O Clichê

Estávamos os dois deitados, lado a lado, em cima da cama desfeita. Os dois de barriga para cima. Nus. Transpirados. Eu olhava para o tecto. Acho que ela também. Sentia o pé dela a tocar o meu. A unha do dedo grande do pé dela arranhava-me na planta do pé, fazia-me ligeiras cócegas e magoava-me, e era um magoar estranhamente bom. Não era prazer mas, aquela pequena dor, como uma navalha a cortar-me levemente, era agradável. Estranhamente agradável.
Lá fora chovia. Chovia que Deus-a-dava. Chovia tanto que a conseguia ouvir através dos vidros duplos da janela do quarto.
A luz do dia estava baixa. Na rua os automóveis já circulavam com os faróis ligados. Eu via o reflexo das gotas da chuva a escorregar pelos vidros da janela no tecto, projectado pelos faróis dos automóveis em circulação.
A minha respiração começou a acalmar. Deixei de transpirar. Comecei a sentir um ligeiro frio. Especialmente nos sítios por onde senti escorrer as gotas da transpiração. A magia do sexo estava a perder o seu efeito. Puxei o edredão para cima e tapei-nos. Aos dois. E ficamos ali assim, lado-a-lado, a olhar para o tecto, tapados pelo edredão.
A casa estava quase em silêncio. O som distante da chuva na rua e a nossa respiração. Mais a minha que a dela. A minha asma sobrepunha-se a tudo. Acalmei.
Por baixo do edredão a mão dela agarrou na minha. Deixei que a agarrasse. Continuei a olhar o tecto.
Tinha chegado mais cedo e fui buscá-la ao trabalho. Estava a chover e ela estava sem carro. Viemos logo para casa. Ainda lhe perguntei se queria beber uma cerveja. Ou um café. Ela olhou para mim e disse Vamos para casa. E viemos para casa. E, já dentro de casa, quando eu ainda estava a enfiar a chave na fechadura e a fechar a porta à chave, já ela estava a despir-se enquanto caminhava para o quarto. Ia deixando as roupas pelo caminho, como se fosse uma pista para eu seguir e encontrá-la.
Quando entrei no quarto já ela estava dentro da cama. Despi-me rápido e fui ter com ela. Enfiámo-nos os dois debaixo do edredão. A minha cara em frente à cara dela. O meu nariz quase a tocar o nariz dela. O seu hálito quente, e um pouco adocicado, e entrar-me pelas narinas. Disse-lhe Amo-te. Ela disse Também te amo. Beijei-a. Beijou-me. E os nossos lábios, e as nossas línguas, e as nossas bocas invadiram todos os pedaços mais íntimos de cada um de nós e deixámo-nos ir por ali fora, loucos, diabólicos, consumidos, numa velocidade terminal e poderosa.
Estiquei o braço e apanhei um cigarro. Acendi-o. Dei duas passas e vi o fumo subir até ao tecto. Como um balão de diálogo numa banda-desenhada. E ouvi-a dizer Somos um clichê. E eu respondi Sim. E passei-lhe o cigarro para as mãos. Ele deu umas passas e devolveu-me o cigarro. E eu disse Gosto de clichês. E ela respondeu Eu também.
Por baixo do edredão, a mão dela apertou a minha. As unhas dela espetaram-se na minha mão. Magoaram-me. Aguentei sem queixume. Ela teve um estertor. Senti-lhe o corpo tremer. Senti-lhe as convulsões. Virei-me para ela e vi a língua sair da boca e lamber os lábios. Os olhos fechados. Os lábios um pouco abertos e um pequeno gemido a sair, sorrateiro, de dentro dela. Depois parou. Afrouxou a mão dela na minha. Mas não a largou. O pé dela esfregou-se no meu. Abriu os olhos. Olhou para mim. Viu-me a olhar para ela. Sorriu. Tirou-me o cigarro dos dedos. Fumou-o. E disse Gosto muito de ser um clichê. Passou-me de volta o cigarro e eu sorri-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/15]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

A Passagem de Ano Já Chegou?

À minha volta é a azáfama. Ultimam-se os preparativos para a Passagem de Ano. Sou um privilegiado. Eu sei.
Estou na cozinha, encostado à janela aberta, a fumar um cigarro, e já sinto o frio que não esteve durante a tarde mas que começa agora a chegar.
Vejo, em cima da mesa, uns frascos individuais com Panna Cotta. Alguém pôs o bacalhau a cozer em leite. Alguém está a fazer molho béchamel (Isso de comprar em pacotes já feito, no supermercado, é para meninas, ouço dizer). Dizem-me que é para o Bacalhau com Natas que vamos comer amanhã ao jantar. Eu ainda adianto que Bacalhau com Natas não é comida de Passagem de Ano, mas logo alguém me responde que a cozinha está à disposição se eu quiser cozinhar algo digno da Passagem de Ano. Eu faço um sorriso amarelo e declino o convite.
Alguém passa por mim e deposita-me um copo de gin nas mãos. Não é um copo grande, em balão, para gins modernos. Não. É um copo alto, clássico, a lembrar as noites a perder madrugadas nos idos de ’80. É Bombay, dizem-me. Aceno um agradecimento.
No fogão fritam-se batatas. Voltam a dizer-me que é para o Bacalhau com Natas. Eu aceno, entendido, a cabeça. Mas fazer Bacalhau com Natas desta forma artesanal dá muito trabalho. Eu costumo comprar bacalhau já desfiado, batata palha e béchamel em pacotes. Mas antecipo um pitéu à maneira. Que venha o Bacalhau com Natas.
Na mesa vão crescendo pequenas taças com patés vários que alguém está a fazer. Azeitonas com alho e azeite. Jaquinzinhos da Horta. Toda a gente faz coisas. Eu fumo um cigarro e observo. Alguém tem de dar conta do que se faz e contar para memória futura.
No ano de 2019, nos fundilhos da calças já gastas do final do ano, houve alguém que se deu ao trabalho de cozinhar coisas boas para eu comer.
Lanço fora a beata do cigarro já consumido e vou pôr música. Alguém tem de cuidar do que é realmente importante. Ponho o No Home Record da Kim Gordon, aquele que foi, para mim, o álbum do ano. Aumento os decibéis a rebentar as colunas e os tímpanos. Há gente a abanar a cabeça enquanto trabalha em prol dos outros.
É para amanhã? Não, também é para hoje. Também comemos hoje, não? Ou ninguém tem fome?
Descubro pudins, bolos, um Tiramisú, um Strawberry Cheese Cake, na mesa da cozinha que vejo cada vez maior e mais cheia. Só doces. Onde estão os salgados, pá? Adivinhando as minhas preces, alguém leva-me um rissol de camarão à boca. É bom, a porra do rissol. Mas desfez-se num instante. Assim como o meu gin.
Agora vou eu fazer um. Pergunto quem quer. Copos altos, elegantes. Copos do tempo. Despejo gelo. Espremo limão. 1/3 do copo de Bombay. 2/3 de água tónica. Faço a distribuição. Esta gaita é boa.
Acendo novo cigarro.
Alguém chega com camarão. Passa-o por água. Coloca numa caixa de plástico e deposita-o no frigorífico. E eu pergunto-me porquê? Por mim morria já agora aqui. Mas sigo as ordens dos outros. Às vezes esqueço-me como é viver em comunidade. Como é viver com os outros. Então tenho de fazer um esforço para não ser parvo. E fico quieto. À espera que alguém decida. Tome a razão. Agrupe as vontades. O camarão é para amanhã. Assim seja.
Outro alguém passa por mim e larga-me uma pedra nas mãos e diz Faz aí uma, se queres ver. E eu tenho um momento de pausa. O que faço ao cigarro que tenho na mão?
Mando o cigarro pela janela. Faço o charro. Acendo-o. Dou-lhe mais duas passas e passo-o ao outro. No caso, à outra. Uma das que está a trabalhar aqui na cozinha.
Depois está toda a gente a rir. Depois está toda a gente a comer. Depois alguém diz, Deixem alguma coisa para amanhã. Depois alguém estende a mão e diz-me Faz outra! e larga-me outra pedra na mão. E eu faço outra. E fumo-a. E passo-a ao lado. E já toda a gente se ri. Eu também me rio. Nem me reconheço. Depois toda a gente come. Depois alguém diz Caga na Passagem de Ano.
E ouve-se uma gargalhada geral amplificada pelos sentidos de percepção aguçados e muito sensíveis que eu tenho.
Eu sou muito sensível, ouço-me dizer. E toda a gente me ouve dizer. E toda a gente se ri. E eu também me rio de mim.
Alguém abre uma garrafa de espumante. A rolha salta e ninguém vê para onde foi. O espumante espalha-se pelo chão da cozinha. Alguém diz Que se foda a Passagem de Ano. E depois toda a gente bebe pelo gargalo. E alguém diz Tu não que tens herpes. Tenho herpes é o caralho, responde outra voz.
A garrafa circula. Alguém agarra numa esfregona e tenta limpar o chão da cozinha.
Alguém agarra-se a mim e beija-me. Sinto uns lábios a roçarem-se nos meus. Sinto uma língua a entrar dentro da minha boca. Sinto uma mão à procura do meu sexo. Ouço uma voz sussurrada dizer-me ao ouvido Feliz Ano Novo. E eu penso Mas ainda não é hoje, ou é?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/30]

O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]