O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]

Hipnotizado pela Velocidade

O tipo estava à minha frente a estender-me o passa-montanhas. Toma, disse. Vais precisar. Vou precisar?, pensei. Vou precisar para quê? Vamos até à Serra da Estrela?, perguntei-lhe. O tipo sorriu e depois largou uma pequena gargalhada sonora. Deu-me uma pancada nas costas e entrou para dentro do carro. Eu entrei para o outro lado.
Há muito tempo que não saía de casa. Há muito tempo que esta depressão não me deixava levantar da cama. Muita gente tentou lá ir buscar-me. Mas era difícil levantar-me. Sair. Ver gente.
Este tipo não me deu hipótese. Já não o via desde que fizemos a tropa juntos. Fomos próximos. Fumámos umas ganzas. Aturámos bebedeiras um ao outro. Fomos às putas juntos. Depois, e no fim do serviço militar, cada um foi à sua vida e desencontrámo-nos. Hoje apareceu aqui à entrada de casa. Agarrou em mim e levou-me a beber café. E depois disse que precisava de mim. Acho que deve estar separado. Soube que tinha sido pai há pouco tempo. As coisas devem ter dado errado.
Dei por mim no carro dele a acelerar na auto-estrada. Ia a 180kh. Eu estava colado ao banco. Não conseguia sequer falar. Ainda ensaiei abrir a boca, mexi-a, mas não saiu qualquer som. Não consegui dizer nada. Estava hipnotizado pela velocidade. Mas íamos para sul, não para norte.
Não sei o que se passou no entretanto, que deixei de estar presente. Desapareci da viagem. Adormeci. Quando abri os olhos o tipo estava a parar o carro na berma da estrada junto a um mato, um pinhal. Assustei-me. E ele disse Vamos, e saiu do carro. E eu saí também. Com medo.
Saí e deparei-me com uma série de carros ali parados e um monte de tipos acabados de sair de um ginásio, cheios de bíceps enfolados e t-shirts de número abaixo a dar dimensão aos corpos. Achei-me no meio da testosterona. De repente senti-me excitado com tanto macho alfa. Que merda se passa comigo?
Começaram todos a andar muito depressa ao longo da estrada. O tipo que eu conhecia fez-me sinal com a cabeça para o seguir. Agarrou no passa-montanhas e disse-me Coloca-o. E eu assim fiz. Coloquei-o na cabeça. Como ele.
Descobri-me frente a uma entrada campestre onde estava escrito Academia Sporting. Porra! Onde é que eu estou?, pensei. E vi-me a correr, no meio de cinquenta tipos, cheios de tesão, com ferros e cacetetes nas mãos, a correr espaço adentro, a bater em toda a gente que apareceu à frente, e entrar por uns balneários onde dei comigo frente-a-frente com o Jorge Jesus.
Fiquei paralisado. Estava frente a Jorge Jesus e não conseguia reagir. Não conseguia falar. Não conseguia dizer nada. Ele parecia assustado comigo e, de repente, lembrei-me: a máscara. Estou com o passa-montanhas na cabeça. Comecei a tirar o passa-montanhas quando um tipo apareceu por trás de mim e mandou uma cabeçada no nariz do Jorge Jesus. Ele vacilou, mas não caiu. Ficou um bocado atordoado. Fechou os olhos. Ouvi-lhe um pequeno queixume.
Eu fiquei ali parado, com a mão no passa-montanhas mas sem o conseguir tirar, a olhar para Jorge Jesus e ver o sangue a jorrar do seu nariz. E um silêncio ensurdecedor. Parecia que estávamos sozinhos no mundo. Eu e ele. Estávamos sós, frente-a-frente, sozinhos no mundo. Não se ouvia nada. Não se ouvia uma mosca. Não ouvia a minha respiração. E só pensava nos campeonatos que ele dera ao Benfica.
E, de repente, o jorro de um barulho caótico, de gritos, choros, berros. Muitas asneiras, queixas, palavras de ordem, insultos e muita agressividade. E o tipo que eu conhecia a agarrar-me o braço e a dizer-me Embora! Vamos embora!
E eu fui. Sem saber muito bem o que é que tinha acontecido. Sem saber para onde é que ia. Mas fui. A correr atrás dos outros. Não sabia bem para onde.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/15]