Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

O Chão Parecia Querer Fugir de Mim

Desde de manhã que se ouvem os morteiros. Desde há seis dias que sou acordado, de manhã, pelos morteiros. Há uma semana que anda tudo em festa. A aldeia engalanou-se para a festa do Santo e bem-receber os seus filhos emigrados de retorno. Eu sou acordado, todos os dias, com os morteiros.
Hoje havia uma missa campal. Numa pequena capela que a aldeia construiu fora de portas, ao lado de um riacho que, no Verão, serve de praia fluvial aos mais encalorados.
Desde manhã que ouvia a passagem de carros e motas e vozes de gente a pé, lá em baixo, ao pé do portão. Iam preparar a missa. Depois da missa, havia sempre uma pequena festa com comes e bebes que os paroquianos levavam e dividiam por toda a gente. Mas havia gente que ia para lá só para encher o bandulho e não levava nada. Não que eu soubesse quem era. Eu nem conheço ninguém! Mas contaram-me. Contaram-me ao balcão do café para onde eu fui para ver a festa mais de perto.
Farto de acordar cedo com os morteiros, e de andar a rebolar na cama, hoje levantei-me e fui até ao café da aldeia. Encostei-me ao balcão e deixei-me estar. Comecei por pagar umas ginginhas a uns tipos que já lá estavam e, depois, eu também passei a ser um daqueles a quem se paga um copo, seja lá do que for, porque já lá estava.
Fui para lá ainda não eram nove da manhã. Fui embora quase eram quase duas da tarde. E eu sem almoçar. Ainda não tinha comido nada. Mas tinha bebido bem. A missa devia estar a acabar. Depois iam todos piquenicar. Toda a aldeia. Toda a aldeia, menos os que estavam lá, no café, comigo e, tal como eu, encostados ao balcão e sem se conseguirem levantar.
Eu mudei de bebida. Passei para o Martini Rosso com cerveja. Uma casca de limão e é imbatível.
Um pouco depois apareceu lá uma velha para buscar o marido e levou-o puxado por uma orelha. Eu não tinha ninguém que me fosse buscar. Eu não passo vergonhas.
A mulher do dono do café esteve a guisar um pouco de bochechas de porco para levar para o piquenique e o marido colocou uns pires no balcão. Para nós. Mais uns bocados de pão saloio, cortado às tiras grossas. Eu peguei num palito e fui picando e comendo todos os bocados de carne que fui encontrando. Descobri que estava com fome. Uma fome dos diabos. Rasguei pedaços de pão e embebi-os no molho. Uma delícia.
Passei para a imperial. Sem mais nada. Só cerveja, mesmo. Estava com sede. E foi de um golo.
Estava calor. Estava com calor.
Fui até à entrada do café. Tirei a camisola. Abri o primeiro botão das calças. Libertei a barriga. A aldeia estava deserta. Devia estar tudo no piquenique.
Decidi ir para casa. Comecei a andar, mas parecia difícil. O chão estava torto. E parecia querer fugir de baixo de mim. Senti uma mão no ombro. Virei-me. Era o dono do café. Aparentemente, esquecera-me de pagar. Tirei uma nota que tinha no bolso dos calções. Dei-lha para a mão. Acho que a nota caiu ao chão. Mas fui embora e ninguém foi atrás de mim.
Passei o largo da igreja. Desci a rua que sai da aldeia até à rotunda. Penso que ia muito depressa. Porque tudo estava a passar muito rápido por mim e eu não conseguia focar nada. Mas, ao mesmo tempo, parecia-me que estava a demorar muito tempo a chegar a casa.
Cheguei à rotunda. Tentei acender um cigarro. O cigarro caiu ao chão. Tentei acender outro. Voltou a cair. Deixei de lado a vontade e continuei estrada fora até casa. Encontrei o portão. Abri-o e entrei.
Senti-me mal disposto. A cabeça às voltas. Vómitos. O estômago a refilar comigo. Peidei-me.
Caí na alameda. Vomitei. Adormeci.

Acordo com vozes. Vozes em conversas várias. Vozes em gritos de brincadeira. Motores. O barulho vem de baixo. Do outro lado do portão. Estou caído na alameda. A cabeça no chão de terra batida. A boca aberta a aspirar pó e o que me parece uma formiga passeia-se pelos meus lábios. Ergo-me. Dói-me a cabeça. As ancas. Magoei-me. Deve ter sido da queda. Tenho a cara presa. É vomitado seco.
Agarro um cigarro. Acendo-o. Agora consigo acendê-lo. Levanto-me. Sacudo os calções. Vejo que tenho sangue nos joelhos. Agarro a camisola do chão. Também tenho o corpo com vomitado.
Olho para o portão. Imagino as pessoas do outro lado a virem em grupo, alegres e contentes, em grupo, da missa e do piquenique. Provavelmente alguns mandaram-se ao ribeiro e tomaram banho. Num ribeiro benzido por Deus.
Eu viro as costas ao portão e começo a subir a alameda. O cigarro aceso ao canto da boca. Mas o fumo começa a incomodar-me os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/19]