A Despedida

Estava sentado à mesa.
Estava sentado à mesa com o copo de vinho tinto na mão a desejar-lhe as maiores felicidades.
Fazia agora três anos. Três anos de ausência e saudade.
Três anos tristes em que vivi preso no lamaçal. Três anos em que as lágrimas me alimentaram a alma.
Agora estava ali sentado, a mesa posta para duas pessoas, a encetar um jantar que queria brilhante.
Costeletas de borrego grelhadas no carvão acompanhadas de esparregado de espinafres. Era o seu prato de eleição. Ela que nem gostava de borrego, mas as costeletinhas assadas eram um mimo que devorava à mão e lambia os dedos.
Acompanhava com um Mouchão tinto. Caro mas merecido.
Servi-me. Comi as costeletas à mão e fui falando, fui contando as estórias, as várias estórias que fomos vivendo nos anos todos que nos acompanhámos vida fora. Lambi os dedos. Um a um. Como se fossem os dela.
Cada copo de vinho rendido em homenagem. À tua. À tua que tanta falta me fazes. Tchim-tchim.
Mas acabou.
Tinha de acabar.
Queria seguir em frente.
Precisava de seguir em frente com a minha vida.
Aquele foi o adeus, o encontro de despedida. O encontro em que lhe repeti o quanto a amava, sim, a amava ainda, mesmo depois de três anos de ausência, mas precisava de seguir em frente.
Juntei todas as coisas dela num caixote. Fui até à praia e deitei-lhe fogo. Vi as cinzas serem levadas pelo vento mar adentro e gritei-lhes Vão ter com ela. Encontrem-na.
Acabei as costeletas de borrego. Acabei o esparregado. Despejei a garrafa. Comi e bebi por mim e por ela.
Dei uma volta pela casa. Cheirei. Vasculhei. Olhei a toda a volta, em todo lado. E descobri que já nada ali restava dela. Nem o cheiro. Nem a imagem. Nem os despojos.
Nunca a visitei no cemitério. Para mim ela tinha continuado por aqui. Comigo. Durante estes últimos três anos.
Mas hoje despedi-me.
Não queria mais lágrimas.
Hoje decidi renascer.
Mantenho aqui, neste cantinho, um bocado dela que não irá nunca desaparecer. Mas vou em frente. Estou cansado de viver com fantasmas. Preciso de pessoas. Preciso de sentir. Tocar. Ser tocado. Preciso de voltar a amar. E ser amado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/16]

A Tentar Parar o Tempo

Hoje saí de casa e não devia ter saído.
É véspera da véspera. E é Sábado, fim-de-semana grande. Estamos às portas do Natal e toda a gente regressa à casa da família. Vêm ver os pais e os amigos. Vêm matar saudade dos sítios e do que viveram nos sítios. Vêm tentar fazer parar o tempo. Não conseguem, nunca conseguem, mas continuam, ano após ano. Como num mantra.
Eu sei do que falo porque já fui um deles. Também vivi longe e regressava no Natal para matar saudades. Mas de todas as vezes saía daqui com um amargo de boca. Porque o passado é passado e a história não se repete e os passos levam-nos para o futuro, e não há buracos de minhoca que nos faça regressar ao passado. Por mais que o queiramos.
Depois de jantar fui ao café. Estava cheio. Cheio de gente que conhecia, cheio de gente que já foi minha amiga, cheio de gente que já amei. Cheio de gente que já não via há uma eternidade. E de repente…
E de repente não queria estar ali. Queria ir embora e esquecer este presente. Preferia lembrar o passado como tal. Nem sei porquê. Fui cumprimentando pessoas com quem já partilhei muita história, e abracei muita gente com quem troquei intimidades, e senti-me distante. Perdi a empatia. Já não sentia nada. Um deserto de emoção. Um vazio. Não queria estar ali. Não queria ver aquelas pessoas.
Sai do café. Passei a correr pela esplanada, como se fosse buscar alguma coisa a qualquer lado. Uma coisa que tivesse esquecido. E fui embora. E deixei-os lá para trás, na memória.
Regressei a casa. À minha casa. À casa onde vivo a minha vida, o meu presente. Liguei a televisão. O barulho acalmou-me. Aos poucos fui regressando ao presente, a este presente. Um presente imperfeito, mas que é este e é meu.
E de repente, outra vez de repente, lembrei-me: os meus filhos? Ainda não falei com os meus filhos. Este é o meu presente. Tenho de falar com os meus filhos. É Natal e tenho de falar com os meus filhos.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/23]

Setembro

Gosto de Setembro.

Setembro já foi um mês de Victor Espadinha. Agora também é meu.

E é o meu mês preferido. Pelo menos hoje. Agora. Não, não é o meu mês preferido. Por mais que o tentasse dizer, não conseguia suportar a mentira ou melhor, esta pequena e curta inverdade. Mas gosto de Setembro. Houve uma altura que não gostava, mas agora gosto. Acontece-me muito disto.

Comecei a gostar de Setembro com os Earth, Wind & Fire e a música September que, embora me embale o Verão (é disco sound, aquele som de que não gosto, mas que não consigo evitar dançar), já promete o Outono, os dias mais frios, mas ainda não cinzentos, e a boa disposição. “Say do you remember // Dancing in September // Never was a cloudy day”. E há muitos anos que danço September. Vem com as festas dos amigos de sempre, por troca com as festas dos conhecidos de ocasião.

É um mês que não é carne nem peixe, é uma salada mista. Ainda me permite ir à praia, mergulhar no mar e beber cervejas na esplanada com os amigos noite fora. Mas já me obriga ao casaquinho para evitar as constipações, talvez uma mantinha sobre as pernas e um copo de vinho tinto a acompanhar a Liga Nacional e dos Campeões.

Setembro já me enterrou os amores de praia na areia e já me franqueia as portas para o amor de lareira, mais quentinho e sossegado.

Já consigo passear à beira-rio sem os magotes de gente que procura o fresco do rio – agora evitam-no por ser demasiado húmido –, e como se está bem aqui, à beira-rio, na polis de Leiria, quase sozinho, na companhia do vento que se levanta e me empurra caminho fora e me leva a pisar as folhas castanhas já caídas, e que os meus pés esmagam com um delicado som crocante, enquanto há ainda umas folhas verdes lá no alto que me protegem do sol e do cacimbo, que este mês tem de tudo.

Regressam as aulas e com elas o desejo de voltar, também eu, a frequentar a escola, voltar a ser adolescente e repetir os erros todos outra vez: Setembro é um mês de nostalgia, de saudade e de desejo melancólico. Um desejo mais quente que o de Agosto, este mais desassossegado.

Mas o melhor de tudo de Setembro, é que já é o princípio do próximo Verão. Não tarde nada já passei incólume o Natal, São Valentim, o Carnaval e a Páscoa. Com um pouco de sorte sobrevivo mesmo às eleições autárquicas e quando der por ela, estou de novo na praia, a viver amores de Verão.

É por tudo isto que gosto mesmo muito de Setembro.

 

[escrito para o jornal de leiria em 2017/09/14]