O Nokia 3310

Estava estacionado debaixo da Estação de Comboio. Mesmo debaixo da linha. Na Estação do Campo Pequeno. Num parque de estacionamento. Aquele que ficava ao fundo da avenida que passava pelas instalações da RTP. Estava parado em segunda fila num parque cheio e onde não havia nenhum lugar vago, nem mesmo em cima do passeio. Estava parado em frente às escadas de saída da Estação. Para a ver. Para ela me ver.
Estava a comer uma banana. Uma banana da Madeira. Tinha-a comprado a uma vendedora de rua, mesmo em frente à RTP. Uma vendedora que estava com uma bicicleta adaptada a uma caixa de exposição. Havia bananas e tangerinas. Mas só comprei bananas. Não sujam as mãos.
Acabei de comer a banana e olhei para o caixote do lixo, do outro lado da estrada. Pensei em lá ir colocar a casca da banana. Pensei em largar a casca pela janela aberta do carro e deixá-la cair no chão. Acabei por a enfiar no porta-luvas. Acendi um cigarro. Ainda tinha o isqueiro na mão, um tipo colocou a mão na janela aberta do carro e disse-me Oh Bacano, não me arranjas um cigarro? E eu tinha o maço ali em cima do tablier. Não podia dizer que não tinha mais cigarros. Tirei um e dei-lho para a mão. Ele colocou-o na boca e baixou-se até à janela aberta com o cigarro na boca a pedir lume. Cheguei-lhe o isqueiro. Ele acendeu o cigarro. E sem retirar a mão da janela aberta, disse E agora dá-me também o dinheiro. Eu olhei para ele com a minha pior cara de mau e ele, com a mão na janela aberta do carro, o cigarro a fumegar ao canto da boca, levantou uma seringa na outra mão. Não disse nada. Só olhou para mim e mostrou a seringa na mão.
Eu fiquei logo nervoso. Levei as mãos aos bolsos das calças mas vi que não tinha dinheiro. Já não tinha dinheiro. E disse As moedas que tinha foram para estas bananas e apontei o cacho dentro de um saco de plástico.
Ele olhou para mim. Sem dizer nada. A mão na janela aberta. A impedir que eu fechasse o vidro. O cigarro no canto da boca. A seringa na outra mão. Estava tranquilo. Olhava para além do carro. Para além de mim. E finalmente disse O telemóvel!
Foda-se! pensei para mim. Depois agarrei no meu Nokia 3310 e passei-lho para as mãos. O tipo agarrou no telemóvel. Mirou-o. Assobiou. Colocou-o no bolso de trás das calças. E ainda disse As bananas. E eu passei-lhe o saco de plástico com as bananas.
Ele agarrou no saco e disse Obrigado! Tirou a mão da janela aberta do carro. A seringa já tinha desaparecido. Com a mão tirou o cigarro da boca e foi-se embora, devagar, a andar entre os carros estacionados no parque.
Naquele instante ela abriu a porta do carro e entrou. Eu dei um pulo. Assustei-me. Ela perguntou O que é que aconteceu? Estás branco como cal! Eu disse Nada! Fui assaltado! Fui só assaltado! Agarrei num cigarro e acendi-o.
Ela tirou-me o cigarro das mãos, excitada, e começou a fumá-lo. E disse Conta-me tudo. Com todos os pormenores. Sabes com isso me excita. E eu acendi outro cigarro para mim antes de começar a contar. E vi que ela tinha uma mão dentro da blusa a agarrar um dos seios.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/05]

Alojamento Local

Meti a chave à porta e abri-a. Fiquei cá fora a olhar para dentro do apartamento. Um quarto. Um mísero quarto dividido ao meio. À frente da porta, a cama. Do lado direito, um arco separava a cama da sala. A sala era um cubículo dentro do cubículo. A largura de um sofá IKEA de dois lugares. Em frente a televisão, demasiado grande para se ver na distância do sofá. Por baixo uma mesa que se abria e ganhava o dobro, o que roubava os espaços laterais. Alguém podia sentar-se com o telejornal sobre a cabeça, outro alguém com a cabeça enfiada nos seios da Clara de Sousa. A casa-de-banho ficava à cabeceira da cama. Uma retrete. Um duche. O lavatório servia de mesa-de-cabeceira. À entrada, ao lado da porta, um pequeno frigorífico. Por cima um pequeno fogão. Ao lado um pequeno lavatório. Onde estão as janelas?, pensei. Ninguém me respondeu. Não havia ninguém para me responder. Não havia janelas! Só quatro paredes caiadas e sem o cheiro ao alecrim. Entrei. Fechei a porta nas minhas costas e deixei cair a mochila que tinha às costas. Depois ainda pensei Porra! O computador! Podia ter partido o computador! Mandei-me para cima da cama, enfiei a cabeça na almofada fofinha e pensei É isto o capitalismo!… E depois deixei-me adormecer.
Acordei com o fim do mundo. O quarto-apartamento estava a vir abaixo. Um som ensurdecedor entrava-me pela cabeça. Uma mulher gritava-me aos ouvidos. Dizia Dá-me! Dá-me, cabrão! E lembro-me de ainda ter pensado Dou, o quê? quando percebi que não era para mim, nem era comigo. Passava-se no quarto ao lado. Uma mulher gemia. Pedia para alguém lhe dar alguma coisa. Esse alguém grunhia. Asneirava. A cama batia na parede. Ritmicamente. Por vezes com mais violência. Galopava. Depois retomava aquele ritmo de trote. Mas parecia que estavam mesmo os dois ali, comigo, num ménàge para o qual não havia sido convidado. E depois ela mandou um berro, expulsou todos os demónios e disse uma lista de palavrões, alguns eu nem conhecia nem descobri no Priberam.
Eu estava acordado. As mãos cruzadas atrás da cabeça a olhar para a porta de entrada. Parecia satisfeito. Só me faltava fumar um cigarro. Foi tão bom para ti como foi para mim? E gargalhei. Ri-me tanto que me ia engasgando. Tossi.
Olhei de novo em frente e reparei que, afinal, ainda havia uma máquina de lavar roupa. Perguntei-me com que improbabilidade é que aquilo ali tinha ido parar. E depois ainda pensei para que é que me ia servir. Foi a última coisa que pensei. Voltei a adormecer. Estava cansado. Não entrava luz da rua em casa. Não sabia se era dia ou noite. Só que estava cansado. Fechei os olhos e esperei voltar a adormecer e não ir parar nas sessões de sexo dos outros.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/05]

Há Quanto Tempo Não Estou com uma Mulher?

Estou dentro do carro. Na confusão da hora de ponta na cidade. Páro antes de um cruzamento. O semáforo vermelho para mim. O semáforo verde para os peões.
Uma rapariga nova, vestida toda de preto, com uma blusa com botões, abertos até ao peito, caminha pela passadeira e pára a meio. Vira-se para mim e começa a lançar umas bolas ao ar. Bolas pequenas. Três bolas pequenas. Manda-as ao ar e consegue fazê-las ficar todas no ar ao mesmo tempo. Agarra uma bola numa mão e passa-a à outra que a manda com mais força ao ar, e a accão repete-se. Uma e outra vez. Sempre com pequenas diferenças. Diferenças acrobáticas. Artísticas. Eu sorrio.
Eu sorrio mas não para os malabarismos que executa. Eu sorrio mas não as pequenas modificações que ela provoca neste ritmo constante e minimal das bolas em constante movimento de uma mão para a outra e para o ar, sempre sem parar. Eu sorrio porque vejo a blusa aberta sobre o peito. Vejo a pele da rapariga. Aquele pela alva da rapariga que promete o paraíso. E imagino. Oh, porra! como eu imagino aquilo que lá está mesmo sem ver.
Eu olho a rapariga mas já não a vejo. Já a despi. Já lhe tirei a blusa. As calças. Tudo. Já não é ela. É outra. Outras. Umas reais. Outras recriadas pelo meu desejo.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Sinto saudades. Saudades dos corpos. O meu corpo estremece à recordação. Sinto nas palmas das minhas mãos todos os seios que por cá já passaram. Revivo-os.
Sinto os corpos que afaguei. Sinto-os a passarem-me pelas mãos. As minhas mãos calejadas. Em sofreguidão pela suavidade daqueles corpos que se abrem à minha vontade.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Deixei passar tudo ao lado. Perdi a vontade. A paciência. Achei que havia coisas mais interessantes e importantes para conquistar na vida. E havia tempo. Havia sempre tempo. Havia sempre muito tempo até deixar de haver.
A porta de casa abre-se todos os dias para o silêncio. Deixei-me perder tudo o que, agora, faria sentido.
Sinto falta do calor. Da frescura. Da violência de um corpo doce a morrer no meu.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Desperto para a chuva que tomba no pára-brisas. A rapariga passa ao meu lado, olha para mim, com as bolas na mão, à espera de uma pequena contribuição. Mas eu só vejo que está a chover. Começou a chover torrencialmente. A rapariga volta para trás, agarra numa capa, veste-a e desaparece. O semáforo dispara verde num estilhaço pelo vidro do pára-brisas.
Ouço o som de uma buzina vindo lá de trás.
Ainda procuro com o olhar a rapariga com a blusa aberta até meio do peito. Mas já não a vejo. Chove muito. Arranco com o carro. Tenho a garganta seca. O estômago anda por aqui às voltas. Os olhos estão húmidos.
Que fiz eu à minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/06]

Anish Kapoor

Gosto do Anish Kapoor.
Não sou amigo dele. Não o conheço pessoalmente. Nunca o vi. Nem, tão-pouco, sei como é que ele é.
Pronto, fui ao Google e agora já sei como é que ele é. Um indiano, mais velho que eu, de cabelos brancos e com ar simpático.
Gosto do Anish Kapoor, pronto.
E ainda bem que não o conheço. Geralmente tendo a não gostar de pessoas. Das pessoas que conheço. Por defeito, não gosto delas. Ainda bem que não conheço o Anish Kapoor.
Assim não lhe vejo os defeitos. Os erros. As mentiras (se bem que nalgumas das suas obras…).
Quando não conhecemos as pessoas, não pensamos que também vão à casa-de-banho como todos nós. Que também têm caspa. Fazem merda. Cospem no chão. Dizem asneiras. Gritam contigo.
Quando não conhecemos as pessoas, elas são de cristal. Perfeitas. Puras. Maravilhosas.
É por isso que gosto do Anish Kapoor.
Porque não o conheço.
E pelo que me faz sentir com o seu trabalho.
Em Works, Thoughts, Experiments em exposição no Museu de Serralves, Anish Kapoor leva-me de mão-dada pelo meu imaginário pop de ficção-científica dos anos ’70, que acho que também foram dele, e materializa todo o sonho que eu tive ao ler as páginas de Eternus 9: Um Filho do Cosmos de Victor Mesquita, Wanya: Escala em Orongo de Augusto Mota e Nelson Dias, Axle Munshine: O Vagabundo dos Limbos de Christian Godard e Julio Ribera, Valérian: Agente do Espaço-Tempo de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, sem esquecer Barbarella de Jean-Claude Forest. São estórias ambientadas em mundos futuristas de traços retro. E é isso que Kapoor me mostra nesta sua exposição de maquetas que tem vindo a construir nestes últimos quarenta anos. Objectos redondos, arredondados, circulares, sem arestas, sem golpes, sem linhas de corte. São objectos que gritam Mãe. São interpretações da Origem do Mundo. Como seios. Como vaginas. Somos dados à luz e somos alimentados. Em mundos de perfeição arredondada. De rasgos na terra como feridas abertas à espera de serem fecundadas. De cicatrizes que não saram e vão derramando o seu pus virulento que, camada após camada, criam mundos. Mundos de sonho. Belos.
Eu vejo estas maquetas e sinto os olhos a brilhar de desejo. Tenho vontade de enfiar as mãos na terra das construções orgânicas de Anish Kapoor e sentir-me em harmonia com ela. Com elas. A terra e as obras. A vida. Enfiar as mão e espremer a terra, moldá-la, criar, dar vida. Foda-se que isto é tanto. E tão intenso. É uma trip de heroína.
Saio para a rua. Para a luz do dia. Coloco os óculos escuros. E descubro o Anish Kapoor solar. O das obras dimensionadas para os belos jardins de Serralves.
A monumental Sectional Body Preparing for Monadic Singularity que parece preparar a explosão de um som que irá rebentar-me com os tímpanos mas, ao mesmo tempo, elevar-me aos sonhos (um dia sonhei que estava a correr, todo nu, dentro de um ouvido pútrido, estória que já escrevi para as Estórias da Violência, e ao ver esta obra, pareceu-me ver esse ouvido a escorrer pus pelos seus buracos multi-dimensionais e a transportar-me, como através do Buraco da Minhoca, ao longo do Multiverso).
Depois cruzo-me com a subida aos céus de Language of Birds, uma espécie de Torre de Babel em miniatura que serve para falar com outras entidades – há até um Chamador de Aves que, uma vez por semana, sobe as escadas e chama os pássaros. Fala com eles. E é impossível não ver aqui a mão de Deus.
E deixo-me embriagar pelo Descent into Limbo, onde se vê o que não existe ou, por outro lado, não se vê nada do que lá está. Há um buraco, mas não o vemos. Mas acreditamos que ele lá está porque nos dizem que Sim, senhor, está aqui um buraco redondo, com três metros e tal de diâmetro e uma abertura de um metro e tal e até já lá caiu um homem que não acreditava no que não estava a ver. E depois abre-se a porta da rua, o sol entra no buraco que come a luz, os seus raios, e a negritude torna-se azul, como o azul dos tuaregues, e finalmente acreditamos na mentira e sim, o buraco está lá, mas não o vemos, só o sentimos quando a luz nos dá a cor do nosso desejo.
É por isto que eu gosto do Anish Kapoor.
Pelo que me faz sentir.
E ainda bem que não o conheço.
Porque assim, posso mesmo gostar de gostar dele.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/06]