Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem qual deles põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecran, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrans das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]