Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

Homem Procura Companheira

Homem maduro, de bem com a vida, procura senhora jovem e bonita para fazer companhia e algo mais se assim surgir a oportunidade.
Tenho cinquenta anos. Casa própria. Não totalmente paga. Faltam ainda alguns, poucos, anos. Tenho carro. Comprado em leasing. Quase pago. Tenho também bicicleta mas para fazer exercícios em casa. Tenho a bicicleta na sala e pedalo enquanto vejo a novela das nove na TVI.
Tenho um pequeno café na periferia da cidade em bairro quase dormitório. É o único café nas redondezas. Está sempre cheio. Há sempre gente a ver os jogos de futebol à noite. Faço uns bons petiscos. Principalmente Pica-Pau. No Verão aposto nos caracóis. Vem gente de fora para comer os meus caracóis. Ao lado também tenho um pequeno negócio de aluguer de filmes em DVD que já teve melhores dias mas que ainda funciona.
Não tenho filhos, pelo menos que eu saiba.
Fui casado. Duas vezes. Foram elas que se foram embora. Não sei porquê. Nunca lhes faltei com nada em casa. Mas não lhes guardei rancor. Nem deixei de gostar de senhoras. Tenho-lhes muito respeito e amor.
Vou sempre à missa ao Domingo de manhã.
Às vezes vou ao cinema ao Shopping, mas não gosto muito dos filmes actualmente. Nem gosto do cinema português. Gostava muito dos filmes com o Vasco Santana, o António Silva e a Beatriz Costa. Agora os filmes portugueses são muito chatos.
Tiro férias em Agosto e passo uma semana na praia da Vieira.
Estou sempre à espera da noite de Santo António para comer as primeiras sardinhas do ano. As sardinhas são o meu prato favorito. Mas também gosto de chanfana. De borrego. De lampreia. Sou boa boca e como de tudo um pouco.
Gosto do Benfica. Do Tony Carreira e do José Cid. Das novelas da TVI e da Cristina Ferreira que agora tenho de procurar na SIC de manhã enquanto sirvo as meias-de-leite às senhoras aqui do bairro.
Ainda tenho cabelo, embora já não tão forte nem tão abundante como antigamente. Não fumo e o cheiro do tabaco enjoa-me. Não gosto de beijar senhoras que fumem. Não gosto do cheiro do tabaco entranhado nas roupas. A proibição de fumar nos cafés foi a melhor decisão política depois da revolução.
Bebo pouco. Uma cerveja de vez em quando. Um copo de vinho às refeições. Um whiskey à noite. Um vodka de vez em quando.
Fiz o nono ano. À noite.
Não gosto muito de ler livros. Mas leio o Correio da Manhã e A Bola todos os dias.
Tenho votado sempre em todas as eleições, normalmente no PSD, mas também já votei no PS e no CDS. Nos comunistas é que nunca votei. E espero nunca votar. Não gosto de comunistas. Mas já não sei se devo continuar a votar. A política deixa-me desgostoso. Eles são todos iguais. Só querem encher-se.
Levanto-me todos os dias às seis e meia da manhã para abrir o café às sete. O café abre todos os dias do ano, mesmo no Natal e no Ano Novo.
A minha mãe ainda vive comigo. Mas não incomoda. Está acamada. É só preciso levar a comida à cama. Dar-lhe à boca. Dar-lhe banho uma vez por semana. Mas fora isso, é uma doçura de senhora.
Também tenho um cão. Está preso à casota. É só preciso limpar os cocós todos os dias. E ele come os restos do café.
Não gosto de jogar e também nunca fui muito afortunado ao jogo. É por isso que ainda acredito que vou encontrar o amor. Como se costuma dizer, azar ao jogo sorte ao amor.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/07]

A Chuva de Perseidas

O som chega-me em stereo.
Eu espreito pela janela para tentar ver a chuva de estrelas, não o antigo programa da SIC que a Catarina Furtado apresentou, mas a de Perseidas. Engano. É dia. É tarde. O sol está brilhante, espetado lá em cima no céu, estão trinta e cinco graus, e a única coisa que está lá pendurada, a fazer companhia ao brilho do sol são as nuvens, aquelas nuvens brancas, branquinhas, redondas, feitas de espuma, as nuvens dos Simpsons, a estenderem-se horizonte fora. Não, não há chuva de estrelas. Ainda é de dia e está sol.
Mas o som chega-me em stereo.
De um lado, ela. Nem sei já o que diz. Que importa? São só palavras. Palavras sem sentido. Palavras que actuam como facas, a cortar, a cortar, a fazer sangrar. Os ouvidos. A cabeça. Do outro lado o cão. O cão, lá fora, que não pára de ladrar. Aquilo entra-me cérebro dentro e fura-o. Destrói-me os nervos. Está a deixar-me louco. Louco em stereo.
Dói-me a cabeça. Queria ver a chuva de estrelas. Mas o som em stereo, um som alto, alto e repetitivo, monocórdico, como um mantra maléfico, terrível, como setas, setas perfuradoras, aguçadas, está a dar comigo em doido.
Vou à dispensa e agarro na pressão-de-ar. Saio de casa. Ela nem se apercebe. Continua a falar. Nem se apercebe que saio. Aproximo-me da casota. O cão está preso por uma trela pequena que lhe limita o espaço de movimentação. Está a ladrar. Está em pé, preso pela trela, a ladrar. Ladra como punhais que se espetam na minha cabeça. Aponto a pressão-de-ar e disparo. Disparo uma única vez. Certeiro. O cão deixa de ladrar. Sinto alívio na cabeça. Pelo menos momentâneo. Vejo o cão deitado frente à casota. Deitado e quieto. Uma poça de sangue a formar-se à sua volta. O silêncio. O silêncio por enquanto.
Logo volta a ladainha dela.
Regresso a casa. Arrumo a pressão-de-ar na dispensa. Passo por ela que continua a refilar. Não percebo o que diz. As palavras não fazem sentido. Um de nós dois está em erro. Ou eu não percebo o que ela diz, ou ela não diz nada que seja perceptível. Mas continua, continua… Continua…
Ela olha para mim quando passo por ela. Não se apercebeu que saí de casa. Pego no jarrão que está à entrada, levanto-o acima da cabeça e lanço-o para o chão. Um estrondo transformado em mil e um pedaços de porcelana espalhados por todos os buracos da casa e, finalmente, sim, finalmente, o silêncio. O silêncio total. Penso que até as putas das cigarras se calaram.
Ela parou de falar. Ficou parada, talvez incrédula, a olhar para o jarrão, feio, horroroso, quebrado em mil e um pedaços espalhados pela casa.
Suspiro.
Suspiro de alívio.
Respiro fundo e recupero o ritmo. O meu ritmo. As batidas estão mais espaçadas. Tranquilas. Relaxo.
Olho para ela e vejo-a de boca aberta. Parada. Como uma fotografia. Still.
E digo-lhe Vou beber um café, queres vir? E ela balbucia qualquer coisa que não percebo, não oiço. Um murmúrio que nem o é, inaudível. Ela não sai do lugar. A boca mexe-se. Abre-se e fecha-se. Mas não diz nada.
Aceno a cabeça em compreensão e saio de casa sozinho.
Fecho a porta nas minhas costas. Já não a oiço refilar comigo. Cá fora, o cão deixou de ladrar. Está a começar a escurecer. Talvez ainda consiga ver a chuva de estrelas. Mas entretanto, um cigarro. Liberdade.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/13]