A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Volátil

Ela vai à frente a correr. Não vai sempre? Não vai sempre à frente? A correr? Vai a correr desalmada duna acima, duna abaixo. Em direcção ao mar. Às ondas frias de Setembro. E mergulha sem medo.
Ela vai à frente a correr, mas vira-se. Vira-se para trás. Vira-se sempre para trás. Para mim. Ou sou eu que a faço virar? Que imagino que ela se vira? Ela vira-se para trás mas não lhe vejo a cara. O sol bate-lhe nos cabelos d’ouro e explodem em partículas douradas que a escondem. E não a consigo refazer.
Como esqueci a cara?
Mergulha.
Mergulha e vai, vai, vai por ali fora até ao princípio do mar.
Princípio de incertezas.
Até aos meus olhos?
Até às lágrimas dos meus olhos?
Onde moro? Onde moram?
O sangue corre ácido nas veias. Cospe. Vomita.
Como esqueci a cara?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/28]

Estou em Stereo e Recordo o Chiado

Estou em stereo. À minha direita o Sol. À minha esquerda a Lua. O Sol ainda vive os últimos raios antes de morrer para além da praia, do mar, lá para os lados da América. A Lua já canta lá em cima, foco de luz num azul petróleo que pinta o céu por cima das montanhas.
Enquanto me sinto em stereo, aqui no alpendre, recordo.
Sim, recordo.
Recordo o rescaldo do grande incêndio do Chiado.
Era Agosto e eu estava de férias na província. Vivia o Meu Querido Mês de Agosto. São Pedro de Moel, Vieira, Pedrogão. Em Leiria perdia-me pelo Terreiro, nos Vicentes e na Estrebaria. Nos Filipes. No Panaceia se ainda não tinha fechado. No Amadeus se já tinha aberto. A memória aqui torna-se um pouco difusa e perde-se nos pormenores. Mas também havia o Alibi. E o strip-tease no Raínho. E a Ala dos Namorados às cinco da manhã. As sandes de panado. A sopa de feijão na companhia das putas, dos chulos e da droga.
Mas recordo aquela manhã. E a tarde. E a noite. E os dias que se seguiram. E todas as imagens do Inferno. E todas as reportagens angustiantes e angustiadas de quem via uma parte importante do seu mundo desabar. Quem perdeu tudo. Quem viu perder tudo. Quem viu o diabo subir à Terra.
O Chiado como o conhecia, acabara. Acabara ali em poucas horas. Consumido pelas chamas.
Regressei a Lisboa em Setembro. Já bem no fim de Setembro. Mas ainda havia Inferno.
E recordo. Recordo de me aproximar mas não conseguir lá ir. Recordo que era assustador. Recordo que não queria ver. E vi à distância. À distância de segurança.
Para ir para o Bairro Alto subia pelo Elevador da Glória. Não precisava de subir o Chiado. Não queria subir pelo Chiado.
Recordo mais tarde. Recordo a reconstrução. Recordo os estaleiros. Recordo os fins-de-tarde de final de aulas, a descer o Chiado e passar pelas pontes, pelos passadiços, no meio dos estaleiros da reconstrução, e dos mirones que faziam fila para observarem os trabalhos de quem lá estava a trabalhar. Os trabalhadores. Os processos de reconstrução. De inovação. De recriação de uma zona que deixou de ser uma coisa para se tornar outra.
Mais tarde revi-a num filme de João César Monteiro. Não me recordo qual, mas ele era um militar que observava, do alto da sua arrogância de conhecedor, como todos os mirones, os trabalhos de recuperação do coração da cidade.
Em stereo recordo o Chiado. Recordo um tempo que não mais regressa. E mesmo tendo sido terrível, deixa-me um amargo pelo impossibilidade de regressar a um tempo em que tudo ainda era possível. Um tempo em que eu ainda era capaz. Uma época em que eu ainda acreditava. Em que julgava que tudo estava à mão-de-semear e que era só preciso estender a mão e agarrar. E em que estava tão enganado.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/24]

E o Outono Caiu

Chegou o Outono. Ou melhor, caiu.
Entre Agosto e Setembro o tempo mudou bastante e rapidamente. Em menos de um mês passaram-se duas estações. Tenho de assaltar o guarda-fatos, recuperar roupa mais quente, algumas mangas compridas, camisolas, casacos…
A casa está fria. Mas não posso ainda ligar os aquecedores. O dinheiro gasto no Verão não chegou ao Outono. A liberdade na praia prende-me agora aqui, na cidade. Vou ter de esperar até fazer mais frio. E espero que não seja já amanhã.
Saí para a luz do dia, para aproveitar os últimos raios de sol que se aventuram para cá do equinócio. Fui à procura da senhora das castanhas, ao sítio onde ela tem estado nos últimos 30 anos, e não a encontrei. Ainda não é frio suficiente para as castanhas. As mãos ainda se aguentam sem luvas. O bafo ainda não faz nuvens. Só o fumo do cigarro ainda se vê.
Dou uma volta pela cidade e reparo que recomeçou a azáfama normal. Os emigrantes e os turistas já partiram e as gentes da cidade já retomaram as suas vidas, a escola recomeçou, as lojas já apresentam as promoções da rentrée e já se sente no ar a aproximação do Natal. Sim, parece que vem longe mas está já aí, ao virar da esquina. Sinto-lhe o cheiro. Amplia este sentimento de solidão que me arrepanha o peito.
Volto para casa. Olho à minha volta. O que é que vim aqui fazer? O que é que tenho de fazer?
Sento-me no sofá, frente à televisão desligada. Vejo lá fora, através da janela, os raios de sol a morrerem com a chegada da noite. Sinto um arrepio e penso se não podia hibernar. Voltar a acordar só quando valesse a pena.
Vejo o meu reflexo no ecrã vazio da televisão. E o que é que valerá a pena, afinal?

[escrito directamente no facebook em 2017/09/23]

Acho que Tenho Frio

Setembro.
A manhã acorda fria. Durante a noite gelei e tive de ir buscar um casaco para pôr por cima do cobertor. De manhã não queria levantar-me. Estava bem assim, isolado, no quentinho, sem ver ninguém, sem ter de aturar ninguém.
Com esforço, lá acabei por sair da cama. Tomei banho rápido, mais passado por água que esfregado. Acho que o cabelo ainda veio com um pouco de champô.
Fiz café. Bebi uma chávena enquanto olhava pela janela as pessoas a passar lá em baixo, na rua, atarefadas, rápidas, a fumar, a comer um bolo enquanto se dirigiam sei lá para onde.
Fiz a cama. Arrumei a casa-de-banho e resolvi aspirar. Mal comecei e o aspirador desligou-se. Avariado. Porra. Porra, porra, porra. E agora?, pensei em voz alta.
Agora tenho de sair de casa para comprar um aspirador novo, voltei a responder-me. Nem sei se tenho dinheiro para isto. Quanto custará? A dúvida! Mas não queria sair de casa. Não conseguia. Ultimamente é-me difícil estar com pessoas. Enervam-me. Levam-me ao desespero.
Não podia sequer pensar em varrer a casa. Levantava mais pó do que o lixo que apanhava. E fazia-me mal à asma. Só de pensar nisso deu-me um ataque. Onde estaria o ventilan? Que merda!
Posso sempre deixar as coisas como estão e ver até quando consigo aguentar o cotão, o pelo do gato, o pó que entra pelas janelas, as migalhas que caem pelo chão quando trinco um pão com manteiga – ah, o que eu gosto de pão com manteiga! continuei a falar comigo.

Estou a lavar os dentes e olho para o chão da casa-de-banho e vejo montículos de pelos e cabelos junto aos cantos e perto do lavatório. Saio da casa-de-banho, dirijo-me para a cozinha e reparo no mesmo, em montículos de cabelos e pelos junto aos armários. O lava-louça cheio de louça suja, alguma já com bolor. E o bolor também me faz mal à asma. Desespero. Não tenho reacção. Não consigo fazer nada. Estou bloqueado. Apático. Olho à minha volta e sinto-me no meio do lixo. Mas não consigo fazer nada. Aproximo-me do sofá ali naquela zona híbrida que ainda é cozinha mas também já é sala e deixo-me lá cair. Acho que estou deprimido. Não sei o que fazer. Não me apetece ligar a televisão. E acho que tenho frio. Setembro já é frio. Estou deprimido e com frio. E não quero ver gente.

[escrito directamente no facebook em 2017/09/18]