O Circo Chegou à Aldeia

Foi na Quinta-feira de manhã que as vi chegar. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Com elas vinha um altifalante a anunciar-se. Começam cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. O cão começou a ladrar. Passaram as primeiras auto-caravanas. Depois uns camiões TIR. Uns deles transportavam jaulas. A primeira que vi trazia um tigre. Um enorme tigre de Bengala. Pensava que tinham sido proibidos.
Passaram aqui em frente e desapareceram. O altifalante morreu em fade.
À hora do almoço voltei a ouvir o altifalante. Mas desta vez parecia que não queria ir embora. Fui à janela. Olhei. Estava uma carrinha estacionada na estrada aqui em frente. Uns rapazes andavam de um lado para o outro a colocar umas placas nos postes de electricidade e nas árvores. Um deles estava parado a fumar um cigarro e a olhar aqui para cima. Aqui para casa. Eu deixei-me estar quieto onde estava. Não me mexi para não me detectarem.
Depois do almoço desci à estrada. Fui ver. Tinham andado a colocar publicidade. Era o Circo. O Circo Chegou a Esta Localidade, informava um cartaz. Assim, sem identificar a localidade e dando para todas as localidades por onde passassem. Também informava 30 Animais na Arena. Voltei a pensar que tinha sido proibido haver animais no circo.
Voltei para casa.
À noite, depois de jantar, dei uma volta a pé. Fui até ao circo. Estava cheio de gente à entrada. Era dia de semana e havia muita gente pronta para assistir ao espectáculo de circo. Gente que entrava em magote para dentro da enorme tenda. Ao lado da entrada, um rapaz fumava um cigarro e olhava as pessoas. O olhar dele cruzou-se com o meu. Desviei o olhar.
Há anos que não ia ao circo. Sempre achei que era deprimente. Triste. Mas pensei em ir. Olhei o cartaz à entrada. De Quinta-feira a Domingo às 21:30’. Sábado e Domingo também às 16:30’. Tinha tempo, pensei.
Acendi um cigarro e voltei para casa a fumar.
Passaram os dias. E as noites. Foi-se o fim-de-semana. A carrinha com o altifalante continuou a passar várias vezes na estrada lá em baixo para me convidar a entrar na tenda grande e assistir à vida na arena. Mas fui empurrando a vontade, que não era nenhuma, até deixar passar a última sessão.
Era já Segunda-feira de manhã quando as vi partir. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Desta vez iam em silêncio. Não havia altifalantes a anunciar a partida. Vão cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. Primeiro passaram as auto-caravanas. Depois os camiões TIR. O último a passar transportava uma jaula. Uma jaula com o tigre de Bengala. E eu vi-o afastar-se ao longo da estrada enquanto fumava o cigarro. Depois desapareceu. Chegou o silêncio.
E estava instalado o silêncio quando ouvi o primeiro grito. Logo depois o segundo. E, em seguida, vários gritos em confusão. A localidade estava toda a acordar ao gritos. Vi gente a correr na estrada lá em baixo. Vi passar um jipe da GNR. Um vizinho viu-me no alpendre, aproximou-se do muro, ao fundo, e gritou-me As crianças! As crianças desapareceram todas! E eu perguntei-me Que crianças?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/04]

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Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

O Homem que Vivia Duas Vidas

Naquele tempo eu vivia num pequeno quarto acanhado na Estrada de Benfica, ali para os lados do Arabesco.
Era um quarto assim mais para o comprido e muito estreito. Na verdade, o quarto era metade de uma antiga sala que o senhorio dividiu para poder alugar quartos a estudantes. A gajos assim como eu sem dinheiro para grandes mordomias.
A cama, que na verdade era um divã, ficava num canto sobre o comprido do quarto, com a cabeceira encostada à parede da rua. Isto era num rés-do-chão. Às vezes parecia que as pessoas que passavam na rua estavam dentro do meu quarto, dentro da minha cama, dentro de mim.
Aos pés da cama tinha uma pequena secretária com um banco que enfiava todos os dias debaixo da secretária. Ao lado da secretária, a caminho da porta do quarto, um pequeno baú onde guardava as cuecas e as meias. O resto da roupa estava empilhada em cima da secretária e encostada à parede do outro lado do quarto. As pilhas de roupa faziam companhia às pilhas de livros. Debaixo da cama tinha um cinzeiro. Estava sempre a limpar o cinzeiro. Não gostava do cheiro do tabaco frio. Fumava na cama. E não gostava de fumar na cama. Mas o meu quarto também era a minha sala. A alternativa era ir fumar para a cozinha. Mas aí tinha de partilhar espaço e conversa com os outros inquilinos da casa e o senhorio que, durante a semana, vivia lá. Ao fim-de-semana ia não-sei-para-onde. Mas nunca estava lá. Ia embora à Sexta-feira. Voltava no Domingo à noite. Às vezes à Segunda-feira de manhã.
Foi na minha última semana lá em casa que a conheci.
Tinha saído na Sexta-feira à noite. Andei pelo Bairro Alto. Fui ao Estádio. Ninguém conhecido. Agarrei-me aos flippers. Fui gastando as moedas que tinha no bolso. Na última moeda fiz tilt. Fiquei furioso. Dei uma pancada com força na máquina. Esticaram-me um charro e disseram Acalma-te aí, man! Uma voz de rapariga. Era ela. Passei o resto da noite a entrar e sair de portas no Bairro Alto. A bebedeira ainda nos levou ao Cais do Sodré. Mas durámos pouco por lá. Perguntei-lhe Queres vir lá a casa? E ela disse Yeah!.
Subimos a Rua do Alecrim à procura de táxi. Chegámos a casa. Entrámos no quarto. Entrámos na cama que era um divã. Ela ficou com os pés fora da cama. Foi então que me apercebi que ela era grande. Maior que eu.
Adormecemos os dois agarrados um-ao-outro para não tombarmos no chão. Passámos assim o Sábado. Passámos assim o Domingo. Não comemos. Fumámos cigarros e virámos uma garrafa de Brandy Croft que tinha lá debaixo da secretária. Só saíamos do quarto para ir à casa-de-banho.
Eu acabei por arranjar uma vela que acendi para camuflar o cheiro do tabaco. Não era uma vela de cheiro. Acho que nem havia velas de cheiro naquela altura. Ou eu não as conhecia. Era uma vela daquelas para iluminar a casa quando faltava energia. Estava em cima da secretária.
Foi no princípio da noite de Domingo que aconteceu. Estávamos na cama. No divã. Eu estava em cima dela. Dentro dela. Ela estava com os pés fora da cama. Era grande. Maior que eu. E num momento de maior emoção, deu um esticão com as pernas e bateu na secretária. A secretária abanou. Deitou a vela abaixo. Mas a vela não se apagou. Só demos por ela quando nos cheirou a queimado. Eu ergui a cabeça e vi umas pequenas chamas. A secretária estava a arder. Eu levantei-me. Ela levantou-se. Ela saiu pela porta do quarto. Nua. Foi a correr à cozinha. Eu, nu, pus-me a mijar para cima da secretária. Para apagar as chamas. Quando ela voltou para o quarto, nua, com uma tigela com água para despejar na secretária, cruzou-se com o senhorio, que já tinha regressado a casa.
Ela parou à frente dele.
Ele olhou-a admirado.
Eu tinha acabado de mijar sobre as chamas da secretária e olhei para eles os dois.
Ela disse Olá, pai.
Ele disse Olá.
Eu sacudi-me. Ela entrou no quarto e começou a vestir-se. O senhorio virou-se para mim e disse Vais-te embora. Hoje, e voltou para o quarto dele.
Eu senti-me um bocado perdido. Acabei por me vestir, também. Acabei por sair com ela. Entrámos no Viriato, um pequeno restaurante que havia lá ao pé de casa. Sentia-me com muita fome. Ela também. Pedi um bitoque. Ela também. Mas o dela sem ovo. Bebemos cerveja. E, então, ela contou-me.
Aquele homem, o meu senhorio, era o pai dela. Era o pai dela durante os fins-de-semana. Os fins-de-semana que passava lá em casa. Com a mãe. Com o irmão. Durante a semana era suposto andar a viajar. Caixeiro viajante. O pai era representante de uma marca de tintas e passava a vida na estrada a mostrar o produto que vendia. Atender clientes. Dar apoio. Logística. Afinal, era mentira. Afinal durante a semana era senhorio de uma casa onde alugava quartos a jovens estudantes.
Eu saí de casa ainda durante aquela noite. Subi três andares e fui para casa de um vizinho que conhecia. Duas semanas depois fui dividir um apartamento com mais três amigos da Faculdade.
Ainda andei alguns meses com ela. Depois fui passar uma Queima-das-Fitas a Coimbra e nunca mais regressei a Lisboa. Desisti do curso. Tornei-me DJ em Coimbra, e por lá fiquei.
Lembrei-me hoje desta minha aventura ao ler na revista Visão a história de um homem que tinha duas famílias. Duas famílias simétricas. Duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Um casal de filhos de cada mulher. De idades similares.
O pai dela não tinha duas famílias. Mas vivia duas vidas. Não sei como é que elas terminaram. Nem se terminaram. Nunca mais a vi. Nem a ela nem o pai dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/21]

A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

O Último Vencedor do Euromilhões

Quando me aproximei da ponte vi que estava lá o melro. Andava de volta de qualquer coisa presa entre as madeiras da ponte. Eu já o tinha visto por lá outras vezes. E estava sempre no mesmo sítio.
Quando me pressentiu virar para o lado onde estava, bateu asas e voou. Ou, pelo menos, foi o que me pareceu. Porque a velocidade com que saiu do sítio de onde estava foi tanta que nem reparei no bater de asas. Na verdade parecia ter-se desmaterializado num lado para, provavelmente, se ter materializado noutro. Mas não reparei onde porque deixei, quase instantaneamente, de o ver.
Não foi, contudo, a primeira vez que o vi por ali. Não sabia se seria sempre o mesmo mas era normal haver sempre um melro ali, naquela zona mais destruída da ponte de madeira, a tentar bicar qualquer coisa que lhe estaria a chamar a atenção.
Foi no regresso, quando voltei para trás utilizando o mesmo caminho, e o melro não estava lá, que resolvi olhar para o sítio onde ele normalmente estava a tentar apanhar algo com o bico.
E vi uma moeda de dois euros.
Baixei-me. Apanhei um pequeno graveto que enfiei entre as ripas de madeira e consegui puxar a moeda de dois euros para fora. Sorri.
Como tinha uma moeda de cinquenta cêntimos comigo, voltei atrás, para o Centro Comercial de onde tinha vindo, e fui apostar no Euromilhões.
Quando voltei a passar na ponte, o melro já lá estava outra vez, mas agora não estava a tentar apanhar nada com o bico, estava só parado, na varanda da ponte, e parecia estar a olhar para mim e a rir, o sacana.
Era Sexta-feira. À noite foram anunciados os números sorteados. Olhei o meu boletim e, Glória! Glória, percebi ser o feliz e único contemplado com a sequência de números vencedores.
Dois dias depois, na Segunda-feira, fui ao banco e troquei algumas notas de euros por vários saquinhos cheios de moedas de dois euros.
Nessa noite, tarde na noite, voltei à ponte e andei a espetar várias moedas de dois euros entre as ripas de madeira.
No dia seguinte, era uma Terça-feira, dia de mercado municipal, havia uma quantidade enorme de melros a debicar as ripas de madeira da ponte. Alguns afastavam-se quando passavam pessoas. Mas depois voltavam. Havia como que um jogo de ir e vir dos melros, a baterem as asas que, afinal, ninguém via bater. Mas nunca ninguém teve curiosidade de procurar que raio é que os melros tentavam apanhar com os bicos entre as ripas de madeira da ponte.
Naquela cidade, nunca mais ninguém acertou nos números vencedores do Euromilhões. Eu fui o último. E só não digo algumas das coisas que fiz com o grosso prémio que me saiu porque não sou pessoa de me gabar das coisas boas que faço. Mas posso adiantar que, o Rui Patrício, não é a única pessoa viva com uma estátua em Leiria.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

Sentado Nu na Beira da Cama com os Pés Gelados

São quatro horas da manhã.
Não seria nada de anormal na minha vida se estivesse a acabar uma garrafa de vinho ou a acabar de fumar um cigarro ou, então, somente a abandonar uma cama ao Deus-dará que me tivesse acolhido por algumas horas em troca de algumas cabriolices. Final de proezas físicas, final de cama. Hora do Táxi ou, como é ar do tempo, hora do Uber. Como se eu vivesse numa grande metrópole.
Isto não é Nova Iorque. Nem sequer Lisboa. Isto é Leiria e, às quatro da manhã, de um Domingo para Segunda-feira, quem ainda não está na cama é meliante, anda à cata dos restos utilizáveis que gente respeitável deitou para o lixo mas ainda serve para quem tem poucos recursos económicos ou trabalha na empresa de recolha de sólidos urbanos (o famoso RSU para quem ainda não sabe).
Eu não sou nenhuma destas coisas. Não, também não sou nenhum extra-terrestre. Sou tão-só um tipo com algumas dificuldades em acompanhar o andar normal de todos os outros em todos os outros dias. E não, não estou louco. Nem acho que estejam todos errados e eu é que esteja certo. Se bem que…
São quatro da manhã. Agora, na verdade, são quatro e vinte da manhã (demorei vinte minutos a chegar aqui). Estou nu, sentado na cama, com os pés a gelar no chão de madeira (eu não uso tapetes) e acabei de acender um cigarro.
Tenho a janela aberta. As persianas e o vidro. Queria sentir o pulsar à cidade. Mas qual pulsar? Esta cidade nem existe.
São quatro e vinte da manhã, estou sentado nu na beira da cama com os pés descalços a arrefecer no chão de madeira, a fumar um cigarro cujo fumo sai pela janela de vidro aberta e que me deixa o quarto tão gelado que penso poder acordar morto no dia seguinte sem que ninguém me venha descobrir antes do cheiro começar a incomodar o prédio.
Olho para as luzes da cidade adormecida e penso Esta porra de cidade nem néon tem. São umas luzinhas. Uns candeeiros plantados pela cidade para o cidadão ver onde pousa os pés e umas pequenas e mal enjorcadas publicidades feitas, se calhar, por algum primo mais afoito que até percebe um pouco destas coisas e resolveu a necessidade com um orçamento muito mais barato e, assim, fez-se um anúncio tardio ao-seja-lá-o-que-fôr que mantém esta não existente cidade a fingir que até existe.
São quatro e vinte cinco da manhã. Acabei o cigarro e mandei a beata pela janela aberta para o meio da rua. E pensei Quero que o ambiente se foda!
São quatro e vinte cinco da manhã, já fumei o cigarro, continuo sentado nu na beira da cama e estou à espera do que se segue. E o que é que se segue?
O que é que vai acontecer na cena seguinte?
O que é que me espera?
O que é que a vida tem guardado para mim?
O que é que um tipo nu sentado à beira da cama, gelado de pés e corpo, pode esperar da vida?
São quatro e meia da manhã e não sei o que é que hei-de fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

O Domingo É uma Neura

O Domingo é dia de gastar tempo com o tempo.
Ao Domingo não se pode pedir demasiadas coisas. Não se pode esperar milagres.
Ao Domingo não devia sair de casa. Eu sabia-o e, no entanto, continuo sempre a acreditar que dias-não-são-dias e os milagres esperam-me ao virar de uma esquina.
Levantei-me de manhã cedo, completamente desperto. Abri os olhos e não consegui voltar a fechá-los. Tomei banho. Estava sol. Vesti uma roupa leve e calcei umas sapatilhas. E fui à rua beber café.
Ia a meio da rua quando começou a chover. A chover com força. Bátegas grossas. Daquelas que nos batem na cabeça e magoam. Cheguei ao café todo encharcado e com as sapatilhas ensopadas.
O dono do café virou-me uns olhos mal dispostos quando me viu entrar café dentro a largar poças de água.
Pedi um café. Olhei a vitrina e escolhi um rissol. O café estava queimado. Amargava, mesmo com um pacote inteiro de açúcar. O rissol estava seco. A massa rija com o panado a desfazer-se. Um desconsolo.
Procurei por um jornal do dia. Não havia nada. Nem A Bola. Andava pelas mesas uma Nova Gente, mas já havia fila para a consultar.
Voltei para casa.
Comecei a lavar louça à mão, quando fiquei sem água. Não teria sido por falta de pagamento, que tinha as facturas em dia. Tentei telefonar para o SMAS. Interrompido.
Fui à casa-de-banho. Entrei e parei. Que é que estou aqui a fazer? Não posso lavar os dentes. Nem as mãos. Olhei para o cesto de roupa suja e disse E também não te posso lavar.
Voltei para a sala e sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Não havia imagem. Só estática como era dantes, quando a antena retransmissora de Monsanto estava com problemas técnicos. Liguei para a NOS. Música. Voltei a ligar para o SMAS. Interrompido.
Não quis desanimar. Olhei para o céu e parecia tranquilo. Pelo sim, pelo não, calcei botas gortex, vesti anoraque e peguei no chapéu de chuva. Arranquei para o Estádio Municipal Magalhães Pessoa para ver o jogo da União de Leiria.
O tempo estava quente e, com o trajecto, fiquei ainda com mais calor. Transpirei.
Cheguei ao Estádio e não se passava nada. Estava fechado. Não havia ninguém à vista. Só uns autocarros parados lá no meio. Devia ter percebido mal, a União devia jogar fora ou já não jogava mesmo no Estádio Municipal. Não sabia em que estado as coisas estavam. Que porra.
Voltei para casa. De botas, anoraque, chapéu de chuva na mão e a transpirar.
Cheguei a casa. Larguei o chapéu no corredor. Despi o casaco e tirei as botas. Estava cansado e cheio de sede. Abri o frigorífico e agarrei num pacote de leite. Levei-o à boca, comecei a beber e, imediatamente, cuspi tudo para a frente. Estava azedo.
Acabei a encomendar uma pizza. De enchovas, alcaparras e alcachofras. Enquanto esperei, sentei-me no sofá. Uma hora mais tarde ainda não tinha chegado. Meia-hora mais tarde lá acabou por chegar, fria, de bacon e ananás. Disse que aquele não era o meu pedido e que tinha demorado mais que meia-hora e então não tinha de pagar. O entregador de pizzas disse Isso é só nos filmes. Paguei. Não consegui comer.
Despi-me e fui deitar-me na cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores. Depois comecei a pensar se tinha fechado, ou não, as torneiras para o caso da água voltar. Levantei-me, nu, e corri a casa a garantir as torneiras fechadas. Voltei a telefonar para o SMAS. Lá consegui. Segui um corredor apertado de números a discar e acabei por ir dar a uma mensagem gravada. Rebentara um conduta e os técnicos não esperavam ter o assunto resolvido antes do dia seguinte à tarde. Segunda-feira, dia de trabalho, portanto.
Olhei para a televisão, mas não quis saber. Sentia-me cansado. Cansado e desanimado. Fui tomar um xanax para acalmar e conseguir descansar um pouco. Talvez até dormir.
Enganei-me e acabei a tomar uma anfetamina que alguém deixara cá por casa. Em vez de me ir deitar, acabei por vestir o fato-de-treino e ir para a rua fazer parkour. Sim, nem sei o que é isso. Não sei correr nem dar saltos nem pular na medida do que é necessário para ultrapassar os obstáculos. Acabei por cair de um segundo andar para cima de um roseiral. Fiquei deitado no chão sem conseguir levantar-me, picado pelos espinhos das rosas, rodeado de gente que me conhecia e me fez sentir vergonha ao ser levado numa maca pelos paramédicos para o hospital distrital.
A única coisa boa nisto tudo, é que é quase meia-noite e, não tarda, é Segunda-feira e acaba-se a desgraça do Domingo.
Só que, entretanto a ambulância teve um acidente e eu estou aqui, de pernas para o ar, dentro da ambulância, à espera que alguém me venha ajudar. O paramédico que estava aqui atrás comigo, acho que morreu. Ainda é Domingo. Espero que não por muito mais tempo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/18]