Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

Lembro-me, Sim Eu Lembro-me

Lembro-me. Sim, lembro-me.
Lembro-me de quando o Outono era Outono e chegava depois do Verão. Lembro-me que largava os calções e regressavam as calças, as botas, as camisolas e os casacos. Lembro-me que, pouco-a-pouco, chegava o frio e dizia ao calor para se ir embora, mas devagarinho.
Lembro-me de regressar às aulas, do cheiro dos livros novos, do reencontro com os amigos, da descoberta dos recreios com gente nova.
Lembro-me que os dias ficavam mais pequenos porque tinham medo da noite.
Lembro-me que ainda se estava longe do Natal, mas que este prometia coisas boas e não a angústia de hoje. Lembro-me das idas à praia nas férias grandes ser uma memória viva que se contava e recontava com o prazer na ponta da língua. O Pedrogão, a Vieira, São Pedro de Moel e a Nazaré. Dos piqueniques no Pinhal do Rei. Das sestas depois de almoço. Das sardinhadas aos fins-de-semana.
Lembro-me de devorar os livros dos Cinco e dos Sete e das Gémeas e da minha mãe me fazer parar de ler e mandar para a rua brincar.
Lembro-me dos primeiros namoros. Da mão-na-mão, do primeiro beijo quase roubado e que foi um bilhete de ida-e-volta à Lua.
Lembro-me do centro da vida ter passado dos meus pais para os meus amigos e depois para as minhas paixões e depois para a minha família e depois… E depois…
Lembro-me de quando a vida era muito mais simples. De quando a responsabilidade não era minha. De quando ninguém esperava nada de mim. De quando podia ser o que era e não o que deveria ser.
Lembro-me de quando a criança era criança…
Lembro-me de quando a criança queria crescer para ter aquilo que já não quer ter. Quando queria ser aquilo que já não quer ser.
Lembro-me de quando a criança cresceu e não queria. Queria ser o miúdo d’O Tambor.
Mas agora, que lembro tudo o que fui, e vejo o que sou, sei que não quero voltar atrás. Mas quero lembrar. E deixar-me embriagar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/21]