O Candidato

Teimam em fechar as esplanadas da cidade. A cidade deixa então de ter esplanadas para ter marquises. Estou em Leiria, no século XXI, e sinto-me no Cacém nos anos ‘80 do século passado.
Está um tempo muito citadino. Não tão bom que canalize gente para as praias, nem tão mau que as faça ficar em casa. Mas antes fosse. Ainda aprendiam alguma coisa a apreciar a celulite uns-dos-outros ou aprendiam a confeccionar bolos com o Marco do Big Brother num qualquer programa vespertino de televisão que eu descobri no outro dia. Assim, as pessoas aglutinam-se em esplanadas fechadas, a transpirar que nem uns porcos da Boavista em transporte suíno para o matadouro, a cheirar as transpirações uns-dos-outros, porque desconhecem os desodorizantes, enquanto ouço, na mesa do lado, que o presidente da Câmara da cidade vai candidatar-se à Assembleia da República. Claro que cada um faz o que pode pela vida. Eu também tentei assaltar o Banco Santander, ali no início da Avenida Heróis de Angola, ex-ex-libris da cidade, tornada moribunda à espera de uma reanimação boca-a-boca mas já não há quem lhe chegue que o mau aspecto já se instalou e parece mais morta que viva, sem que lhe dêem a extrema-unção ou um choque de adrenalina, quando descobri que afinal já não havia outra vez mais nenhum banco ali, na principal artéria da cidade, e o único multibanco de rua está nos CTT que já não o são e são outra coisa qualquer que ainda está por se descobrir. Sim, eu sei, eu não tenho engenho.
Levantei-me da mesa onde estava. Deixei a bica queimada a arrefecer na chávena e fui à rua fumar um cigarro. Não sei o que seria da minha vida sem um cigarro fumegante, preso nos dedos amarelos das mãos trémulas, enquanto tento pensar no próximo passo.
Aproxima-se o fim-de-semana. O fim-de-semana de Feira Medieval. Aquela febre que ataca todos os municípios de norte a sul do país e todos os munícipes ficam assim com o pito aos saltos a pensar que é tão bom poder brincar de facínora sem ser repreendido pela comunidade nem julgado pela lei.
Isto é só uma brincadeira, dizem-me enquanto passam por mim na rua da rua, ou seja, fora da esplanada tapada para poder fumar um cigarro e não intoxicar estes servos da gleba que não se importam de serem escravos porque é tudo a brincar.
Decido sair da cidade. Decido deixar o café queimado por beber e por pagar na esplanada coberta, que a cidade é polar, e fugir para uma qualquer terriola dos arredores por que é preferível voltar a ouvir o Zé Café & Guida, todos os fins-de-semana seguidos até ao início do Inverno, que ser cúmplice de uma leitura enviesada da história que me é enfiada pela goela abaixo sem uso de anestesia nem vaselina.
Arranco de carro para fora da cidade e volto a descobrir um cartaz do CDS junto ao Mosteiro da Batalha. Sinto um déjà vu. Agora já não tem a efígie da Assunção e do Nuno. Agora só transmite uma frase A Preparar o Futuro, e então percebo a ausência, nos últimos tempos, da sempre-presente-e-nunca-calada Assunção. Está a preparar o futuro. O seu futuro. E sei que nada é por acaso. O presidente da Câmara também começou ali, na Batalha, a preparar o seu futuro. E enquanto vejo o cartaz a ficar lá para trás, esqueço o futuro da Assunção, penso que devia estar contente por um candidato à Assembleia da República pela minha cidade ser de facto de cá. Quer dizer, não é bem de cá, ele nasceu em Abrantes mas, pronto, foi presidente da Câmara durante três mandatos, é quase como se fosse de cá. Mas já vi este filme. E não terminou bem.
Acendo outro cigarro enquanto abro o vidro do carro e coloco o braço de fora, à malandro, e penso Gostava de conseguir ser um malandro. Mas um malandro dos bons.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

Um Tiro Disparado à Queima-Roupa

Acordei a ouvir falar numa criança e na doença que ela carrega. Uma doença rara. Ouvi dizer que havia um medicamento para esta doença rara que custava dois milhões de euros e sobre o qual, um médico, não sei que médico, mas um médico, dizia que não era uma cura, tão só uma ajuda a suportar a doença.
Uma doença, é uma doença. Rara ou comum, uma doença é uma doença. Mortal ou crónica, uma doença é uma doença. Há doenças piores que outras. Mas uma doença, é uma doença.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento. É um euromilhões. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma escolha que está a garantir a imortalidade aos mais ricos dos ricos. Um medicamento que custa dois milhões de euros está a seleccionar quem pode viver. Quem pode morrer. Quem deve morrer.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento, é uma dívida. Uma dívida para a vida. Para a vida da vida. Para a descendência. É uma hipoteca das gerações futuras. Para os filhos dos filhos dos filhos onde, entretanto, se encravou o elevador social, laboral e salarial e já não interessa a doença porque já todos têm uma sentença pendente sobre a sua vida. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma sentença de morte. É um tiro disparado à queima-roupa. É uma facada nos rins, e deixar morrer lentamente. É um deserto com o oásis a fugir com a linha do horizonte, e nunca se deixa apanhar.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os em álcool e gajas.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os a dar a volta ao mundo. A ver mundo. A beber o vinho do mundo. A amar as mulheres de todo o mundo. Perdia-me nas curvas das curvas, nas curvas do mundo, nas curvas das estradas, nas curvas das mulheres embriagadas e nas suas promessas de amor fácil e honesto. O amor é o que é. Ou não é.
Mas só tenho o resto deste Capataz em pacote. Até ontem ainda tinha a pornografia na internet. Mas já me cortaram a luz. A água. O gás. O cabo. A internet. O telemóvel. O meu último maço de cigarros jaz ali, no chão da varanda, amachucado, vazio.
Estou aqui em casa. À varanda do edifício que é a minha casa. Ou era, que já não sei nada de nada. Estou no Edifício Coutinho. A minha casa. Hoje de manhã acordei com os batuques dos martelos a desconstruir o prédio. Começaram no apartamento aqui mesmo ao lado do meu. Querem que eu saia de minha casa. Parece que é para o bem da comunidade. Bebo o último gole de vinho. Largo o copo, de vidro, e vejo-o cair lá em baixo na rua, mesmo ao lado de um segurança privado que levanta o punho em ameaça. Vai-te foder, pá! grito-lhe, mas sei que não me ouve.
Respiro fundo. Não tenho dois milhões de euros. Nem tenho uma doença rara. Sou só um gajo descartável igual a tantos outros que acabam por vociferar contra mim. Enganados.
Preparo-me para seguir o caminho do copo de vinho antes de ser atingido pela indiferença que anda a matar o século XXI.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/28]