Alojamento Local

Meti a chave à porta e abri-a. Fiquei cá fora a olhar para dentro do apartamento. Um quarto. Um mísero quarto dividido ao meio. À frente da porta, a cama. Do lado direito, um arco separava a cama da sala. A sala era um cubículo dentro do cubículo. A largura de um sofá IKEA de dois lugares. Em frente a televisão, demasiado grande para se ver na distância do sofá. Por baixo uma mesa que se abria e ganhava o dobro, o que roubava os espaços laterais. Alguém podia sentar-se com o telejornal sobre a cabeça, outro alguém com a cabeça enfiada nos seios da Clara de Sousa. A casa-de-banho ficava à cabeceira da cama. Uma retrete. Um duche. O lavatório servia de mesa-de-cabeceira. À entrada, ao lado da porta, um pequeno frigorífico. Por cima um pequeno fogão. Ao lado um pequeno lavatório. Onde estão as janelas?, pensei. Ninguém me respondeu. Não havia ninguém para me responder. Não havia janelas! Só quatro paredes caiadas e sem o cheiro ao alecrim. Entrei. Fechei a porta nas minhas costas e deixei cair a mochila que tinha às costas. Depois ainda pensei Porra! O computador! Podia ter partido o computador! Mandei-me para cima da cama, enfiei a cabeça na almofada fofinha e pensei É isto o capitalismo!… E depois deixei-me adormecer.
Acordei com o fim do mundo. O quarto-apartamento estava a vir abaixo. Um som ensurdecedor entrava-me pela cabeça. Uma mulher gritava-me aos ouvidos. Dizia Dá-me! Dá-me, cabrão! E lembro-me de ainda ter pensado Dou, o quê? quando percebi que não era para mim, nem era comigo. Passava-se no quarto ao lado. Uma mulher gemia. Pedia para alguém lhe dar alguma coisa. Esse alguém grunhia. Asneirava. A cama batia na parede. Ritmicamente. Por vezes com mais violência. Galopava. Depois retomava aquele ritmo de trote. Mas parecia que estavam mesmo os dois ali, comigo, num ménàge para o qual não havia sido convidado. E depois ela mandou um berro, expulsou todos os demónios e disse uma lista de palavrões, alguns eu nem conhecia nem descobri no Priberam.
Eu estava acordado. As mãos cruzadas atrás da cabeça a olhar para a porta de entrada. Parecia satisfeito. Só me faltava fumar um cigarro. Foi tão bom para ti como foi para mim? E gargalhei. Ri-me tanto que me ia engasgando. Tossi.
Olhei de novo em frente e reparei que, afinal, ainda havia uma máquina de lavar roupa. Perguntei-me com que improbabilidade é que aquilo ali tinha ido parar. E depois ainda pensei para que é que me ia servir. Foi a última coisa que pensei. Voltei a adormecer. Estava cansado. Não entrava luz da rua em casa. Não sabia se era dia ou noite. Só que estava cansado. Fechei os olhos e esperei voltar a adormecer e não ir parar nas sessões de sexo dos outros.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/05]

Eu, a Preto e Branco

Tinha uma data de livros empilhados à entrada de casa. Não sabia onde os meter. A casa é pequena e não abunda espaço vazio. Mas ali à entrada estavam no caminho das baratas. Tinha de os tirar de lá.
Abri o armário e vi o aspirador. O aspirador que já não saía dali há meses porque estava avariado. Tirei-o do armário e coloquei-o na rua, à porta de casa. Peguei nos livros e enfiei-os no armário. Ficaram empilhados na mesma, sem ordem, só uns em cima dos outros. Pelo menos consegui que ficassem com a cota virada para a entrada. Para perceber que livros eram. Mas não fiquei satisfeito com a arrumação. Não gosto dos livros arrumados assim, em pilhas, como se estivessem acampados. Como se eu fosse desleixado com eles. Como se eu não me importasse com a sua vida. Com as estórias que me contam. Mas importo. Importo sim. Às vezes até mais do que com as pessoas.
Fechei a porta do armário e pus-me a varrer a casa. É inacreditável a quantidade de cotão que surge do nada. Os montes de lixo agrupado nos cantos, debaixo dos móveis, no trajecto dos cabos de todos os aparelhos eléctricos e electrónicos da casa.
No fim transpirava. A respiração estava pesada. Aquele pó todo tinha-me activado um ataque de asma. Sentei-me no sofá e acendi um cigarro. Senti os pulmões a acalmar. E eu também. Relaxei. Levantei-me e abri a janela para deixar sair o fumo do cigarro, mas sabendo da quantidade de lixo que viria a entrar, de novo, em casa.
Depois saí. Peguei no aspirador e fui levá-lo ao ponto do lixo. Deixei-o de fora, encostado ao caixote do rsu.
E fui jantar.
Fui a uma cervejaria ali da zona. Sentei-me ao balcão. Pedi um bitoque e uma imperial. Enquanto esperava, fui à rua fumar um cigarro. Estava a chover. Tinha começado a chover e enfiei-me debaixo do beiral do prédio. Os pingos da chuva caíam no passeio e espalhavam-se por todo o lado e iam molhando-me as sapatilhas.
Ao fundo vi um casal a caminhar à chuva. Ela levava um chapéu-de-chuva. Ele levava a gola do casaco de ganga levantado. Mas iam a passo, como se a chuva não os incomodasse. Ela refilava com ele. Falava alto. Dizia muitas asneiras. Insultava-o. Mas nenhum deles olhava para o outro. Passaram à minha frente mas ignoraram-me. Ela continuou a falar alto para ele como se não me tivessem cruzado. A dizer coisas que eu não queria ouvir. Não devia ouvir. Mas as pessoas são assim. Fervem em pouca água. Agridem os outros. Dizem o que querem e o que não querem. Acusam-nos de tudo. Das maiores vilanias. Dos maiores crimes. Dali a pouco ela estaria a pedir-lhe perdão. Desculpa, diria ela. Ele não iria conseguir dizer não. E aquela relação iria perdurar até um deles se cansar, se passar e fazer alguma merda. Daquelas merdas que ocupam páginas no Correio da Manhã ou os programas do Hernani Carvalho.
Mandei fora o resto do cigarro e entrei na cervejaria à procura do meu bitoque.
Quando me sentei ao balcão olhei em frente e vi-me. Vi-me no espelho que estava à minha frente. Senti-me a preto e branco. Pesado. Cansado. E percebi que eu era a minha única companhia. Ninguém me gritava. Ninguém me batia. Ninguém me agredia. Ninguém iria fazer-me merda. Ou pelo menos assim eu acreditava.
O bitoque chegou.
Rasguei um bocado de pão e molhei-o no ovo a cavalo. A minha boca abriu-se e engoli aquele creme amarelo, tão saboroso que rapidamente me fez esquecer a minha solidão. E pensei que, lá em casa, dentro do armário, estava um livro à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/26]

Não às Mulheres Cá em Casa

Ela tomou banho cá em casa, hoje. Mas não era suposto. A verdade é que acabou por me arranjar um grande problema.
Cruzei-me com ela ontem à noite, ao balcão de um bar. Pediu-me um cigarro, e eu ainda tinha. Dei-lho. Estávamos os dois bastante bebidos, mas com vontade de beber mais. Acabámos ambos na rua. Há uma altura em que os bares fecham e os clientes, mesmo os bons clientes, são postos na rua. Ficámos os dois a vomitar para a mesma sarjeta. Quando demos por isso, estávamos os dois a rir, que nem parvos, abraçados um ao outro, a limpar a boca às mangas das camisolas.
Sem sabermos para onde ir, e sem dinheiro para ideias, acabei por lhe perguntar se queria ir até lá a casa. Aceitou. E eu arrependi-me.
Lá em casa não era, de facto, uma casa. Era um quarto. Um quarto alugado em casa de uma senhora que não gostava que levássemos mulheres para lá. Dizia que As mulheres que aceitam ir para o quarto de um homem são umas vadias, para não dizer pior. Por isso não quero cá mulheres em casa. Mas já era tarde, ela já tinha dito que sim, já íamos os dois a caminhar abraçados ao longo da estrada, um aparava o outro, e ela já tinha percebido, que eu já lhe tinha dito, que tinha uma garrafa de jeropiga lá em casa.
Tentámos não fazer muito barulho, para não acordar a dona da casa.
Entrámos no quarto. Despimo-nos e enfiamo-nos na cama. Não tivemos grandes preliminares. Ela agarrou na garrafa de jeropiga, meteu o gargalo à boca e bebeu. Deixou-me um restinho. Depois tratou logo de resolver o assunto do sexo comigo e eu acabei rapidamente por o encerrar. Estava cansado. Queria dormir. E ela tinha-me bebido a jeropiga toda.
No final de nos termos satisfeito perguntei-lhe Queres que chame um táxi?, ao que ela respondeu Não, não tenho dinheiro para o táxi, e além do mais, quero dormir contigo. Acabou de falar, virou-se para o outro lado e adormeceu.
Eu fui até à janela. Abri-a. Acendi um cigarro e fiquei ali à janela a fumar e a olhar para a cidade deserta. O que é que se há-de fazer?, pensei.
Acabei por me deitar na cama, ao lado dela e acabei também por adormecer.
Acordei cedo e chamei-a. Ela foi tomar banho. Tomou um longo banho.
Voltou ao quarto, enrolada na minha toalha. Vestiu-se e eu fui levá-la à porta da rua. Despediu-se com um beijo nos lábios e disse-me Quero voltar a ver-te, virou costas e foi embora.
Eu fechei a porta e voltei para o quarto. No corredor cruzei-me com a dona da casa que me disse Acho que precisamos de falar, ao que respondi, Mais tarde, mais tarde.
Agora estou fechado no quarto a tentar não me cruzar com a dona da casa. Que raio é que lhe hei-de dizer?

[escrito directamente no facebook em 2018/02/11]