórias sujas, de crime e paixão.
Preciso de me concentrar. Porra! Preciso de me concentrar.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Sinto umas garras agarradas à minha cabeça. Sinto umas garras a quererem virar-me para fora. Estava escuro e agora está claro. Estava quente e agora está frio. Estava silencio e agora alguém berra e grita.
Quem estão a matar?
Levanto-me e endireito um dos dois quadros falsos do Rothko que me iluminam o dia. E como é que cheguei aqui? Ao falso Rothko? A esta sala onde estou a ouvir música com os pés estendidos sobre um pequeno banco enquanto desfaço um cigarro em cinzas e olho em frente, um, não! dois Rothko.
Mas preciso organizar-me. Organizar o pensamento. Preciso de saber como é que tudo começou. Preciso de saber.
Refaço os passos. Como é que tudo começou?
Foi com a luz, pois. Sim. Fez-se luz! E depois? Onde é que tudo isto se fundiu? Preciso de me organizar. Refazer os passos.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/12]

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Dez de Junho

Sinto-me preso. É o dez de Junho, o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o Dia das Comunidades Portuguesas pelo mundo e eu sinto-me preso.
Estou num pântano. À minha volta charcos de água choca, mal-cheirosa. Pedaços de árvores caídas, partidas. Folhas a voarem. E lixo. Sacos de plástico. Sacos de plástico com motivos de supermercados. Sacos de plástico que custam dez cêntimos a unidade a voar, entre as folhas, como as folhas, de charco para charco, à procura de pouso.
Puxo um pé enterrado no lodo. Custa puxar o pé. Tirá-lo cá para fora. Tirá-lo cá para fora com botas e meias. Mas consigo. E mal o tiro, volto a enterrá-lo todo de volta nesta lama viscosa que me tenta engolir.
Não ouço um pássaro. Não vejo um animal. Não há um peixe aos meus pés. Nem um crocodilo que me queira puxar para as profundezas do charco e deixar-me apodrecer até querer ferrar-me o dente.
Estou preso e estou sozinho.
É o dez de Junho.
É o Dia de Portugal e estou sozinho neste país. Já ouvi muita gente falar. Agora está tudo em silêncio. Não há ninguém para dizer o que quer que seja. Não há ninguém que tenha qualquer coisa para dizer. Já se disse muito. As palavras perderam sentido. Nada queria alguma coisa. E tudo desapareceu. O país desintegrou-se. Entre as elites corruptas e a população desinteressada, foram todos atrás do flautista e lançaram-se ao mar no Canhão da Nazaré. Fiquei cá eu. Sozinho. Porque estava preso na lama. Com os dois pés presos. E sempre que conseguia tirar um, voltava a enterrá-lo. O caminho foi duro e cheguei tarde ao mergulho no Atlântico. Fiquei sozinho, não porque era mais inteligente que os outros, mas porque mais lento, mais parvo, mais idiota.
É o dez de Junho.
É o Dia de Camões e só me recordo da Taprobana, das ninfas do canto nono que não quiseram que eu lesse na escola e na pála negra no olho morto que recordo do filme de Leitão de Barros. Valha-me a memória do cinema tão mal-amado para me recordar uma vida morta e esquecida em compêndios que ninguém quer ler.
Que interessa o Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas a uma terra queimada deserta de gente, de povo, de ideias?
Onde se enfiou toda a gente?
É o dez de Junho.
É o Dia das Comunidades que estão todas por aí, espalhadas pelo mundo. São estes os que foram à procura de mundo porque não encontraram cá nada para eles. Este mundo expulsou-os lá para fora como enteados.
Este é um país que não é pai. Este é um país que já não existe.
Ou sou eu que não o compreendo?
Estou sozinho.
Estou sozinho neste dez de Junho a tentar não sucumbir ao que vejo. E o que vejo eu? Um litoral a tombar no mar. Precipícios, penhascos, florestas, apartamentos, hotéis, campos de golfe à beira-mar que se separam do continente, se desfazem e caiem à água. Provocam ondas gigantes e levam um tsunami à América de Donald Trump.
Estou sozinho neste pântano mal-cheiroso. Estou sozinho e preso. Preso na lama que resta. Preso na lama que restou deste jardim à beira-mar plantado.
E para onde foi toda a gente? Para onde foram as pessoas? Caíram realmente todas no Canhão da Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/10]

Uma Vida a Fugir a Sete Pés

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
O meu pai tinha-me largado nas mãos da freira e ido embora. Eu, a chorar baba-e-ranho, desesperado pelo abandono, deixado abandonada nas mãos de uma freira desconhecida, desatei aos pontapés à freira, que imediatamente me largou, e corri desalmado atrás do meu pai. Passei o portão do colégio e tentei entrar para o banco de trás do carro. Mas os carros não eram como são hoje. O meu pai já tinha aberto a porta dele, mas não havia sistema centralizado para abrir e fechar as portas dos carros. Cada porta um mundo. Corri para a porta dele a chorar. Não conseguia falar. Só um choro sofrido. A minha vida estava a acabar. Sentia-o. Os meus pais estavam a abandonar-me. Ali. Num sítio desconhecido. Mas eu não estava pelos ajustes. A mim, não! A mim ninguém me abandonava. Implorei. E o meu pai deixou-me entrar no carro. Para o banco de trás do carro.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Vi a cara sorridente da enfermeira demasiado próxima da minha. Senti-lhe o cheiro. O odor ácido. Os dentes escurecidos. A seringa na mão. A agulha preparada para me picar. A minha mãe a agarrar-me. O meu braço despido. A enfermeira a sorrir e a garantir que não ia doer nada. Mas eu não quis saber. Dei um pontapé na mão da enfermeira e vi a seringa a voar, cair e espetar-se no chão. Partiu-se. Saltei da cadeira. Fugi das mãos da minha mãe. Fugi da enfermeira. Fugi da seringa, da sala, daquele terror. Desci as escadas a correr e na rua cruzei-me com o meu pai que fumava um cigarro. E queixei-me. Queixei-me da minha mãe. Queixei-me da enfermeira. Queixei-me das pessoas que eram más e me queriam fazer mal. E o meu pai deitou o cigarro fora. Pegou-me por um braço e levou-me de volta à sala. À cadeira. Às mãos da minha mãe. Ao sorriso da enfermeira. À seringa de agulha apontada ao meu braço. Desejosa da minha veia.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Estava sentado no sofá, de Sagres na mão, à espera de ver a final da Liga das Nações entre Portugal e a Holanda, quando ouvi bater a porta da rua. Senti alguém entrar. Ouvi passos a dirigirem-se para a cozinha. Percebi sacos de plástico a serem mexidos. Portas e gavetas a abrir e fechar. Alguém arrumava coisas. Ouvi a porta do frigorífico. Garrafas a bater. Água a sair pela torneira do lava-loiça. Um pano a ser sacudido. E depois, alguém, lá de dentro, disse Temos de conversar!
Estremeci. Senti um calafrio pelas costas. Bebi o resto da Sagres de um gole. Despejei a garrafa. Peguei no maço de cigarros e saí de casa em silêncio. Desci as escadas a correr. Cheguei à rua e recuperei o fôlego. Cruzei a rua e entrei no café em frente. Estava mesmo a começar o jogo. Só era pena ter que vir à rua para fumar.

Estou à Espera

Estou à espera.
Estou de cigarro na mão à espera.
Estou sentado no sofá. Ouve-se o som fanhoso vindo do rádio FM que está na cozinha. É o rádio do pequeno-almoço. O rádio que utilizo quando estou a tomar o pequeno-almoço, de manhãzinha, para ir sabendo das notícias do dia.
Chego-me à frente e deposito a cinza no cinzeiro.
Ela está ao meu lado, no sofá. Está de telemóvel na mão. Provavelmente a navegar no Facebook.
Estamos calados. Não estamos chateados. Estamos só calados. Estamos bem os dois, em silêncio. Não temos de estar sempre a conversar. Conversamos quando temos o que dizer.
Estamos os dois em silêncio. Eu, estou à espera de cigarro na mão. Ela espera comigo, enquanto navega pelas redes sociais. Pelo menos é o que me parece. Não vou espreitar. Eu não tenho necessidade de ir espreitar. E ela não tem necessidade de me mostrar. Temos confiança um no outro. Aliás, mais que confiança. Nem sequer equacionamos isso.
Ouço, por cima do som fanhoso que sai do rádio FM, o som de um carro que se aproxima da casa. Tomo atenção. Procuro perceber se vem para cá. Mas não. Segue em frente. Desaparece. Fica só o som solitário do rádio FM.
Acabo o cigarro. Chego-me outra vez à frente e apago-o no cinzeiro.
Acendo outro.
Ela olha para mim. Coloca a mão na minha perna. Percebe que estou um pouco impaciente e tenta acalmar-me. Eu olho para ela. Ela sorri-me.
Recosto-me no sofá. Olho para a televisão desligada. Olho para o crucifixo com um Jesus loiro, com uma coroa de espinhos, que está pendurado na parede por cima da televisão. Eram restos da vida da minha mãe. Restos que deixei que entrassem pela minha vida dentro. Não me incomodam. Ou incomodava-me mais alterar estes restos da sua passagem.
Olho lá mais em cima, para o tecto, para as sancas. Olho para a esquina do tecto. E vejo uma aranha. Uma aranha que está a construir uma teia. Aquela aranha está por ali há já bastante tempo. Nunca a tirei de lá. Ela também não. E vai continuar por lá.
Vejo o jarro em cima da mesa. Tem o resto de umas flores. Não sei que flores são. Nunca soube o nome das flores. Só das Rosas. E estas não são Rosas. Mas devem estar a morrer. Há pétalas caídas à volta do jarro. As flores já não têm quase pétalas. Já não têm folhas. Mas o jarro ainda tem água. Acho que morreram, as flores.
Há um livro caído na mesa. Ao lado do jarro. Tento ver que livro é aquele. Não é meu. Não sou eu que o ando a ler. Deve ser dela. Que livro é? Tento focar as letras da lombada, mas tudo o que vejo é um borrão. Ainda me viro para ela para lhe perguntar o que é que anda a ler. Mas já não vou a tempo.
A campainha da porta toca.
Nem me apercebi que vinha lá alguém. Nem me apercebi da chegada de algum carro. Mas há alguém à porta. Alguém que toca a campainha. Eu não me mexo. Ela olha para mim. Sabe que sou eu que tenho de ir à porta. Sabe que é a mim que procuram. Sabe que é a mim que vêm buscar.
Eu olho para ela. Há uma despedida neste olhar. Sei que ela o vê.
Apago o cigarro no cinzeiro. Levanto-me. Caminho para a porta. Ouço-a levantar-se atrás de mim. Ouço-a caminhar atrás de mim. Abro a porta. Estão dois polícias à entrada de casa. Viro-me para ela. Ela abraça-me. Dá-me um beijo. Eu não consigo evitar um soluço.
Um dos polícias tem umas algemas nas mãos. Eu largo-a e estendo as mãos ao polícia. E deixo-me ser conduzido por eles.
E enquanto vamos pelo caminho até ao carro da polícia, ouço a porta de casa a fechar-se nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/04]

Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]