Amo-te, Catarina

Ia a oitenta na estrada velha, próxima do mar, tão próxima que lhe sentia a maresia, quando li Amo-te, Catarina, escrito em letras de imprensa, tudo caixa alta, no resto de uma parede que terá sido, porventura, a parede de uma casa de alguém que viveu ali, no meio do nada, do nada não que havia muito pinheiro e eucalipto à volta e aquele cheiro a maresia, mas o que terá levado alguém a construir uma casa, possivelmente uma casa, ali, no meio do meio, onde não há nada, nem terrenos cultivados, nem caça que se conheça e a pesca, embora se sinta a maresia, não se conhece entradas de barcos de pesca nem histórias do arco da velha sobre noites de temporal e mulheres a chorarem maridos filhos e pais perdidos nas ondas terríveis que levavam embora para os braços da Senhora do Mar, os corpos sem vida de quem dava vida, numa vida terrível, para melhorar a vida dos outros.
Passei a oitenta, que era a velocidade em que circulava pela estrada próxima do mar, quando li no resto da velha parede de tijolo de burro Amo-te, Catarina e pensei quem não amou já uma Catarina? Eu já amei uma, pelo menos uma, a que me lembro ainda de ter sido Catarina de seu nome, mas nunca escrevi o nome dela em paredes nem em restos de paredes no meio do mato para eternizar o amor, o meu amor, pelo menos enquanto durar o suporte onde o grito se faz ouvir assim, alto, alto e em letras garrafais de imprensa como as que eu li ao passar a oitenta quilómetros por hora Amo-te, Catarina.
A maresia, o mato ou a Catarina deram-me fome e parei frente à primeira tasca que vi de porta aberta, uma parede pintada de azul celeste e umas estrelas brancas, a porta de madeira a franquear a entrada e uma papel a4, escrito à mão Só se entra de Máscara! Com ponto de exclamação à frente da máscara para enfatizar a obrigatoriedade circense de usar máscara da porta de entrada até à primeira mesa livre, logo ali à entrada, na parede junto à porta, num pequeno interior onde jaziam mais quatro mesas iguais àquela, toda vazias, e logo pude retirar a máscara, não para respirar melhor, que respiro bem, mas para poder despejar de uma assentada a primeira imperial que pedi porque vinha com sede, muita sede, e matei a sede antes que a sede me matasse a mim e depois fui servido de um queijinho seco com azeite, uma salada de polvo, que era mais polvo que salada, dois pastéis de bacalhau já um bocado secos (seriam de véspera, e então?) e pão saloio feito pela senhora, já velha, a senhora que me atendia, e que era a dona e a empregada e cozinhava, aquecia e servia os comensais que por ali caíssem, assim como eu, e que fazia também ela o pão, um pão saloio, saboroso como o raio, feito no forno do fogão que para quem o saiba trabalhar é tão bom como o forno a lenha. À minha frente, virado para mim, o ecrã de televisão desligado e ainda pensei Não vou saber quantas vítimas fez hoje o Covid-19, e por baixo, mesmo por baixo do ecrã a preto da televisão desligada, um calendário de um distribuidor de vinhos e aperitivos e cerveja com um motivo do treze de Maio e a virgem Maria na azinheira e os três pastorinhos em adoração e perguntei-me o que seria feito dos velhos calendários com tipas nuas e mamalhudas que alegravam a minha infância e que agora se tornavam proibidas, As mulheres não são objecto!, mas são objecto, sim, objecto da minha adoração e desejo, Amo-te, Catarina.
Satisfeito, de estômago reconfortado, regressei à estrada, aos oitenta quilómetros por hora de velocidade rodeado de pinheiros e eucaliptos numa mata que o fogo estival ainda não descobriu, com o cheiro da maresia a perseguir-me enquanto corria paralelo ao mar, próximo, muito próximo e não conseguia deixar de pensar no Amo-te, Catarina, perdido num resto de parede perdida em sítio nenhum, e a perguntar-me a mim mesmo, quem é que nunca amou uma Catarina?

[escrito directamente no facebook em 2020/07/28]

Preciso de Me Levantar

Ainda ontem tremia de frio e cheguei a ponderar acender a lareira, quando percebi que não valia a pena ponderar porque não tinha lenha e também não ia para o pinhal, àquela hora, à cata de gravetos e pequenos troncos caídos para fazerem as vezes da lenha, e hoje já tenho dificuldade em respirar por causa do calor e do tempo extremamente seco. Ouço a minha própria pieira e enervo-me comigo mesmo. É uma chatice, esta respiração difícil dos asmáticos que, antes de enervarem os outros, enerva os próprios.
Então hoje está calor.
Vou à praia.
Almocei um sumo de laranja fresco. Não tinha fome para mais. Vesti uns calções de banho. Calcei os chinelos. Agarrei na toalha de praia. Na carteira, no óculos de sol, na máscara e decidi ir à praia. Uma qualquer aqui da zona. Uma das praias não oficiais. Uma das praias escondidas entre dunas à frente de mato cerrado cujos caminhos é preciso conhecer de antemão.
Chego à porta da rua, à porta da cozinha que dá para a rua, olho para as montanhas que lá estão à frente e vejo-as pouco nítidas. Está calor mas o tempo não está muito bom. Está um pouco enublado. Uma coisa muito ténue, mas real. O azul do céu está esbranquiçado, como algumas fotografias que tiro.
Penduro a toalha de praia na cadeira. Sento-me nessa cadeira, ali no alpendre, a olhar as pouco nítidas montanhas no horizonte. Acendo um cigarro. Recosto-me na cadeira.
Ainda não é tempo de ir à praia, pois não? E as praias devem estar cheias de gente, não é? Aquelas pessoas todas fartas de estarem em casa e a precisarem de sair, de sol, de água do mar e ondas e da água gelada do Atlântico a fazê-las bater o dente e de gente com quem conversar e comparar barrigas para não se sentirem tão sós.
Não, provavelmente não é a melhor altura para ir à praia.
A praia vai estar cheia de gente e vai estar frio e a água gelada.
É melhor ficar aqui por casa. Faço um gin tónico, um vodka laranja, um tinto de verano. Bebo tudo. Não tudo de uma vez, mas uns a seguir aos outros. Estendo a toalha na relva do quintal. Se me der o calor, posso sempre passar-me por água, pela água da mangueira como se fosse um repuxo.

A luz cai e eu continuo aqui sentado. Ainda não bebi nada. Ainda não me levantei para ir fazer alguma coisa para beber. Fumo. É a única coisa que consigo fazer. Fumar. Um cigarro atrás do outro. Como terá estado a praia?

Já está quase escuro. Serão horas de jantar, talvez. Não tenho fome. Tenho sede. Talvez tenha uma cerveja no frigorífico. Vou lá buscá-la. É só tirar a carica e está apta a ser bebida. Estou a acabar os cigarros.

Estou com sede e ainda não bebi nada desde o sumo de laranja natural do almoço. Já não tenho cigarros. É de noite. A Lua já está lá em cima. Devia levantar-me. Comer qualquer coisa. Beber qualquer coisa. Arranjar mais cigarros. Levantar-me. Primeiro preciso de me levantar.

Preciso de me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/25]

Soubesse Eu Tocar Guitarra

Soubesse eu tocar guitarra, saía de casa, ia até à cidade deserta, sentava-me num banco de jardim, à sombra de uma árvore frondosa e punha-me a tocar o Stairway to Heaven para as miúdas descerem as escadas dos prédios confinados, fugirem aos gritos desesperados dos pais, dos namorados, dos maridos e correrem descalças até mim, sentarem-se na relva, a meus pés, uma flor no cabelo, um sorriso nos lábios, as sardas a pularem de cara em cara, uma azeda ao canto da boca a sonharem com as histórias da carochinha enquanto se deitavam languidamente umas sobre as outras, como pequenas ninfetas do artista, a saborearem o pecado.
Depois vinham os pais, irmãos, maridos e namorados buscá-las por uma orelha, pelo braço, puxá-las pelos cabelos, arrastá-las pelas pernas, as cabeças a baterem, pesadas, na calçada portuguesa a deixarem rastos de sangue, para as protegerem no recato do lar da terrível infecção promíscua que circula no ar e nas guitarras dos artistas.
E eu então pousava a guitarra, pegava na AK-47 e disparava a eito sobre todos eles e via-lhes os corpos explodirem em mil pedaços e tombarem inertes sobre a calçada portuguesa que já não era a preto e branco mas de vermelho vivo, um vivo-morto, e quando acabassem as munições voltaria a pegar na guitarra e tocaria uma versão acústica e muito lamechas do Straight to Hell dos Clash, limparia as mãos com álcool-gel, fumaria um cigarro e depois regressaria ao silêncio solitário de casa onde beberia um copo de vinho tinto alentejano para matar a sede.
Mas não sei tocar guitarra.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/23]

Não Tenho Ninguém à Espera em Casa

Saio mais tarde do trabalho. Já é de noite. Não tenho ninguém à minha espera em casa. Não tenho nenhuma obrigação. Deixo-me ir estrada fora. Perco-me nas pequenas localidades aqui à volta. Vou à aventura.
Percebo a dificuldade de conduzir nestas estradas a esta hora. As luzes públicas são quase inexistentes e as poucas que existem parecem fracas, parecem não iluminar nada, parecem ser só pontos de referência. Muitos dos candeeiros estão fundidos ou, pelo menos, não estão a funcionar. Outros carregam lâmpadas tremeluzentes. Cruzo-me com carros em sentido contrário e os faróis cegam-me momentaneamente. Não estou habituado a grandes focos de luz desde que iniciei esta pequena viagem.
As estradas também não estão em grandes condições. Esteve a chover durante a tarde. As estradas estão molhadas. Escorregadias. Há muitos buracos. Há muitos remendos e, alguns desses remendos já desapareceram e a brita utilizada para encher os buracos anda à solta pelo pouco asfalto existente, muita terra batida, às vezes lama, por onde eu circulo. Eu vou aos solavancos. Sinto as rodas do carro aos saltos. Sinto o carro aos saltos. E eu aos saltos dentro do carro.
Os cruzamentos tornam-se perigosos. Tenho os vidros do carro embaciados por dentro. Tenho os vidros do carro sujos por fora. A chuva espalhou o pó. Não tenho água do depósito do limpa-vidros. Liguei as escovas e borrei o pára-brisas. Dava-me jeito que chovesse agora. Não muito. Um bocadinho. O suficiente para me lavar os vidros.
Páro à entrada do cruzamento. Olho para todo o lado. Não vejo luzes. Arranco. Faço o cruzamento e sigo em frente.
Vou a conduzir sem música. Perdi a antena do carro. Ou roubaram-na. Não sabia que ainda se roubavam antenas. Quando era miúdo também roubava umas antenas mas era para fazer espadas e setas e lutar com os outros miúdos da rua. Hoje os miúdos já não brincam na rua. Já não há malta da rua. Os carros já não têm antena exterior. O meu carro ainda tem. Tinha. Roubaram-na. Não consigo sintonizar nenhuma estação de rádio. Não consigo ouvir música. Vou atento aos barulhos dos carros. Não vejo bem a estrada. Também preciso de actualizar as lentes dos meus óculos. Já tenho alguma dificuldade em focar ao longe. Ao perto, ainda é pior. Não consigo ler a ementa de um restaurante. Quando almoço fora, e estou sem os óculos de ler, peço sempre a diária. Mas ouvir, isso ouço bem. Vou atento ao barulho dos outros carros. Ao barulho que o meu próprio carro faz. Tem um barulho peculiar. São muitos anos a queimar gasóleo. São muitos anos a transportar-me para todo o lado. Já me levou a Andorra. Outros tempos. Éramos todos mais novos. Mais disponíveis. Menos exigentes.
Entro numa localidade. Talvez uma aldeia. Não conheço. Nem vi a placa. Acho que nunca aqui passei. É uma rua. Uma única rua. Mal iluminada. Há um café. Café Central. Páro o carro mais à frente. Páro na berma da estrada. Tenho sede. Vou fumar um cigarro.
Saio do carro e recebo o bafo quente do início da noite. Está quente e húmido. Há uma orquestra de grilos a cantar no campo todo amarelado, cheio de azedas. Este Inverno é muito primaveril.
Ao fundo aproxima-se um carro de bois. Digo bois, mas podem ser vacas.
Entro no café. O balcão está cheio de homens que discutem futebol. Há dois deles muito nervosos. Falam muito alto. Tão alto que não se ouve nada da televisão pendurada em cima, por trás do balcão, onde um Fernando Mendes muito mais magro pergunta O Preço Certo em Euros. Os dois tipos que discutem, parece que vão chegar a vias de facto. Mas talvez não. As pessoas são só assim. Fervem em pouca água. Depois esvaziam.
Procuro uma nesga entre dois corpos e peço uma mini. Agarro na garrafa e vou para a rua beber a cerveja. Acendo um cigarro. O carro de bois passa à minha frente. São mesmo bois, afinal. Alguém toca-me no ombro a pedir-me lume.
Fico por ali um bocado. Ainda bebo mais duas minis e fumo mais um cigarro. Depois vou-me embora para casa. Vou sem pressa. Não tenho ninguém à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/03]

A Vítima das Circunstâncias

Três semanas depois de ter começado a trabalhar no Modelo Continente como repositor de lineares, fui despedido. Não é que não merecesse ter sido despedido mas, acho que fui vítima das circunstâncias.
O Modelo Continente abriu há três semanas. Fui um dos empregados originais. Fiz a formação. Preparei-me para ser um sucesso numa equipa que se queria de sucesso. Estive no momento da abertura do supermercado. Ao fim de três semanas fui despedido por ter sido encontrado a comer iogurtes no corredor do frio. Com poucos clientes desde a abertura, eu fui o bode-expiatório para a catarse administrativa que não compreende porque é que os clientes continuam a preferir o Pingo Doce do outro lado da rotunda.
Tive sorte. Pagaram-me o mês inteiro. Quatro semanas.
Como é que vou chegar a casa e dizer, outra vez, que fui despedido outra vez?
Vou a pé até ao centro da cidade. Já não trabalhei o resto do dia.
Está calor. Transpiro. Sinto os sovacos molhados. Sinto um fio de água a escorrer-me pelas costas abaixo. E pelo peito. Parece Verão. Parece. Mas estamos em Fevereiro.
Caminho devagar. Evito pensar que vou ter de regressar a casa. Evito pensar que, a dado momento, vou ter de regressar a casa e voltar a dizer que estou sem trabalho.
Estou com calor. Estou com sede.
Ainda estou longe do centro da cidade mas já não aguento mais este calor. Entro na porta do primeiro snack-bar que encontro. Encosto-me ao balcão de inox e peço um copo de branco, fresco.
Despejo-o de uma vez. Peço outro. Olho para a vitrina de frio e vejo uma pequena bandeja com rissóis. Peço um. É de camarão. Devoro-o em três dentadas. Empurro-o com o copo de vinho branco fresco. Peço um terceiro copo.
Pego no copo e vou para a rua fumar um cigarro. Encosto-me à montra do snack-bar. Na estrada à frente, passam carros, nem sempre muito devagar. Acendo um cigarro. Penso em como enfrentar o problema que vou enfrentar em casa quando disser que estou outra vez sem trabalho. É que já começa a ser um padrão. É a terceira vez que sou despedido desde o ano passado. Mas a culpa não é minha. Eu sou uma vítima das circunstâncias. Ou porque não me calo. Ou porque não acato bem as ordens. Ou porque refilo muito. Ou porque como iogurtes no corredor do frio. As pessoas estão sempre a arranjar desculpas para tramar as outras. Às vezes é só porque sim. Eu acho que tenho uma cara que as pessoas adoram chatear. Tenho cara de vítima.
Dou cabo do copo de vinho. Acabo o cigarro. E agora? Volto para casa? Vejo as horas no relógio de pulso. Não quero ir já para casa. Ainda é cedo para enfrentar o drama.
Decido-me por outro cigarro. Levo a mão ao bolso para tirar o maço e o cheque com o ordenado do mês, das quatro semanas de trabalho das quais só trabalhei três, sai do bolso com o maço de cigarros e voa para a estrada. Estico-me mas não o alcanço, desço o passeio e corro para a estrada atrás do cheque que voa, aos esses, como se quisesse fugir de mim, o cabrão e, depois cai no asfalto, junto ao traço contínuo, eu aproximo-me, baixo-me para o agarrar, não me vá fugir de novo, ouço uma buzina, talvez duas e sinto uma pancada forte no meu corpo, talvez seja na cabeça, não sei, não tenho a certeza e…

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

05:38′

05:38’
Ando às voltas na cama. Estou com calor. Ponho os braços fora da cama para endireitar a dobra do lençol sobre o edredão e sinto o frio. Pareço um profiterole invertido.
Ando às voltas na cama. Estou com sede. Queria levantar-me e beber água. Mas não consigo. Está muito frio fora do edredão. Aqui debaixo estou quentinho.
Ouço um zumbido nos ouvidos. Como um rádio antigo, daqueles de válvulas, a funcionar. A minha mãe tinha um rádio desses. Não sei onde foi parar. Quem é que ficou com ele?
05:39’
Mais uma volta. O tempo parece que não anda. Os números no relógio digital, pousado na mesa-de-cabeceira, são sempre os mesmos. E quando se alteram parece que se passou uma eternidade e eu ainda aqui à voltas, cheio de calor. Estou muito desperto. Quando tiver que me levantar, vou querer dormir.
Passam-me muitas ideias pela cabeça. Estas ideias vêm acompanhadas do zumbido. Algumas destas ideias, nem parecem minhas. É estranho pensar nelas. E quanto mais alto o zumbido, mais estranho me é a ideia que passa, galopante, pela minha cabeça. Costumo ser bastante racional. Costumo ter pensamentos racionais.
05:40’
Sinto vontade de me levantar e ir escrever tudo o que me está a passar pela cabeça. Mas sinto preguiça. Digo que vou escrever quando me levantar, mas já sei que não vou me lembrar em que é que estou a pensar. A minha memória já não funciona muito bem. E percebo que afinal estou a conversar comigo como se fosse dois e discuto duas posições. Penso novamente na hipótese disto, disto tudo, da vida, ser um jogo, e tento perceber se a morte, a morte física das personagens, é uma mudança de nível ou um game over. E não consigo perceber onde quero chegar com esta conversa. Sinto abater-se sobre mim uma ligeira angústia.
Preciso de dormir. Deixar de pensar em coisas assim.
05:38’
Como são cinco e trinta e oito? Ainda agora eram cinco e quarenta. Ou não eram? Voltei atrás no tempo? Estou a ficar maluco? Ou estou a dormir? O jogo terá algum defeito? Será que vou hibernado a caminho de um qualquer destino a milhões de anos-luz e estas merdas foi o que a minha cabeça encontrou para me entreter durante a viagem? Sou eu a personagem principal desta história? E isto é tudo o que tenho para contar? Que raio de história é esta? Onde está o princípio? E o fim? Onde está o problema que a história tem de resolver? Ou nunca há problemas para resolver que a IA resolve-os todos?
05:38’
Oh, porra…
[acabei por ir beber água, tenho a boca e a garganta molhadas, mas não me lembro de me ter levantado da cama]

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]