Água Tónica com Gelo e Limão Espremido

Saí de casa de manhã e estava frio. Aquele frio que vem com a neblina matinal que estava habituado a enfrentar em São Pedro de Moel mas não noutro lado qualquer. Saí com um casaco de algodão vestido.
Depois de almoço chegou o calor. Um calor abafado. Húmido.
Não gosto de andar com coisas nas mãos e então, mantenho-me com o casaco vestido. Estou a transpirar que nem um porco. Transpiro em bica. Tenho o cabelo encharcado e a pingar pela cara abaixo, pelo pescoço abaixo, pelo peito abaixo. Sinto manchas de humidade debaixo dos sovacos. Nem quero olhar para não me enojar. E uso desodorizante. Mas o calor está demais, agora. Cruzei a cidade. Não havia árvores por onde escapar. Vim debaixo da torreira de sol. A destilar.
Encontro uma esplanada. Uma esplanada fechada. É o que há, penso. Entro. Peço uma água tónica com limão espremido.
Agarro num Correio da Manhã e leio as gordas do país profundo. Sinto-me agoniado com as manchetes, com as caixas. Largo o jornal. Agarro n’A Bola. Milhões. Milhões, milhões, milhões. N’A Bola só se fala de milhões. O novo normal. Errei o amor, a paixão e o desejo profissional. Devia ter continuado aos chutos na bola e cagado para os livros. Às vezes sinto-me zangado. Zangado comigo próprio. Pelas escolhas erradas que fui fazendo ao longo da vida. Gostar de ler, gastar dinheiro em livros, deixá-los perdidos ao acaso. Devia ter continuado aos chutos na bola. Ter escolhido estudar economia. Ou direito. Ter-me tornado um filho-da-puta que poderia dizer, com um sorriso cínico nos lábios É a economia, estúpido! E gozar com os falhados desta vida que ainda acreditam no Pai Natal, na Europa e na bondade do homem.
O rapaz chega com um copo quente, acabado de sair da máquina de lavar louça, duas gotas de limão que mal consigo ver no fundo do copo e duas pedras de gelo, que o gelo está pela hora-da-morte, nem uma rodela de limão! e a garrafa de água tónica, Schweppes, vá lá!, a temperatura ambiente.
Peço ao rapaz para espremerem mais um pouco de limão. Mas para não cuspirem no copo. Mais uma rodela. Mais gelo. E a garrafa fria. Ah!, e uma colher para mexer o limão, se faz favor. O rapaz pede desculpa e volta para trás.
Largo também A Bola. Olho em volta. Na televisão passam vídeo-clips de grupos musicais que desconheço, mas não ouço o som que o som da televisão está desligado. Ali, na esplanada fechada, dá-se primazia ao barulho das gralhas que vomitam opinião sobre a vida dos outros. Os outros são os primos, vizinhos e demais conhecidos. Elas são, invariavelmente, vadias, eles uns calões, toda a gente cheia de defeitos mas elas, elas não! Elas são poços de virtude e lugar cativo na missa das nove na Sé Catedral.
O rapaz traz o copo à temperatura ambiente, com um dedo de limão espremido e cheio de cubos de gelo. A garrafa de água tónica, Schweppes, está gelada. Verto a água tónica no copo e mexo com a colher.
Vou bebericando enquanto olho, na televisão gigante ao fundo da sala, um grupo de raparigas com fatos de látex a dançar em grupo, os mesmos passos, os mesmos gestos com os braços, as mesmas voltas retorcidas com os corpos. E penso que todos tendemos para aquilo. Para sermos iguais. Para ficarmos iguais. E penso que, na verdade, é o melhor a fazer. Ser igual. Mas não consigo afastar de mim aquela sensação de calor debaixo do casaco de algodão que não ouso despir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/19]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão exprimido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]