Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas umas mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vynil, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, encinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vynil de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]

Hipnotizado pela Velocidade

O tipo estava à minha frente a estender-me o passa-montanhas. Toma, disse. Vais precisar. Vou precisar?, pensei. Vou precisar para quê? Vamos até à Serra da Estrela?, perguntei-lhe. O tipo sorriu e depois largou uma pequena gargalhada sonora. Deu-me uma pancada nas costas e entrou para dentro do carro. Eu entrei para o outro lado.
Há muito tempo que não saía de casa. Há muito tempo que esta depressão não me deixava levantar da cama. Muita gente tentou lá ir buscar-me. Mas era difícil levantar-me. Sair. Ver gente.
Este tipo não me deu hipótese. Já não o via desde que fizemos a tropa juntos. Fomos próximos. Fumámos umas ganzas. Aturámos bebedeiras um ao outro. Fomos às putas juntos. Depois, e no fim do serviço militar, cada um foi à sua vida e desencontrámo-nos. Hoje apareceu aqui à entrada de casa. Agarrou em mim e levou-me a beber café. E depois disse que precisava de mim. Acho que deve estar separado. Soube que tinha sido pai há pouco tempo. As coisas devem ter dado errado.
Dei por mim no carro dele a acelerar na auto-estrada. Ia a 180kh. Eu estava colado ao banco. Não conseguia sequer falar. Ainda ensaiei abrir a boca, mexi-a, mas não saiu qualquer som. Não consegui dizer nada. Estava hipnotizado pela velocidade. Mas íamos para sul, não para norte.
Não sei o que se passou no entretanto, que deixei de estar presente. Desapareci da viagem. Adormeci. Quando abri os olhos o tipo estava a parar o carro na berma da estrada junto a um mato, um pinhal. Assustei-me. E ele disse Vamos, e saiu do carro. E eu saí também. Com medo.
Saí e deparei-me com uma série de carros ali parados e um monte de tipos acabados de sair de um ginásio, cheios de bíceps enfolados e t-shirts de número abaixo a dar dimensão aos corpos. Achei-me no meio da testosterona. De repente senti-me excitado com tanto macho alfa. Que merda se passa comigo?
Começaram todos a andar muito depressa ao longo da estrada. O tipo que eu conhecia fez-me sinal com a cabeça para o seguir. Agarrou no passa-montanhas e disse-me Coloca-o. E eu assim fiz. Coloquei-o na cabeça. Como ele.
Descobri-me frente a uma entrada campestre onde estava escrito Academia Sporting. Porra! Onde é que eu estou?, pensei. E vi-me a correr, no meio de cinquenta tipos, cheios de tesão, com ferros e cacetetes nas mãos, a correr espaço adentro, a bater em toda a gente que apareceu à frente, e entrar por uns balneários onde dei comigo frente-a-frente com o Jorge Jesus.
Fiquei paralisado. Estava frente a Jorge Jesus e não conseguia reagir. Não conseguia falar. Não conseguia dizer nada. Ele parecia assustado comigo e, de repente, lembrei-me: a máscara. Estou com o passa-montanhas na cabeça. Comecei a tirar o passa-montanhas quando um tipo apareceu por trás de mim e mandou uma cabeçada no nariz do Jorge Jesus. Ele vacilou, mas não caiu. Ficou um bocado atordoado. Fechou os olhos. Ouvi-lhe um pequeno queixume.
Eu fiquei ali parado, com a mão no passa-montanhas mas sem o conseguir tirar, a olhar para Jorge Jesus e ver o sangue a jorrar do seu nariz. E um silêncio ensurdecedor. Parecia que estávamos sozinhos no mundo. Eu e ele. Estávamos sós, frente-a-frente, sozinhos no mundo. Não se ouvia nada. Não se ouvia uma mosca. Não ouvia a minha respiração. E só pensava nos campeonatos que ele dera ao Benfica.
E, de repente, o jorro de um barulho caótico, de gritos, choros, berros. Muitas asneiras, queixas, palavras de ordem, insultos e muita agressividade. E o tipo que eu conhecia a agarrar-me o braço e a dizer-me Embora! Vamos embora!
E eu fui. Sem saber muito bem o que é que tinha acontecido. Sem saber para onde é que ia. Mas fui. A correr atrás dos outros. Não sabia bem para onde.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/15]